Centre Pompidou: a história do vídeo no Museu do Chiado

O vídeo é portátil, prático, durável e foi o balão de ensaio por excelência das mais variadas experiências artísticas. Mas só a partir da década de sessenta ganhou projecção no campo criativo. Foi massivamente utilizado pelos artistas como caderno de rascunho para registar os seus trabalhos. Na década seguinte era já considerado uma alternativa viável ao filme. Mas foi o facto de ser facilmente acessível a todos os públicos, tal como a televisão, que o tornou mais apelativo junto dos artistas, fazendo com que nos anos oitenta fosse impossível ignorar que o vídeo era agora, não só um meio, mas um fim artístico em si. Surge, então, o termo new media como referência ao vídeo enquanto expressão artística.

Esta é apenas uma parte da história. Os pormenores só mesmo na exposição “Centre Pompidou Novos Media 1965-2003”, a decorrer no Museu do Chiado desde o dia 19 de Outubro. Depois de ter passado por Barcelona, Sydney e Melbourne, a exposição itinerante da história da arte do vídeo pode ser vista em Lisboa até ao dia 7 de Janeiro de 2008. Os próximos destinos serão Taipé, São Paulo e Istambul.
Resta saber com o que se pode contar na exposição. Dividida por três pisos (0, 1, 2 e 2A), assiste-se à narrativa do surgimento dos novos media através de trabalhos históricos desenvolvidos por alguns dos mais importantes artistas contemporâneos. A selecção obedeceu sobretudo a critérios de importância e cronologia. Sendo que dos seleccionados Nam June Paik, Pierre Huyghe, Samuel Beckett, Stan Douglas, Valie Export, Dan Graham, Bruce Nauman, Chris Marker, Bill Viola ou Douglas Gordon são os mais significativos. Trata-se de um total de dezanove artistas, dos quais se apresentam vinte e três obras, pertencentes à colecção de Novos Media do Centre Pompidou, em Paris.
A exposição está dividida em secções e, pela densidade de informação que congrega, exige alguma disponibilidade de tempo por parte do visitante, para que possa absorver a história dos últimos quarenta anos da história do vídeo. São quatro os núcleos conceptuais: “Para uma televisão imaginária”, “Pesquisas de Identidade”, “Do vídeo à instalação” e “O pós-cinema”.

Para uma televisão imaginária

Um dos aspectos explorados é a operacionalidade da televisão. Nam June Paik, frequentemente creditado como o percursor da “videoarte”, é um dos artistas cuja obra é incontornável. Quando o falecido artista coreano exibiu, em 1965, “The Moon is the Oldest TV” aplicou um campo magnético ao tubo catódico de cada um dos doze televisores, interrompendo os sinais para criar no ecrã silhuetas que representam, em cada um, as fases da lua.
Outros artistas analisam criticamente o poder da transmissão televisiva. Neste domínio, são de salientar as obras de Matthieu Laurette, “Apparitions (Sélection 1993-1995)” e Chris Marker, “Détours Ceausescu”, na crítica à filmagem documental, mais precisamente à visibilidade exacerbada que determinados eventos têm com a cobertura televisiva e o “efeito de verdade” que ela lhes imprime. Laurette, por exemplo, aponta para as novas realidades que a televisão gera. Ela não só transmite imagens do mundo real, como comporta ainda significados e realidades criadas no próprio meio que as transmite.

Pesquisas de identidade

Desde os primeiros trabalhos, o vídeo procura, tal como qualquer outra arte, a sua essência. Experimentavam-se materiais e técnicas. A performance e a instalação fundem-se com o vídeo. A relação com o espectador é valorizada. E porque a exposição não trata apenas o passado, durante toda a mostra o visitante acaba por participar de alguma forma na arte vídeo. No espaço, câmaras de videovigilância ligadas em permanência integram o espectador na obra, ecrãs mostram excertos de programas de televisão e filmagens experimentais. A atenção do visitante desmultiplica-se e obriga-se a participar. O que ver, o que procurar, para onde olhar? É uma experiência que acontece nas obras de Martial Raysse, “Identité, maintenant vous êtes un Martial Raysse”, e “Interface”, de Peter Campus.
Outras obras aproximam-nos do corpo do artista, chamando o espectador para o jogo psicológico da obra. É o caso da obra de Vito Acconci, “Turn On”. Outras tantas comparam o ecrã a uma janela e a câmara ao olho humano. Revela-se assim a relação de poder que se estabelece entre artista e espectador: o artista controla a câmara, e assim controla a percepção que o espectador tem da realidade apresentada.

Do vídeo à instalação

Nesta secção exalta-se a importância do espaço no vídeo. Desde as primeiras experiências com aspectos físicos e psicológicos da percepção, à criação de ambientes quase oníricos que imergem o espectador, e toda a criação de significados pela articulação de elementos de som e imagem. Uma vez mais o espectador é chamado a participar na obra de Bruce Nauman, “Going Around the Croner Piece”. É ele que faz a obra, movimentando-se ao longo de um percurso delimitado pelo artista, fazendo a história da obra: um indivíduo que se move no espaço, mas continuamente se desencontra da sua imagem recodificada.

O pós-cinema

Descoberta a essência, exploradas as vertentes técnicas do vídeo, era preciso experimentar conteúdos e narrativas que só o vídeo podia dar. Neste pólo da exposição são diversas as obras que recriam o ambiente do cinema: a sala escura e o grande ecrã. Mas, sobretudo, estão expostas algumas formas de subversão das técnicas usadas na produção e pós-produção do cinema. Por exemplo, a obra de Jean-Luc Godard inverte a ordem habitual do filme. O “guião” no qual se baseia o filme “Passion”, de 1982, que ele mesmo produziu só foi feito quando o filme já tinha sido produzido.

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