Agenda de Barroso alimenta esperanças de um “boom” tecnológico

Com um perfil focado no crescimento, criação de emprego e inovação tecnológica, o plano de Barroso parece ser “genuíno” refere Laura D’Andrea Tyson, na “BusinessWeek”.

José Manuel Barroso tem sido criticado por uns e elogiado por outros. Nas páginas do SEMANÁRIO, sublinhavam-se recentemente os reparos feitos por um colunista do “Financial Times”, que denunciava o carácter “intergovernamentalista” do presidente da Comissão, acusando-o de estar a descurar a componente supranacional da União Europeia, ao centrar os objectivos estratégicos do seu mandato na redefinição da Agenda Lisboa. Para Wolfgang Munchau, Barroso definiu mal as prioridades ao optar por um instrumento – cuja a sua validade não é colocada em causa – que depende única e exclusivamente dos Estados-membros.

Ainda segundo este colunista, a missão de Barroso está inevitavelmente condenada ao fracasso perante as incompatibilidades e interesses dos vários países, que impedirão qualquer adopção de reformas para a implementação da Agenda de Lisboa.

Mas, a verdade é que a opção feita por Barroso, visando a revitalização da economia europeia, como meio de criar 6 milhões de empregos até 2010, parece ser a única forma de se aprofundarem posteriormente as áreas sociais e ambientais. No entanto, segundo o presidente da Comissão é necessário fomentar o investimento e desenvolvimento tecnológicos para colocar o crescimento económico europeu nos índices de, pelo menos, 3 por cento ao ano. Nem que para isso se secundarizem, para já, algumas políticas sociais e ambientais.

Ora, à primeira vista esta pode parecer uma medida pouco atractiva, mas que é efectivamente premente. Visto que sem um desenvolvimento económico robusto a União Europeia não consegue sustentar de forma eficaz outras políticas. Além do mais, o desemprego é um dos principais problemas que preocupam os europeus.

Assim sendo, a agenda programática da Comissão para os próximos cinco anos pode ser um bom instrumento para a União Europeia reforçar o seu motor económico. Com um perfil focado no crescimento, criação de emprego e inovação tecnológica, o plano de Barroso parece ser “genuíno” refere Laura D’Andrea Tyson, na “BusinessWeek”. “Depois de uma década de desapontamento na perfomance económica, está a Europa equilibrada para um ressalto sustentável? Existem razões para se pensar que sim.”

De acordo com Tyson, a questão da produtividade na Europa não está assim tão mal como se julga. Atente-se que no seio dos Quinze os índices de produção por cada hora são ligeiramente inferiores aos dos Estados Unidos. Entre 1995 e 2004, segundo dados do “Conference Board”, as taxas de produtividade entre os dois lados do Atlântico diferem apenas um por cento – 2,5 por cento nos Estados Unidos e 1,5 por cento na Europa ao ano. Nos casos particulares da Áustria, França e Suécia os valores estão próximos dos americanos.

Perante este cenário, Tyson acredita que as medidas apresentadas por Barroso podem ser aplicadas numa base que está solidificada. A acrescer a isto, aquela especialista defende que as reformas que estão a ser feitas na Alemanha vão, certamente, ter custos elevados nos próximos, mas que a médio e a longo prazo vão contribuir beneficamente para a redução de custos laborais e das restrições do mercado de trabalho.

A própria adesão dos dez novos Estados veio fazer com as empresas da União investissem mais em tecnologias de informação e comunicação para fazer face aos desafios vindouros. A necessidade de adaptação a uma nova realidade e a valorização do euro está a “obrigar” as companhias europeias a focarem-se na produtividade e na redução de custos dos investimentos adicionais. Por isso, os economistas da Morgan Stanley prevêem que a Europa possa estar perante o início de uma nova onda de produtividade, tal como aquela que assolou os Estados Unidos há uns anos com o “boom” do mercado das tecnologias de informação.

“O mais importante que a Comissão Europeia pode fazer para aumentar a produtividade é acelerar a desregulamentação do mercado, especialmente nas áreas das telecomunicações, serviços e negócios”, escreve Laura D’Andrea Tyson. Esta lógica assume contornos importantes, uma vez que a Europa ainda é regida por regimes de regulamentação nacional que, por vezes, criam barreiras à expansão de actores económicos.

