A fragmentação cultural através da dança

Bill T. Jones está de regresso a Portugal. “Blind Date” é o espectáculo que estará em cena nos dias 4 e 5 de Maio, no Centro Cultural de Belém. Bill T. Jones e Arnie Zane Dance Company.

Bill T. Jones é um dos maiores expoentes da dança contemporânea e uma das vozes mais acutilantes das questões actuais, que regressa agora a uma panóplia de temas morais e políticos, com este novo trabalho sobre valores e multiculturalidade. “Blind Date” parte para a exploração de temas como a pátria e o amor a ela, a honra, o sacrifício e o trabalho dedicado a uma causa maior do que nós próprios, como se fossem quase valores praticamente perdidos no mundo moderno e na sociedade construída.
“E onde é que fica a noção de singularidade num mundo tão múltiplo e tão fragmentado? Em certos aspectos, o trabalho do artista é tentar reconstruir. […] Talvez seja isso o que ‘Blind Date’ faz” , declara Bill T. Jones.
A companhia que o acompanha, constituída por dez bailarinos com uma técnica invulgar (Asli Bulbul, Leah Cox, Maija Garcia, Shaneeka Harrell, Shayla-Vie Jenkins, Wen-Chung Lin, Erick Montes, Charles Scott, Donald C. Shorter Jr, Stuart Singer e Andrea Smith), é uma companhia multicultural, com quase 25 anos, inclui bailarinos da Turquia, China, México.
Trocam histórias pessoais e movimentam-se num cenário sensorial de cores primárias e influências musicais e vídeos oriundos de todo o mundo. Este é de facto um “Blind Date”, onde sabedoria e eloquência encontram um fundamentalismo embrutecido nesta explosiva meditação sobre forças e crenças opostas. No fundo é uma troca, em que os backgrounds são como puzzles com peças opostas, mas onde há espaço para conhecer. O resultado é uma experiência de dança/teatro com muitas facetas, que, “ao combinar preocupações políticas e morais com ingenuidade coreográfica, e aptidão teatral” é, ao mesmo tempo, comovente, divertido e triste.
Bill T. Jones é bailarino, coreógrafo e director artístico. Começou a estudar dança na State University de Nova Iorque, em Binghampton, onde estudou bailado clássico e dança moderna. Antes da fundação da sua companhia (Bill T. Jones/Arnie Zane Dance Company), coreografou e actuou em vários palcos, como solista e em duo com o seu falecido companheiro Arnie Zane.
Já coreografou para a sua companhia inúmeros trabalhos, assim como a convite de companhias de bailado clássico e moderno.
Ao longo da sua carreira tem obtido prestigiados prémios. Em 1979, foi-lhe concedido o “Creative Artists Public Service Award” em coreografia e, em 1980, 81 e 82 o “Choreographic Fellowship do National Endowment for the Arts”. Em 1986, Bill T. Jones e Arnie Zane foram galardoados com o “New York Dance and Performance (“Bessie”) Award” pela temporada do Joyce Theater e, em 1989 e 2001, obteve ainda mais dois “Bessies”, um pelo seu trabalho em “D-Man in the Waters” (1989) e outro por “The Table Project” e “The Breathing Show” (2001). Em 1993, foi premiado com o “Dance Magazine Award “e em 1994 recebeu a “Mac Arthur Fellowship”. Em 2000, The Dance Heritage Coalition intitulou-o “Um Insubstituível Tesouro da Dança”. Em 2003 obteve o “Dorothy and Gillian Gish Prize” e dois anos depois venceu o “Wexner Prize”, o “Samuel H. Scripps American Dance Festival Award for Lifetime Achievement” e um “Harlem Renaissance Award”.
Este “Blind Date” é um encontro com vendas, mas onde se pode tirá-las na promoção da liberdade, da tolerância e paz.
“E o que dizer da nossa sociedade opressiva e militarista? Sempre fui crítico dessa sociedade. Só o facto de tentar viver exclusivamente da arte é, em certo sentido, uma rebelião contra essa sociedade. Digo-lhe isto como uma forma de mostrar que Blind Date é o que é porque, consciente ou inconscientemente, estou a lutar contra esta percepção do mundo e a minha própria incompreensão do que a dança significa na minha cultura”, conta Bill T. Jones.
Bill T. Jones estará em Lisboa por duas noites (4 e 5 de Maio, às 21h, no CCB) para relembrar alguns valores, através de corpos e mentes dançantes.

Espanhóis querem ter uma palavra a dizer no Governo e na sucessão …

Pina Moura torna-se o primeiro socialista a ter condições para condicionar o Governo socialista. Ao assumir a liderança da TVI tem um instrumento de poder para condicionar o primeiro-ministro José Sócrates, mas, também, para ter uma palavra a dizer na sua sucessão. Numa única jogada, Pina Moura, subserviente aos interesses dos espanhóis, ultrapassa o Aparelho guterrista e os sampaístas, que estão cada vez mais dependentes dos lugares que Sócrates lhes der e não dominam nenhum órgão de comunicação social com a força da TVI. A estratégia espanhola em Portugal começa a ser clara: é o poder e não apenas o dinheiro.

