2026/04/09

Somos todos federalistas

Barroso foi à Finlândia para organizar a Europa dos pequenos contra o directório. Mas, agora, só o aprofundamento do federalismo, com a criação de um Senado com poderes legislativos, pode dar voz a países como Portugal.

Chegou o momento da direita portuguesa ser mais federalista que a França ou a Alemanha que, esta semana, defenderam na Convenção Europeia, traduzida na liderança bicéfala entre um presidente do Conselho, legitimado intergovernamentalmente, e o presidente da Comissão Europeia eleito pelo Parlamento Europeu.

Diante desta realidade, não serve para nada a crítica dos pequenos. É altura de propor o aprofundamento da União Europeia, com a criação de um Senado Europeu, com poderes legislativos em matéria orçamental, monetária, de defesa e de estrangeiros.

Quando a França e a Alemanha celebram o acordo à volta da “Europa do directório”, é evidente que já levam o acordo antecipado da Inglaterra, Itália e Espanha. E não vale a pena gritar agora palavras de ordem nacionalistas, quando há cinco ou seis anos, os mesmos nada fizeram para contrariar o inevitável: o sonho imperial de Bismarck e do nacionalismo alemão está mais próximo do que nunca, nesta União Europeia a caminho de 25 Estados-membros, em que o império tem a sua quinta a leste e nomeia para seu comissário para os mediterrânicos, que lá estão, o Chirac dos franceses.

E custou, então, o sacrifício de Manuel Monteiro e a expulsão do CDS/PP do Partido Popular Europeu, justiça seja feita, porque o discurso não cabia à direita, sempre antiamericana, e não convinha aos alemães, empenhados nos Estados Unidos da Europa. E nada de esquecer que foi ali que Freitas do Amaral rompeu com o partido que fundou…

E agora?, quando tem que ser o embaixador de Madrid a vir dizer que não existe o mercado ibérico, mas antes dois mercados na Península Ibérica: o português e o espanhol?

Agora, foi Barroso à Finlândia procurar apoios para uma frente da “Europa dos pequeninos”, preocupação sincera do primeiro, mas que peca por tardia. Porque agora bem nos valia que a rendição fosse à Alemanha e não a Madrid, porque aqui a distância sempre conta.

Diversificar dependências

Ninguém tem dúvida, em Portugal, apesar do peso do partido espanhol em Lisboa, que seria sempre melhor dependências diversificadas, que a tutela dos castelhanos. Mas eles já compraram, não me esqueço do que fizeram. Portugal e Espanha já não têm qualquer questão, porque eles simplesmente já compraram…

E o problema não são os espanhóis, eles mesmos, nossos vizinhos, bem mais animados que o burgo lusitano. A questão é a da autonomia dos nossos centros de decisão e do peso específico do país no concerto da União Europeia. Porque se a direcção-geral de um banco ou de uma empresa for em Madrid, a decisão é lá tomada, e se fosse em Paris ou Berlim, provavelmente a organização seria outra.

Já não vamos a tempo de proclamar a independência.. Já perdemos o comboio da autonomia, e resta, apenas, a Lisboa, a gestão das dependências, naquilo que ainda sobra. E o que sobra é a Caixa Geral de Depósitos, o BCP, o BES e o BPI, a Soporcel e a PT.

Não há um problema de produtividade em Lisboa

Já não vamos a tempo de competir com a centralidade dos países de Leste que aderirão à União Europeia. Mas temos que abandonar o discurso da competitividade e da produtividade como factor vital de sucesso do país, porque, a bem dizer, não temo um problema de competitividade, mas vários problemas.

Porque Lisboa está bem acima da média da UE, com apenas três milhões e meio de habitantes a produzirem mais de 50% do PIB, ou seja, mais de 65 mil milhões de euros, contra o resto do país, com problemas de subdesenvolvimento gritantes. Ou seja, captar investimento estrangeiro para o Alentejo, Trás-os-Montes ou o Algarve pode justificar-se, mas torna-se um absurdo em Lisboa, uma capital ao nível do mais desenvolvido do mundo, com os seus típicos problemas de exportação de poupança e de miscigenação cosmopolita.

E este cosmopolitismo trouxe a Portugal a imigração da África, do Brasil e do Leste europeu, acentuadamente nos últimos anos, o que veio viciar as estatísticas, até porque nesta fase eles aumentam sempre mais que o produto, que a dividir pela população, e por hora de trabalho, obviamente dão a imagem irrónea de que a produtividade do país está a diminuir.