Indecisos decidem legislativas

Conquistar os indecisos, numa derradeira corrida final, captar algum volume do eleitorado que até ontem se confessava abstencionista, manter a fidelização dos eleitores do PSD de há três anos, são os três objectivos definidos para as derradeiras manifestações de campanha do PSD.

Conquistar os indecisos, numa derradeira corrida final, captar algum volume do eleitorado que até ontem se confessava abstencionista, manter a fidelização dos eleitores do PSD de há três anos, são os três objectivos definidos para as derradeiras manifestações de campanha do PSD. Santana Lopes recebeu o apoio de Balsemão e a promessa de voto, no PSD de Pacheco Pereira. As últimas horas, dinamizou-se um sentimento de unidade dos social democratas.
A campanha eleitoral esteve centrada nos líderes partidários, obscurecendo, com isso, as actividades dos outros dirigentes, sobretudo dos que são cabeças de lista nos diversos distritos. Há uma campanha intensa que não foi mediatizada a nível nacional, embora o tivesse sido nos meios de comunicação, através da imprensa e das rádios locais. Em quase todos os distritos houve debates acesos e controversos entre os cabeças de lista. “Não é fácil medir o efeito nos eleitores dessas acções de campanha, uma vez que as atenções ficaram polarizadas nas lideranças, vamos aguardar” – disse ao SEMANÀRIO um dos mais importantes dirigentes social democratas.
Não é possível dar notícia do comício de ontem à noite no Pavilhão Atlântico, com que o PSD encerra as manifestações de massas no distrito de Lisboa e sobre o qual se geraram durante a tarde muitas expectativas. “É a cabeça do Miguel Relvas – secretário geral e cabeça de lista por Santarém – que está em jogo” comentava alguém com responsabilidades na direcção do PSD
Aposta eventualmente ganha, a acreditar na capacidade de mobilização que os social democratas demonstraram na campanha e que os leva a dizer que não houve nenhuma iniciativa falhada, de todas aquelas em que interveio Pedro Santana Lopes. Que efeitos pode ter no eleitorado os últimos passos deste mal amado líder social democrata e até agora com um breve e controverso consulado como Chefe do Governo?
A pergunta tem justificação e as respostas concretas só se poderão interpretar depois de fechadas as urnas e contados os votos.
” O que está em cima da mesa é tudo e é tanto, neste exacto momento, em que todas as contas são possíveis, em que é útil e necessário afrontar as sondagens, quase todas desfavoráveis e apontando para da derrota do PSD e para a vitória relativa do PS”. Esta afirmação, de um membro da Comissão Permanente, é justificada pela percepção e pelos estudos constantes da evolução do sentido de voto dos eleitores, a poucas horas do encerramento da campanha: Segundo a mesma fonte, na quinta feira de manhã, “O número de indecisos e de abstencionistas ronda entre os 43 e os 45% e com estes números, se forem verdadeiros, as contas estão todas em aberto e as derradeiras sondagens devem ser particularmente cautelosas na distribuição pelas forças concorrentes dessa enorme e poderosa fatia do eleitorado”. E num tom de voz mais baixo, quase ciciado: “O PSD tem dito muitas vezes ao longo desta campanha que as sondagens dos últimos dias têm sido frequentemente desmentidas nas urnas”, embora reconhecesse que, no que diz respeito ás legislativas, “a fiabilidade tem sido razoável”.
Nos últimos dias, a liderança do PSD conseguiu juntar à sua volta personalidades conhecidas. Pinto Balsemão, militante nº 1 foi muito claro, não utilizou subterfúgios ou meias tintas. “Vou votar no PSD, a hora é de unidade”. Mais sinuoso foi um dos carrascos internos dos social democratas em relação a Santana Lopes: Compreende os que não querem votar no PSD e no seu candidato a primeiro ministro, mas ele, Pacheco Pereira, assumiu, como se pode ler no Público de ontem, “um argumento ingénuo nestes tempos de cinismo: Voto no PSD para ter apenas uma legitimidade, a de poder contribuir para a sua mudança depois do dia 20 de Fevereiro”.
É uma atitude “que não chega a ser presente envenenado” – comentou uma fonte próxima de Santana Lopes – oxalá toda a gente fizesse o mesmo, aliás como pediu o líder, porque se houvesse uma absoluta fidelização dos votos de 2002, o PSD seria o partido mais votado”…