Os espanhóis têm uma estratégia de poder em Portugal: esta semana o eventual fracasso da OPA do BCP sobre o BPI entrega aos espanhóis o controlo do quinto maior banco nacional, depois do Santander já dominar 12% do mercado financeiro com o Totta. Mas, através do BPI, os espanhóis vão dominar (como consultores da NAER) o aeroporto da Ota. Para além da banca e da energia, do comércio interno e das exportações para a América do Sul, do turismo ao imobiliário, os espanhóis avançam agora para o controlo de mentalidades e o jogo político.
O primeiro-ministro, percebendo o cerco, tentou logo compensar os outros grupos em presença. António Costa assumiu o controlo do Quadro Estratégico de Referência Nacional (os fundos comunitários), tirando poderes a Manuel Pinho, que já antes perdera para Basílio Horta o investimento estrangeiro e as exportações. Pinho foi a última deriva antiespanhol do Governo socialista.
A energia está indelevelmente condenada a ser controlada pelos espanhóis, mas Manuel Pinho conseguiu travar no último momento o projecto de Pina Moura/António Mexia e de Américo Amorim para fundir a Galp com a EDP. Só que Sócrates também já tinha dado o seu acordo ao negócio e Pinho faz abortá-lo sem cobertura política para tanto. A tensão subiu de tom no executivo. Sócrates colocou dentro do gabinete de Manuel Pinho uma colaboradora do El Corte Inglés, Susana Santos, que, além de ter sensibilidade aos espanhóis, faz a ponte com os soaristas.
A ordem é, no interior, para jogar com todas as tendências, de modo a que elas se neutralizem. Mas, na prática, alguma fragilidade do primeiro-ministro, ainda afectado pelos ataques da imprensa sobre a Independente – que o Governo ainda não encerrou -, parece notar-se na rapidez das reacções, comentava-se no dia 25 de Abril, em S. Bento.
Para já o primeiro passo era controlar a opinião pública. E Sócrates aproveitou mesmo o discurso do Presidente da República para evitar o confronto directo com Pina Moura, de quem não é especial crítico, aliás.

Sócrates tentou desvalorizar a escolha
de Pina Moura para a liderança da TVI

Na sequência do apelo de Cavaco Silva para a separação entre interesses públicos e privados, o primeiro-ministro aproveitou para limpar o problema Pina Moura. José Sócrates disse que a ida de Pina Moura para a administração da Media Capital é um exemplo de respeito pelos princípios éticos.
O primeiro-ministro argumentou que Pina Moura optou por abandonar o cargo de deputado, ao ter sido nomeado para um grupo privado de comunicação social. As declarações foram feitas durante um passeio pela residência oficial, aberta ao público no 25 de Abril.
Por seu lado, os espanhóis também justificaram a escolha do antigo ministro das Finanças e da Economia de António Guterres, com as relações entre o PSD e o grupo de comunicação social Impresa. Fontes oficiais da empresa espanhola reagiram, em declarações ao “Diário Económico” (considerado como muito próximo dos serviços secretos espanhóis), dizendo: “Não entendemos esta polémica.” “Sobretudo tendo em conta que o presidente do nosso maior concorrente em Portugal é o fundador do partido da oposição e nunca foi dito que a sua independência profissional estivesse comprometida por essa razão”, acrescentam fontes oficiais.
A Espanha começa a fazer política em Lisboa directamente. E fará muito mais a partir da TVI, assunto aliás que começa a preocupar Belém e a oposição. Recorde-se que a escolha de Pina Moura e de José Lemos tem sido alvo de críticas por parte do PSD.
Em comunicado, o PSD diz tratar-se de uma forma de controlo político “assumido e sem qualquer vergonha”. Marques Mendes diz que se trata de um “descaramento”, enquanto Morais Sarmento disse tratar-se “de um escândalo”. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que a escolha parecia “nomeação política”.
Recorde-se que as críticas à nomeação do antigo ministro de António Guterres, que ontem foi entrevistado na RTP, adensaram-se com a entrevista que concedeu ao semanário “Expresso”. Pina Moura afirmava que “não há nenhum projecto empresarial que não tenha objectivos políticos, nomeadamente na comunicação social”. O antigo deputado acrescentava ainda que o convite que lhe foi feito também tinha um pressuposto ideológico. “A TVI tem um cardeal laico, republicano e socialista”, disse.

ERC não vai avaliar nomeação de Pina Moura

Entretanto, a nova Entidade Reguladora para a Comunicação Social foi travada a tempo, no propósito de discutir o projecto político iberista de Pina Moura e a sua compatibilidade com a Constituição, a Lei de Imprensa e os termos do contrato de concessão da TVI.
Nesse contexto, depois de ser pública a intenção de levar a questão à entidade independente, a ERC, dominada pelo PS, acabou por anunciar, anteontem, que não iria avaliar a nomeação do ex-ministro socialista Pina Moura como presidente do conselho de administração da Media Capital, empresa que detém a TVI, pelo grupo de média espanhol Prisa. Em comunicado, o Conselho Regulador considerou que a sua função se prende com a fiscalização da “actividade concreta” das empresas de comunicação social e “não sobre os protagonistas que individualmente lhe dão suporte”.
No documento, a ERC sublinhou ainda que “já avalia as exigências relativas ao rigor informativo, independência e contribuição para o pluralismo”, através da monitorização da programação das televisões, sublinhando que “não deixará de intervir neste como noutros casos que possam vir a suscitar-se”.

Providência cautelar contra CMVM já avançou

A única dificuldade agora parece vir de Carlos Tavares, da CMVM, que não concorda com os termos da OPA proposta pela Prisa, ao rejeitar a nomeação de um auditor independente para fixar o preço das acções no processo de OPA obrigatória à Media Capital. Em reacção, a Prisa entregou esta semana nos tribunais portugueses uma providência cautelar contra a decisão da CMVM.
De acordo com um comunicado, a Prisa reafirma a sua posição de que o preço médio ponderado das acções da Media Capital durante os seis meses anteriores ao anúncio da oferta – 8,29 euros – não deve ser tomado em conta, face à “liquidez reduzida das acções da Media Capital”. Esta providência cautelar vai suspender o prazo de registo da OPA sobre os 26,3% que a Prisa ainda não detém. O grupo espanhol tinha até sexta-feira para proceder a esse registo. Em declarações ao DE, fonte oficial da CMVM diz que o organismo irá reagir, quando for notificado.

