2019/12/05

Tensão em Lisboa, incerteza em Sintra e dúvidas em Oeiras e Gondomar

Está instalada uma guerra surda nas estruturas do PSD de Lisboa, que pode ter efeitos perversos na campanha eleitoral que se avizinha, com consequentes resultados negativos no resultado final. A exclusão das listas de algumas figuras sonantes do PSD, como Pedro Pinto ou Helena Lopes da Costa, o número dois da lista de Carmona Rodrigues é referenciado como “salta-pocinhas” (já foi candidato pelo CDS/PP e pelo PS), as relações com o Partido da Nova Democracia e o apoio de Marques Mendes, acusado de fomentar um espírito de facção, são os ingredientes de uma situação que está a causar apreensões nos meios social-democratas.

As questões políticas que envolveram a candidatura de Carmona Rodrigues ainda não estão totalmente dissolvidas. Alguns criticam a ausência de coligação com o CDS/PP, argumentando que o actual CDS/PP de Ribeiro e Castro, não é o mesmo que foi liderado por Paulo Portas. Há dirigentes social-democratas que insinuam que Marques Mendes deu liberdade excessiva a Carmona Rodrigues, “até porque, num primeiro momento, o novo líder do PSD era adepto dessa coligação, mas alguns complexos de esquerda de personalidades próximas do candidato à câmara de Lisboa, inviabilizaram o acordo entre os dois partidos”, como referiu ao SEMANÁRIO fonte conhecedora de todo o processo. “Acresce que a Dra. Maria José Nogueira Pinto é uma adversária temível e pode beneficiar dos votos dos descontentes do PSD e ter uma votação suficiente para impedir a eleição de Carmona Rodrigues” – uma opinião de um antigo membro da Comissão Política do PSD.
Questão política é também a composição das listas, que criou indisfarçáveis tensões políticas nas estruturas dirigentes do PSD de Lisboa. Se é certo que Moreira Marques foi à última da hora excluído das listas, verdade é que Gabriela Seara não é bem aceite e que não há, por assim dizer, “nenhum peso pesado do PSD nas listas do PSD de Lisboa, o que é absolutamente bizarro”, outra crítica oriunda de uma fonte parlamentar. O ónus desta situação poderá acabar por cair em cima de Marques Mendes, que tem sido muito criticado por algum isolamento que adopta em relação a personalidades do partido que o não apoiaram no Congresso em que foi eleito para a liderança do partido.
“Um grande partido tem de contar com toda a gente e ninguém pode ser marginalizado de dar o seu contributo para as vitórias do partido. Aliás, Marques Mendes é um exemplo, Barroso chamou-o para o Governo, os exemplos de Cavaco Silva são elucidativos, chamou para seus colaboradores próximos dirigentes que, nas lutas pelo poder interno, não alinharam com eles e até lhe chamaram fascista. Ora, nestes primeiros tempos, é certo que Marques Mendes tem ido a todo o lado, está presente nos eventos mais significativos do partido, mas ainda não fez a abertura indispensável e até, em muitos casos, quase se tem comportado como líder de facção, o que é terrível para o seu futuro, se não arrepiar caminho” – afirmações referidas ao SEMANÁRIO por um dirigente que já desempenhou vários cargos relevantes no Governo e no partido.
Noutro âmbito há ainda quem critique alguma passividade com que a pré-campanha eleitoral tem decorrido em Lisboa. “Carmona não sabe trabalhar à pressão, há indicadores de opinião que o dão em baixa, quando começou por ter uma enorme distância em relação ao PS, parece que está tudo a dormir” – desabafo truculento e irritado de um dirigente próximo da distrital de Lisboa, a quem não agradou a evolução deste processo. Como não agradou a aproximação tentada à candidatura do PSD do PND de Manuel Monteiro, bem como as notícias de que não haveria militantes desse partido, mas que, em contrapartida, Carmona Rodrigues reservaria lugares para militantes desse partido. E alguns estranham o silêncio do candidato…
Para alguns círculos do PSD, é inquestionável que a vitória dos social-democratas nas eleições locais parece garantida. “Mas se perdermos Lisboa é como se fossemos derrotados”… eis outra frase elucidativa de uma das fontes já citadas, que acrescentou: “Seria a suprema vingança de Pedro Santana Lopes e dos vereadores agora afastados por Carmona Rodrigues.”

