Crise económica é a maior do período pós-guerra

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deslocou-se ao Japão, durante a semana que agora termina, naquela que foi a sua primeira visita ao exterior, enquanto secretária de Estado. O Japão rumando depois à Indonésia, em uma nova etapa de sua primeira viagem oficial como chefe da diplomacia dos Estados Unidos.

Japão mergulha na crise

A economia nipónica, tida como uma das mais fortes do planeta, encontra-se num estado extremamente frágil, culpa da crise que não perdoa nem aos mais ricos

Os sinais que vinham revelando a debilidade da economia do país do sol nascente têm vindo a acentuar-se, contudo, nos últimos tempos esses tornaram-se bem mais visíveis e chegou a altura dos responsáveis admitirem o que já não pode ser escamoteado, a economia japonesa encontra-se numa fase de recessão. O facto de atravessar este período negro aumenta o descontentamento dos seus cidadãos, habituados a não serem atormentados com questões do género, e que agora vêem a sua nação a sofrer aquela que já é considerada, pelas próprias autoridades, como a pior recessão desde o final da II Guerra Mundial, altura em que se iniciou o milagre nipónico, que fez com que um dos países mais atingidos pelo conflito e que viu parte do seu território reduzido a nada, ascendesse a pulso e se tornasse numa das maiores potências económicas ao nível global.
A economia daquele país sofreu, só no último trimestre do ano transacto, a maior contracção das últimas décadas, tendo o seu PIB sido reduzido em cerca de 13% face ao período homólogo de 2007. Esta quebra funcionou como uma espécie de dano colateral face às recessões que afectaram os principais parceiros comerciais do país, como os Estados Unidos e a União Europeia, aliados económicos, que em crise profunda deixaram de comprar os produtos japoneses, facto que afundou as exportações nipónicas.
Tendo em conta os dados do trimestre anterior, o PIB contraiu-se 3,3%, segundo anunciou a entidade responsável pela estatística nipónica. Este parâmetro caiu pelo terceiro trimestre consecutivo, o que fez o país declarar oficialmente o estado de recessão. A contracção apurada nos últimos três meses do ano passado ficou acima do estimado por vários especialistas em economia, cujos estudos apontavam para uma quebra estimada em 11,6%. A contracção intertrimestral de 3,3% é superior ao registado noutras economias do mesmo género, como é o caso da americana, que se contraiu em 1% e da Zona Euro que caiu 1,5%.
No quarto trimestre, as exportações do Japão reduziram-se a um nível nunca antes visto, de 13,9%, face ao terceiro trimestre, muito por culpa da quebra da indústria automóvel e do ramo da electrónica, duas das maiores áreas de exportação do país. Grandes industriais como a Toyota, a Hitachi e Sony já reportaram prejuízos e estão a despedir milhares de empregados.
A economia nipónica encontra-se a atravessar “a pior crise desde 1945”, segundo afirmou o ministro da Economia, Kaoru Yosano, agora demissionário, depois de uma insólita aparição numa conferência de imprensa, após um encontro do G7, em que o responsável governamental nipónico aparentava um elevado estado de embriaguez, desmentido pelo próprio, que culpou o jet lag e os medicamentos para a gripe, como responsáveis da sua incapacidade em se expressar e mover. “Esta é a pior crise desde o fim da guerra. Não há nenhuma dúvida quanto a esse assunto”, disse Yosano, em declarações à comunicação social.
“A economia japonesa, cujo crescimento depende bastante das exportações de automóveis, de maquinaria e de produtos electrónicos, foi literalmente devastada” pela crise, avançou o mesmo.
“O Japão será incapaz de recuperar sozinho. Não há fronteiras na economia. A nossa economia vai recuperar ao mesmo tempo que as dos outros países”, continuou o governante, acrescentando ainda que “reconstruir a economia nacional é uma questão de responsabilidade frente aos outros países”.