A estratégia espanhola

Os socialistas ibéricos mostram ter uma estratégia concertada para a Península Ibérica. Depois do domínio económico passam agora ao controlo de mentalidades, com o seu agente mais graduado, Pina Moura, à frente. O Grupo Prisa quer tratar da solução pós-Sócrates, ultrapassando o grupo sampaísta e o Aparelho socialista no domínio dos órgãos de comunicação social. A contagem decrescente para primeiro-ministro já começou, para os serviços secretos espanhóis.
Mas agora, o “target” é mais relevante: é o do controlo das mentalidades, um programa ideológico, conforme, desassombradamente, Pina Moura contou ao “Expresso”.
A ser assim, basicamente, Luís Marques Mendes enganou-se de novo. De facto, os socialistas controlam a TVI. O Grupo Prisa, que cresceu à sombra do PSOE e com a publicidade dada pelo Estado e pelas corporações por ele controladas, foi o principal responsável pela queda de José Luís Aznar e tem hoje um contencioso com o líder do PP, Raroy, como forma de paga a Zapatero, por alguma hesitação inicial. Mas o grupo da família Polanco faz agora o passo, numa estratégia espanhola de domínio da Península Ibérica, ao serviço do PSOE e do primeiro-ministro socialista: avança para uma empresa praticamente sem liquidez, a TVI, a primeira estação em termos de audiência, e escolhe o polémico ex-comunista Pina Moura para seu agente.

A história de Pina Moura

Pina Moura é um realista e subserviente aos espanhóis: já o era quando controleiro do PCP e tinha a vigilância dos jovens da UEC. Foi sempre suspeito de ligações ao KGB e, na sua passagem pela URSS, conheceu alguns dos protagonistas dos PCs europeus que, depois da queda do muro de Berlim, em Itália e em França, vieram a ter lugares de destaque, criando uma teia de contactos que facilitaria muitos investimentos em empresas em reprivatização. Foi, aliás, neste contexto que muito do dinheiro desviado pelo KGB da URSS, na era Gorbachov e Ieltsin, haveria de entrar nas “utilities” em França, Espanha e Itália, segundo um estudo do “Le Figaro”.
Moura afastar-se-ia do PCP para se aproximar de António Guterres (com quem, hoje, aparentemente, está com relações tensas), aproveitando a fragilidade emocional do antigo primeiro-ministro, e de secretário de Estado da Presidência e homem da ligação aos negócios de S. Bento chegaria a acumular as pastas das Finanças e da Economia, numa altura em que já se desenhava o domínio espanhol em Lisboa
Apareceria depois ao lado de Sócrates – exigindo ao primeiro-ministro um lugar de cabeça de lista nas legislativas e, finalmente, abria o jogo de sempre, agora já com ligação espanholas, como o homem da Iberdrola em Lisboa.
A sua enorme capacidade de trabalho e a preparação deslumbram os espanhóis, mas os resultados ficam aquém do esperado, em face da ruptura com Manuel Pinho. Mas a Energia será espanhola – terá por certeza Pina Moura – e Pinho acabará por cair…
Tendo uma clara noção do poder e nunca se esquecendo dos seus inimigos, aproveitando todas as fragilidades para atirar a matar, Pina Moura aparece agora como presidente da Média Capital.
Até aqui era previsível, não fora o plano transparente que o próprio Pina Moura anunciou em manchete no “Expresso”: em primeiro lugar, tem um projecto ideológico para a TVI – o que, no mínimo, viola a lei de imprensa e os termos da concessão do serviço público de TV, por outro lado, anuncia que defende o iberismo, mesmo sendo contrário à Constituição da República Portuguesa.

Sócrates ganha o primeiro “round”

Em face desta nova ameaça, o único caminho de José Sócrates é o reforço das outras tendências no aparelho de Estado. Para já, Sócrates apoia-se nos sampaístas e António Costa é o principal trunfo. Limpo e sem qualquer suspeição de legação aos negócios, o ministro de Estado tem a vantagem de garantir autoridade na execução e evita as polémicas a Manuel Pinho. Por outro lado, o primeiro-ministro controla o Ministério Público e o novo modelo de investigação coloca de lado a magistratura, conforme explicou ainda ontem Noronha do Nascimento, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
Finalmente, Santos Silva, o ministro que tutela a comunicação social, é a última chave do equilíbrio de poderes na família socialista. Tem nas mãos a possibilidade de renegociar a concessão, e, se os espanhóis se meterem com José Sócrates, sabem que o Governo tem meios para levar a TVI ao encerramento, aliás, como aconteceu com o jornal “Independente” e com a Universidade Independente. Só faltava ser também a Televisão Independente…
Para já o primeiro-ministro ganhou. Depois desta última ofensiva espanhola, o PS parece mais unido. Exactamente com mais poderes nas tendências, o primeiro-ministro acaba por ser o factor de unidade. Porém, dentro do próprio PS percebe-se que “o PS une-se embora se sinta a fragilidade do primeiro-ministro, atacado na sua honradez pelos jornais, em vésperas das reformas do Prace e da Administração Pública”.