Ora, bem pelo contrário, temos boas razões para acreditar que a produtividade nacional está a aumentar, não fora a imigração, que pouco valor acrescentado traz, porque praticamente destinada a serventes da construção civil, à limpeza das habitações ou à manutenção da agricultura de subsistência, que garante os “hobbies” pastorais dos portugueses ainda recém-urbanizados, e se medida em Lisboa.

Se o primeiro vector de uma estratégia de autonomia tem que passar pela diversificação das dependências da economia e da sociedade portuguesa, a pedagogia política para consumo interno tem que passar pelo entendimento pois o que falhou foram os factores de coesão nacional e não o desenvolvimento de Portugal.

E é isso que explica que, apesar dos tempos difíceis que vivemos, provocados pela irresponsabilidade socialista e pelo fundamentalismo contabilista, os empresários começam a achar que Portugal vale a pena, faltando-lhe não o estudo da competitividade por sectores a nível nacional, que aliás Porter já fez, mas antes o levantamento das assimetrias regionais, onde o problema se coloca.

O que choca é exactamente o amadorismo como os poderes públicos estão a actuar, a incompetência de quem aconselha o primeiro-ministro. E como estratégia complementar há que ter em atenção a reforma institucional da União Europeia. E lamento que também, nesta matéria, Barroso não esteja a ser ajudado.

Porque obviamente não vale de nada estar contra a Europa do directório, uma realidade já decidida e, aliás, já paga pela Alemanha e pela França.

Criar um Senado Europeu

O que sobra aos pequenos países é a exigência do aprofundamento do federalismo na União Europeia, da mesma maneira que há seis anos a crítica ao federalismo era a oposição razoável para que os equilíbrios se mantivessem. Os esforços de Guterres em Nice foram a sua morte política para a Europa, mas também a do sonho de influência dos pequenos, numa Europa de iguais, onde ainda se sonhava com o espaço de intervenção autónoma dos Estados-membros.

Agora a escassos meses do alargamento e da nova Constituição da Europa, a maneira de combater o directório que imporá aos restantes Estados-membros os seus interesses na nova Europa é através da exigência da organização de um Estado federal europeu, com uma clara divisão de poderes entre os diversos órgãos.

E o que os pequenos países vão ter que propor e impor com a força de quem convictamente defende uma Europa federal unida, como espaço de afirmação de liberdade e de democracia, é que exista um Senado Europeu, onde todos os 25 Estados-membros estariam representados em pé de igualdade, com competências inalienáveis em matéria de direitos, liberdades e garantias, orçamental, de fiscalidade, de defesa e de relações externas (imigração e sanções a países terceiros), para além do decidido entre os grandes no jantar Chirac-Schroeder (que o Parlamento Europeu eleja a Comissão Europeia, com poderes mitigados e que o Conselho Europeu escolha o presidente do Conselho, com poderes alargados), combinando assim a legitimidade democrática (controlada pelos grandes partidos europeus, como o PPE e o PSE) do Parlamento Europeu, com a vontade do directório dos grandes países na Conselho Europeu.

Três legitimidades na Europa

Os pequenos países já não vão conseguir alterar as decisões da Alemanha e da França, pelo que será pura perda de tempo o que Barroso anda a fazer. Agora, e Barroso não tem culpa disso, resta apenas aceitar o que está decidido e avançar, com um discurso político ainda mais firme para a Europa federal.

É a única maneira que temos de dar a volta ao texto e ainda ter algum peso no contexto da nova Europa. O Senado traduziria a legitimidade da Europa das nações e ficaria com o verdadeiro poder legislativo na União Europeia. O Parlamento representaria a Europa dos cidadãos e escolheria o presidente da Comissão, uma espécie de primeiro-ministro com poderes mitigados.

E, finalmente , o Conselho Europeu daria a componente intergovernamental e seria o responsável pela escolha do presidente e do ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, que seria a verdadeira liderança executiva da Europa, num modelo semipresidencialista, mais próximo do presidencialismo francês que do parlamentarismo alemão.