Campainha de alarme em Sintra

Outro local emblemático das eleições autárquicas é Sintra, onde há quatro anos, com surpresa geral, Edite Estrela foi vencida por Fernando Seara, determinando o fim da governação socialista e o início de um mandato social-democrata.
Ao longo dos últimos quatro anos, Fernando Seara criou uma imagem de proximidade com os cidadãos do concelho, a ideia colhida pelo SEMANÁRIO (já referida em edições anteriores) é de que o Presidente cessante “não fez grande obra, mas o que fez foi bem feito e criou a tal imagem de simpatia junto das populações”.
No entanto, o PS investiu em Sintra “verdadeira artilharia pesada”, candidatando João Soares à Câmara e Jorge Coelho à Assembleia Municipal. De acordo com múltiplas fontes locais, há muito tempo que os socialistas estão numa fase de pré-campanha e João Soares, certamente lembrado da displicência com que fez campanha em Lisboa, quando foi desalojado por Santana Lopes, desta vez tem “trabalhado que nem um mouro” (expressão utilizada por uma dessas fontes locais) numa campanha diária de muitas horas, quase porta a porta. Esta intensidade com que os socialistas estão a agir em Sintra parece contrastar com algum alheamento detectado na candidatura de Fernando Seara, o que também está a causar alguma apreensão nas hostes laranja. Além disso, alguns inquéritos de opinião traduzem uma subida do PS, de tal modo que se acredita que em Sintra pode ocorrer uma das votações mais renhidas na área Metropolitana de Lisboa.

Oeiras, Gondomar e Porto

Isaltino Morais suspendeu a sua filiação no PSD, horas antes de anunciar a sua candidatura à presidência da Câmara de Oeiras, como independente. Desse modo, ladeou, de modo politicamente engenhoso, a questão das sanções disciplinares do partido de que, seguramente, seria alvo, incorrendo até na pena de expulsão.
Além disso, criou algumas dificuldades à direcção política do PSD, uma vez que, na suas listas, para a Câmara, para Assembleia Municipal, para as juntas e assembleias de freguesia figuram 286 militantes (o número foi indicado por uma fonte próxima de Isaltino) do PSD e não parece haver meios expeditos para instaurar um número tão elevado de processos disciplinares.
Oeiras é um daqueles concelhos, tal como Gondomar, em que os candidatos, por sinal figuras relevantes do PSD, até agora, têm a capacidade de falar directamente com os cidadãos eleitores, sem quaisquer intermediações da máquina partidária. Isaltino Morais e Valentim Loureiro têm peso político próprio, além de que podem apresentar às escâncaras obra feita durante os mandatos que exerceram no lugar onde agora, noutras condições políticas, querem ser outra vez eleitos.
De acordo com as leituras que o SEMANÁRIO recolheu junto de vários meios locais, nos referidos concelhos, Valentim Loureiro, que hoje apresenta a sua lista, deverá ser reeleito presidente da Câmara de Gondomar. Já em Oeiras, as opiniões são mais díspares. É claro que Isaltino, ele próprio, está convencido da sua vitória, “mas as coisas estão muito empatadas com Teresa Zambujo, já que o PS não entra nestas contas, tão irrelevante que é a sua candidatura” (as fontes são social-democratas). De um modo geral, podemos sintetizar a situação em Oeiras, de acordo com as personalidades contactadas: “Não é fácil medir o efeito que têm nas populações as noticias do eventual envolvimento de Isaltino Morais em situações menos claras do ponto de vista da justiça, que o colocou na situação de arguido. Isaltino tem prestígio e tem obra feita. No entanto, o PSD de Oeiras é uma estrutura forte e, apesar de tudo, Teresa Zambujo tem desempenhado bem as suas funções. É o juízo final dos eleitores que determinará o resultado final. No caso de Oeiras, a expectativa só acaba na fase da contagem dos votos”.
No Porto, havendo uma campanha do PS fortemente dirigida contra Rui Rio e tendo este algumas críticas internas do PSD, por causa do afastamento de Paulo Morais, até agora o seu número dois, na Câmara, a tranquilidade é absoluta: “Rui Rio vai empenhar-se na campanha eleitoral e, quase seguramente, obterá a maioria absoluta.” Veremos se o eleitorado da Invicta ratifica, ou não, estas previsões, de um antigo dirigente social democrata.|PC

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