“O PSD deixou de existir no distrito de Lisboa”

Helena Lopes da Costa assume-se como muito crítica da anterior direcção da Distrital de Lisboa. Em entrevista ao SEMANÁRIO, a deputada depositou a responsabilidade pela “hecatombe” na autarquia em Paula Teixeira da Cruz, acusando-a de se “imiscuir, sistematicamente, na gestão da Câmara”. Na opinião da candidata, “o PSD deixou de existir
no distrito de Lisboa”.

O que a move, pessoal e politicamente, para se candidatar à Distrital de Lisboa do PSD?
Eu candidato-me à Distrital de Lisboa em nome de uma urgência e de um compromisso. Compromisso que é voltar a fazer do PSD um partido ganhador no distrito de Lisboa. Como sabe, parto para este combate numa situação muito difícil porque agora, em Lisboa, o PSD tem apenas três câmaras municipais: Mafra, Sintra e Cascais. Se me perguntar qual o contributo que o PSD deu para estas vitórias, tenho de lhe dizer, infelizmente, que foi um contributo muito pequeno. Estas vitórias devem-se, essencialmente, aos protagonistas. O meu objectivo é, exactamente, voltar a um PSD de vitórias, voltar a conquistar o distrito de Lisboa e voltar a conquistar a Câmara Municipal de Lisboa, que eu entendo que foi entregue ao Partido Socialista.

Pondera encabeçar a lista do PSD à capital nas eleições autárquicas de 2009?
Não. Neste momento não pondero. Nem falo agora em candidaturas à CML porque o presidente do partido disse, no último congresso, que o PSD iria ter um candidato nos primeiros seis meses de 2008. Como é evidente, quando for eleita presidente da Distrital de Lisboa, acordarei com a direcção do partido quem será o melhor candidato.

Mas manifesta disponibilidade para ser candidata?
Não. Neste momento não tenho uma grande apetência para ser candidata à CML. Estou disponível para ajudar um candidato, estou disponível para trabalhar muito para que, por exemplo, se ganhe a Câmara de Odivelas e para que se obtenham bons resultados em outras câmara municipais, que algumas não são fáceis de ganharmos de imediato. Penso que neste momento temos condições para trabalhar no sentido de conquistar, daqui a dois anos, algumas das câmaras que agora não seria possível fazê-lo. Até porque existem presidentes em exercício do PS que não se podem recandidatar. Portanto, o PSD deixou de existir no distrito de Lisboa. Entregámos a CML, que eu ajudei a ganhar e onde trabalhei durante quatro anos com espírito de missão, ao partido socialista, com um resultado miserável do PSD que esteve na origem da demissão do dr. Marques Mendes e da presidente da Distrital.

Uma das suas principais prioridades é reconquistar a capital. Qual a estratégia para ganhar a António Costa em 2009?
A estratégia é muito simples. A primeira vez que conquistámos a CML ao PS foi contra uma coligação de esquerda; contra o dr. Paulo Portas, que encabeçava a lista do CDS/PP; e contra Bloco de Esquerda de Miguel Portas e Garcia Pereira do MRPP. Foi uma vitória que nos deu muito trabalho, mas os lisboetas queriam mudar. E o PSD fez muita obra nos quatro anos em que eu estive na Câmara com o dr. Pedro Santana Lopes.

Gostaria que esse ciclo voltasse e ver outra vez Pedro Santana Lopes na CML?
Tenho saudades desse ciclo. Tive muita pena que se entregasse a câmara ao PS, que não a queria. O Partido Socialista nem sequer queria eleições. Nós trabalhamos com Pedro Santana Lopes com espírito de missão. Nas áreas sociais, na educação, na reabilitação urbana, nas grandes obras emblemáticas como o Túnel do Marquês, nas questões ambientais… Fizemos tanto trabalho em quatro anos que penso estar perfeitamente ao nosso alcance voltar a ganhar a CML. Aliás, a abstenção foi brutal. Tivemos, neste último acto eleitoral, uma abstenção que ficou nos 60%. Só 40% dos lisboetas é que entenderam que deveriam participar neste acto eleitoral. Os outros entenderam que poderia ser uma farsa, um misto de Carnaval e tragédia e não perceberam a necessidade de serem novamente chamados às urnas para votarem em algo que tinha votado há ano e meio.