Portugal tem agora, nesta véspera do alargamento, um momento, que pode ser o seu momento, depois da credibilidade acrescida que as contas de Ferreira Leite garantem (já que servem para pouco mais que isso mesmo). Portugal não tem mais oportunidade para experimentar ministros incompetentes e que andam a aprender com os erros. Barroso sabe disso, e ainda que a sua agenda política interna não justifique uma remodelação no curto prazo, pelo menos deveria ter a responsabilidade de se rodear melhor…

PS mantém confiança em vereadora suspeita de peculato

O líder do PS/Algarve mantém a confiança política em Nídia Amaro, a vice-presidente da autarquia de São Brás de Alportel a quem a Inspecção Geral da Administração do Território (IGAT) acusa de ter utilizado meios da autarquia em proveito próprio, o que levou a oposição a questionar a relação entre a vereadora e o partido.

João Nascimento, do PSD, questiona os dirigentes rosas, perguntando se ainda mantêm a confiança política em Nídia Amaro, depois da IGAT ter “comprovado que esta tinha utilizado a sua influência de autarca, para que o pai desfrutasse de electricidade paga pelo erário público na construção da sua habitação”, tendo o relatório seguido já para o Tribunal Judicial de Faro.

José Apolinário, líder do PS do Algarve, refuta as acusações, visto que “a vereadora, para clarificar a situação, apresentou um pedido de suspensão do mandato”. Para além do mais, “aquilo de que ela é acusada no relatório da IGAT – peculato de uso – tem agora que ser confirmado pelo Ministério Público”.

O líder dos socialistas algarvios refere ainda que quem fez uso indevido da electricidade “foi o pai”, e revela desconhecer com exactidão os contornos do processo, e que terá sido Nídia Amaro a solicitar à professora responsável pela escola, o uso da energia.
“Sobre os contornos exactos não sei responder”, disse, acrescentando que são “as autoridades judiciárias a quem compete apurar os factos”.

Ainda assim, Apolinário não deixa de referir que se está a “falar de uma bagatela e de valores irrisórios”, já que a factura de energia da escola referente aos dois meses em que alegadamente foi praticado o crime, restringe-se a cerca de 3500 escudos. Por isso, é de opinião que o PSD está a querer fazer um aproveitamento político dum facto sem grande importância: “Penso que o PSD não tem espaço para fazer deste, um caso político.

O PSD está enganado sobre esta matéria, porque estamos a falar de quantias irrisórias, embora do ponto de vista ético, podemos discutir se há ou não culpa”.
Pedro do Carmo

Autarcas do PSD sob suspeita

“Não escondo que as situações que têm vindo a público envolvendo personalidades do PSD sob suspeita causam um óbvio incómodo.” – disse ao SEMANÁRIO um membro da Comissão Permanente do maior partido do Governo.

O PSD está numa situação de expectativa. Entende que a lei deve ser cumprida e que as autoridades judiciais devem fazer o seu trabalho, com eficácia e com rapidez, de modo a que tudo possa ficar esclarecido.

“Não há inquietação, mas há incómodo. Tomara o Partido que nada disto ocorresse, nem no PSD, nem em qualquer outra formação política” – uma afirmação de um membro da Comissão permanente dos social-democratas que, ao mesmo tempo se manifestou preocupado com “a publicidade mediática em volta de casos que ainda não estão totalmente averiguados, o que, através de fugas, sempre mal explicadas, dá azo a indesejáveis julgamentos na praça pública.

É preciso, para bem da democracia, evitar espectáculos públicos, sobretudo, insisto, quando as investigações ainda não estão totalmente constituídas. Os linchamentos públicos são inadmissíveis” – concluiu a nossa fonte.

Enquanto isto, o SEMANÁRIO sabe que o PSD continua a manter contactos, a nível distrital e local, com diversos membros do Governo, fazendo-o discretamente e no âmbito da sua actividade política normal. Algumas fontes reconhecem que “é invulgar a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros nas sessões partidárias, mas que a actual digressão de Martins da Cruz se justifica plenamente, tendo em conta a necessidade de o Partido conhecer com detalhe a evolução da política europeia, neste fase final da atribuição dos Fundos Comunitários a Portugal e também da evolução dos trabalhos da Convenção Europeia”.

No que diz respeito à actividade governativa, nos bastidores do PSD, a maior parte dos ministros merece nota positiva. “Há um impulso reformista que se nota em quase todo o lado e isso é positivo” – opinião de um antigo ministro social-democrata, hoje sem funções políticas. Este dirigente vê com bons olhos as reformas que estão a ser levadas a cabo na Educação, no Ensino Superior e na Saúde.