Prisa pretende vender activos no valor de 70 a 80 milhões de euros em Portugal e Espanha

Finalmente e no âmbito da operação financeira da compra da TVI, o grupo espanhol Prisa admitiu que pretende encaixar entre 70 a 80 milhões de euros, com a venda de activos em Portugal e Espanha.
Em entrevista à agência Bloomberg, o presidente da empresa, Juan Luís Cébrian, explicou que esta decisão visa reduzir a dívida do grupo, que no final de Março totalizava os 2,9 mil milhões de euros.
O objectivo consiste em vender activos do segmento de imprensa em Espanha, nomeadamente jornais regionais, enquanto em Portugal as vendas serão realizadas apenas quando terminar o processo de aquisição da totalidade do grupo Media Capital, acrescentou o responsável.
“Não estamos demasiado preocupados com a dívida, mas vender activos vai ajudar-nos a focarmo-nos em projectos maiores”, salientou Juan Luís Cébrian.
No primeiro trimestre deste ano, o lucro líquido da Prisa desceu 21,4% para os 24,1 milhões de euros, devido ao impacto financeiro das operações de aquisição de 40,7% da Media Capital, no âmbito da sua primeira OPA, e da estação de televisão Sogecable.
O grupo prevê um crescimento do lucro operativo de “dois dígitos” no conjunto do exercício, uma vez que o cenário permanece positivo, com o mercado publicitário a expandir-se e o possível aumento da circulação do seu jornal “El País” em Espanha.

Benfica define próxima temporada

Miccoli, Derlei e Katsouranis. Estes são os principais jogadores que deverão abandonar o clube da Luz no final da presente época, assim como o treinador Fernando Santos, que deixou de ter o apoio da massa associativa e de alguns elementos da SAD benfiquista. Para a próxima temporada deverão estar disponíveis aproximadamente 20 milhões de euros destinados ao futebol encarnado que, entretanto, será cotado em bolsa.

O Benfica já está a definir a época 2007/2008, que poderá passar por profundas alterações no departamento de futebol. E as mudanças poderão estar relacionadas com o treinador dos encarnados e alguns jogadores do plantel. No que diz respeito a Fernando Santos, apesar de ter contrato até final da próxima temporada, o facto do Benfica ter sido eliminado prematuramente na Taça de Portugal, ter sido afastado da Liga dos Campeões na fase de grupos e posteriormente da Taça UEFA, e ter perdido na passada jornada o segundo lugar para o Sporting, poderá ditar o afastamento do técnico. E nem a recuperação do segundo posto poderá garantir ao técnico encarnado a manutenção do cargo. Por outro lado, Luís Filipe Vieira, presidente encarnado, sempre evitou adoptar as “chicotadas psicológicas”; todavia, a situação de Fernando Santos começa a ser insustentável e, actualmente, não reúne o apoio da massa associativa e de alguns elementos da direcção do clube da Luz. Seja como for, e caso se confirme o afastamento do único treinador português que orientou os três grandes nacionais, Camacho e Sven-Goran Eriksson voltam a surgir no topo de preferências dos adeptos para orientar o Benfica 2007/2008.

Transferências e permanências

O plantel encarnado já começa a ser preparado para a temporada 2007/2008 e estão previstas algumas alterações, como a saída de Derlei e Miccoli. Relativamente ao brasileiro, foi emprestado pelo Dínamo de Moscovo na reabertura do mercado de transferências e, apesar do clube russo estar disponível para vender o avançado, este não convenceu os dirigentes encarnados, tendo rubricado algumas exibições bastante aquém daquilo que produzira quando ainda alinhava no FC Porto. Já o italiano também irá abandonar o clube da Luz, uma vez que pretende regressar a Itália. No que diz respeito a Luisão, refira-se que o defesa poderá ser transferido para um colosso europeu, uma vez que o central canarinho é dos jogadores benfiquistas com mais mercado e já por diversas ocasiões manifestou o seu desejo de rumar para um campeonato mais competitivo. Em relação a Simão Sabrosa, apesar do enorme interesse de alguns dos principais clubes europeus, como o Liverpool, o Benfica já fez saber que o capitão das águias é intransferível e decidiu renovar recentemente com o avançado que tem contrato com o clube da Luz até 2012. Finalmente, de salientar ainda que Léo ainda não renovou contrato com o conjunto lisboeta e Katsouranis tem despertado o interesse do Atlético de Madrid que poderá avançar com uma proposta de aquisição no final da presente época.
Em termos de possíveis contratações ainda não existem nomes conhecidos, mas a SAD encarnada já determinou que pretende contratar assim que possível um avançado goleador de renome internacional, assim como um defesa direito capaz de lutar pelo lugar com Nelson. A título de curiosidade, de mencionar ainda que Domingos Soares Oliveira, administrador da SAD das águias, já garantiu que o Benfica terá uma verba a rondar os 20 milhões de euros destinados ao futebol e que a formação lisboeta não está dependente da venda de jogadores para o equilíbrio financeiro.

Benfica SAD cotada em bolsa

A Benfica SAD estará cotada em Bolsa a partir de 21 de Maio. A informação foi adiantada através do comunicado do conselho de administração (CA) do Benfica que acrescentou ainda que o clube da águia obteve um lucro de 4,137 milhões de euros no primeiro semestre de exercício, até Janeiro último. A Sport Lisboa e Benfica, Futebol SAD revelou a decisão e os números na sessão especial de Bolsa para apresentação dos resultados do Empréstimo Obrigacionista, que, recorde-se, realizou-se esta semana na Euronext Lisboa, adiantando que, além do encaixe previsto de 20 milhões de euros, a procura duplicou a oferta. De acordo com o comunicado à CMVM, o CA considerou “expectável a cotação das acções da sociedade o mais breve possível após as devidas aprovações pela CMVM e pela Euronext”, revelando o próximo dia 21 de Maio como a data mais provável para a operação. Refira-se também que a admissão à cotação das acções do Benfica está dependente da alteração dos estatutos do emblema presidido por Luís Filipe Vieira, a qual será discutida na assembleia-geral de 14 de Maio: “Será proposta a alteração de estatutos da sociedade, a alteração da representação, para escritural, das acções que actualmente detêm a forma titulada”, pode-se ler no comunicado enviado à CMVM. Relativamente ao encaixe financeiro resultante da presença encarnada na Taça UEFA, Domingos Soares Oliveira estimou que o saldo se cifre “entre os 15 e os 16 milhões de euros”, representando “resultado positivo adicional” muito acima do previsto. “Somos muito conservadores na vertente financeira. Não digo que o orçamentado fosse metade dessa verba, mas está significativamente abaixo. Portanto, foi largamente ultrapassado”, explica o administrador executivo da SAD.

