CDS decide amanhã futuro

Amanhã é o dia das eleições directas no CDS. Depois de uma campanha relativamente calma, se comparada com os acontecimentos que a antecederam, o Conselho Nacional de Óbidos e o abandono de Maria José Nogueira Pinto, José Ribeiro e Castro e Paulo Portas serão no sábado votados pelos militantes centristas, sem ter sido afastado definitivamente o cenário de uma eventual impugnação do resultado das eleições no Tribunal Constitucional. Durante a campanha foram apresentadas duas concepções distintas do partido, com Portas mais próximo do centro e Castro fiel à direita cristã.

As eleições directas para a presidência do CDS são amanhã. Paulo Portas e Ribeiro e Castro esgrimiram durante duas semanas argumentos, com cada um a apresentar aos militantes uma concepção diferente do partido e um rumo estratégico distinto para em 2009, ano de eleições legislativas, obter um bom resultado. O debate televisivo de quarta-feira na RTP, único momento onde os candidatos se confrontaram olhos nos olhos, foi prova disso. No frente-a-frente, ambos reiteraram aqueles que têm sido os seus principais argumentos na campanha interna: enquanto Ribeiro e Castro voltou a acusar Portas de ter aberto uma crise no partido, Portas repetiu que “o essencial” é fazer oposição ao primeiro-ministro, José Sócrates.
A campanha em si correu sem incidentes de maior, com uma ou outra acusação mais aguda, maioritariamente feita pelo actual líder ao antigo. Se compararmos com o período que antecedeu o início oficial da corrida para a liderança, com o Conselho Nacional (CN) de Óbidos a assumir-se como aspecto mais negro e onde a crispação entre os dois lados mais se evidenciou, chegando, inclusivamente, a haverem relatos de agressões físicas, a campanha foi relativamente calma.
Óbidos deixou marcas. Começando pela saída de Maria José Nogueira Pinto, até à afirmação mais vincada, de um aspecto que já ia sendo evidente, que dentro do CDS existem duas facções demasiado antagónicas com coabitarem. Este CN trouxe a lume outra situação que marcou, e ainda promete marcar, as eleições para a presidência do partido. Os formalismos e as jogadas de secretaria têm sido amiúde uma presença nas intervenções dos candidatos, com os partidários de Castro a ameaçarem impugnar o resultado das eleições nos tribunais judiciais e os Portistas a dominarem a Comissão Organizadora das Directas, com todas as vantagens que tal controlo pode oferecer.
Depois de Óbidos, foi a cidade Ribatejana de Torres Novas o palco do segundo CN, sem os incidentes que pautaram o anterior e com a cordialidade entre portistas e castristas a ser uma marca. Paulo Portas saiu de Torres Novas como claro vencedor, conquistou as directas, ganhou o controlo sobre a comissão que tem por missão organizar as eleições, presidida por João Rebelo, e percebeu-se notoriamente que tem o partido do seu lado. Ribeiro e Castro, que abandonou Torres Novas poucos minutos após o início dos trabalhos, foi derrotado, o congresso estatutário que defendeu somente se realizará depois das directas e os conselheiros nacionais eleitos nas suas listas abandonaram-no e votaram favoravelmente as pretensões de Portas.
O tribunal do partido, o Conselho Nacional de Jurisdição, veio dar razão ao antigo líder, pronunciando-se favoravelmente em relação à prevalência da decisão do CN de Óbidos, que aprovara as directas, sobre um requerimento apresentado pela distrital de Leiria e assinado por mais de mil militantes a convocar um congresso. Esta decisão foi muito contestada pelos castristas, que a qualificaram como uma “aberração jurídica”. Porém, alegando razões de defesa da dignidade e do nome do CDS, nenhum militante decidiu recorrer para as instâncias judicias. Cenário que ainda não foi definitivamente afastado, existindo, ainda, a possibilidade de um recurso para o Tribunal Constitucional do resultado das eleições. Nesta situação, como informou o presidente da Comissão Organizadora das Directas ao SEMANÁRIO, João Rebelo, seria o congresso já agendado a escolher o líder, ficando sem efeitos as eleições directas.
Em termos doutrinários, os dois candidatos à liderança foram apresentando visões diferentes sobre qual o futuro que desejam e perspectivam para o partido, com Ribeiro e Castro mais perto da democracia-cristã e Paulo Portas a aproximar-se do liberalismo, pretendendo “ocupar descomplexadamente o espaço político do centro-direita”. Portas, neste seu regresso, traz um conteúdo diferente para preencher o CDS, mais virado para ir de encontro às necessidades das novas gerações neste início de século XXI, com temas novos como a cultura ou o ambiente. Ribeiro e Castro, por seu lado, afirma-se como guardião dos valores da direita, avançando que o CDS precisa de ser um partido de bases e não de “espectáculo mediático”. O actual líder afirma que, ao longo destes dois anos, procurou “construir partido”, oferecendo formação às bases e criando uma rede que possibilite manter uma forte proximidade entre a direcção e os militantes, adiantando que quando Portas deixou o Partido em 2005 não existia mais nada para além da figura do presidente. “Quero um partido de mil protagonistas e não só de um protagonistas”, referiu Castro reiteradamente ao longo da campanha.
Porém, os fracos resultados expressos nas sondagens e a notória ausência do CDS da agenda mediática nacional impossibilitaram Ribeiro e Castro de se tornar num líder forte, incontestável e dominador do partido. Portas revela que este seu regresso tem por missão alterar a actual situação nefasta da oposição em Portugal, querendo retirar José Sócrates do pedestal político onde está instalado. Neste sentido, delineou toda a sua campanha em torno da oposição ao Governo, sem proceder a críticas directas ao presidente, numa estratégia que amanhã os militantes demonstrarão se foi a mais acertada. Portas, nestas duas semanas, já se comportou como o líder dos democratas-cristãos, tentando afastar-se o mais possível de quezílias pessoais e confrontos directos com o outro candidato. Prova disso, foi a relutância do deputado nacional a participar em debates televisivos nos meios de comunicação social.
Hoje, véspera do dia das eleições, um facto é certo: o PP foi abandonado, tendo sido preterido face ao CDS. O antigo líder como o actual decidiram retirar do léxico político a expressão “partido popular”. O criador do PP foi Paulo Portas que, durante as semanas que durou a campanha, se recusou a empregar a sigla nas suas intervenções, afastando-se, em parte, do seu passado na liderança.

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