2026/09/16

Uma questão de jeitopor Carlos Abreu Amorim

Rui Rio encontra-se numa encruzilhada difícil. A sua vitória na Câmara do Porto apenas lhe deu 6 vereadores (4 do PSD e 2 do CDS), sendo que os socialistas têm exactamente o mesmo número de lugares.

Há, depois, um vereador da CDU, Rui Sá, que desempata o que quer e como quer. Rui Rio queria romper com a lógica dos executivos anteriores. Acabar com os compadrios, os esquemas turvos, a política de engana-tolos do foguetório e das reverências futebolísticas. Mas a intransponível aritmética dos lugares da vereação não lhe permite ir muito longe. Mesmo assim, podia tentar. Conquistar os seus objectivos com aquela dose de engenho que permite que algumas causas políticas sejam alcançadas sem que se perca o mais importante durante o percurso. É essa arte que gradua os políticos. Feita de instinto, de raciocínio e de emoção, de entendimento do verdadeiro sentido das coisas. Costuma-se-lhe chamar jeito. Raramente se aprende ou se ensina – do jeito, diz-se, que das duas uma: ou se tem ou não. Na cidade, Rui Rio engalfinhou-se com tudo ao mesmo tempo. Na ânsia de fazer melhor, perdeu a sabedoria da espera do momento, esqueceu o valor da oportunidade. Quis contestar sem proporção, guerrear sem estratégia. O resultado é uma cidade cada vez mais zangada consigo própria. Que constantemente se automutila no seu amor-próprio. Que somou à decadência, que a submerge há décadas, ressentimentos difíceis de superar.
Claro que resta sempre o enorme e raríssimo benefício de ver alguém indisputadamente sério à frente de uma autarquia local em Portugal. Mas se a honorabilidade de Rui Rio nunca foi posta em causa, já o mesmo não se poderá dizer de algumas das escolhas dos seus colaboradores. Por exemplo, não pode deixar de causar estranheza que quem fez do fim da promiscuidade entre a política e o futebol um cavalo de batalha – e muito bem – nomeie para dirigir a recuperação do comércio da Baixa (e consequente atribuição de avultados fundos comunitários do programa URBCOM) um ex-braço direito de Vale e Azevedo, uma pessoa sem qualquer currículo profissional noutra área que não seja a “grande” que consta nos relvados ou nos corredores de acesso aos balneários dos estádios de futebol; falo do senhor Álvaro Braga Júnior. São contradições entre o que se diz e o que se faz, como acontece neste caso, que tornam a cor da política homogeneamente baça e desmotivante.
Há, no entanto, uma figura que se destaca pela positiva. Alguém que marcou o Porto, no último ano, pela enérgica reviravolta que imprimiu à acção do executivo: o vice-presidente, Paulo de Morais. Temendo-o, a esquerda tornou-o no seu principal alvo. Moções de censura, protestos, manifestações pré-fabricadas. Agora querem retirar-lhe as competências. Mutilá-lo politicamente. Para que Rui Rio, privado do seu principal amparo, fique cada vez mais sozinho.
A esquerda não quer a queda de Rui Rio. Para já. Preferem que ele fique no poder mais um ano e meio, pelo menos. Tempo suficiente para se desgastar sem retorno em conflitos inconsequentes, em acordos mal cumpridos com a CDU, com o constante prenúncio de traição do CDS e com a resistência passiva da máquina burocrática do município. Querem Rui Rio numa espécie de morte lenta de impotência política. Mas, também neste tema, o PS também não está de acordo, internamente. Sentado no regaço do presidente do FCP, Nuno Cardoso quer eleições antecipadas já – será a única forma de as disputar, impedindo a candidatura mais sólida e intelectualmente superior de Francisco Assis. Este seria o candidato socialista mais que provável depois de esgotados os fogachos populistas de Cardoso.
Rui Rio terá de tomar uma decisão nos próximos meses. A escolha é entre permanecer ao sabor das circunstâncias originadas pelos outros, ficando manietado numa teia política de que não conseguirá libertar-se (e que a população não compreende), ou provocar os acontecimentos e liderar a saída da crise. Foi por perceber que a situação na Câmara do Porto está próxima do insustentável que Luís Filipe Menezes se “candidatou” na semana passada. Tratou-se de um esforço desesperado e desastrado de tentar provar que não poderá existir qualquer solução no Porto sem ele. O que não é verdade, como se demonstrou em Dezembro de 2001. Curiosamente, a vitória que levou à demissão de António Guterres pode ser a primeira a desmoronar-se. Mas, como avisadamente dizia um portuense ilustre (embora incompreendido): “Prognósticos? Só no fim do jogo.”