Alguns casos particulares

Muitos observadores notaram as ausências de José Luís Arnaut e de Nuno Morais Sarmento atribuindo-lhes um resguardo político durante a campanha que “efectivamente não tiveram”, como nos disseram fontes próximas de ambos. E explicaram: “O Dr Josér Luís Arnaut viveu praticamente as últimas semanas
no distrito de Viseu, uma herança que recebeu de Durão Barroso e que tem tratado com todo o desvelo, esperando obter, como aconteceu há três anos, os melhores resultados possíveis para o PSD. Calcorreou, com vagar todo o distrito, concelho a concelho e a quase totalidade das freguesias, numa campanha porta a porta. Foi recebendo apoios, ao longo de algumas fases da campanha de dirigentes como Dias Loureiro, António Mexia e Nuno Morais Sarmento. Que culpa tem disso não ter tido visibilidade, salvo quando Santana Lopes foi ao comício de Viseu?..”
Alguma expectativa existe no PSD em relação ao distrito do Porto Aguiar Branco fez uma campanha mobilizadora e “foi até surpreendente a aceitação na campanha de Rui Rio”, que teve “um bom teste no sentido de ponderar uma cada vez mais provável recandidatura à Câmara”. O actual ministro da Justiça é um homem do Porto, foi até elogiado por um adversário político, “não é impossível aguentar o eleitorado de há 3 anos no distrito do Porto”, opinião de uma fonte próxima da distrital laranja.
Outro foco de atenção diz respeito a Castelo Branco, onde o cabeça de lista e vice-presidente do PSD, Nuno Morais Sarmento deu nas vistas na abertura da campanha, por ter sido nessa cidade o comício inaugural. Depois nunca mais ninguém ouviu falar dele, mas a verdade “é que residiu praticamente o tempo todo no distrito nas últimas semanas e foi um crítico implacável, persistente e eficaz do cabeça de lista socialista – um ausente presente, chamado José Sócrates”. Sarmento não teve um minuto de descanso, subiu e desceu serras, foi aos concelhos e às freguesias, participou em debates e andou nas ruas. “Não pode ser acusado de falta de combatividade política e até encontro espaço para ajudar a campanha fora do seu círculo eleitoral”.
Nos círculos mais pequenos, a “guerra dos votos” é mais acentuada. “Duarte Lima que feito vai ter o seu regresso à vida política, como cabeça de lista em Bragança?. Ganhou uma aposta. Recolheu o apoio de Miguel Cadilhe que é um dos homens que estará em foco a partir de segunda feira no caso de uma copiosa derrota eleitoral do PSD”
As últimas sondagens variam entre a ausência de maioria absoluta e a sua obtenção pelo PS. Há controvérsia em todas elas na distribuição e ponderação dos indecisos e dos abstencionistas. Os últimos trunfos eleitorais estão agora a ser jogados. Não é possível avaliar se os dados lançados estão todos na conformidade daquilo que se diz ser a vontade dos eleitores. Surpresas? Veremos. Talvez sim ou talvez não. O que faltará, provavelmente é o indispensável sentido da estabilidade, mas não é esse provavelmente a mola real dos eleitores, mas antes decidirem-se por escolhas do tipo quem será o mal menor…

O sistema merece um sustopor Jorge Ferreira

O caso do PS é ainda mais ridículo. Manuel Pinho só foi visto no golfe, talvez em Espinho…

