Cavaco Silva vai dar sinais que já tem decisão tomada

Ao contrário do que alguns “apóstolos” da candidatura de Mário Soares insinuam não há qualquer “estado de choque” no círculo próximo de Cavaco Silva, perante a quase certa candidatura presidencial do principal fundador do PS. “Nada fez arrefecer o ânimo do antigo primeiro-ministro”, segundo disse ao SEMANÁRIO uma personalidade que tem acompanhado a preparação da candidatura presidencial de Cavaco Silva.

“Evidentemente – acrescenta a mesma fonte – Mário Soares obriga ao reforço estratégico das linhas de candidatura, mas em nada diminui a vontade de servir os portugueses na Presidência da República, que anima Cavaco Silva. Mesmo sem Mário Soares, na corrida, Cavaco Silva sabe que tem de se submeter ao juízo dos cidadãos portugueses, que deve ser estruturada uma campanha eleitoral e que deve haver confronto democrático, esclarecedor e rigoroso. Para que os portugueses possam escolher em absoluta liberdade de consciência.”
A nossa fonte acrescentou que Cavaco Silva não vai alterar o seu calendário, ou seja, só assumirá formalmente a sua candidatura presidencial depois da realização das eleições autárquicas. Contudo, não estão excluídos sinais concretos de que a sua decisão está tomada. Tais indicações surgirão logo após Mário Soares revelar a sua disponibilidade para assumir mais um mandato presidencial, depois de um interregno de dez anos. O modo e a forma de tornar públicos esses sinais estarão a ser estudados neste momento pelo circulo restrito que vem apoiando Cavaco Silva. Provavelmente, numa declaração aos jornalistas, por ocasião de uma das várias intervenções públicas que estão previstas durante o mês de Setembro.
Os dois candidatos têm uma larga experiência de coabitação institucional. Enquanto primeiro-ministro nos primeiros tempos da democracia portuguesa, são conhecidas as relações muito difíceis e muito crispadas entre Mário Soares e Ramalho Eanes, que afectou durante muitos anos o relacionamento pessoal entre ambos e que só foi atenuado há quatro anos, quando Eanes resolveu apoiar a candidatura à Câmara de Lisboa de João Soares, nas eleições em que, aliás, foi eleito Pedro Santana Lopes. Por sua vez, já na qualidade de Presidente da República, Mário Soares coabitou durante dez anos consecutivos com Cavaco Silva.
Um confronto eleitoral entre Mário Soares e Cavaco Silva tem vários aliciantes políticos, mas o SEMANÁRIO julga saber que Cavaco Silva não entrará pelo caminho de um certo ajuste de contas, “embora não hesite em repor a verdade se Mário Soares entrar nesses terrenos dos dez anos de coabitação. O ex-Presidente que não esqueça dos seus telhados de vidro nessa matéria. Basta ter lido os escritos já publicados por Cavaco Silva sobre esse período. Seguramente, o que interessa aos portugueses não é qualquer ajuste de contas entre ambos, mas o futuro de Portugal e o modo como cada um dos candidatos vê o futuro, durante o período de cinco anos em que se propõem estar em Belém, na suprema magistratura do País”.
Estas confidências da aludida fonte não esbatem a importância do debate que terá ser efectuado sobre as relações entre o Governo do PS, liderado por José Sócrates, que dispõe de uma maioria absoluta e o futuro Presidente da República.
O debate não será inútil, mas Mário Soares pode ficar em desvantagem, até pela forma de intervenção política que tem assumido ao longo da sua carreira política, incluindo, ou sobretudo, durante os dez anos em que esteve em Belém. Logo nos primeiros meses – ainda no tempo do Governo de minoria de Cavaco Silva -, Mário Soares tudo fez para corroer a liderança de Vítor Constâncio no Partido Socialista, de tal modo que o hoje governador do Banco de Portugal breve deixaria o cargo de secretário-geral do PS, com graves acusações ao então Presidente da República. Durante a segunda maioria absoluta de Cavaco Silva, a partir do Palácio de Belém, Mário Soares tudo fez para minar a acção do Governo, desde algumas actuações concretas às ameaças que durante largo tempo pairaram na comunicação social de que poderia dissolver o parlamento.
Alguns analistas têm procurado especular o tipo de relações de coabitação que o Governo de José Sócrates terá com Cavaco Silva, na perspectiva da eleição deste para Belém. Alguns vão mesmo muito longe ao prever uma crispação absoluta entre Sócrates e Cavaco Silva, em contraponto com uma “lua-de-mel” permanente, na eventualidade de ser Mário Soares o próximo inquilino de Belém.
As especulações são o que são, permito–me porém dizer apenas que, em matéria de coabitação institucional, Cavaco Silva tem uma experiência única que muito lhe servirá, não para criar dificuldades políticas ao Governo, mas para exercer uma magistratura de influência positiva na acção do Governo que possa ser útil e benéfica aos portugueses. Seria muito grave, que alguém pensasse que, no papel de Presidente da República, Cavaco Silva pratique uma espécie de “vendetta” contra o Governo, só porque ele, enquanto primeiro-ministro foi contrariado vezes sem conta pelo Presidente da República… Mário Soares.
Ou seja, Cavaco Silva aprendeu, por experiência própria, por vezes dura, o que devem ser as relações entre o Presidente da República e o primeiro-ministro e o respeito institucional, pelas competências próprias de cada órgão de soberania.
Recorrendo à mesma fonte, próxima de Cavaco Silva, com este em Belém “a Presidência da República não será, seguramente, uma central de intriga política, alimentada artificialmente na comunicação social, contra o Governo. E isso aconteceu muitas vezes com Mário Soares, sobretudo a partir do segundo mandato”.|PC