Administração Obama quer colaborar com os japoneses

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deslocou-se ao Japão, durante a semana que agora termina, naquela que foi a sua primeira visita ao exterior, enquanto secretária de Estado. O Japão rumando depois à Indonésia, em uma nova etapa de sua primeira viagem oficial como chefe da diplomacia dos Estados Unidos.
Durante sua estada em Tóquio, Hillary encontrou-se com o primeiro-ministro Taro Aso, com quem discutiu sinergias a serem concertadas entre o Japão e os EUA e falou sobre a Coreia do Norte. A secretária também conversou a respeito da visita do chefe do governo japonês à Casa Branca, prevista para a próxima semana.
Conforme havia já anunciado à chegada ao Japão, Aso será o primeiro líder estrangeiro a ser recebido na Casa Branca pelo Presidente Barack Obama.
Numa conferência de imprensa conjunta com o ministro dos Negócios Estrangeiros Hirofumi Nakasone, Hillary advertiu a Coreia do Norte contra o possível lançamento de um míssil intercontinental e destacou a importância de uma desnuclearização “completa e verificável”.
A imprensa nipónica destacou a visita da senhora Clinton como um sinal da mudança que o Governo de Obama propõe e de uma nova atitude norte-americana, segundo os japoneses, “mais dispostos a escutar”.
Depois do país do sol nascente, a responsável pela política externa de Washington rumou a Jacarta, para se reunir com os governantes indonésios, um dos aliados dos norte-americanos na zona.

David Fonseca lança o seu mais recente livro “Histórias Possíveis”

A arte de contar histórias é um talento raro mas tão necessário no mundo da escrita como o simples acto de comer ou dormir. David Machado, vencedor do prémio Branquinho da Fonseca, revela uma simplicidade e organização ímpar na forma como escreveu o seu mais recente livro de contos “Histórias Possíveis”.

O engenho de um contador de histórias

A arte de contar histórias é um talento raro mas tão necessário no mundo da escrita como o simples acto de comer ou dormir. David Machado, vencedor do prémio Branquinho da Fonseca, revela uma simplicidade e organização ímpar na forma como escreveu o seu mais recente livro de contos “Histórias Possíveis”. O SEMANÁRIO esteve à conversa com o escritor para perceber o que faz um bom contador de histórias.

Num mundo cada vez mais globalizado, onde a reinvenção da forma de contar histórias abunda de forma desmedida, somos bombardeados com narrativas de uma complexidade parodoxal que nos fazem perder todo o interesse no objecto que temos em mãos.
David Machado, um jovem escritor de 31 anos que venceu o Prémio Branquinho da Fonseca 2005, pela Fundação Calouste da Gulbenkian/Semanário Expresso com o livro infantil “A Noite dos Animais Inventados” vem, felizmente, contrariar esta tendência da literatura mundial.
Dotado de um estilo despojado de qualquer pretensiosismo, próprio de alguém que escreve porque gosta e conta histórias porque tem necessidade de o fazer, David Machado lançou recentemente um livro de 16 contos intitulado “Histórias Possíveis”, editado pela Editorial Presença, revelando-nos o seu talento de contador de histórias exímio, cujas personagens são influenciadas por acontecimentos subtis que roçam o bizarro.
Costuma-se dizer que nada na vida acontece por acaso havendo um lugar e um tempo para que tudo aconteça. A forma como o autor tropeçou na escrita aconteceu de foma natural e pouco planeada, embora se tenha desenvolvido de forma consistente a partir do momento em que decidiu não continuar a enveredar pelo mundo da economia e da gestão, curso que tirou no Instituto Superior de Economia e Gestão.
A opção pelos contos acaba por acontecer através de um convite. “Tudo começou com o convite feito por um amigo para escrever contos para um suplemento de um jornal que, a posteriori, teria continuação. Isso acabou por não acontecer. Eu tinha escrito dois primeiros contos e imaginei que podia pegar noutras ideias que tinha num caderno e continuar a escrever contos semelhantes com o mesmo tom e o mesmo número de páginas, para depois apresentá-los a um jornal. E isso também não aconteceu. Foi então que comecei a pensar em escrever um livro esquecendo em definitivo o jornal.” No entanto, David assume que não foi uma experiência que tenha corrido da melhor forma embora admita que “acabou por ser muito importante pela forma como aprendi com os erros que se fazem na escrita, nomeadamente na construção das personagens e na forma como a história se desenrola. Acabei de forma natural por aprender a maneira lógica de contar uma história.”
Outra das marcas da sua escrita acaba por nos ser bastante familiar. Nos seus contos existe um profundo sentido de portugalidade, embora não o assuma de forma explícita, acabando, confessa, por ser um reflexo do binómio campo-cidade que viveu toda a sua vida. “Foi algo que eu vivi ao longo da minha vida sem que eu o tenha conscientemente introduzido nas minhas histórias. Quando escrevi «O Fabuloso teatro do Gigante», foram claras as referências à literatura sul americana, o que me levou a pensar que me poderiam acusar de escrever livros que não eram portugueses. Contudo, acabou por acontecer precisamente o contrário, dizendo-se que eu captava o que era ser português”.
Já no que diz respeito ao portugal rural, patente no conto “Nada Por nós Caetano” David refere as influências que remontam à sua infância passada no campo. “Esse conto é baseado na aldeia da minha avó, onde eu passei sempre as férias. No entanto, os nomes que dou às aldeias são fictícios. Para mim é mais fácil escrever sobre um lugar fictício porque me dá mais liberdade para escrever o que me apetecer”.
Os contos apresentados são feitos de forma milimétrica, obedecendo a uma economia de palavras sempre difícil de gerir para quem escreve histórias que não excedem cinco páginas, com excepção dos dois últimos. Uma das ferramentas passa pela apresentação das personagens através da acção. “A forma de apresentar a acção em primeiro lugar acaba por ser a melhor forma, a meu ver, de apresentar as personagens devido ao formato curto de história pelo qual optei. Isto acaba por colocar o leitor directamente na acção.”
Por fim David Machado optou pelo uso da terceira pessoa nas suas histórias. “Durante muito tempo não escrevi na primeira pessoa devido a um medo que tinha em começar a falar por mim, algo que eu não quero de forma alguma que aconteça. O que eu espero é que um dia consiga distanciar-me o suficiente de mim para escrever na primeira pessoa.”
Nas histórias que nos apresenta destacamos a sua sensibilidade em captar as idiossincracias destas personagens e na descrição que faz das relações personagens com o mundo que as rodeia, que não tendo vidas particularmente excitantes tornam-se especiais pela forma como a sua simplicidade nos é apresentada. Destacamos nesse sentido ” Acostura de Clemente sobre uma costureira que acaba por ser uma espécie de cirurgiã, ou a história sobre um simples empregado de armazém que se torna no maior violinista do mundo, não por uma vontade mas por uma necessidade imperativa.