Como pontos fracos aponta “o caos que se vive no ambiente” que coloca em risco a continuação de Isaltino de Morais. “Note que eu disse ambiente e não refiro as Cidades, já que, em matéria de descentralização o Governo não tem andado mal.” explicou a mesma fonte, para quem “A justiça também é um sector vulnerável e na Administração Interna tardam as reformas”.

Esta crítica surge na altura em que o Governo decidiu em Conselho de Ministros fundir a Protecção Civil com o Serviço Nacional de Bombeiros, que é considerada pelo actual Governo como uma grande reforma, no dizer de um dos seus mais importantes ministros.

Sabe-se entretanto que, Valente de Oliveira esteve reunido há algumas semanas com a direcção do Instituto de Estradas de Portugal, tendo revelado a decisão de um corte de 15% de obras públicas que estavam programadas para o ano em curso. O que explicaria, para alguns alguma desmotivação e cansaço do ministro das Obras Públicas.

Também correm rumores que Ferreira do Amaral, mais dia menos dia, pode voltar ao Ministério que já ocupou no tempo de Cavaco Silva.

Turismo em crescimento

Num outro sector, o da Economia, Carlos Tavares revelou ontem que “o crescimento sustentável” do turismo português passa pela elaboração de “um programa integrado e coerente que dê aos agentes económico um sinal inequívoco sobre as grandes opções de desenvolvimento do sector em termos de ordenamento e ambiente, áreas e produtos prioritários; política de formação dos recursos humanos, infraestruturas de apoio, transportes e política de promoção”.

Carlos Tavares revelou que esse “programa pluridisciplinar é um objectivo do Governo a lançar em breve, em estreita articulação com os agentes empresariais privados do sector”.

O ministro da Economia disse, também que hoje, sexta feira será assinado um protocolo entre a RTP, o ICEP e a ANRET para a emissão de 48 programas sob o tema descobrir Portugal.

Confronto Júdice/Barroso e redução do défice dividem PSD

O confronto entre José Miguel Júdice e Durão Barroso no início do ano judicial indicia que pode haver algo mais que o estado da justiça em Portugal, entre os dois. Se Barroso não mudar rapidamente, Júdice poderia ser a solução interna alternativa dentro do próprio PSD, admite-se já nas elites dos partidos da maioria.

Mas ao SEMANÁRIO o bastonário desmente totalmente o cenário: “Se quisesse ser primeiro-ministro, dizia-o claramente. Mas não quero.

Está completamente fora de questão.” O certo, porém, é que Pinto da Costa diz o que quer sobre o futebol e Durão Barroso não se insurge, enquanto, quando José Miguel Júdice fala da justiça, o primeiro-ministro indigna-se e responde à letra.

Mas o novo desta semana é que no PSD continua a existir uma elite que diz o que pensa, mesmo não querendo colocar em causa o governo de centro-direita.

Esta semana a tensão começou a subir dentro da maioria e no seio do PSD, com a elite pensante do partido a distanciar-se da acção governativa e o PSD a dizer que Manuela Ferreira Leite exagerou na terapia de choque, agravando a crise económica. Ao mesmo tempo o primeiro-ministro e a ministra das Finanças contradizem-se nos números, enquanto Carlos Tavares partia para Davos, à procura de investimento estrangeiro.

Contradição entre Barroso e Ferreira Leite

Portugal teve um dos crescimentos mais baixos da União Europeia, devendo ficar mesmo abaixo dos 0,4%. E a culpa, a ser verdade que o défice ficou apenas em 2,1%, já nem é de Guterres, mas da incompetência da equipa das finanças que tirou mais de 400 milhões de contos à economia do que aquilo que era necessário, provocando falências, salários em atraso, numa irresponsável espiral de insensibilidade social, que está a criar a maior crispação dentro do PSD, dado o conflito social emergente, sem o acordo com os sindicatos da Função Pública.

Acresce a isso a contradição dos números dentro do governo, com Manuela Ferreira Leite a falar em 2,1% do PIB de défice em 2002 e Durão Barroso a falar em 2,6%, numa entrevista ao “Financial Times” ontem publicada em Londres.