Podemos imputar, directamente, as culpas desta crise a Paula Teixeira da Cruz?
Como é evidente. Esta hecatombe foi da responsabilidade integral da Distrital de Lisboa, que se imiscuía, sistematicamente, na gestão da Câmara.

Falou em algumas das autarquias que pretende reconquistar para o seu partido…
…Oeiras, por exemplo.

Exactamente. Em que termos pretende resolver a questão de Oeiras?
É muito fácil. Tenho muita experiência autárquica e conheço muito bem o partido. O problema em Oeiras não fui eu que o criei, mas tem de ser resolvido. Entendo que, dada a forte ligação que tenho aos militantes da secção de Algés e da secção de Oeiras, sou a pessoa que estou em melhores condições para poder resolver essa situação. Ouço os militantes das duas secções e aquilo que entenderem, em consonância com a distrital de Lisboa, resolverá a questão. E iremos ter, certamente, um candidato único à Câmara Municipal de Oeiras.

Está em cima da mesa o apoio a Isaltino Morais?
Neste momento não vou falar do apoio ou não apoio ao dr, Isaltino. Depois de estar eleita, quero ouvir os militantes de Algés e de Oeiras. Foi dito, pelo actual presidente do partido, que, neste momento, e eu sempre defendi isso, os militantes vão ter de se pronunciar sobre todas estas questões. Os militantes não existem para votar ou andar nos almoços e jantares.

Na sua opinião, Isaltino Morais seria um bom candidato?
Na minha opinião Isaltino Morais seria um bom candidato.

Carlos Carreiras referiu que o PSD não pode ter regras do Burkina Faso, referindo-se à questão do pagamento de quotas e dos cadernos eleitorais. Em sua opinião, estão criadas as condições para no dia 8 de Novembro existirem eleições justas?
Claro. Quando vi que a convocatória para o acto eleitoral estava marcada para um período muito curto, tomei a iniciativa, junto do presidente da Mesa, eng. Ferreira do Amaral, de solicitar que o horário de votação fosse mais alargado. Porque entendo que a democraticidade interna é proporcional à participação dos militantes. Relativamente aos cadernos eleitorais, algumas centenas de militantes em Lisboa foram excluídos, num processo centralista, apesar de terem pago as suas quotas e não puderam votar para as eleições directas do presidente do partido. O compromisso que houve do dr. Luís Filipe Menezes foi que, com ele, iria existir democraticidade interna e os militantes que pagaram as quotas seriam inseridos nos cadernos eleitorais. Tanto quanto sei foi isso que aconteceu. As críticas do dr. Carlos Carreiras não têm, portanto, nenhum fundamento.

José Miguel Júdice é o nome adequado para gerir a frente ribeirinha de Lisboa?
José Miguel Júdice é uma pessoa com capacidade, Independentemente de ter saído do partido. Nestas coisas não sou maniqueísta, não estão de um lado os bons e do outro os maus. José Miguel Júdice é uma pessoa com muita capacidade para poder gerir a zona ribeirinha de Lisboa.

Pena pesada para os autores do 11 de Março

Foi lida ontem, em Madrid, a sentença do 11 de Março, passados 3 anos e 7 meses sobre os terríveis atentados na capital espanhola que mataram 191 pessoas e feriram 1800 espanhóis que se dirigiam para o seu trabalho naquela fatídica quinta-feira de 2004.
Sem surpresa, três dos 28 envolvidos no atentado foram condenados a 40 mil anos de prisão, ficando absolvido o autor intelectual do atentado, Rabei Osman el Sayed o “egípcio”. Este foi o maior processo de sempre da justiça espanhola e o maior do mundo no que toca ao terrorismo. O julgamento terminou a 2 de Julho último, depois de 57 sessões.