A campanha eleitoral que hoje termina provou que o sistema merece um susto. Depois de um pesadelo PSD/CDS, que durou quatro meses, depois de uma campanha lamentavelmente vazia, oca e superficial do PS, e depois da tentativa de branqueamento do CDS, fazendo de conta que não esteve no Governo nos últimos três anos, é caso para dizer que o sistema merece um susto.
E qual é o susto? É um voto atípico que ponha em causa o Establishment partidário do costume. Os partidos tradicionais estão instalados e prisioneiros de interesses e clientelas. Perderam a alma reformista. Resta-lhes a preguiça conformista. Com o país a viver cada vez pior.
É sintomático o exemplo dos candidatos do PS e do CDS por Aveiro, círculo eleitoral onde concorro como cabeça de lista da Nova Democracia. O exemplo dado por estas duas pessoas revela o grau de degradação a que chegou o sistema político e a relação de representação entre os cidadãos e os deputados.
A história de Paulo Portas é simples de contar. Vai a Aveiro de quatro em quatro anos pedir votos. Aos amigos das feiras, que visitava com espavento, já não lhes fala. Aos jornalistas que outrora bajulava, ignora-os. Ao eleitorado, a quem fazia juras de firmeza e combatividade, colocou-o como elemento de mera encenação de raides cheios de seguranças só para o boneco do telejornal. Já não se atreve a sair à rua. Já não consegue passear numa feira sem arriscar umas partidas de Carnaval de eleitores ou de antigos combatentes menos compreensivos, como lhe aconteceu em Vale de Cambra.
O caso do PS é ainda mais ridículo. Manuel Pinho só foi visto no golfe, talvez em Espinho… e nas salas dos conselhos de administração de algumas empresas do distrito. Manifestamente não sabe, nem quer saber nada de Aveiro e dos seus problemas. A revolta grassa no próprio PS. A debates faltou a todos, alegando o mau exemplo de Paulo Portas, que também não se atreveu a ir a nenhum. Além de pára-quedista, é um candidato fantasma, a que só o sistema eleitoral português salva de uma humilhação eleitoral mais do que justa.
Se a democracia portuguesa tivesse regras justas e sadias estes dois homens eram punidos eleitoralmente por deserção política. Mas provavelmente, serão eleitos, no anonimato de uma lista partidária. Os partidos do sistema, além de governarem mal, arrogam-se o privilégio de ignorar quem neles querem que vote. Precisam de um valente susto. Eu vou fazer a minha parte, votando na Nova Democracia

Brrrrrr… vem aí a maioria absoluta do PS por Paulo Gaião

A seguir ao voto em Soares em 86, o voto com maioria absoluta em Sócrates pode ser o segundo grande fenómeno de voto com a cara tapada em Portugal