Contos Infantis

Além deste seu último livro, David Machado tem também mais um livro nos escaparates intitulado “O Fabuloso teatro do Gigante”, igualmente editado pela Editorial Presença, e um série de contos infantis. Esta sua actividade leva-o muitas vezes a estar na presença de crianças com as quais partilha experiências. Embora refira que é um processo interessante a forma espontânea com que as crianças reagem às conversas, considera que seria algo que faria facilmente com adultos.
“A minha relação com as crianças acaba por ser muito casual. Eu escrevi o meu primeiro conto infantil devido a um concurso de contos infantis (Prémio Branquinho da Fonseca). Quando concorri não foi por serem contos infantis. Encarei-o como sendo um pré-requisito que tinha de ser cumprido. Da mesma fora que participei num concurso em que o tema era a velhice ou num da Câmara Municipal de Lisboa em que tinha de escrever sobre a cidade”.
“Não é pelo facto de ir à escolas que excrevo melhor os contos infantis. Contudo, acaba por ser muito importante porque se torna gratificante saber que o livro não pára no momento em que ponho um ponto final. O livro é estudado nas escolas, fazem-se peças de teatro, desenhos, esculturas. Acabamos por partilhar experiências através de conversas. Isso é muito bom. Podiam ser graúdos, embora acabe por ser mais engraçado pelo facto das crianças serem muito espontâneas”.
É com satisfação que vemos David Machado no mundo da literatura. Uma lufada de ar fresco que nos recorda, através do seu engenho, o prazer que temos em ler boas histórias.

Manobra de propaganda ou a última jogada a favor da maioria absolutapor Rui Teixeira Santos

O Partido Socialista propôs um pacto ao PSD a propósito da crise económica. É claro que o PSD o recusou.
Fazer um pacto com um programa, ou apenas um conjunto de medidas para fazer face à crise a poucos meses das eleições, obviamente seria um acontecimento que muito interessaria ao governo, pois obviamente neutralizava a oposição.
Portanto, José Sócrates, quando fez a proposta, sabia que ela ia ser recusada por Manuela Ferreira Leite e pelo PSD. Ou seja, o que estava em causa é do domínio da propaganda.