Os 28 nos sangrentos atentados de 11 de Março em Madrid conheceram ontem a sua sentença e foi sem surpresa que os três principais suspeitos foram condenados a 40 mil anos de prisão, embora na prática os envolvidos só possam permanecer 40 anos na prisão.
Mais polémica e talvez surpreendente foi a absolvição de Rabei Osman el Sayed, o “egípcio”, que estava indiciado como o autor moral do pior atentado terrorista em Espanha.
Os grandes envolvidos, Jamal Zougam e Otman El Gnaoui, foram condenados como autores materiais do atentado, ficando cada um com uma pena por cumprir de 40 mil anos. São culpados de 191 homicídios e de 1856 assassinatos em grau de tentativa.
José Emilio Suárez Trashorras, considerado “cooperador necessário” do ataque que recebeu uma pena inferior, a rondar os 35 mil anos, pelos mesmos delitos embora lhe tenha sido detectada uma “anomalia psíquica”.
As surpresas ficaram no entanto guardadas para a lista de absolvidos. Rabei Osman Sayed, o “egípcio”, julgado como autor intelectual do atentado foi afastado do processo, estando ainda preso em Milão. Também foram absolvidos Antonio Toro Castro, Carmen Toro Castro, Emilio Llano Álvarez, Javier González Díaz e Iván Granados, que foram julgados como integrantes do plano que forneceu os explosivos. Por último foram libertados os irmãos Mohamed e Ibrahim Moussaten, julgados como colaboradores do processo de 11 de Março.
As vítimas serão indemnizadas com quantias que vão dos 30 mil a um 1 milhão e meio de euros, segundo aquilo que foi discriminado pelo tribunal.
Gómez Bermúdez começou a sua alocução defendendo o trabalho do juiz instrutor, ao mesmo tempo que recusava as questões da defesa, que pediram insistentemente para intervir, pedindo a anulação do processo por supostos erros na instrução.
Assegurou igualmente que, tanto a carrinha Renault Kangoo encontrada em Alcalá de Henarés como a mochila achada em Vallecas, estiveram na posse da polícia durante todo o tempo, constituindo-se como provas “autênticas”, afastando rumores de manipulação de provas por parte de terceiros.
Considerado o maior processo de sempre da justiça espanhola e o maior do mundo no que toca ao terrorismo, o julgamento terminou a 2 de Julho último, depois de 57 sessões em que os 28 arguidos rejeitaram qualquer envolvimento no planeamento dos atentados. Ao longo de quatro meses e 17 dias e de cerca de 310 horas, o tribunal ouviu, além dos arguidos, um total de 309 pessoas, estimando-se que a sentença ontem lida fosse composta por um processo de cerca de 2000 páginas.
Das 309 testemunhas ouvidas, 117 pertenciam às forças de segurança e do Estado, 24 tinham a classificação de testemunhas protegidas e quatro prestaram depoimentos através de videoconferência do estrangeiro, nomeadamente Paris, Bruxelas e Milão. Na prova pericial compareceram 71 peritos, dos quais 42 policiais, 16 forenses e 13 outros especialistas. As acusações pediram indemnizações de um milhão de euros para os familiares de cada um dos 191 mortos, além de apoios para os feridos.

Centre Pompidou: a história do vídeo no Museu do Chiado

O vídeo é portátil, prático, durável e foi o balão de ensaio por excelência das mais variadas experiências artísticas. Mas só a partir da década de sessenta ganhou projecção no campo criativo. Foi massivamente utilizado pelos artistas como caderno de rascunho para registar os seus trabalhos. Na década seguinte era já considerado uma alternativa viável ao filme. Mas foi o facto de ser facilmente acessível a todos os públicos, tal como a televisão, que o tornou mais apelativo junto dos artistas, fazendo com que nos anos oitenta fosse impossível ignorar que o vídeo era agora, não só um meio, mas um fim artístico em si. Surge, então, o termo new media como referência ao vídeo enquanto expressão artística.