Mas, os primeiros sinais de crise dentro da maioria governamental não se ficam por aí. O confronto mais significativo deu-se esta semana, na sequência do pedido de mais recursos para combate à corrupção na classe política, com o bastonário da Ordem dos Advogados a acusar o governo de Barroso de não estar a fazer a reforma do Estado e de continuar a patrocinar desperdícios, com, por exemplo, contratações milionárias.

José Miguel Júdice pronunciava-se na abertura do ano judicial, na cara do primeiro-ministro, assumindo pela primeira vez o confronto directo e pedindo mais dinheiro para a Justiça. Indignado com a atitude do militante do PSD, cujo prestígio só tem aumentado com a sua prestação à frente da Ordem dos Advogados, Barroso perdeu a sua normal compostura consensual e num acto, classificado por alguns advogados e magistrados presentes na cerimónia como de confronto e arrogância, disse preto no branco que não são os “lobbies” nem os grupos de interesses que decidem as políticas orçamentais do governo.

Cada um em seu sítio, noutras circunstâncias, só com a “nuance” do Governo ir apenas com dez meses de mandato e de José Miguel Júdice ser um dos militantes de referência do PSD, patrono de Nuno Morais Sarmento, o ministro da Presidência, e de agora institucionalmente juntar a sua voz crítica aos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa, Pacheco Pereira e de Duarte Lima.

Em declarações ao SEMANÁRIO, o bastonário da Ordem dos Advogados, que também já havia sido dado como candidato à liderança do PSD antes de Marcelo Rebelo de Sousa, desvaloriza totalmente o alegado “confronto”, dizendo mesmo que não fazem sentido as declarações de Durão Barroso, até porque ele não havia pedido nada, nem um tostão para os advogados.

“Deixem-me em paz”, remata Júdice, para quem a política actualmente em Portugal tem pouco interesse, nos termos em que se faz.

Mas, no seio da maioria comenta-se que, ao perder o apoio de José Miguel Júdice, com um confronto tão deselegante, o primeiro-ministro abre publicamente um conflito com as franjas mais dinâmicas do PSD, exactamente aquelas que pensam e que não precisam nem querem os “jobs for the boys” ou os lugares nos gabinetes ministeriais, ou as negociatas mais ou menos corruptas que o regime vai permitindo.

Esta nova situação à direita, diz-se nos bastidores, em tudo equivalente àquela que Guterres enfrentou no quinto ano do seu mandato, tem contudo a diferença de José Miguel Júdice ter uma influência e um peso social no País e no eleitorado do PSD, que nunca Manuel Maria Carrilho ou Sá Fernandes tiveram na família socialista.

Nada que Barroso já não previsse, adivinhando mesmo a estratégia da esquerda, com quem vai fazendo acordos de regime (como ainda ontem sobre a posição nacional sobre a reforma institucional da União Europeia, acordada no encontro em S. Bento com o líder do PS Ferro Rodrigues), admitindo há muito que a verdadeira oposição ao barrosismo estava dentro do PSD.

O erro de Ferreira Leite

Por seu lado, Ferreira Leite tinha-se comprometido com Bruxelas a baixar o défice para 2,8% em 2002, embora a Comissão aceitasse que o défice ficasse em 3,4%, aliás como a OCDE, que entretanto já tinham louvado as medidas de contenção e reestruturação no Estado. Ferreira Leite enganou-se nas contas e puxou o défice para 2,1%, o que nos obriga em 2003 a ficar em 1,6%.

Este irreflectido acto da ministra das Finanças custou à economia portuguesa mais 400 milhões de contos, o que significa que, para cerca de 4 milhões de população activa, os trabalhadores portugueses deram ao Estado mais cem contos no último trimestre de 2002, do que aquilo que era necessário.

A desorientação do Ministério das Finanças traduz menos a razoabilidade dos propósitos enunciados pela ministra das Finanças e mais a impossibilidade de se confiar nos números do Estado. O Partido Socialista destruiu o Ministério das Finanças, com a passagem de Pina Moura por lá, e Ferreira Leite só poderia confiar na sua intuição, porquanto, para dar o exemplo, não foi capaz de se rodear de técnicos competentes no seu gabinete para substituir as insuficiências ou as suspeitas de manipulação por parte dos funcionários do ministério.

