2019/10/22

Espanhóis querem ter uma palavra a dizer no Governo e na sucessão …

Pina Moura torna-se o primeiro socialista a ter condições para condicionar o Governo socialista. Ao assumir a liderança da TVI tem um instrumento de poder para condicionar o primeiro-ministro José Sócrates, mas, também, para ter uma palavra a dizer na sua sucessão. Numa única jogada, Pina Moura, subserviente aos interesses dos espanhóis, ultrapassa o Aparelho guterrista e os sampaístas, que estão cada vez mais dependentes dos lugares que Sócrates lhes der e não dominam nenhum órgão de comunicação social com a força da TVI. A estratégia espanhola em Portugal começa a ser clara: é o poder e não apenas o dinheiro.

Os espanhóis têm uma estratégia de poder em Portugal: esta semana o eventual fracasso da OPA do BCP sobre o BPI entrega aos espanhóis o controlo do quinto maior banco nacional, depois do Santander já dominar 12% do mercado financeiro com o Totta. Mas, através do BPI, os espanhóis vão dominar (como consultores da NAER) o aeroporto da Ota. Para além da banca e da energia, do comércio interno e das exportações para a América do Sul, do turismo ao imobiliário, os espanhóis avançam agora para o controlo de mentalidades e o jogo político.
O primeiro-ministro, percebendo o cerco, tentou logo compensar os outros grupos em presença. António Costa assumiu o controlo do Quadro Estratégico de Referência Nacional (os fundos comunitários), tirando poderes a Manuel Pinho, que já antes perdera para Basílio Horta o investimento estrangeiro e as exportações. Pinho foi a última deriva antiespanhol do Governo socialista.
A energia está indelevelmente condenada a ser controlada pelos espanhóis, mas Manuel Pinho conseguiu travar no último momento o projecto de Pina Moura/António Mexia e de Américo Amorim para fundir a Galp com a EDP. Só que Sócrates também já tinha dado o seu acordo ao negócio e Pinho faz abortá-lo sem cobertura política para tanto. A tensão subiu de tom no executivo. Sócrates colocou dentro do gabinete de Manuel Pinho uma colaboradora do El Corte Inglés, Susana Santos, que, além de ter sensibilidade aos espanhóis, faz a ponte com os soaristas.
A ordem é, no interior, para jogar com todas as tendências, de modo a que elas se neutralizem. Mas, na prática, alguma fragilidade do primeiro-ministro, ainda afectado pelos ataques da imprensa sobre a Independente – que o Governo ainda não encerrou -, parece notar-se na rapidez das reacções, comentava-se no dia 25 de Abril, em S. Bento.
Para já o primeiro passo era controlar a opinião pública. E Sócrates aproveitou mesmo o discurso do Presidente da República para evitar o confronto directo com Pina Moura, de quem não é especial crítico, aliás.

Sócrates tentou desvalorizar a escolha
de Pina Moura para a liderança da TVI

Na sequência do apelo de Cavaco Silva para a separação entre interesses públicos e privados, o primeiro-ministro aproveitou para limpar o problema Pina Moura. José Sócrates disse que a ida de Pina Moura para a administração da Media Capital é um exemplo de respeito pelos princípios éticos.
O primeiro-ministro argumentou que Pina Moura optou por abandonar o cargo de deputado, ao ter sido nomeado para um grupo privado de comunicação social. As declarações foram feitas durante um passeio pela residência oficial, aberta ao público no 25 de Abril.
Por seu lado, os espanhóis também justificaram a escolha do antigo ministro das Finanças e da Economia de António Guterres, com as relações entre o PSD e o grupo de comunicação social Impresa. Fontes oficiais da empresa espanhola reagiram, em declarações ao “Diário Económico” (considerado como muito próximo dos serviços secretos espanhóis), dizendo: “Não entendemos esta polémica.” “Sobretudo tendo em conta que o presidente do nosso maior concorrente em Portugal é o fundador do partido da oposição e nunca foi dito que a sua independência profissional estivesse comprometida por essa razão”, acrescentam fontes oficiais.
A Espanha começa a fazer política em Lisboa directamente. E fará muito mais a partir da TVI, assunto aliás que começa a preocupar Belém e a oposição. Recorde-se que a escolha de Pina Moura e de José Lemos tem sido alvo de críticas por parte do PSD.
Em comunicado, o PSD diz tratar-se de uma forma de controlo político “assumido e sem qualquer vergonha”. Marques Mendes diz que se trata de um “descaramento”, enquanto Morais Sarmento disse tratar-se “de um escândalo”. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que a escolha parecia “nomeação política”.
Recorde-se que as críticas à nomeação do antigo ministro de António Guterres, que ontem foi entrevistado na RTP, adensaram-se com a entrevista que concedeu ao semanário “Expresso”. Pina Moura afirmava que “não há nenhum projecto empresarial que não tenha objectivos políticos, nomeadamente na comunicação social”. O antigo deputado acrescentava ainda que o convite que lhe foi feito também tinha um pressuposto ideológico. “A TVI tem um cardeal laico, republicano e socialista”, disse.