Tensão em Lisboa, incerteza em Sintra e dúvidas em Oeiras e Gondomar

Está instalada uma guerra surda nas estruturas do PSD de Lisboa, que pode ter efeitos perversos na campanha eleitoral que se avizinha, com consequentes resultados negativos no resultado final. A exclusão das listas de algumas figuras sonantes do PSD, como Pedro Pinto ou Helena Lopes da Costa, o número dois da lista de Carmona Rodrigues é referenciado como “salta-pocinhas” (já foi candidato pelo CDS/PP e pelo PS), as relações com o Partido da Nova Democracia e o apoio de Marques Mendes, acusado de fomentar um espírito de facção, são os ingredientes de uma situação que está a causar apreensões nos meios social-democratas.

As questões políticas que envolveram a candidatura de Carmona Rodrigues ainda não estão totalmente dissolvidas. Alguns criticam a ausência de coligação com o CDS/PP, argumentando que o actual CDS/PP de Ribeiro e Castro, não é o mesmo que foi liderado por Paulo Portas. Há dirigentes social-democratas que insinuam que Marques Mendes deu liberdade excessiva a Carmona Rodrigues, “até porque, num primeiro momento, o novo líder do PSD era adepto dessa coligação, mas alguns complexos de esquerda de personalidades próximas do candidato à câmara de Lisboa, inviabilizaram o acordo entre os dois partidos”, como referiu ao SEMANÁRIO fonte conhecedora de todo o processo. “Acresce que a Dra. Maria José Nogueira Pinto é uma adversária temível e pode beneficiar dos votos dos descontentes do PSD e ter uma votação suficiente para impedir a eleição de Carmona Rodrigues” – uma opinião de um antigo membro da Comissão Política do PSD.
Questão política é também a composição das listas, que criou indisfarçáveis tensões políticas nas estruturas dirigentes do PSD de Lisboa. Se é certo que Moreira Marques foi à última da hora excluído das listas, verdade é que Gabriela Seara não é bem aceite e que não há, por assim dizer, “nenhum peso pesado do PSD nas listas do PSD de Lisboa, o que é absolutamente bizarro”, outra crítica oriunda de uma fonte parlamentar. O ónus desta situação poderá acabar por cair em cima de Marques Mendes, que tem sido muito criticado por algum isolamento que adopta em relação a personalidades do partido que o não apoiaram no Congresso em que foi eleito para a liderança do partido.
“Um grande partido tem de contar com toda a gente e ninguém pode ser marginalizado de dar o seu contributo para as vitórias do partido. Aliás, Marques Mendes é um exemplo, Barroso chamou-o para o Governo, os exemplos de Cavaco Silva são elucidativos, chamou para seus colaboradores próximos dirigentes que, nas lutas pelo poder interno, não alinharam com eles e até lhe chamaram fascista. Ora, nestes primeiros tempos, é certo que Marques Mendes tem ido a todo o lado, está presente nos eventos mais significativos do partido, mas ainda não fez a abertura indispensável e até, em muitos casos, quase se tem comportado como líder de facção, o que é terrível para o seu futuro, se não arrepiar caminho” – afirmações referidas ao SEMANÁRIO por um dirigente que já desempenhou vários cargos relevantes no Governo e no partido.
Noutro âmbito há ainda quem critique alguma passividade com que a pré-campanha eleitoral tem decorrido em Lisboa. “Carmona não sabe trabalhar à pressão, há indicadores de opinião que o dão em baixa, quando começou por ter uma enorme distância em relação ao PS, parece que está tudo a dormir” – desabafo truculento e irritado de um dirigente próximo da distrital de Lisboa, a quem não agradou a evolução deste processo. Como não agradou a aproximação tentada à candidatura do PSD do PND de Manuel Monteiro, bem como as notícias de que não haveria militantes desse partido, mas que, em contrapartida, Carmona Rodrigues reservaria lugares para militantes desse partido. E alguns estranham o silêncio do candidato…
Para alguns círculos do PSD, é inquestionável que a vitória dos social-democratas nas eleições locais parece garantida. “Mas se perdermos Lisboa é como se fossemos derrotados”… eis outra frase elucidativa de uma das fontes já citadas, que acrescentou: “Seria a suprema vingança de Pedro Santana Lopes e dos vereadores agora afastados por Carmona Rodrigues.”