P.S. No domingo passado, no programa “Herman Sic”, foi feito o aviltamento público de um deficiente mental. O apresentador daquele programa, entronizado no papel de “bobo do regime”, divertiu-se às custas de um demente, aproveitando-se da sua incapacidade e por causa dela. Não estranho que o tenha feito, já que essa personagem há muito que se colocou para além da redenção. Apenas considero extraordinário o silêncio das associações de defesa de tudo e mais alguma coisa, das ligas de sei lá o quê, dos grupos de contestatários profissionais, das Igrejas, das Ordens, das corporações, sempre tão dispostas a sentenciar. Agora calam-se. De facto, está em causa um deficiente mental, apenas. Por isso pode ser alvo de troça. Impunemente.

Imaginar e integrarpor Francisco Moraes Sarmento

Dois aspectos são importantes para o desenvolvimento das organizações na economia digital: a informação e a comunicação.

Estes factores não são novos para a gestão, mas muitas vezes não são encarados como mais valias. Existem de forma mais ou menos informal e, na maioria dos casos, sem suportes de sistemas informáticos.

Não são competências organizacionais e baseiam-se nos interesses individuais e servem mais para suportar relações de poder do que para assegurar a eficiência dos processos e promover a produtividade.

Como não existe pesquisa de informação e muito menos o seu tratamento sistemático segundo os objectivos organizacionais, a crise emerge quando os colaboradores deixam de o ser. A experiência e o conhecimento perde-se porque não foi transmitido e nada mais resta do que começar do princípio. Perde-se tempo e dinheiro.

Os sistemas de informação e os seus suportes devem ser encarados de forma estratégica e enquadrados na visão da organização para padronizar a comunicação e induzir qualidade nos processos. Para além de exigir disponibilidade, a nova cultura é de responsabilidade, partilha e trabalho em equipa que envolvem todos, os que participam num mesmo processo, sejam colaboradores, clientes, fornecedores ou parceiros.

A pesquisa é uma alavanca que promove a criatividade e desenvolve a inovação dos produtos e serviços. Uma das dificuldades das organizações na utilização da Internet como canal de comunicação, distribuição e de comercialização é não perceberem o que se pode e deve publicar. Muitas vezes, ignoram o género e o tipo de informação que existe nas suas actividades.

Depois, é preciso saber enunciar essa informação e torná-la comunicável para ganhar eficácia e produzir resultados.

Mesmo que os negócios sejam difíceis de conceber em termos digitais, principalmente os que exigem a experiência do produto, como por exemplo a compra de um automóvel, de uma casa, de um par de sapatos ou de um perfume, a presença na Internet traz vantagens em termos de notoriedade e como um instrumento cada vez mais decisivo para o relacionamento com o cliente.

A nova circunstância obriga a repensar o negócio de forma a completar a sua cadeia de valor, agora mais abrangente, com aspectos inovadores que ajudam a fidelizar e a conquistar clientes. Imaginar e integrar são actividades de futuro.

Armstrong está próximo do penta

Ao fim de uma semana o Tour corre o risco de já estar decidido. Lance Armstrong até nem tem uma vantagem tão grande como seria de esperar depois da passagem pelos Alpes, mas a desistência de Joseba Beloki, companheiro de José Azevedo na ONCE, deixou, certamente o ciclista norte-americano mais seguro na liderança.