Manuela tem razão

O ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, considerou ontem que, se fossem aplicadas as 20 medidas de combate à crise apresentadas pela líder do PSD, o défice das contas públicas atingiria os cinco por cento. Pelos cálculos apresentados por Manuela Ferreira Leite, as medidas teriam um custo de 1,4 mil milhões de euros, representando um por cento do Produto Interno Bruto (PIB).
Santos Silva estranha que o pacote de medidas tenha sido anunciado por quem “cultiva uma imagem de rigor”. Para o governante, se o pacote de medidas fosse implementado “seria uma má política que o Estado português logo no mês de Fevereiro se comprometesse com um défice na ordem dos cinco por cento”.
Santos Silva sustentou ainda que o PSD se precipitou a apresentar um plano de medidas anticrise, numa altura em que ainda não se sentem os efeitos das propostas do Governo. “As medidas relativas à promoção do emprego estão a entrar em prática. Já há várias dezenas de milhar de empresas, ou de entidades sem fins lucrativos interessadas em beneficiar dos apoios à criação e à manutenção de emprego contidos no pacote de medidas tomado pelo Governo”, garantiu o ministro, em declarações à rádio TSF.
O Governo faz mal em reagir desta maneira às propostas de Manuela Ferreira Leite. Pelo simples facto que desta vez ela tem razão.
Sou absolutamente contra medidas que tenham repercussão a médio e longo prazos na consolidação das finanças públicas, como, por exemplo, o disparatado aumento da função pública em 2,9% este ano, quando a inflação poderá não chegar a um por cento. Mais valia ter-se entregue quinhentos euros a cada funcionário excepcionalmente este ano, se o objectivo era o de aumentar a procura interna – numa decisão sempre duvidosa quando temos sempre presente o nosso problema do desequilíbrio da balança de pagamentos.
Mas não tenho dúvida alguma que quando Ferreira Leite aponta às PME está a tocar na questão certa, não só em matéria eleitoral, mas sobretudo porque é nas PME que o país pode garantir emprego.
E não vale a pena, neste momento, estar a distinguir entre empresas fabricantes de produtos transaccionáveis (exportados ou que substituem importações) e as restantes. Temos agora um problema de desemprego urgente pela frente e, portanto, o que interessa é manter, mesmo aquilo que não é sustentável a prazo, o emprego a todo o custo. (Aliás, hoje ninguém pode dizer que as análises de risco não são falíveis nesta conjuntura surpreendente.)
É verdade que a degradação das condições económicas não está a ser acompanhada pelo desemprego. Mas esta situação vai piorar com o andar da crise e não vale a pena ter ilusões. Quanto antes se actuar, melhor.
Ferreira Leite tem razão e não vale a pena o Governo fazer daqui um cavalo de batalha.
Manobra de propaganda ou a última jogada a favor da maioria absoluta