Campainha de alarme em Sintra

Outro local emblemático das eleições autárquicas é Sintra, onde há quatro anos, com surpresa geral, Edite Estrela foi vencida por Fernando Seara, determinando o fim da governação socialista e o início de um mandato social-democrata.
Ao longo dos últimos quatro anos, Fernando Seara criou uma imagem de proximidade com os cidadãos do concelho, a ideia colhida pelo SEMANÁRIO (já referida em edições anteriores) é de que o Presidente cessante “não fez grande obra, mas o que fez foi bem feito e criou a tal imagem de simpatia junto das populações”.
No entanto, o PS investiu em Sintra “verdadeira artilharia pesada”, candidatando João Soares à Câmara e Jorge Coelho à Assembleia Municipal. De acordo com múltiplas fontes locais, há muito tempo que os socialistas estão numa fase de pré-campanha e João Soares, certamente lembrado da displicência com que fez campanha em Lisboa, quando foi desalojado por Santana Lopes, desta vez tem “trabalhado que nem um mouro” (expressão utilizada por uma dessas fontes locais) numa campanha diária de muitas horas, quase porta a porta. Esta intensidade com que os socialistas estão a agir em Sintra parece contrastar com algum alheamento detectado na candidatura de Fernando Seara, o que também está a causar alguma apreensão nas hostes laranja. Além disso, alguns inquéritos de opinião traduzem uma subida do PS, de tal modo que se acredita que em Sintra pode ocorrer uma das votações mais renhidas na área Metropolitana de Lisboa.

Oeiras, Gondomar e Porto

Isaltino Morais suspendeu a sua filiação no PSD, horas antes de anunciar a sua candidatura à presidência da Câmara de Oeiras, como independente. Desse modo, ladeou, de modo politicamente engenhoso, a questão das sanções disciplinares do partido de que, seguramente, seria alvo, incorrendo até na pena de expulsão.
Além disso, criou algumas dificuldades à direcção política do PSD, uma vez que, na suas listas, para a Câmara, para Assembleia Municipal, para as juntas e assembleias de freguesia figuram 286 militantes (o número foi indicado por uma fonte próxima de Isaltino) do PSD e não parece haver meios expeditos para instaurar um número tão elevado de processos disciplinares.
Oeiras é um daqueles concelhos, tal como Gondomar, em que os candidatos, por sinal figuras relevantes do PSD, até agora, têm a capacidade de falar directamente com os cidadãos eleitores, sem quaisquer intermediações da máquina partidária. Isaltino Morais e Valentim Loureiro têm peso político próprio, além de que podem apresentar às escâncaras obra feita durante os mandatos que exerceram no lugar onde agora, noutras condições políticas, querem ser outra vez eleitos.
De acordo com as leituras que o SEMANÁRIO recolheu junto de vários meios locais, nos referidos concelhos, Valentim Loureiro, que hoje apresenta a sua lista, deverá ser reeleito presidente da Câmara de Gondomar. Já em Oeiras, as opiniões são mais díspares. É claro que Isaltino, ele próprio, está convencido da sua vitória, “mas as coisas estão muito empatadas com Teresa Zambujo, já que o PS não entra nestas contas, tão irrelevante que é a sua candidatura” (as fontes são social-democratas). De um modo geral, podemos sintetizar a situação em Oeiras, de acordo com as personalidades contactadas: “Não é fácil medir o efeito que têm nas populações as noticias do eventual envolvimento de Isaltino Morais em situações menos claras do ponto de vista da justiça, que o colocou na situação de arguido. Isaltino tem prestígio e tem obra feita. No entanto, o PSD de Oeiras é uma estrutura forte e, apesar de tudo, Teresa Zambujo tem desempenhado bem as suas funções. É o juízo final dos eleitores que determinará o resultado final. No caso de Oeiras, a expectativa só acaba na fase da contagem dos votos”.
No Porto, havendo uma campanha do PS fortemente dirigida contra Rui Rio e tendo este algumas críticas internas do PSD, por causa do afastamento de Paulo Morais, até agora o seu número dois, na Câmara, a tranquilidade é absoluta: “Rui Rio vai empenhar-se na campanha eleitoral e, quase seguramente, obterá a maioria absoluta.” Veremos se o eleitorado da Invicta ratifica, ou não, estas previsões, de um antigo dirigente social democrata.|PC