As principais ameaças à quinta vitória consecutiva de Armstrong no Tour são o russo Vinokourov, um ciclista da Deutche Telecom que deu nas vistas na primeira parte do Tour, e o alemão Jan Ulrich, da Bianchi, que tem uma desvantagem ligeiramente superior a dois minutos.
No entanto, o maior adversário do chefe de fila da US Postal pode ser a sua condição física. Na mítica subida ao Alpe D’ Huez, Armstrong não atacou, como seria de esperar, o que colocou algumas dúvidas sobre o seu momento de forma. Se melhorar, o norte-americano tem dois contra-relógios planos (um deles hoje) para ganhar tempo a Vinokourov, e os Pirinéus, na próxima semana, para “fugir” a Ulrich.
Quanto ao português José Azevedo, que no ano passado, em estreia no Tour, fez um brilhante sexto lugar, resta saber como será, daqui em diante, a sua reacção ao abandono do seu chefe de fila, Joseba Beloki.
Houve quem vaticinasse que, para o português, o melhor seria que Beloki desistisse, uma vez que a missão de Azevedo era “carregar” com o ciclista basco montanha acima. No entanto, no dia da desistência de Beloki, e no dia seguinte, o português mostrava-se ainda bastante transtornado pela sorte do seu companheiro de equipa e amigo.
Se a reacção for positiva, Azevedo tem ainda os Pirinéus para recuperar do 29.º lugar que ocupa actualmente, a 12 minutos de Armstrong. Certo é que Azevedo reúne o respeito dos adversários. Vinokourov, depois de vencer ma segunda-feira, apontou mesmo o português como ciclista a ter em conta na equipa ONCE, depois da queda de Beloki.

Aparelho detector de notas falsas comercializado em Portugal

O mais desenvolvido aparelho detector de notas de euro falsas vai ser comercializado em Portugal pela Cotaserv e Investrónica. Chama-se Secureuro e é capaz de detectar, com precisão, todo o tipo de falsificações da moeda europeia. Trata-se de um dispositivo de segurança desenvolvido em colaboração com o Banco Central Europeu.

O aparelho constitui um sistema de identificação que, através de sinais analógicos e digitais inter-relacionados, analisa as notas e distingue se são falsas ou não. A policia Judiciaria (PJ) já considerou a tentação dos contrafactores pela falsificação do euro, um problema transnacional. Recorde-se que o euro é cada vez mais o alvo dos contrafactores que tinham o dólar-americano como a moeda mais apetecível.
Esta preocupação foi manifestada pelo próprio director-geral da PJ, Adelino Salvado, num seminário realizado em Lisboa no inicio deste mês sobre ” A protecção do euro relativamente ao crime de contrafacção”, uma iniciativa que realizou em conjunto com o Organismo Europeu de Luta Anti-fraude.

As várias vidas de Duras

“Marguerite D.” de Manuel Sardinha, estreou ontem no Teatro Nacional D. Maria II. Com interpretação de Daniela Feio e Fernando Landeira, este é um projecto construído a partir do “Amante da China do Norte”, “O Amor”, “Hiroshima Meu Amor”, “Doença da Morte e “É Tudo”, da escritora Duras.

Marguerite Duras, a “escritora gato”, a mulher de várias vidas inventadas, autora respeitada por muitos e contestada por mais alguns, vê agora alguns dos seus textos adaptados ao teatro, por Manuel Sardinha. A Sala Estúdio Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, do Teatro Nacional D. Maria II, acolhe este projecto que prende constituir-se como viagem nas memórias pessoais de Duras, construído a partir do “Amante da China do Norte”, “O Amor”, “Hiroshima Meu Amor”, “Doença da Morte e “É Tudo”, da escritora Duras.
Ela é especialista em “reiventar” as vidas e as mortes, em processo de eterna reescrita, como que desdém à memória e ao registo. “A mesma loucura que na vida”, a errância como ponto de poucas certezas iniciais, são o plano que fará mover os jogos de representação, com interpretações de Daniela Feio e Fernando Landeira.
Segundo Manuel Sardinha, “a vida e a obra de Marguerite Duras encantaram/apaixonaram os intervenientes deste projecto que procuram a sua transmutação (em parte) para o teatro sob a designação de Marguerite D.” Até 26 de Julho é possível ver esta incursão teatral ambiciosa.