Objectivos correctos

E como o objectivo era voltar a fazer a comunidade internacional acreditar nos números do Governo e no controlo orçamental, Ferreira Leite preferiu não correr riscos do ponto de vista da contabilidade pública e a meias com Nuno Morais Sarmento, já que a sua equipa é, “não só incompetente, mas manifestamente incapaz do ponto de vista político”, avançou com cautelas adicionais.

Desde o aumento dos impostos indirectos, como o IVA e o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos, até à venda de património, como a Falagueira, as empresas da liquidação do IPE, imóveis públicos e a rede fixa de telefones, passando pelo recebimento antecipado das receitas das portagens da CREL, intempestivamente introduzidas desde o dia 1 de Janeiro deste ano, Ferreira Leite acabou por ir buscar ao bolso dos portugueses mais de 1,5 mil milhões de euros (se o défice fosse de 3,4%, como previa a EU ainda em Dezembro), ou 700 milhões, se o défice fosse de 2,8% (como Portugal se havia comprometido), o que representa a medida de uma crise social, evitável, e da contaminação da economia, com a crise orçamental do Estado.

Ainda por cima, estas restrições não foram acompanhadas por medidas económicas de relançamento da economia, de acordo com a estratégia de Durão Barroso, contrária ao “choque fiscal” de Tavares, Frasquilho e Cadilhe, muito embora o Ministério da Economia se tenha esforçado por anunciar para 2006, com a redução do IRC para 20%, um dos quadros fiscais mais competitivos da Europa e esteja, com a reestruturação da API e do IAPMEI, a tentar criar um novo quadro institucional estável para as empresas e amigo do investimento.

Para o núcleo duro do primeiro-ministro, o horizonte de governação é o de duas legislaturas. O próprio Barroso não esconde que gosta de governar a prazo. Na primeira legislatura aperta-se para que depois na segunda se possa abrir. Ferreira Leite já foi dizendo que os esforços vão ser mantidos até 2006, ano em que o País deverá começar de novo a convergir com o nível médio da actual União Europeia. Essa opção traduz aliás as perspectivas do plano de estabilidade e crescimento, aprovado com a abstenção do PS na semana passada, no Parlamento, e que Ferreira Leite deverá apresentar na próxima reunião do Ecofin.

É aliás essa a razão por que Ferreira Leite adiou a apresentação do PEC, que chegou a estar prevista para esta semana.

No PSD como com o guterrismo

A estratégia seguida pela ministra era a única possível, depois do descalabro irresponsável dos socialistas. E conscientes disso mesmo, o PS tem-se abstido de fazer oposição, acreditando que serão as “contradições internas da própria maioria que acabarão por deitar abaixo o executivo, tal como aconteceu ao guterrismo”.

E nesse momento, quem lá estiver, será o primeiro-ministro, como aconteceu com Durão Barroso. Mas ao contrário de Barroso, o PS de Ferro Rodrigues nisso aproxima-se mais do PSD de Marcelo Rebelo de Sousa, os socialistas estão dispostos a viabilizar as grandes reformas necessárias e impostas pela União Europeia, mesmo a deixar o exagero da contenção de Ferreira Leite, para que o ónus fique todo para o PSD, que, naturalmente, se chegar ao fim desta legislatura, não conseguirá certamente ganhar a próxima.

Esta percepção do PS começa a ganhar adeptos dentro do próprio PSD, e percebendo a tempestade que aí vem, o próprio Paulo Portas já anunciou que aproveitará para afirmar a autonomia do CDS/PP no próximo congresso de Março, face ao parceiro da coligação. Por seu turno, Durão Barroso, já na última reunião da Comissão Política Nacional, tinha pedido aos eleitos e sobretudo às distritais que se abstivessem de críticas e que o que tivessem a dizer o dissessem pessoalmente ao primeiro-ministro. Mas o tiro em Júdice acabou por denunciar o mal-estar, muito para além das antigas hostes marcelistas.

As escolhas de Barroso

Barroso tem agora poucas escolhas, que se tornarão cada vez mais limitadas com o decurso do tempo. O código laboral proposto por Bagão Félix, mesmo com o acordo da CIP e da UGT, vem alargar o âmbito de responsabilização dos gestores, que passam a ser solidários no pagamento de salários, tal como já antes o eram nos impostos, Segurança Social e naturalmente no crédito bancário, normalmente avalizado pessoal, o que destrói o princípio da autonomia patrimonial e o princípio da personalidade jurídica das sociedades comerciais, princípio basilar do capitalismo, assim como a solução neocorporativa da sociedade civil para a RTP2 foram duas reformas onde emerge, por parte do Governo de Durão Barroso, uma desconfiança quase sistemática da classe empresarial e das profissões liberais em fase de empresariarização, atingindo directamente a base social de apoio do PSD, sem que daí decorra benefício algum para a economia, já que torna menos atractivo o investimento em Portugal.