Veiga garantiu reforços

A novela dos reforços está a provocar mal-estar na Luz. Luís Filipe Vieira não tem gostado da forma como a situação se tem processado, em particular do caso Kalou do Feyernord, e quis ouvir explicações de José Veiga. Numa reunião, onde também participou Koeman, o responsável pelo futebol encarnado sossegou o presidente e treinador e garantiu dois reforços de qualidade até ao final de Agosto.

Dois reforços de qualidade nos próximos dias. Foi esta a garantia dada por José Veiga a Luís Filipe Vieira e Ronald Koeman, numa reunião que aconteceu esta semana no Estádio da Luz. O encontro foi solicitado pelo presidente do Benfica, incomodado com o recente episódio relativo à possível transferência de Kalou do Feyernord para a Luz. Recorde-se que o fundo de investimentos Sports Investments and Representations (SIR) assinou recentemente um contrato com o Feyenord, em que estava estipulado a venda dos avançados Salomon Kalou e Dirk Kuyt, sendo que neste jogador apenas foi adquirido 50 por cento do seu passe. Mas relativamente a Kalou, posteriormente seria emprestado ao Benfica por um período de três anos, para se rentabilizar. Em todo o caso, o negócio não avançou uma vez que o emblema holandês denunciou às autoridades competentes a ilegalidade do contrato, chegando mesmo a afirmar a falsificação de assinaturas no mesmo. De acordo com o Feyenord, o jovem avançado é indispensável e não será vendido nesta temporada.
Entretanto, e para complicar ainda mais este caso, surge agora o empresário do jovem avançado a afirmar: “O clube diz que o acordo não era um acordo e que a assinatura era falsa. Não sei se é falsa ou não, mas suponho que seja verdadeira, de outra forma não nos diriam para falar com aquela gente. Só me questiono por que é que o Feyenord nos mandou uma mensagem a dizer para falar com o fundo de investimento. Não entendo e não tenho qualquer explicação para isso. Se a assinatura é falsa, então por que raio o Feyenord nos disse para falar com pessoas que falsificaram uma assinatura?”, acrescentando ainda que “toda esta situação é ridícula”. “Quando eles me mostraram o documento que autorizava a negociação do jogador, eu parti do princípio de que era verdadeiro, de outra forma o Feyenord não nos diria para falar com eles. O contrato era profissional, via-se que não era coisa de amadores. Pergunto-me a cada cinco minutos qual será a explicação disto tudo”, concluiu o empresário do futebolista.
Para além disso deste caso Luís Filipe Vieira quis ainda inteirar-se relativamente a outras negociações falhadas e a possíveis futuros negócios.
Recorde-se que Vieira já garantiu por diversas vezes que chegarão novos jogadores ao clube e de créditos firmados. Todavia, a demora em surgir um nome está a preocupar os sócios e Vieira não quer faltar à palavra.

Saviola continua a ser hipótese
Durante o encontro, José Veiga garantiu que nos próximos dias chegarão dois novos jogadores ao clube. Segundo o SEMANÁRIO apurou, existem nesta altura negociações e várias hipóteses.
De acordo com as últimas noticias publicadas em Espanha, o avançado do Barcelona, Saviola, um sonho dos dirigentes encarnados, continua a trabalhar à parte dos seus colegas de equipa, uma vez que o treinador do emblema catalão não conta com o avançado argentino para esta época. Desta forma, a direcção “blaugranna” está disposta a emprestar o jovem futebolista, menos ao Espanhol, uma vez que é uma equipa da mesma cidade. Clube esse que Saviola pretende ingressar para estar “mais perto da família”. Desta forma, Saviola ainda não tem o seu futuro assegurado para a temporada que se avizinha, apesar de existirem diversos interessados, como, por exemplo, o Benfica. No entanto, o principal entrave na vinda do avançado para a Luz prende-se com a falta de vontade que o futebolista tem em rumar ao futebol português e devido ao alto salário que aufere e que teria de ser maioritariamente suportado pelo clube que garantisse o seu empréstimo.
Entretanto, Ricardo Oliveira é outro dos nomes falados. O avançado brasileiro está em ruptura com o Bétis e pretende abandonar a formação espanhola. Recorde-se que, já no ano passado, o internacional canarinho esteve para rumar para o Sporting, mas as negociações não foram dadas como concluídas. Contudo, os dirigentes encarnados estão atentos à situação do avançado brasileiro e poderão vir mesmo a tentar negociar o seu passe junto do Bétis.|DZ e NM