Esta é apenas uma parte da história. Os pormenores só mesmo na exposição “Centre Pompidou Novos Media 1965-2003”, a decorrer no Museu do Chiado desde o dia 19 de Outubro. Depois de ter passado por Barcelona, Sydney e Melbourne, a exposição itinerante da história da arte do vídeo pode ser vista em Lisboa até ao dia 7 de Janeiro de 2008. Os próximos destinos serão Taipé, São Paulo e Istambul.
Resta saber com o que se pode contar na exposição. Dividida por três pisos (0, 1, 2 e 2A), assiste-se à narrativa do surgimento dos novos media através de trabalhos históricos desenvolvidos por alguns dos mais importantes artistas contemporâneos. A selecção obedeceu sobretudo a critérios de importância e cronologia. Sendo que dos seleccionados Nam June Paik, Pierre Huyghe, Samuel Beckett, Stan Douglas, Valie Export, Dan Graham, Bruce Nauman, Chris Marker, Bill Viola ou Douglas Gordon são os mais significativos. Trata-se de um total de dezanove artistas, dos quais se apresentam vinte e três obras, pertencentes à colecção de Novos Media do Centre Pompidou, em Paris.
A exposição está dividida em secções e, pela densidade de informação que congrega, exige alguma disponibilidade de tempo por parte do visitante, para que possa absorver a história dos últimos quarenta anos da história do vídeo. São quatro os núcleos conceptuais: “Para uma televisão imaginária”, “Pesquisas de Identidade”, “Do vídeo à instalação” e “O pós-cinema”.

Para uma televisão imaginária

Um dos aspectos explorados é a operacionalidade da televisão. Nam June Paik, frequentemente creditado como o percursor da “videoarte”, é um dos artistas cuja obra é incontornável. Quando o falecido artista coreano exibiu, em 1965, “The Moon is the Oldest TV” aplicou um campo magnético ao tubo catódico de cada um dos doze televisores, interrompendo os sinais para criar no ecrã silhuetas que representam, em cada um, as fases da lua.
Outros artistas analisam criticamente o poder da transmissão televisiva. Neste domínio, são de salientar as obras de Matthieu Laurette, “Apparitions (Sélection 1993-1995)” e Chris Marker, “Détours Ceausescu”, na crítica à filmagem documental, mais precisamente à visibilidade exacerbada que determinados eventos têm com a cobertura televisiva e o “efeito de verdade” que ela lhes imprime. Laurette, por exemplo, aponta para as novas realidades que a televisão gera. Ela não só transmite imagens do mundo real, como comporta ainda significados e realidades criadas no próprio meio que as transmite.

Pesquisas de identidade

Desde os primeiros trabalhos, o vídeo procura, tal como qualquer outra arte, a sua essência. Experimentavam-se materiais e técnicas. A performance e a instalação fundem-se com o vídeo. A relação com o espectador é valorizada. E porque a exposição não trata apenas o passado, durante toda a mostra o visitante acaba por participar de alguma forma na arte vídeo. No espaço, câmaras de videovigilância ligadas em permanência integram o espectador na obra, ecrãs mostram excertos de programas de televisão e filmagens experimentais. A atenção do visitante desmultiplica-se e obriga-se a participar. O que ver, o que procurar, para onde olhar? É uma experiência que acontece nas obras de Martial Raysse, “Identité, maintenant vous êtes un Martial Raysse”, e “Interface”, de Peter Campus.
Outras obras aproximam-nos do corpo do artista, chamando o espectador para o jogo psicológico da obra. É o caso da obra de Vito Acconci, “Turn On”. Outras tantas comparam o ecrã a uma janela e a câmara ao olho humano. Revela-se assim a relação de poder que se estabelece entre artista e espectador: o artista controla a câmara, e assim controla a percepção que o espectador tem da realidade apresentada.

Do vídeo à instalação

Nesta secção exalta-se a importância do espaço no vídeo. Desde as primeiras experiências com aspectos físicos e psicológicos da percepção, à criação de ambientes quase oníricos que imergem o espectador, e toda a criação de significados pela articulação de elementos de som e imagem. Uma vez mais o espectador é chamado a participar na obra de Bruce Nauman, “Going Around the Croner Piece”. É ele que faz a obra, movimentando-se ao longo de um percurso delimitado pelo artista, fazendo a história da obra: um indivíduo que se move no espaço, mas continuamente se desencontra da sua imagem recodificada.

O pós-cinema

Descoberta a essência, exploradas as vertentes técnicas do vídeo, era preciso experimentar conteúdos e narrativas que só o vídeo podia dar. Neste pólo da exposição são diversas as obras que recriam o ambiente do cinema: a sala escura e o grande ecrã. Mas, sobretudo, estão expostas algumas formas de subversão das técnicas usadas na produção e pós-produção do cinema. Por exemplo, a obra de Jean-Luc Godard inverte a ordem habitual do filme. O “guião” no qual se baseia o filme “Passion”, de 1982, que ele mesmo produziu só foi feito quando o filme já tinha sido produzido.