ERC não vai avaliar nomeação de Pina Moura

Entretanto, a nova Entidade Reguladora para a Comunicação Social foi travada a tempo, no propósito de discutir o projecto político iberista de Pina Moura e a sua compatibilidade com a Constituição, a Lei de Imprensa e os termos do contrato de concessão da TVI.
Nesse contexto, depois de ser pública a intenção de levar a questão à entidade independente, a ERC, dominada pelo PS, acabou por anunciar, anteontem, que não iria avaliar a nomeação do ex-ministro socialista Pina Moura como presidente do conselho de administração da Media Capital, empresa que detém a TVI, pelo grupo de média espanhol Prisa. Em comunicado, o Conselho Regulador considerou que a sua função se prende com a fiscalização da “actividade concreta” das empresas de comunicação social e “não sobre os protagonistas que individualmente lhe dão suporte”.
No documento, a ERC sublinhou ainda que “já avalia as exigências relativas ao rigor informativo, independência e contribuição para o pluralismo”, através da monitorização da programação das televisões, sublinhando que “não deixará de intervir neste como noutros casos que possam vir a suscitar-se”.

Providência cautelar contra CMVM já avançou

A única dificuldade agora parece vir de Carlos Tavares, da CMVM, que não concorda com os termos da OPA proposta pela Prisa, ao rejeitar a nomeação de um auditor independente para fixar o preço das acções no processo de OPA obrigatória à Media Capital. Em reacção, a Prisa entregou esta semana nos tribunais portugueses uma providência cautelar contra a decisão da CMVM.
De acordo com um comunicado, a Prisa reafirma a sua posição de que o preço médio ponderado das acções da Media Capital durante os seis meses anteriores ao anúncio da oferta – 8,29 euros – não deve ser tomado em conta, face à “liquidez reduzida das acções da Media Capital”. Esta providência cautelar vai suspender o prazo de registo da OPA sobre os 26,3% que a Prisa ainda não detém. O grupo espanhol tinha até sexta-feira para proceder a esse registo. Em declarações ao DE, fonte oficial da CMVM diz que o organismo irá reagir, quando for notificado.

A estratégia espanhola

Os socialistas ibéricos mostram ter uma estratégia concertada para a Península Ibérica. Depois do domínio económico passam agora ao controlo de mentalidades, com o seu agente mais graduado, Pina Moura, à frente. O Grupo Prisa quer tratar da solução pós-Sócrates, ultrapassando o grupo sampaísta e o Aparelho socialista no domínio dos órgãos de comunicação social. A contagem decrescente para primeiro-ministro já começou, para os serviços secretos espanhóis.
Mas agora, o “target” é mais relevante: é o do controlo das mentalidades, um programa ideológico, conforme, desassombradamente, Pina Moura contou ao “Expresso”.
A ser assim, basicamente, Luís Marques Mendes enganou-se de novo. De facto, os socialistas controlam a TVI. O Grupo Prisa, que cresceu à sombra do PSOE e com a publicidade dada pelo Estado e pelas corporações por ele controladas, foi o principal responsável pela queda de José Luís Aznar e tem hoje um contencioso com o líder do PP, Raroy, como forma de paga a Zapatero, por alguma hesitação inicial. Mas o grupo da família Polanco faz agora o passo, numa estratégia espanhola de domínio da Península Ibérica, ao serviço do PSOE e do primeiro-ministro socialista: avança para uma empresa praticamente sem liquidez, a TVI, a primeira estação em termos de audiência, e escolhe o polémico ex-comunista Pina Moura para seu agente.