Aprender a ser pobrespor Rui Teixeira Santos

Depois do Verão, quando os portugueses regressarem de férias, vão ter que aprender a ser pobres de novo. O País verdadeiramente nunca o deixou de o ser. Mas, com o endividamento e os fundos comunitários, fomos construindo a ilusão de que éramos ricos.

Depois do Verão, quando os portugueses regressarem de férias, vão ter que aprender a ser pobres de novo. O País verdadeiramente nunca o deixou de o ser. Mas, com o endividamento e os fundos comunitários, fomos construindo a ilusão de que éramos ricos.
Toda a margem foi esgotada. E, a notícia seguinte é que não só o País está a perder potencial económico, como, ainda, não conseguimos crescer sequer ao nível desse potencial.

Depressão vai durar pelo menos até 2009

E, pior, até pelo menos 2009, o País vai crescer abaixo de um por cento, o que significa que não conseguirá repor o stock de emprego (só a partir de crescimentos acima do crescimento potencial – a União Europeia prevê que o nosso crescimento potencial de Portugal seja de 1,4% em 2005 – é que se consegue começar a criar emprego).
Este ano não é o pior. Ao contrário do que foi dito pelo Governo e inscrito no Programa de Estabilidade e Crescimento, o País está em recessão, e vai continuar no próximo semestre. E, no próximo ano, a crise vai agravar-se.
Portugal já não consegue sequer responder aos estímulos externos. Embora a Espanha esteja a crescer acima dos 3,4%, mesmo acima das melhores expectativas, em Portugal divergimos e nada ganhamos com isso. A solução não é, portanto, exportar mais. Já não conseguimos sequer isso.
Ao défice do Orçamento do Estado, juntamos, agora, o défice comercial – da balança de pagamentos. Este, segundo o INE, aumentou, no primeiro semestre, 35%. As exportações ficaram aquém do previsto. Já nem a AutoEuropa ou o vinho do Porto conseguem manter as suas vendas. Os automóveis caem 10% nas exportações e, nos mercados fora da Europa, por causa do euro valorizado, estamos a perder vendas do vinho do Porto.

Falta dinheiro

Em momento de crise e de medo, encharca-se a economia de dinheiro. Foi isso que aprendemos com a crise de 1929. Porém, aqui fazemos exactamente o contrário. Pelo simples facto que Portugal não tem autonomia monetária e não tem poupança.
Sem dinheiro para investir, restaria o investimento estrangeiro. Porém, esse há muito que já escolheu o que queria comprar: energia, turismo e imobiliário.
Do lado português, nada. Os empresários não têm capital. Os bancos tornaram-se mais restritivos no crédito. As grandes empresas já não reagem e pouco investem; o Estado não investe e, quando o faz, não paga.
O risco de Portugal é o maior dos países da União Europeia. O Estado português é aquele que paga pior e mais tarde. Chega a uma média de atrasos de pagamentos de 89,2 dias e, no caso da Saúde, vai mesmo a oito meses, segundo um relatório da Intrum Justitia.
Mas, o que é dramático é que os investimentos anunciados não se fazem: estamos a criar uma polémica inacreditável à volta do TGV e da Ota. Mas ainda não foi gasto este ano um tostão em nada.
O problema urgente é outro: qualquer casa de risco mostra que 95% das PME portuguesas estão falidas. Ora, são elas que dão emprego, o que augura o pior.
Como se isso não bastasse, vemos os nossos activos a desaparecerem com 100 mil hectares de floresta a arder.
Com fundos comunitários ficamos sem agricultura e sem pescas. Agora, há muito gado no Alentejo: é, apenas, por causa do subsídio! – Não tem rigorosamente impacto algum, nem no crescimento, nem no emprego.