O próprio processo das privatizações, tão aberto ao mercado espanhol, e o adiamento das medidas de relançamento da economia, bem como a confusão institucional à volta da gestão da imagem de Portugal no estrangeiro, deixam alguma perplexidade no centro-direita, obrigando o primeiro-ministro a uma rápida revisão.

Júdice como alternativa no espaço do centro-direita

Porque se Durão Barroso não mudar nos próximos meses o rumo do executivo, dentro do PSD as críticas das franjas poderão emergir nas distritais e na própria Comissão Política escolhida pelo primeiro-ministro. E neste caso, José Miguel Júdice pode aparecer como uma alternativa válida, dentro do PSD, ao próprio primeiro-ministro Durão Barroso.

Com a credibilidade e capacidade política que o País lhe reconhece, José Miguel Júdice, depois da Ordem dos Advogados, poderá ser a solução de liderança do PSD, caso Barroso não vá a tempo de mudar a sua estratégia e, agora, já, a sua equipa, a tempo de dar um novo impulso ao Governo, começa a circular dentro do PSD, sobretudo esta semana, depois do confronto público entre os dois, onde ficou claro que não era apenas a Justiça que estava em causa, pelo menos para o primeiro-ministro.

Como José Miguel Júdice gosta de dizer, “o primeiro milho é para os pardais”. E depois de algum distanciamento público, José Miguel Júdice pode bem ser o primeiro-ministro de um Durão Barroso decidido a ser candidato a Presidente da República, chega-se mesmo a admitir em alguns bares políticos da moda.

Júdice demarca-se

Mas “José Miguel Júdice é como aquelas mulheres sérias que gostam de ser seduzidas mas não passam os limites”, ou seja, embora tenha deixado esta semana progredir as conversas nos bastidores, disse ontem, preto no branco ao SEMANÁRIO, que esse cenário estava totalmente fora dos seus horizontes e que o actual primeiro-ministro era mesmo o menor destinatário das críticas da Ordem dos Advogados ao poder político, relativamente à falta de prioridade à Justiça, até porque está lá há pouco mais de seis meses.

E quanto à reacção de Barroso, o bastonário foi cáustico: “Ele está habituado a falar com sindicalistas. Eu não pedi nada, nem um tostão para os advogados, pelo que não faz sentido o que ele disse.” Mas José Miguel Júdice avança também para o elogio do executivo: “Barroso até tem feito alguns cortes importantes na despesa pública.”

Em jeito de graça, o bastonário lembrou que outros já disseram que ele estava a ganhar espaço para ser candidato presidencial, ao que teria respondido que, com “barba não se chega a Presidente da República”. Só que a evidência de Júdice também já não é verdadeira: Lula da Silva tem barba e é presidente…

Benelux contesta acordo franco-alemão

Durão Barroso vai a Roma falar com Berlusconni, que vai será o Presidente da União Europeia no segundo semestre deste ano, e recebe em Lisboa o primeiro-ministro da Eslováquia. A Europa domina estes encontros.

O primeiro-ministro de Portugal tem andado numa roda intensa de contactos bi-laterais por causa da fase final dos trabalhos da Convenção Europeia, da oposição da maior parte dos pequenos e médios países da União à recente proposta franco-alemã.

Para já essa contestação é liderada pelos três pequenos países fundadores – a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo.

Portugal está, no meio da controvérsia gerada pelos acordos entre o chanceler alemão e o Presidente da França, numa posição delicada. Por um lado, não aprova medidas que alterem o princípio da igualdade dos estados no seio dos Conselhos Europeus, em que o princípio até agora em vigor é de um homem um voto.

Por outro lado, uma contestação vigorosa e pública por parte do nosso país, poderá colocar em risco um conjunto de ambições portuguesas no domínio dos fundos comunitários. O que é certo é que está constituído tacitamente no gabinete de Durão Barroso uma espécie de gabinete de crise sobre a União Europeia, que recolhe informação, faz contactos, prepara a conferência intergovernamental e prepara os encontros de alto nível com dirigentes da União Europeia.