“Então, um dia, vieram buscar-me.mas, por essa altura, já não restava por Garcia Pereira

De súbito, e após a entrevista do último fim-de-semana dada pelo procurador-geral da República, Dr. Pinto Monteiro, eis que a questão das escutas, quer das legalmente ordenadas e executadas, quer das ilegais, saltou – não obstante os denodados esforços em contrário por parte do Governo e em particular do ministro da Justiça – para a ribalta da vida pública portuguesa.

De súbito, e após a entrevista do último fim-de-semana dada pelo procurador-geral da República, Dr. Pinto Monteiro, eis que a questão das escutas, quer das legalmente ordenadas e executadas, quer das ilegais, saltou – não obstante os denodados esforços em contrário por parte do Governo e em particular do ministro da Justiça – para a ribalta da vida pública portuguesa.
Agora ao ponto de muita gente, que esteve demasiado tempo demasiado silenciosa (ou que, do alto do respectivo trono e com um sorriso condescendente, logo sentenciara que tudo isto não passaria da imaginação ou da “mania da perseguição” de alguns), aparecer a falar também sobre o assunto e até se começar a referir à boca cheia a existência – sempre até aqui negada peremptoriamente – de escutas ilegais praticadas por serviços públicos, ou directamente ou – como foi agora noticiado – por intermédio de ditos “detectives”.
Mas ainda bem que tal sucedeu, já que este é seguramente um problema que pela sua gravidade bem importa que seja discutido e analisado em profundidade e daí se retirem, sem receios nem hesitações de qualquer espécie, todas as consequências que tiverem de ser tiradas.
Certo é que não basta, e mais ainda por parte do responsável máximo do Ministério Público, simplesmente alertar para a questão, competindo-lhe também adoptar todas as medidas e todas as providências que se mostrarem adequadas para a atacar e resolver. Mas manda a verdade que se diga que se impunha começar por afirmar muito claramente que, ao invés do discurso governamental e oficial (a ponto de o actual director nacional da PJ afiançar agora, nessa qualidade, rigorosamente o oposto do que afirmou no seu discurso de tomada de posse como procurador-geral distrital do Porto, em 2005, quando afirmou textualmente “o volume de escutas telefónicas é exagerado e muitas vezes, elas violam gravemente os dispositivos legais”…), o problema existe e é grave!
É que, por um lado e no que respeita às escutas que são levadas a cabo no âmbito da investigação criminal e estarão formalmente de acordo com a Lei, a verdade é que, sempre sob o pretexto do combate à criminalidade mais complexa e violenta e sempre sob a capa do famigerado discurso do combate ao pretenso “excesso de garantismo”, de meio de recolha de provas com natureza excepcional (precisamente devido à sua natureza gravemente intromissiva da privacidade dos cidadãos), facilmente se “escorregou” para as transformar no meio privilegiado, e nalguns casos mesmo único, de investigação, e a maior parte das vezes em processos que nada têm a ver com a tal criminalidade altamente organizada. Em Portugal, é preciso dizê-lo com toda a clareza, escuta-se de mais e investiga-se de menos, sendo certo que em termos comparativos se fazem no nosso país quatro vezes mais escutas do que por exemplo em França!?
Por outro lado, o sucessivo afrouxar do rigor dos critérios em matéria do recurso às escutas – e note-se que, coisa em que praticamente ninguém fala, o nosso Código de Processo Penal prevê não apenas a intercepção de comunicações telefónicas como até a escuta directa de conversas pessoais, por exemplo num café… – conduziu, tal como aliás já reconheceram publicamente vários juízes de Instrução, mesmo no campo das chamadas escutas “legais”, a abusos e riscos de enorme gravidade. Desde a indicação ao juiz de Instrução, para efeitos de este conceder a necessária autorização judicial para a respectiva escuta, de um dado número de telefone apresentado como referente a uma determinada pessoa suspeita da prática de um crime, para se vir a constatar depois que afinal nada tinha a ver com tal pessoa, como denunciou recentemente a juíza Dr.ª Amália Morgado, até ao simples facto de o mesmo juiz de Instrução, quando conclui que o material das escutas em nada interessa à investigação em curso e manda destrui-lo, obviamente não procede, ele mesmo, a tal destruição nem sequer tem disponibilidade física para a acompanhar, pelo que em rigor também não pode garantir que pelo caminho não haja uma qualquer cópia do “cd” das gravações que vá alimentar um qualquer banco de dados, tal como já e desde há muito reconheceram e afirmaram ou escreveram Advogados Ilustres como o Dr. José António Barreiros e Insígnes Juízes como a Dr.ª Fátima Mata-Mouros.