A ideologia económica

A América exportou, depois da guerra, para a Europa, a ideologia neoliberal, que um conjunto de europeus pouco inteligentes leu e proclama com a convicção com que um “mullah” recita os versículos sagrados do Corão.
Ora, é essa gente que é responsável pelo que se passa actualmente em Portugal e na Europa: mesmo quando se constata que está tudo errado, que os resultados são estes, o máximo que lhes ouvimos é que o modelo está certo , a realidade é que não.
E, contudo, aqui ao lado, temos exactamente a experiência de que o modelo está errado. A Espanha descolou a Europa. Concentra, em rede, o apoio às suas PME, ao contrário de Portugal, que as persegue e as destrói. Tem nas Caixas de Crédito o instrumento privilegiado do controlo político e nacional dos sectores económicos, que considera estratégicos. Tem um Governo que não gasta o que não tem, nem espera pelo crescimento económico e o aumento dos impostos para equilibrar o Orçamento do Estado.

Voltar ao real

O País tem um duplo défice (público e comercial) que obriga os portugueses a cair na realidade.
Já todos percebemos que nestas situações as assimetrias aumentam. Mas, sobretudo, pelo efeito de Laffer, a economia paralela está a aumentar exponencialmente. E não é necessariamente droga ou armas ou prostituição. Não!
É contrafacção de têxteis, é falsificação de marcas, é construção civil sem IVA e com matérias-primas compradas em Espanha e, finalmente, é muita, muita corrupção.
Melhor dito: mais que corrupção, mais que subfacturação nas compras dos privados ou mais que o pagamento a funcionários e intermediários, a expectativa está a criar novos devedores, que já estão a gastar por conta do que ainda não receberam, até porque o investimento publico tem sido muito limitado.
E, não vale a pena vir a magistratura, agora, com julgamentos mediáticos de casos exemplares, pois ela já não tem credibilidade alguma.
Ninguém acredita numa acusação do Ministério Público; as investigações policiais estão também desacreditadas, para não falar já na politização dos juízes, que, nesta fase, deveriam ser discretos e não se envolver em ameaças corporativas de greve, o que, mesmo com razões fundadas do lado dos juízes, apenas torna a insegurança mais generalizada na sociedade. A ideia de que “em casa sem pão, todos ralham, e ninguém tem razão”, só agravaria o estado de espírito do país real.

O país real foi de férias

Este, o país real, ainda foi de férias. No seu regresso terá que se confrontar com a realidade dos colégios dos filhos e dos livros para o ano lectivo. Com o supermercado e o fim das promoções. Com as prestações que ficaram por pagar desde Junho. Mas, sobretudo, se não forem um dos 700 mil funcionários públicos, ou dos quase três milhões de pensionistas (a maioria dos quais não contributivos, que o Estado paga, por generosidade e obra de Governos sucessivos, desde 1991), com o problema da falta de liquidez das empresas e dos salários em atraso.
Os portugueses vão ter um choque ao regressarem de férias. Subitamente, o País não é o mesmo. A conversa do optimismo, constatar-se-á, não resultou. A economia não é feita de boa vontade. É, sobretudo, de expectativas e de capital. Aquelas implicam credibilidade. Este, poupança e capacidade de iniciativa.
É claro que nenhum governante quer o pior. Todos agem na convicção que estão a fazer o melhor para o País. Mas, isso não chega.
Para além do trabalho, para além da competência, para além da vontade, são necessárias condições objectivas. E, essas são as de um País que tem andado a viver muito acima das suas possibilidades e que está a pagar, agora, a factura.
O problema é que os empresários desanimaram, que os bancos não entenderam o seu papel na economia e, sobretudo, que o país foi na tonta conversa de exportação da liberdade e da defesa do consumidor.
Destruímos o que tínhamos, não construímos nada de novo. Resta-nos a liquidez que realizamos ao vender as jóias da família. Foi o que já fizeram alguns empresários e farão outros que se lhes seguirão.
Basta ir a Espanha para saber o preço desta liberdade. A gasolina é 21 cêntimos, por litro, mais barata, o IVA é menos 5%, os materiais de construção são, em média, quinze por cento abaixo dos preços nacionais e os salários são, pelo menos, 20% acima dos portugueses.

A Espanha diverge da Europa

Portugal definha, a Europa estagna e a Espanha cresce.
Portugal definha porque a Espanha nos fica com a riqueza, quando lhe compramos o que comemos e o que vestimos. E, depois, acabamos a pagar as dívidas, dando-lhes o capital das nossas melhores empresas. Até a água do Alqueva irá para Espanha e não ficará em Portugal.
A Europa estagna, porque o Banco Central Europeu é incompetente e a Europa política acabou. Em suma, por causa da Alemanha.
A Espanha cresce, porque tem uma estratégia imperial e se apoia, desde há muito, na sua língua e na sua cultura, saltando por cima da desagregação política inevitável, que a recessão lhe traria. É a receita de Carlos V. Hoje, o capitalismo é um instrumento para ao crescimento, mas não é o único – é o lema do sucesso espanhol.