Veiga com medidas de coacção reduzidas

José Veiga foi ilibado da suspeita de abuso de confiança no “caso João Pinto”, mas manteve-se a suspeita do crime de burla. A decisão foi conhecida esta semana após o juiz encarregue do processo ter reconhecido que o ex-dirigente encarnado não se apropriou dos 3,2 milhões de euros pagos pelo Sporting à empresa Goodstone. O depoimento de João Pinto, proferido a 3 de Janeiro na PJ, foi determinante para a resolução da situação do ex-dirigente encarnado, uma vez que o actual jogador do Sp. Braga admitiu a recepção da verba paga pelo Sporting. As declarações de Ribeiro Telles e Luís Duque também foram preponderantes, pois confirmaram o pagamento do clube leonino. Desta forma, o magistrado responsável pelo processo deu como provado que nunca houve um contrato de agenciamento entre João Pinto e José Veiga. Entretanto, o recurso do advogado de Veiga resultou na redução de algumas das medidas de coacção aplicadas anteriormente, como, por exemplo, os 500 mil euros de caução que foram reduzidos para 210 mil, tendo o ex-agente FIFA recebido o seu passaporte de volta. Todavia, o processo não foi arquivado e José Veiga ainda não está totalmente ilibado do caso, pois, de acordo com o juiz, tentou convencer os dirigentes do Sporting de que a empresa Goodstone era possuidora do passe do jogador.

CDS decide amanhã futuro

Amanhã é o dia das eleições directas no CDS. Depois de uma campanha relativamente calma, se comparada com os acontecimentos que a antecederam, o Conselho Nacional de Óbidos e o abandono de Maria José Nogueira Pinto, José Ribeiro e Castro e Paulo Portas serão no sábado votados pelos militantes centristas, sem ter sido afastado definitivamente o cenário de uma eventual impugnação do resultado das eleições no Tribunal Constitucional. Durante a campanha foram apresentadas duas concepções distintas do partido, com Portas mais próximo do centro e Castro fiel à direita cristã.