Tentar ignorar estas questões sob pomposas afirmações do estilo de que as escutas “legais” são todas autorizadas por um juiz e logo, nesta matéria, viveríamos no melhor dos mundos representa pura e simplesmente procurar atirar-nos com poeira para os olhos…
E é evidente que este clima de afrouxamento dos princípios e de complacência perante o atropelo de regras basilares de um Estado de Direito democrático criou um clima de crescente impunidade relativamente às escutas flagrantemente ilegais. E assim, e sempre sob o famigerado pretexto do combate à criminalidade mais violenta e ao terrorismo, foi-se criando uma cultura de autêntica e “oficial” permissividade relativamente a esse tipo de práticas.
Na verdade, em nome do “segredo de Estado”, foi-se sempre garantindo a impunidade e a irresponsabilidade acerca da existência de serviços secretos completamente à margem de qualquer efectivo controlo democrático. Desde os chamados “serviços de informações” até à polícia secreta no interior da própria PSP, que existiu até há cerca de dois anos e que estará agora a ser reactivada, recusando-se sempre o Governo a esclarecer e o Ministério Público (de que alguns dirigentes tanto gostam de continuamente proclamar o seu grande empenho no combate aos interesses mais poderosos…) a investigar todos os casos em que surgiram suspeitas, denúncias e até indícios muito claros de escutas e outras diligências invasivas completamente à margem das leis do país.
Repare-se que o Executivo sempre se escusou a explicitar se os funcionários daqueles serviços dispõem ou não de equipamento e de formação em matéria de intercepção de comunicações, e a que título, se os serviços a que pertencem não a podem levar a cabo. E que, por outro lado, o Ministério Público sempre se esquivou a investigar todos os casos em que surgiram indícios desse tipo de práticas. Desde logo, as denúncias feitas nos anos 90 por próprios funcionários do SIS e publicadas num semanário, acerca de “vigilâncias” a dirigentes associativos, estudantis, sindicais e político-partidários, até ao famigerado caso do ex-membro dos serviços secretos militares sul-africanos Pieter Groenewald, que foi preso pela PJ na posse de um verdadeiro arsenal de escuta telefónica e que confessou trabalhar para o SIS, tendo inclusivamente identificado os elementos deste Serviço que com ele contactavam, os quais confirmaram que o conheciam mas logo trataram de invocar a Lei do segredo de Estado, havendo então o Ministério Público adoptado, já no final de 1999, a absolutamente extraordinária, e nunca discutida decisão de não promover o levantamento daquele segredo e, em nome do secretismo do SIS, decretar o arquivamento dos autos!? Isto, para já não falar na persistente referência à “scanização” dos telemóveis dos dirigentes das Associações socioprofissionais das Forças Armadas e das diferentes Forças Policiais, à existência de viaturas policiais não identificadas (mas já fotografadas pelo menos por um jornal) e contudo circulando com matrículas idênticas às de veículos de particulares, inclusive já incomodados com notificações por alegadas manobras perigosas em locais onde nunca estiveram, etc., etc., etc.
Todavia, enquanto alguns, muito poucos, foram sempre denunciando este tipo de situações e todas as cumplicidades que com elas se iam estabelecendo, outros, por comodismo, por oportunismo ou por pura cobardia moral, preferiram silenciar esta sucessiva e mais ou menos silenciosa chacina dos princípios democráticos ou até – e claro que sempre em nome do “pragmatismo” ou da “modernidade” – apoiá-la e elogiá-la.
E assim fomos ficando todos em risco!
A questão, porém, é que, para os democratas de undécima hora e para os muitos moluscos que por aí pululam (os tais que continuamente pregam a versão recauchutada do velho brocardo da ditadura “a minha política é o trabalho!”, e que é agora a do “quem não deve, não teme, e por isso eu não me importo nada em ser escutado”…), os princípios não contam, os desmandos e os abusos em matéria de violação dos direitos dos cidadãos são pormenores de somenos quando eles se encontram no Poder e julgam poder daqueles beneficiar, e só passam a existir quando, enfim, lhes batem à porta.
Mas então já poderá ser irremediavelmente tarde…
E por isso mesmo é sobretudo a esses que ainda e uma vez mais relembro o belo poema do pastor protestante anti-nazi Martin Niemöller, que tantas vezes gosto de citar e que já em tempos transcrevi nestas páginas do SEMANÁRIO:

“Primeiro, levaram os judeus.
Mas não falei, por não ser judeu.

Depois, perseguiram os comunistas.
Nada disse então, por não ser comunista.

Em seguida, castigaram os sindicalistas.
Decidi não falar, por não ser sindicalista.

Mais tarde, foi a vez dos católicos.
Também me calei, por ser protestante.

Então, um dia, vieram buscar-me.
Mas, por essa altura, já não restava
nenhuma voz
Que, em meu nome, se fizesse ouvir.”

Ricardo Salgado afasta cenário de aquisição de outros bancos

O Banco Espírito Santo registou resultados líquidos de 487,8 milhões de euros nos primeiros nove meses deste ano, um valor que se situou 60% acima do registado no período homólogo e ligeiramente acima das estimativas dos analistas. Em comunicado divulgado através da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o BES explica esta evolução com o crescimento de 17,5% do crédito a clientes e de 14,5% dos recursos totais de clientes. Já Ricardo Salgado, CEO da instituição, subinhou que, espera “num futuro próximo que haja uma desaceleração do crescimento dos resultados”. Por outro lado, garantiu que o banco não está a estudar uma aquisição sobre o BCP, nem sobre qualquer outro banco: “O BES não estuda aquisições.”

Apesar da crise dos mercados financeiros, o BES revelou ontem que teve, nos primeiros nove meses deste ano, um resultado líquido positivo de 487,8 milhões de euros, ou seja, uma subida de 60% acima do registado no período homólogo.
Por isso mesmo, Ricardo Salgado precisou: “O banco continua a apresentar um crescimento que em linha com os trimestre anteriores mas o efeito da quebra de confiança nos mercados dos EUA e Europa não podiam deixar de afectar toda a gente. Vamos assistir a uma desaceleração”.
Sobre a hipótese de rever os objectivos do plano estratégico devido à actual crise financeira, garantiu que informaria “o mercado se as coisas não correrem como o esperado”, adiantando que “esta crise não está passada e pode demorar de seis meses a um ano”. Assim, os objectivos do plano estratégico até 2010 “são hoje um desafio maior do que há três meses”.
Em comunicado, o BES adianta que excluindo os factos não recorrentes verificados no segundo trimestre, os resultados ter-se-iam elevado a 450 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, um aumento de 48% face ao registado no período homólogo. No primeiro semestre os lucros tinham aumentado mais de 80%.
O banco voltou assim a superar as previsões dos analistas, uma tendência recorrente nos últimos trimestres.
O BES assinala que o crescimento da actividade foi assentou numa “forte dinâmica comercial”, destacando o crescimento de 17,5% no crédito a clientes, enquanto os recursos verificaram um aumento de 14,5%. Destaca ainda o negócio internacional, com o crédito a crescer 43,4% e os recursos a aumentarem 22,1%.
O produto bancário comercial aumentou 15,2% para atingir os 1,183 mil milhões de euros e produto bancário (que inclui os resultados de operações financeiras) subiu 23,6% para 1,52 mil milhões de euros. O banco realça a subida de 15,3% nos resultados financeiros, para 708,4 milhões de euros e das comissões que aumentaram 15%.
No mercado de capitais, o banco precisa que apesar da “turbulência verificada nos mercados financeiros”, os resultados desta área de negócio aumentaram 65,3% em termos homólogos.
Ainda acerca da crise no crédito que assolou os mercados no Verão, o BES adianta que o banco “tem mantido prudentes níveis de excedentes de liquidez o que, num ambiente de crise financeira internacional, minimizam os riscos de impacto na sua actividade”.
Adianta que apesar da crise conseguiu diminuir o esforço de provisionamento de 0,51% para 0,47%, citando “a selectividade da política de crédito e controlo dos riscos”.