Que venham os espanhóis

Do nosso lado, o nacionalismo está amenizado. Quando falta comida, a política, a liberdade, a independência é posta de lado. Chama-se realismo político.
Foi com esse argumento que as elites aclamaram Filipe de Espanha rei de Portugal em 1580. Na altura, eram os preços dos cereais que impressionavam os portugueses.
Não falta, nem mesmo em Espanha, quem diga, hoje, que Portugal é a autonomia mais barata de Espanha. Eles mandam aqui e não têm que pagar a factura, como acontece com na Catalunha, na Andaluzia, no País Basco ou na Galiza. Pelo simples facto que eles compraram o País e não tiveram que nos dar lugares no Parlamento. Pelo simples facto que o governo de Madrid não perde votos com o descontentamento dos portugueses, ao contrário do que acontece com as autonomias de Espanha.
Enfim, do que se trata é que Portugal, sem fundos comunitários, sem solução ultramarina, sem ouro do Brasil, é inviável.
Aparecemos como uma necessidade da reconquista cristã. Mas, nascemos, como nação, em 1383-85, por impulso inglês, exactamente quando a Inglaterra estava a perder a guerra dos 100 anos. Acabamos por definhar quando os ingleses caíram também e o nosso império marítimo se esgotou, às mãos dos holandeses. Chegou mesmo a carreira da Índia a estar impedida por dois anos.

Salve-se quem puder

Rapidamente percebemos o pesadelo: os nossos barcos desapareceram com a aventura da Armada Invencível e quando os espanhóis perceberam que não tiravam nada daqui alimentaram de tal maneira os impostos, que os mesmos que defenderam a integração, acabaram por aceitar a independência. Mais uma vez são os ingleses que estão por detrás desse proeza.
Agora, como então, não vale a pena ter ilusões com Espanha. Acabaremos sempre por ser joguete entre o choque destes dois impérios com vocação mundial, exactamente como nos últimos novecentos anos: entre os anglo-saxões e os espanhóis.
O mundo mudou. O controlo nos “chips” limitarão a privacidade. As matrículas electrónicas consagrarão o princípio do utilizador-pagador de impostos. O terrorismo transformará o “big brother” em algo de aceitável. Se a Europa falhar não temos tábua de salvação sozinhos e já não vamos a tempo da cooperação com o Brasil e com África. A Espanha quer isto – sempre quis! – e pode estar disponível para pagar o preço.
O Mundo e a tecnologia estão a mudar. O nosso mundo muda também. Mas, não tenhamos ilusões. Sem crescimento económico não haverá nem tecnologia, nem dignidade, nem sequer independência nacional. Salve-se quem puder.

Não esquecer o debate europeu…por G. d’Oliveira Martins

Hoje, depois do fim da guerra fria, sabemos
que os riscos de um novo desastre universal,
mais ou menos extenso, existem.