As eleições directas para a presidência do CDS são amanhã. Paulo Portas e Ribeiro e Castro esgrimiram durante duas semanas argumentos, com cada um a apresentar aos militantes uma concepção diferente do partido e um rumo estratégico distinto para em 2009, ano de eleições legislativas, obter um bom resultado. O debate televisivo de quarta-feira na RTP, único momento onde os candidatos se confrontaram olhos nos olhos, foi prova disso. No frente-a-frente, ambos reiteraram aqueles que têm sido os seus principais argumentos na campanha interna: enquanto Ribeiro e Castro voltou a acusar Portas de ter aberto uma crise no partido, Portas repetiu que “o essencial” é fazer oposição ao primeiro-ministro, José Sócrates.
A campanha em si correu sem incidentes de maior, com uma ou outra acusação mais aguda, maioritariamente feita pelo actual líder ao antigo. Se compararmos com o período que antecedeu o início oficial da corrida para a liderança, com o Conselho Nacional (CN) de Óbidos a assumir-se como aspecto mais negro e onde a crispação entre os dois lados mais se evidenciou, chegando, inclusivamente, a haverem relatos de agressões físicas, a campanha foi relativamente calma.
Óbidos deixou marcas. Começando pela saída de Maria José Nogueira Pinto, até à afirmação mais vincada, de um aspecto que já ia sendo evidente, que dentro do CDS existem duas facções demasiado antagónicas com coabitarem. Este CN trouxe a lume outra situação que marcou, e ainda promete marcar, as eleições para a presidência do partido. Os formalismos e as jogadas de secretaria têm sido amiúde uma presença nas intervenções dos candidatos, com os partidários de Castro a ameaçarem impugnar o resultado das eleições nos tribunais judiciais e os Portistas a dominarem a Comissão Organizadora das Directas, com todas as vantagens que tal controlo pode oferecer.
Depois de Óbidos, foi a cidade Ribatejana de Torres Novas o palco do segundo CN, sem os incidentes que pautaram o anterior e com a cordialidade entre portistas e castristas a ser uma marca. Paulo Portas saiu de Torres Novas como claro vencedor, conquistou as directas, ganhou o controlo sobre a comissão que tem por missão organizar as eleições, presidida por João Rebelo, e percebeu-se notoriamente que tem o partido do seu lado. Ribeiro e Castro, que abandonou Torres Novas poucos minutos após o início dos trabalhos, foi derrotado, o congresso estatutário que defendeu somente se realizará depois das directas e os conselheiros nacionais eleitos nas suas listas abandonaram-no e votaram favoravelmente as pretensões de Portas.
O tribunal do partido, o Conselho Nacional de Jurisdição, veio dar razão ao antigo líder, pronunciando-se favoravelmente em relação à prevalência da decisão do CN de Óbidos, que aprovara as directas, sobre um requerimento apresentado pela distrital de Leiria e assinado por mais de mil militantes a convocar um congresso. Esta decisão foi muito contestada pelos castristas, que a qualificaram como uma “aberração jurídica”. Porém, alegando razões de defesa da dignidade e do nome do CDS, nenhum militante decidiu recorrer para as instâncias judicias. Cenário que ainda não foi definitivamente afastado, existindo, ainda, a possibilidade de um recurso para o Tribunal Constitucional do resultado das eleições. Nesta situação, como informou o presidente da Comissão Organizadora das Directas ao SEMANÁRIO, João Rebelo, seria o congresso já agendado a escolher o líder, ficando sem efeitos as eleições directas.
Em termos doutrinários, os dois candidatos à liderança foram apresentando visões diferentes sobre qual o futuro que desejam e perspectivam para o partido, com Ribeiro e Castro mais perto da democracia-cristã e Paulo Portas a aproximar-se do liberalismo, pretendendo “ocupar descomplexadamente o espaço político do centro-direita”. Portas, neste seu regresso, traz um conteúdo diferente para preencher o CDS, mais virado para ir de encontro às necessidades das novas gerações neste início de século XXI, com temas novos como a cultura ou o ambiente. Ribeiro e Castro, por seu lado, afirma-se como guardião dos valores da direita, avançando que o CDS precisa de ser um partido de bases e não de “espectáculo mediático”. O actual líder afirma que, ao longo destes dois anos, procurou “construir partido”, oferecendo formação às bases e criando uma rede que possibilite manter uma forte proximidade entre a direcção e os militantes, adiantando que quando Portas deixou o Partido em 2005 não existia mais nada para além da figura do presidente. “Quero um partido de mil protagonistas e não só de um protagonistas”, referiu Castro reiteradamente ao longo da campanha.
Porém, os fracos resultados expressos nas sondagens e a notória ausência do CDS da agenda mediática nacional impossibilitaram Ribeiro e Castro de se tornar num líder forte, incontestável e dominador do partido. Portas revela que este seu regresso tem por missão alterar a actual situação nefasta da oposição em Portugal, querendo retirar José Sócrates do pedestal político onde está instalado. Neste sentido, delineou toda a sua campanha em torno da oposição ao Governo, sem proceder a críticas directas ao presidente, numa estratégia que amanhã os militantes demonstrarão se foi a mais acertada. Portas, nestas duas semanas, já se comportou como o líder dos democratas-cristãos, tentando afastar-se o mais possível de quezílias pessoais e confrontos directos com o outro candidato. Prova disso, foi a relutância do deputado nacional a participar em debates televisivos nos meios de comunicação social.
Hoje, véspera do dia das eleições, um facto é certo: o PP foi abandonado, tendo sido preterido face ao CDS. O antigo líder como o actual decidiram retirar do léxico político a expressão “partido popular”. O criador do PP foi Paulo Portas que, durante as semanas que durou a campanha, se recusou a empregar a sigla nas suas intervenções, afastando-se, em parte, do seu passado na liderança.

Tréguas a Sócrates só vão abrandar durante a presidência portuguesa

Em vez de fazer uma remodelação e afirmar a sua autoridade, Sócrates preferiu dar uma imagem de unidade do PS ontem à noite na Junqueira. Com a presidência da União Europeia à porta, o primeiro-ministro não quis correr riscos. Para já, Cavaco deu
o sinal que quer tréguas por causa da presidência e no PS também se travaram as críticas a Sócrates. Mas o desgaste vai continuar na imprensa: depois do currículo de Sócrates são os negócios do pai, os contratos dos aviões, as compras das armas, as adjudicações. Para a oposição, os seis meses de Presidência vão servir para passar para o País a imagem de que o PS é um grupo de interesses. Mendes, Santana, Portas e Cavaco Silva estão atentos. É o regresso da política, na sua forma mais básica e populista, da suspeita e da intriga.

O Partido Socialista reuniu-se ontem à noite, na Junqueira, para comemorar o 34.º aniversário da sua fundação. Dois mil militantes para apoiar José Sócrates e com Mário Soares a discursar. Depois de, nas últimas três semanas, a oposição interna ter achado que o primeiro-ministro poderia cair – o que levou à retirada estratégica de António Costa (ausente de férias agora, pois no Verão tem que estar atento aos incêndios, como ministro da Administração Interna) e às movimentações de Helena Roseta e do grupo de Manuel Alegre – é o velho patriarca, o ex-Presidente da República e fundador do PS, Mário Soares, que vem colocar uma pedra no assunto. O recuperar de Sócrates regista-se depois de ter sido controlada a contra-ofensiva dos dirigentes da Universidade Independente – que poderão aceitar a falência da UnI contra a fundação da Universidade Pedro Álvares Cabral – e de Cavaco Silva ter desvalorizado a questão e de Santana Lopes e Luís Filipe Menezes terem criticado Marques Mendes.
Mas estas tréguas, dentro e fora do PS, serão sol de pouca dura. Para a oposição, o primeiro-ministro está inevitavelmente afectado na sua credibilidade e já não tem condições para pedir rigor, disciplina e a principal exigência do seu mandato: qualificação. Basicamente, para Marques Mendes, o próprio o terá afirmado, “joga-se o tudo ou nada, ou ele ou Sócrates, um dos dois terá que cair”.