A história de Pina Moura

Pina Moura é um realista e subserviente aos espanhóis: já o era quando controleiro do PCP e tinha a vigilância dos jovens da UEC. Foi sempre suspeito de ligações ao KGB e, na sua passagem pela URSS, conheceu alguns dos protagonistas dos PCs europeus que, depois da queda do muro de Berlim, em Itália e em França, vieram a ter lugares de destaque, criando uma teia de contactos que facilitaria muitos investimentos em empresas em reprivatização. Foi, aliás, neste contexto que muito do dinheiro desviado pelo KGB da URSS, na era Gorbachov e Ieltsin, haveria de entrar nas “utilities” em França, Espanha e Itália, segundo um estudo do “Le Figaro”.
Moura afastar-se-ia do PCP para se aproximar de António Guterres (com quem, hoje, aparentemente, está com relações tensas), aproveitando a fragilidade emocional do antigo primeiro-ministro, e de secretário de Estado da Presidência e homem da ligação aos negócios de S. Bento chegaria a acumular as pastas das Finanças e da Economia, numa altura em que já se desenhava o domínio espanhol em Lisboa
Apareceria depois ao lado de Sócrates – exigindo ao primeiro-ministro um lugar de cabeça de lista nas legislativas e, finalmente, abria o jogo de sempre, agora já com ligação espanholas, como o homem da Iberdrola em Lisboa.
A sua enorme capacidade de trabalho e a preparação deslumbram os espanhóis, mas os resultados ficam aquém do esperado, em face da ruptura com Manuel Pinho. Mas a Energia será espanhola – terá por certeza Pina Moura – e Pinho acabará por cair…
Tendo uma clara noção do poder e nunca se esquecendo dos seus inimigos, aproveitando todas as fragilidades para atirar a matar, Pina Moura aparece agora como presidente da Média Capital.
Até aqui era previsível, não fora o plano transparente que o próprio Pina Moura anunciou em manchete no “Expresso”: em primeiro lugar, tem um projecto ideológico para a TVI – o que, no mínimo, viola a lei de imprensa e os termos da concessão do serviço público de TV, por outro lado, anuncia que defende o iberismo, mesmo sendo contrário à Constituição da República Portuguesa.

Sócrates ganha o primeiro “round”

Em face desta nova ameaça, o único caminho de José Sócrates é o reforço das outras tendências no aparelho de Estado. Para já, Sócrates apoia-se nos sampaístas e António Costa é o principal trunfo. Limpo e sem qualquer suspeição de legação aos negócios, o ministro de Estado tem a vantagem de garantir autoridade na execução e evita as polémicas a Manuel Pinho. Por outro lado, o primeiro-ministro controla o Ministério Público e o novo modelo de investigação coloca de lado a magistratura, conforme explicou ainda ontem Noronha do Nascimento, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
Finalmente, Santos Silva, o ministro que tutela a comunicação social, é a última chave do equilíbrio de poderes na família socialista. Tem nas mãos a possibilidade de renegociar a concessão, e, se os espanhóis se meterem com José Sócrates, sabem que o Governo tem meios para levar a TVI ao encerramento, aliás, como aconteceu com o jornal “Independente” e com a Universidade Independente. Só faltava ser também a Televisão Independente…
Para já o primeiro-ministro ganhou. Depois desta última ofensiva espanhola, o PS parece mais unido. Exactamente com mais poderes nas tendências, o primeiro-ministro acaba por ser o factor de unidade. Porém, dentro do próprio PS percebe-se que “o PS une-se embora se sinta a fragilidade do primeiro-ministro, atacado na sua honradez pelos jornais, em vésperas das reformas do Prace e da Administração Pública”.

Prisa pretende vender activos no valor de 70 a 80 milhões de euros em Portugal e Espanha

Finalmente e no âmbito da operação financeira da compra da TVI, o grupo espanhol Prisa admitiu que pretende encaixar entre 70 a 80 milhões de euros, com a venda de activos em Portugal e Espanha.
Em entrevista à agência Bloomberg, o presidente da empresa, Juan Luís Cébrian, explicou que esta decisão visa reduzir a dívida do grupo, que no final de Março totalizava os 2,9 mil milhões de euros.
O objectivo consiste em vender activos do segmento de imprensa em Espanha, nomeadamente jornais regionais, enquanto em Portugal as vendas serão realizadas apenas quando terminar o processo de aquisição da totalidade do grupo Media Capital, acrescentou o responsável.
“Não estamos demasiado preocupados com a dívida, mas vender activos vai ajudar-nos a focarmo-nos em projectos maiores”, salientou Juan Luís Cébrian.
No primeiro trimestre deste ano, o lucro líquido da Prisa desceu 21,4% para os 24,1 milhões de euros, devido ao impacto financeiro das operações de aquisição de 40,7% da Media Capital, no âmbito da sua primeira OPA, e da estação de televisão Sogecable.
O grupo prevê um crescimento do lucro operativo de “dois dígitos” no conjunto do exercício, uma vez que o cenário permanece positivo, com o mercado publicitário a expandir-se e o possível aumento da circulação do seu jornal “El País” em Espanha.

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