O voto de domingo promete ser o mais racional de sempre, com Sócrates na hora certa e no momento certo para vencer com maioria. O eleitorado, que tem sido inteligente a votar, desde que votou pela primeira vez em 1975, já deve ter percebido há muito que se fosse pelos méritos de Santana e Sócrates não votava. Mas, inteligente que é ( como o foi ao votar PS em 75 e 76, Eanes em 80, PRD em 85, Cavaco em 85, 87 e 89, Soares em 86, Guterres em 95, Santana em Lisboa/2001e até, com alguma benevolência, Sampaio em 96) o eleitorado pode votar no domingo, essencialmente, por razões de lógica, raciocínio e estratégia no PS, tapando a cara ao engenheiro Sócrates mas votando, real e estrondosamente, socialista. Pode ser, pois, o segundo grande fenómeno de voto com a cara tapada em Portugal, depois de Cunhal ter criado esta forma de voto em Mário Soares para Belém. Desta vez, a única diferença, é que o eleitorado está, espontâneamente, preparado para votar com palas, ultra-defendido para não cair em tentações desviantes, quer à esquerda, quer à direita, e entregar-se nas mãos do PS. Certamente que não vai ser feliz mas pode vir a ter algum descanso e estabilidade, deixando de andar com o coração apertado e os bofes de fora por causa da política.
Quais as razões deste voto, sem dúvida pouco saudável, mas parece que necessário? Votando, essencialmente para ser (e deixar-se ser) governado, o eleitorado livra-se do comportamento errático de Santana e do casamento instável entre Santana e Portas, votando, no fundo, por uma questão de instinto de sobrevivência, mesmo de estado de necessidade. Quase se entregando nas mãos de uma maioria absoluta do PS, como, em 1926, os portugueses de então se entregaram nas mãos de uma ditadura que não era uma forma curial de governo mas representava uma esperança depois de anos e anos de instabilidade na I República. Como a democracia não permite golpes de Estados, a maioria absoluta do PS pode ser a forma possível e sucedânea de um “putsh”. Em termos mais comezinhos, o eleitorado vai votar em Sócrates como se vota numa administração de condomínio, uma coisa que já de si é chata e ainda mais quando a administração cessante nem as luzes fundidas da escada sabia substituir.
O eleitorado tem a consciência que chegou ao fim da estrada. Daí que possa estar mesmo preparado para, no próximo domingo, engolir coisas que de outra forma não engoliria. Designadamente, as intimidações de Mário Soares de que os portugueses não serão responsáveis se não derem uma maioria absoluta ao PS e, claro, engolir Sócrates com as suas palmoadas cada vez mais irritantes, de que os seus adversários são deprimentes, de que são ridículos, de que tudo é um disparate pegado (assim mesmo), de que ele é o super-Sócrates e os outros são uma cambada de burros. O povo detesta estas volúpias de carácter (não passou despercebido que Sócrates tivesse interrompido o debilitado Jerónimo de Sousa, que pouco tinha aberto a boca, no debate da RTP) e estas manias virtuosas de que está acima dos outros. Dói que se farta na alma, ainda por cima porque deve haver consciência de que estes ares superiores vão aumentar no governo, mas não adianta questionar. O que tem que ser tem muita força. E há sempre pequenos lenitivos para disfarçar a amargura, processos que se criam para nos enganarmos ali, nos iludirmos acolá, autênticos mecanismos de defesa. É possível que, no domingo, muitos portugueses que votam PS construam o seu voto na base de um processo racional deste género, que os visa proteger e encerra em si um pensamento estratégico: o PS governou mal em 2001 mas pode ter governado pior porque governou sem maioria absoluta. O facto de o país ter chegado a um estado em que parece condenado a apostar, favorece Sócrates, como produto novo, e prejudica Santana e Portas, que foram poder e não funcionaram como deveriam ter funcionado. Tudo tem um preço. E o preço a pagar a 20 de Fevereiro, também pelo PP, pode ser o de a direita ser ainda mais penalizada do que o foi nas europeias do ano passado. O povo pode não admitir (não esquecendo, nem perdoando) a rábula ou a peça da vida real (para o caso pouco interessa) que Santana e Portas fizeram no último Outono, zangando-se, reconciliando-se, falando em irem separados às urnas. Na altura, pareceram óbvios os riscos destas atitudes, não se percebendo como é que dois partidos no governo, ainda com um horizonte de dois anos pela frente, podiam andar nestas cogitações, geradoras de preocupações no país e em Belém. Hoje, quando Santana repete que lhe interromperam a legislatura, a lembrança desta instabilidade na coligação é ainda mais negra. Depois, há outro aspecto onde o discurso do PS faz todo o sentido e que pode encaixar que nem uma luva nas linhas com que se cose o eleitorado. Não é só Santana e Portas quem estão a ser julgados a 20 de Fevereiro mas também Durão Barroso, o discurso da tanga, a política de Ferreira Leite, o beco sem saída a que Durão conduziu o país e que está, aliás, na origem do voto humilhante recebido nas europeias de Junho, mais um voto inteligente exercido pelo povo. Por último, o facto de o Parlamento não pode ser dissolvido durante quase dois anos é mais um dado que deverá induzir o eleitorado a votar, forçosamente, Sócrates. Há quem refira que o eleitorado não se rege por vissitudes político-constitucionais. Mas o que interessa é a ideia simples, mais ou menos percebida, que fica de que o país pode ficar ingovernável sem uma maioria absoluta. Fosse do PS ou do PSD. O eleitorado é inteligente mas pensa simples e não gosta de coisas sofisticadas. Esta, talvez, a explicação, para que aquilo que fosse desejável acontecer no próximo domingo, um estrondoso voto contra o sistema, através da abstenção, do voto branco ou do voto nulo, não possa ter lugar. E talvez até seja bom que não aconteça, no fundo com o eleitorado a dar aqui lições da arte de governar a comentaristas que vivem na estratosfera. Percebem-se, porém, as razões invocadas por Agustina Bessa Luís para votar Santana. Como, voltando à metáfora comezinha da administração de condomínio, se percebe que toda a gente simpática do burgo preferisse ter Santana Lopes como vizinho do que José Sócrates (uma pergunta que as sondagens não fizeram). Só que, muitas vezes, não é possível conciliar o útil e o agradável e, perante isto, não vale a pena perder tempo com quimeras do desejo.