Depois da licenciatura de Sócrates
a corrupção nos contratos do Governo

Por outro lado, o desgaste vai continuar na imprensa, agora passando do carácter do primeiro-ministro a todos os actos da governação. Começa pelas suspeitas que vão ser lançadas em todos os contratos, desde a Ota até à compra de aviões para combate a incêndios – mais uma vez a israelitas – até aos fornecimentos de armas, aos airbus para a TAP, as adjudicações de empreitadas pela administração central, etc. O desgaste será durante o período da presidência sobre os ministros e os membros do Governo, devendo o primeiro-ministro ser poupado por causa da presidência da União Europeia.
Mas o cerco terá que ser feito à sua volta, podendo os negócios do pai e de outros amigos aparecerem metódica e organizadamente na imprensa para desgastar, todos os meses, durante os próximos tempos, o Governo socialista.
Basicamente, o que estrategicamente Marques Mendes pretende, como aliás disse o seu número dois, Azevedo Soares, é desgastar a imagem do primeiro-ministro e do seu Governo, para tornar inevitável a perda da maioria absoluta do PS em 2009, com Sócrates ou sem ele.
Note-se que actualmente se admite, mesmo no PSD, o cenário de Sócrates poder abandonar, como Guterres o fez, a liderança do PS, depois da presidência portuguesa da União Europeia, podendo suceder-lhe António Vitorino – que tem a confiança de Bruxelas e que poderá refazer, através de Francisco Pinto Balsemão e Durão Barroso, a sua relação com os EUA – ou António Costa, um homem bem visto pelos meios judaicos. Mas claramente o Aparelho guterrista (leia-se Coelho e Vitorino) poderá sempre jogar o nome de António José Seguro, cujas ligações internacionais apesar de tudo a Bruxelas e aos meios da “intelligence” americana e espanhola estão por se fazer. Neste particular, a ascensão de Pina Moura na Prisa/Média Capital poderá dar ao antigo controleiro do PCP uma relevância no jogo de cadeiras pós-Sócrates.
Mas, para já, José Sócrates conseguiu travar a ofensiva contra a sua pessoa, pensada, segundo os meios próximos do primeiro-ministro, por meios santanistas, há vários meses, e sobre a qual Marques Mendes foi obrigado a cavalgar, para evitar Santana Lopes, que, finalmente, apareceu, no fim, a tirar-lhe o tapete e a apoiar o primeiro-ministro, obviamente, depois do desgaste feito.
O PS reagiu a tempo colocando gente sampaísta na UnI para gerir os estragos, tendo a gestão das ameaças ao governo acabando por funcionar a favor do primeiro-ministro, numa manobra de propaganda genial – “notícias bombásticas”, anunciava-se no início da semana – que acabariam por transformar José Sócrates – como aliás antes aconteceu com Sá Carneiro – em vítima.
No caso, a vitimização do primeiro-ministro e a teoria da cabala do PSD acabaram por travar as garras que lhe foram deitadas dentro do próprio PS. Ao ver os “timings” a anteciparem-se, Belém dá dois sinais nas duas últimas semanas.
Por um lado, o Presidente da República desvaloriza o assunto em face dos problemas do País e, por outro, Cavaco Silva nos bastidores vai denunciando o desconforto da situação económica nacional.

Belém contra Constâncio

Belém atira directamente ao governador do Banco de Portugal e ao irresponsável relatório de Primavera de Vítor Constâncio, onde anuncia o fim da crise. Para Cavaco os problemas estão todos aí e a correcção do défice deve-se apenas a receitas extraordinárias e ao crescimento económico induzido pela Europa, que está a crescer muito mais. Nada mudou em Portugal e está tudo por fazer. O perfil da economia tem que mudar e obviamente é isso que explica que, nos últimos três anos, o investimento tenha caído 15%.
Cavaco Silva não está contente com os resultados. Mas publicamente não quer incómodos durante a presidência portuguesa da União Europeia. E depois tem toda a consciência que será ele a alternativa ao primeiro-ministro. Ou seja, se hoje Cavaco Silva se candidatasse ao PSD ou alguém evocando o seu beneplácito, era certo que seria derrotado. Mas Cavaco sabe que o dia em que criticar publicamente José Sócrates, obtém automaticamente a rendição do PSD e colocará à frente do partido quem quiser – desde Ferreira Leite a Paula Teixeira da Cruz.
É esta agenda que os santanistas e Marques Mendes temem e de alguma maneira a agitação e o desgaste do primeiro-ministro têm a ver com a necessidade de neutralizar o Presidente da República.
Corrigindo a “doutrina Joaquim Aguiar” da Cooperação Estratégica, o Presidente da República veio, esta semana, esclarecer, no sítio da Presidência (ver abertura da Política) os limites dessa actuação.
É um sinal de que está atento às movimentações santanistas e aos desajustes no PS.
Ataques ao primeiro-ministro e sistemáticas suspeitas de corrupção ou de nepotismo em negócios públicos vão colocar S. Bento e os socialistas sobre pressão nos próximos tempos. Ainda por cima, o impulso reformista que Cavaco Silva – com base nos poderes implícitos positivos – exige, cria inimigos na sociedade civil e nos funcionários públicos. A CGTP e o PCP tem uma greve geral marcada para 30 de Maio, o que vai desgastar ainda mais o já fragilizado Governo.
Do lado de José Sócrates, o momento é vital. O primeiro-ministro ainda por cima não tem tempo para parar e pensar. Parte hoje para o “Governo Presente” no Porto e a partir da próxima semana tem a agenda carregada com responsabilidades internacionais decorrentes da próxima presidência portuguesa da União Europeia.
Mas, no seu núcleo, a consciência que o desgaste vai continuar e que tem em vista debilitar a maioria obriga a um tocar a reunir nas hostes socialistas. Os próprios dirigentes máximos do PS puderam testemunhar que o PS estava envergonhado com as questões levantadas e a discussão sobre o carácter do primeiro-ministro. Só que o PS começa a perceber que a substituição de Sócrates pode significar o fim da maioria absoluta com Cavaco Silva em Belém, tal como aconteceu quando Barroso foi substituído por Santana Lopes.
Para já todos recuaram, a começar pelos próprios sampaístas, que já imaginavam Costa como primeiro-ministro. O primeiro passo foi na Independente.