O BES efectuou provisões de crédito no valor de 147,4 milhões de euros, acima dos 130,4 milhões de euros verificados no período homólogo, embora o peso tenha diminuído. “A redução da carga de provisões para crédito é consistente com a progressão da qualidade dos activos que se tem traduzido numa sistemática redução dos rácios de sinistralidade”, refere o banco.
O BES adiantou que o peso do crédito vencido há mais de 90 dias no crédito total reduziu-se para 1,03%, quando em Setembro de 2006 a sinistralidade era de 1,21%.
Já a cobertura (relação entre as provisões e o crédito vencido há mais de 90 dias) situou-se em 222,4%, acima dos 207,9% do período homólogo. A margem financeira acumulada desceu 4% para 1,81%, uma queda que o banco explica com três factores: forte concorrência no crédito à habitação; novas regras implementadas pelo Governo, como os arredondamentos nas taxas de juro; e a adopção, com a crise do subprime, de uma estratégia mais prudente na gestão das aplicações monetárias, canalizando para os prazos mais curtos os excedentes de liquidez.
Os custos operativos totalizaram a 689 milhões de euros, o que representa um aumento de 4,8%, que o BES diz estar “muito influenciado pelo comportamento da área internacional (incremento de 11,3%), com os custos da actividade doméstica a apresentarem um crescimento de 3,6%”. Para o aumento dos encargos em Portugal, o banco destaca o investimento na rede que se traduziu, no corrente exercício, em 40 balcões novos e 36 remodelações de balcões antigos.
Apesar da subida dos curtos, o “cost to income” voltou a melhorar, baixando para 58,2% até Setembro, face aos 62,9% verificados em 2006. A rendibilidade dos capitais próprios (ROE) situou-se nos 17,9%, acima dos 14,7% verificados em 2006. A rentabilidade dos activos (ROA) subiu de 0,81% para 1,07%.
Os rácios de capital do Grupo “apresentam-se em níveis confortáveis”, com o rácio Core Tier I e o rácio de solvabilidade total a atingirem, respectivamente, 6,7% e 11,8%, ou seja, “níveis consideravelmente acima dos mínimos recomendados pelo Banco de Portugal.

“Fusão entre BCP e BPI não terá sucesso”

Ricardo Salgado afirmou ontem, na conferência de imprensa de apresentação dos resultados, que o banco não está a estudar uma aquisição sobre o BCP, nem sobre qualquer outro banco: “O BES não estuda aquisições. O banco está sempre disponível para continuar a sua solidificação, mas não temos nenhuma iniciativa para adquirir este ou outro banco”.
Ricardo Salgado referiu ainda que a estratégia do BES é de crescimento e que, “por isso, vão reforçar a posição em Espanha”. A propósito adiantou: “Estamos sempre prontos para encontrar soluções para crescer no nosso país desde que façam sentido, mas não tomaremos iniciativas para adquirir o BCP”.
E terminou: “Se juntássemos os nosso balcões aos do BCP, ficávamos com balcões à frente uns dos outros e iríamos alienar balcões.”
Já em relação à possível fusão BPI/BCP diz que não acredita no seu sucesso.
“Chegámos ao fim em termos de concentrações. Uma eventual Oferta Pública de Aquisição (OPA) do BPI sobre o BCP não terá sucesso”.
O mesmo responsável acrescenta, ainda, que com uma possível fusão, “o maior banco privado português passaria a ser detido por estrangeiros e perderia o centro de decisão nacional”, defendendo que o País ficaria a perder se o BCP fosse detido por bancos estrangeiros: “O país perde se um banco detido por banco estrangeiros vier a controlar o maior banco privado português”. No entanto, para o caso do seu banco em particular, Ricardo Salgado acredita que poderia ter vantagens: “O BCP perde porque há um banco (BPI) que é detido maioritariamente por estrangeiros. Se estes vierem a controlar o BCP, seria mau, mas podia vir a ser bom para o BES”.