Nas últimas semanas, surgiu um dado novo, que explica alguma pressão para que os trabalhos da Convenção Europeia (a que preside Giscard D’Estaing) se acelerem, de modo a concluírem-se rapidamente. É que, no segundo semestre, a União é presidida pela Itália e o primeiro-ministro Silvio Berlusconi já sonha com um segundo tratado de Roma, que seja, por assim dizer o refundação da Europa, tal como o Tratado de há mais de 40 anos foi o ponto de partida para a Comunidade Europeia.

Essa aceleração dos trabalhos da Convenção começaram a perceber-se há algum tempo, quando os governos da França, da Alemanha e da Bélgica designaram os respectivos chefes de diplomacia para seus representantes na Convenção e a Itália indicou o vice-primeiro-ministro, Finni. Ou seja, alguns dos que vão particiapar activamente na conferência intergovernamental, já estão a defender os seus o pontos de vista na Convenção.

De um modo geral, o acordo franco-alemão, para a presidência bicéfala satisfaz os interesses dos grandes países, e isso tem gerado reacções de descontentamento entre os pequenos e médios países. A contestação está a ser liderada pelo Benelux, cujos países defenderam esta semana que o Presidente da Comissão deve continuar a ser eleito pelo Parlamento Europeu depois de obtido o consenso no Conselho, como acontece agora, em recurso aos votos ponderados de cada país.

Também no início desta semana, em Helsínquia, o primeiro-ministro português e o seu homólogo finlandês manifestaram oposição à existência de um Presidente Europeu tal como foi sugerido pelo projecto franco-germânico. De facto, o Conselho Europeu não funciona com votos ponderados. E nesse sentido o Conselho pode ser considerado o órgão mais federal da União Europeia, já que cada pessoa tem direito a um voto e, noutras instâncias existe o voto ponderado, diferente conforme o peso específico de cada país.

Dito de outro modo, a eventual introdução dos votos ponderados no Conselho Europeu significaria o fim da igualdade ou da paridade que todos têm neste momento.

A proposta franco-alemã (e por enquanto não passa disso), a ser aprovada introduziria uma alteração radical no funcionamento dos Conselhos Europeus, o que é inaceitável para os pequenos e médios países. Neste momento a excepção é a Dinamarca, julgando-se que o apoio que está a conceder aos “Grandes” resulta da ambição que lhe venha a ser atribuído o lugar de Ministro dos Negócios Estrangeiros da União, um dos três lugares de topo na hierarquia comunitária, se vingar a tese franco-alemã, para além do Presidente do Conselho e do Presidente da Comissão.

Nestas tensões intercomunitárias “é preciso ter cuidado com a contagem das espingardas”, disse-nos um fonte governamental portuguesa, para sublinhar a prudência do governo de Lisboa no que diz respeito às perspectivas financeiras nos diversos Quadros Comunitários. Para já, o bloco oposicionista é constituído pelos três países do Benelux.

E ainda por Portugal, Finlândia, Irlanda, Áustria e Suécia, sendo certo que é preciso aguardar as definições gregas, para mais tarde, uma vez que é a Grécia que este semestre preside aos destinos da União Europeia.

Os dados ainda não estão todos lançados e as negociações longe do fim. Tanto assim é que se desenha uma outra via: a indicação de um Presidente da União Europeia, sem funções executivas, com algumas competências nas questões de defesa e Segurança, mas sobretudo com representação protocolar e cuja designação (eleição) não ponha em causa as presidências rotativas que se verificam neste momento.

No dia 4 de Fevereiro, Durão Barroso vai a Roma conferenciar com o seu homólogo italiano e também no próximo mês, em data que está a ser negociada, vem a Lisboa o primeiro-ministro da Eslováquia. Outros contactos se seguirão, para além dos que são estabelecidos no dia-a-dia.

Ontem, a meio da tarde, Durão Barroso recebeu em S. Bento o líder do PS, Ferro Rodrigues, a quem prestou informações detalhadas sobre o actual momento da política europeia e com quem procurou estabelecer consensos sobre as posições que Portugal adoptará, nesta fase final da Convenção Europeia e, mais tarde, na decisiva conferência intergovernamental.