Independente: UnI nega irregularidades
no caso Sócrates, mas não há registos

Nesse contexto, o presidente da empresa que gere a Universidade Independente (UnI) assegurou esta semana não ter detectado irregularidades no processo académico de José Sócrates, apesar de não existirem quaisquer elementos de avaliação, à excepção da prova de Inglês.
Na conferência de imprensa realizada a meio da semana, Lúcio Pimentel, o ferrista presidente da SIDES, afirmou que foi concluído o processo interno de averiguações à licenciatura do actual primeiro-ministro, mas não conseguiu explicar as incongruências divulgadas relativamente ao diploma de José Sócrates.
Relativamente à avaliação, o responsável afirmou que o dossier individual do ex-aluno integra cinco pautas, quatro das quais assinadas pelo professor António José Morais e datadas de 8 de Agosto de 1996 e uma, referente à disciplina de Inglês Técnico, assinada por Luís Arouca e sem qualquer data.
Segundo o responsável, Sócrates fez também uma prova oral a esta disciplina, além do trabalho já divulgado, mas não há qualquer registo relativo a esse elemento de avaliação.
“Os elementos de avaliação dos alunos não constam, nem podem constar do processo individual [dos estudantes], mas de um arquivo morto que, por regra, é destruído ao fim de cinco anos. Por erro, a prova de Inglês Técnico foi parar ao processo individual [de José Sócrates]”, explicou Nuno Tavares, vogal da direcção da SIDES.
Já no que diz respeito ao processo de equivalências, os responsáveis da instituição asseguraram que este “decorreu segundo os procedimentos em uso na Universidade Independente”, tendo o plano sido proposto pelo director do curso de Engenharia Civil e aprovado pela reitoria.
No entanto, o único elemento relativo a este processo que consta nos arquivos da UnI é o papel assinado por Luís Arouca, no qual estão referidas as cinco cadeiras que Sócrates teria que realizar para completar a licenciatura, não existindo qualquer registo do documento elaborado pelo director do curso.
Acresce que Luís Arouca não era reitor em 1995, quando enviou a Sócrates o papel com as cadeiras que tinha de fazer, como o próprio presidente da SIDES confirmou.
“De direito, à data, Luís Arouca não era reitor, mas não sabemos se houve algum procedimento de delegação de competências”, afirmou Lúcio Pimentel.
De acordo com o responsável da empresa, a universidade também não dispõe de livros de termos referentes àquele período, documentos obrigatórios por lei e relativos às disciplinas, onde estão especificados os nomes dos professores, os conteúdos curriculares e os elementos de avaliação.
“Em relação aos livros de termos, não os temos porque naquele período não existiam”, afirmou, acrescentando que a instituição também não tem registo informático do pagamento das propinas por parte de Sócrates.
No encontro com os jornalistas, os elementos da SIDES asseguraram que a conclusão da licenciatura do actual primeiro-ministro foi a 8 de Setembro de 1996, desvalorizando o facto de essa data corresponder a um domingo.
“É costume vir-se aqui trabalhar ao domingo. Não vejo que por aí possa haver alguma coisa que torne sofismável esta situação”, adiantou Nuno Tavares.
Quanto ao certificado enviado em 2000 para a Câmara da Covilhã, no qual se refere 8 de Agosto de 1996 como a data de conclusão da licenciatura, os responsáveis garantiram não existir na universidade qualquer registo desse documento, embora o próprio Luís Arouca já tenha revelado que de facto o tinha enviado à Câmara Municipal da Covilhã em 1999, a pedido dos interessados, e Sócrates seria alheio ao erro da data, admitindo tratar-se apenas de um erro de secretaria, mas sublinha que apresentará uma queixa nas autoridades, caso sejam encontrados indícios que apontem para uma falsificação.

Sócrates com agenda europeia

Para José Sócrates os trabalhos não acabaram. As sondagens ainda não o penalizam, mas a sua autoridade e credibilidade estão em causa. Se fosse Salazar provavelmente já tinha feito uma remodelação e calado de vez os críticos internos. Poderia dar um sinal correndo com os ministros polémicos e mais desgastados ou, num acto de autoridade política, correndo mesmo com António Costa, cuja presença no executivo faz lembrar o Chanceler Brown em Londres, todos os dias a lembrar à opinião pública que se pode ser diferente no Governo. Foi esse o jogo de Botelho Moniz, quando ensaiou o golpe contra Salazar, e no dia seguinte estava demitido. Nunca mais foi ninguém no País ou nas Forças Armadas.
Mas ontem no PS, esse cenário era totalmente afastado. Sócrates preferiu dar para fora uma imagem de unidade em torno do Governo e da sua agenda reformista. Um dirigente do PS garantiu mesmo ao SEMANÁRIO que o cenário de uma remodelação antes da presidência europeia está totalmente afastado.
O caminho é estreito. Ao não remodelar, Sócrates já está a escolher os alvos dos ataques da oposição nos próximos seis meses. Um período muito longo em que o primeiro-ministro, ocupado com a agenda internacional e fragilizado com a polémica à volta do seu currículo académico, não poderá vir em socorro de ninguém.
As apostas estão abertas, como queria Marques Mendes: como chegará o Governo socialista ao fim da presidência portuguesa da União Europeia?