A estratégia não ajuda.

Quando Santana Lopes e Paulo Portas acentuam que José Sócrates pode ficar refém do BE e do PCP depois das eleições do próximo domingo podem estar a cometer o erro estratégico de levar os indecisos a votarem no PS, exactamente para que o país possa ser governado, sem condições e sem estigmas, ora porque o BE é contra a NATO, ora porque o PCP é contra a Europa. Ainda por cima, outro erro estratégico, agora da parte do Bloco, pode também favorecer o PS. Quando Francisco Louçã repete que nunca irá para o governo com o PS, pode estar a levar muito votante à esquerda dos socialistas a votar útil em José Sócrates.

Não há razão para a direita perderpor Rui Teixeira Santos

Não há nenhum eleitor que tenha votado em Durão Barroso que vá agora votar em José Sócrates. Bem pelo contrário, o que assistimos é a uma mobilização extraordinária do CDS/PP, que bem pode permitir que o CDS/PP vá buscar votos suficientes para tirar deputados ao PS, por exemplo, em Coimbra ou em Viana do Castelo.

Não há nenhum eleitor que tenha votado em Durão Barroso que vá agora votar em José Sócrates. Bem pelo contrário, o que assistimos é a uma mobilização extraordinária do CDS/PP, que bem pode permitir que o CDS/PP vá buscar votos suficientes para tirar deputados ao PS, por exemplo, em Coimbra ou em Viana do Castelo. E basta isso para que o PS não tenha a maioria absoluta. A única questão agora prende-se com o PSD. Os cabeças de lista abandonaram a campanha, ficando em palco apenas Santana Lopes. (Em boa verdade eles eram todos terceiras figuras, pelo que até pode ter funcionado a favor. Veremos.)
É verdade que o poder não se conquista. O poder perde-se e o que a direita fez foi, exactamente, tudo o que pode para perder o poder: desde Cavaco Silva a Marcelo Rebelo de Sousa, de Pacheco Pereira a Freitas do Amaral, todos fizeram tudo o que podiam e sabiam para que o PSD perdesse estas eleições, no que foram acompanhados pela generalidade de imprensa e da opinião publicada e televisiva. Os governos da AD foram maus e, muito pior, é o desânimo que tomou conta do PSD e dos militantes do PSD nesta campanha. É inexplicável que os cabeças de lista não tenham feito campanha, certos que os seus lugares estavam assegurados. Só que alternativa é o transformismo, o jogo táctico de um guterrismo reciclado e sem soluções, que não entusiasma o País também.
Aliás, o síndroma transformista atacou também nos jornais, num misto de perda de dignidade e de valores, que tornou opaco o regime político. Já se tinha percebido isso com o Presidente da República. No próximo domingo à noite o mesmo Presidente terá definitivamente deixado tudo na mesma ou, pior ainda, contribuído para a falência deste regime político. E o efeito acaba por ser contrário ao pretendido, porque transforma em concreta a vitimização que caracterizou a campanha do PSD, tornando evidente que nada foi coincidência.
É este sentimento de excesso e de jogada traiçoeira que torna improvável que o eleitorado que votou antes no PSD vá agora votar no PS. Já ninguém vai atrás de Marcelo Rebelo de Sousa ou mesmo de Cavaco Silva, depois das cenas dos últimos capítulos. Não é possível julgar, e o eleitorado não o fará, um Governo com quatro meses, por muito mau que tenha sido e por muito inábil que tenha sido a sua comunicação. Por isso mudar não faz sentido, e o eleitorado não sente que pudesse ter melhor. A alternativa é a instabilidade e a instabilidade, neste contexto, significa transformar o País num casino e em dois banqueiros, repetindo a lamentável abordagem do conde de Burnay, em vésperas do colapso da monarquia constitucional. Isso só significaria que os ricos ficariam mais ricos à custa do empobrecimento das classes médias e do endividamento do País (que obviamente os banqueiros agradeciam). E, quanto mais pobre e mais provinciano o País fosse (os banqueiros são mais provincianos do que eram os militares que voltaram para os quartéis, ou que os políticos que falharam e destruíram o Regime Democrático), mais os banqueiros estariam defendidos da concorrência externa que não apareceria, e do futebol à comunicação social, da energia ao abastecimento de água, tudo passaria pela banca e ou pelos seus protegidos.