Sessenta anos depois de Hiroshima, a memória do último século não deve ser esquecida. A última grande guerra não aconteceu por acaso. Deveu-se ao acumular de muitos erros e à incompreensão de que qualquer ordem internacional nunca está adquirida e fechada. Há cem anos, apesar das nuvens negras que se acastelavam no horizonte, havia uma grande inconsciência geral. Muitos entendiam que bastaria uma ordem jurídica formal, qualquer que fosse, para evitar os conflitos globais e generalizados. Afinal, todos se esqueciam da primeira página do livro de Kant sobre a Paz Perpétua, em que o filósofo de Königsberg começa por invocar um estalajadeiro em cuja fachada da hospedaria estava pintado um cemitério com uma legenda significativa: “À Paz Perpétua”. Era, afinal, contra a paz dos cemitérios que o pensador se batia.
A longa guerra do século XX desmentiu todos os optimismos simplistas pelo mais tremendo dos holocaustos e pela destruição de uma parte importante do mundo civilizado. Digladiaram-se os impérios, destruindo-se mutuamente. Da nova ordem emergiu um mundo bipolar baseado no equilíbrio do terror nuclear. A sombra de 8 de Agosto de 1945 esteve presente na memória do mundo durante várias décadas. E a lembrança do horror funcionou como um dissuasor contra novas loucuras. Ficámo-nos pelas tentativas limitadas. Ninguém queria experimentar os efeitos devastadores de um ataque nuclear. Os melhores historiadores têm, por isso, tido o cuidado de evitar conclusões precipitadas sobre o fim da guerra na Ásia e no Pacífico, que prometia durar com um custo imprevisível de novas mortes e devastações… Hoje, depois do fim da guerra fria, sabemos que os riscos de um novo desastre universal, mais ou menos extenso, existem. A dissuasão tornou-se menos evidente pela proliferação de zonas de fractura ou de conflito, num mundo de polaridades difusas. As novas formas de terrorismo somaram-se à tentação de novos imperialismos.
Voltámos a um tempo em que a conflitualidade mundial regressou intensa e imprevisível, por força de novos factores. O “choque das civilizações” pode ser um pretexto, o “terrorismo religioso” serve para acumular desconfianças e provocações, mas a pobreza do terceiro mundo, as desigualdades podem tornar-se um detonador para novos arranjos políticos e novas ambições imperiais. E o neoconservadorismo norte-americano, enfraquecido e cada vez mais céptico, pode estar demasiado entretido com os efeitos da intervenção no Iraque e com o beco sem saída aí gerado, esquecendo-se de que a economia asiática alberga um detonador imprevisível, a que tem de ser dada a maior das atenções, sobretudo se persistir a desatenção relativamente ao fosso que se alarga entre pobres e ricos, designadamente em África, e se continuar a ilusão de que o unilateralismo é melhor do que o multilateralismo.
Em vez do “fim da história”, que Hegel situou em 1805, Kojève em 1945 e Fukuyama em 1989, o que se desenha é a repetição do que sucedeu na sequência dos dois primeiros momentos, ou seja, o avolumar de novas tensões de índole social induzidas pela liberdade política. No entanto, a globalização que vivemos terá de ser cada vez mais económica e “social”. As fronteiras abertas, o livre comércio, irão permitir a comparação de padrões económicos e exigir medidas no sentido de um comércio mais justo, que impeça a instauração de uma lei da selva e a concorrência desenfreada que põe cidadãos contra cidadãos, sociedades contra sociedades e que suscita a destruição a prazo de instrumentos de regulação. Os textos de Amartya Sen têm de ser estudados e lembrados, pois ensinam que só o Estado de bem-estar e o desenvolvimento equilibrado e sustentável podem tornar-se factores duradouros de paz, como também afirmou Paulo VI, de um modo profético. E se falo de paz, falo de sobrevivência da humanidade, o que obriga a olhar com cada vez maior atenção a componente ambiental e ecológica, que, a ser vista com seriedade, pode também tornar-se um limite para a competição sem regras humanas nem a compreensão de que a lei da selva e a incompreensão de que há só uma terra e de que os recursos são finitos levará ao suicídio da humanidade… Eis por que razão a liberdade política, económica, social e cultural tem de ser completada com mais coesão e mais justiça distributiva. Este é o cerne dos problemas contemporâneos.
Estão, pois, enganados aqueles que pensam que a justiça distributiva se alcança com a promessa de tudo, para todos, ao mesmo tempo. Antes, pelo contrário. Se não tomarmos consciência (nos planos nacional e supranacional) dos problemas do desenvolvimento, da finitude dos recursos e da necessidade de antecipar a crise da cobertura dos riscos sociais e de usar a diferenciação positiva para responder às reais carências da sociedade das pessoas chegaremos ao agravamento do egoísmo das sociedade mais ricas e à criação de uma situação mundial ingerível. Os ensinamentos de John Rawls, sobre a justiça como equidade, devem ultrapassar as fronteiras dos Estados nações e o magistério de Michael Walzer, sobre a justiça complexa, deve aplicar-se ao conceito de cidadania universalista.
Cinquenta anos depois de Hiroshima, temos de invocar a memória dos mortos, sobretudo dos inocentes, e a lembrança dos que puderam ser poupados à continuação de uma barbárie sangrenta. Temos de prevenir a repetição desse drama, o que só se conseguirá percebendo a imperfeição da sociedade humana e da democracia e a exigência de políticas de desenvolvimento, de coesão e de aposta nas pessoas e na sua formação. Numa palavra, a cidadania, como respeito por todos e como luta pela dignidade da pessoa humana obriga a lembrar. E temos de perceber que, em vez de uma Europa burocrática e egoísta, precisamos de uma Europa política e de paz e uma Europa social e económica – numa ordem internacional que privilegie a paz e o desenvolvimento