Há que ter consciência que, não havendo qualquer possibilidade do PS ter maioria absoluta, se não houver uma maioria de centro-direita, o País entra numa espiral de instabilidade que apenas novas eleições legislativas poderão pôr cobro.
Só que a interrupção da legislatura só pode, por imperativos constitucionais, ser feita depois de 20 de Novembro de 2006, ou seja, daqui a cerca de dois anos. Nos próximos seis meses a nova Assembleia não pode ser dissolvida, depois, nos últimos seis meses de mandato do Presidente Sampaio, este perde os poderes de dissolução e finalmente o novo Presidente da República, a ser eleito em Janeiro de 2006, só tomará posse depois de 20 de Março do próximo ano, o que significa que só terá poderes constitucionais para dissolver o Parlamento depois de Setembro, pelo que as eleições antecipadas só poderiam ser marcadas para fins de Novembro ou Dezembro de 2006.
E sem Governo, ou com Governos frágeis e instáveis (primeiro o PS sozinho, depois o PS com o apoio do PP, depois ainda o ensaio à esquerda e finalmente o Bloco Central para aguentar as coisas até às legislativas antecipadas), o poder cairia nas únicas instituições da sociedade civil que funcionam e que ganham com a crise e com o endividamento do Estado e o descontrolo das contas públicas, ou seja, os bancos.
E nesse sentido, parece cedo para que isso aconteça. Parece mesmo insignificante a “entourage” de Pedro Santana Lopes. O eleitorado do PSD até gosta do primeiro-ministro, mas pode ser tentado a dar um voto de protesto contra os Morais Sarmento, os Relvas, os Arnauds, os Aguiar Brancos e toda a gente que o circunda e que só faz perder votos. Só que esses são eleitos de qualquer modo (eis uma das perversidades desta democracia) e se o centro-direita não tiver a maioria, a instabilidade política será também a expressão da falência dos políticos e, portanto, o governo dos banqueiros.
Por muito interessante que seja para o filósofo político a discussão à volta da falência do regime democrático, o certo é que a sua reforma em estabilidade tem-se mostrado mais compatível com o crescimento económico e com o enriquecimento dos países. Se repararmos, toda a Europa, ao contrário de Portugal, tem mantido uma enorme estabilidade política, pelo simples facto que não há nenhuma razão para mudar de Governo e não há alternativas no quadro europeu às políticas actuais. Este realismo explica por que é que Blair vai para o terceiro mandato, por que é que Schroeder vai ganhar as próximas legislativas, ou por que é que Aznar apenas perdeu as eleições em Espanha por causa do atentado de Atocha no 11-M.
E no caso português há ainda uma razão adicional que prejudica substancialmente o PS: os partidos da esquerda, como o Bloco de Esquerda, e, sobretudo, o PCP, com este espantoso líder, Jerónimo de Sousa, conseguem estar a crescer ou pelo menos conseguiram estancar o crescimento do PS à esquerda, o que dificulta muito a vida ao líder do PS. Sem poder crescer à esquerda e com o eleitorado do centro sem vontade de votar no PS, ainda que a “burrice” da elite política da direita a tenha feito entrar num inexplicável processo de autofagia, os socialistas correm o risco de ter criado na comunicação social expectativas demasiado elevadas, que façam do resultado do próximo domingo sempre um mau resultado, prejudicando definitivamente a possibilidade de um governo minoritário. Acresce ainda a falta de credibilidade, num contexto de instabilidade política, do Presidente da República, cuja legitimidade já não servirá para sustentar nenhuma solução política que não tenha clara sustentabilidade parlamentar.
É, por isso, que a direita ainda pode ganhar as eleições de domingo.