O “pacto” impossível ou a dramatização que não arranca

O Partido Socialista propôs um pacto ao PSD a propósito da crise económica. É claro que o PSD o recusou.
Fazer um pacto com um programa, ou apenas um conjunto de medidas para fazer face à crise a poucos meses das eleições, obviamente seria um acontecimento que muito interessaria ao governo, pois obviamente neutralizava a oposição.
Portanto, José Sócrates, quando fez a proposta, sabia que ela ia ser recusada por Manuela Ferreira Leite e pelo PSD. Ou seja, o que estava em causa é do domínio da propaganda.
E como?
Com esta proposta, obviamente o PS visa explicar ao eleitorado que entendimentos com este PSD são impossíveis. E, portanto, só haverá uma solução para depois das eleições: a maioria absoluta do PS.
O Partido Socialista tem quatro adversários sérios nas próximas eleições: (1) a crise económica e o seu agravamento; (2) a abstenção do seu eleitorado tradicional; (3) o aumento dos partidos de esquerda; e (4) o bloco central.
Quanto à crise económica, ela depende basicamente da evolução externa e sobretudo da vontade alemã de salvar o euro e da recuperação nos EUA. José Sócrates neste particular pouco pode fazer para além de manter o sistema financeiro e de aguentar o emprego até que a crise passe e a economia possa criar novos postos de trabalho. Até lá, o primeiro-ministro pode apenas manter o emprego que existe, a qualquer custo.
Em segundo lugar, a abstenção. Com o desgaste do Governo, sobretudo pelo facto das reformas feitas e dos sacrifícios impostos à população não terem resultados efectivos diante da inversão de expectativas com a crise económica, mas também com a degradação da imagem dos agentes políticos, nomeadamente pelo desgaste causado pelos casos judiciais mal explicados, como o Freeport ou o do BPN, e em face do facto de Ferreira Leite, na oposição, não ter condições para liderar uma alternativa política nesta conjuntura, ao Partido Socialista, muito do eleitorado, não tendo alternativa, também se recusará a votar em José Sócrates.
O próprio fenómeno Manuel Alegre, nesta conjuntura, está a afastar eleitores genuinamente socialistas não necessariamente para os partidos mais à esquerda, que não têm condições de governo – e que bem pelo contrário impedem a governabilidade no regime democrático se crescerem excessivamente – mas para a abstenção. Manuel Alegre, ao contrário do que aconteceu nas presidenciais e nas autárquicas de Lisboa (com o Movimento de Cidadãos), é hoje não uma alternativa mas um facto de desmobilização política na área do próprio eleitorado socialista. E, por isso, o primeiro-ministro tem que estar muito atento a este fenómeno.
Em terceiro lugar, o crescimento da esquerda. A esquerda do PS não é alternativa para o governo no quadro desta União Europeia e o seu crescimento inviabiliza necessariamente qualquer maioria absoluta. O facto do PS estar a avançar com medidas fora de agenda, apenas para estancar a sangria do eleitorado mais jovem e de esquerda, não está a resultar, como se viu pela Moção de José Sócrates ao congresso da próxima sexta-feira do Partido Socialista. A introdução de uma agenda fracturante ou pretensamente fracturante acabou por dividir o próprio campo do eleitorado central do PS, que, não votando de modo algum em Ferreira Leite, pode ser afastado do PS pelas iniciativas do secretário-geral.
Foi um risco que certamente Sócrates mediu, mas que lhe pode custar votos.
Finalmente a questão mais importante. O governo socialista não está a conseguir dramatizar, não está a conseguir criar o ambiente propício para que o eleitorado entenda o interesse de uma maioria absoluta, que o primeiro-ministro define como o seu objectivo nas próximas legislativas.
E é aqui que entra a tal ideia de pacto de regime. O PS pretenderia mostrar ao eleitorado que entendimentos com o PSD, pelo menos com este, não eram possíveis, pelo que o bloco central nunca seria uma possibilidade. E, assim sendo, obviamente sem maioria absoluta, não haverá estabilidade política depois das eleições gerais.
Ora, o que se passa é que as elites já interiorizaram aquilo que mais tarde ou mais cedo o eleitorado vai percebendo: que o PSD, enquanto Ferreira Leite estiver à frente, não tem a menor hipótese de ganhar e que José Sócrates já não vai repetir a maioria absoluta, pelo que, com o agravamento da crise, entendimentos entre os dois grandes partidos centrais vão ser necessários, com ou sem incidência governamental. Coisa, que, de certo modo, acabará por substituir a fracassada “cooperação estratégica” entre o primeiro-ministro José Sócrates e o Presidente da República Cavaco Silva.

Crise financeira
Boas notícias chegam da Alemanha

Quem falar com americanos rapidamente percebe duas coisas: que ainda é politicamente correcto dizer bem de Barack Obama e que a América acredita que ainda este ano com ou sem pacote a crise está ultrapassada. E este sentimento é de facto o segredo da América e provavelmente a razão por que no meio de tanta notícia negativa, esta crise algum destes dias pode surpreender pela positiva.
A segunda boa notícia da semana tem que ver com o facto de finalmente o governo alemão ter acordado para a necessidade de salvar os países de leste e os países da Eurozona.
A Alemanha não percebeu durante muito tempo o risco que enfrentava se não socorresse países como a Grécia ou a Irlanda e se não admitir proximamente a Grã-Bretanha e a Islândia, para já, no seio da Eurozona. E o risco seria o colapso do próprio euro, ou seja, a balcanização da Europa e inevitavelmente a guerra na Europa.
Já nos habituámos a ver na Europa um grande Portugal onde as coisas se fazem no último momento. E, portanto, foi no limite que os alemães cederam e vieram dizer que obviamente tem que haver solidariedade europeia e que os países mais ricos têm que ajudar os países com maiores dificuldades em financiarem a sua dívida externa, ou seja, que a Alemanha vai avançar com um plano para apoiar os Estados-membros da União Económica e Monetária em dificuldades financeiras.
(Repare-se que nos Estados Unidos, a Florida neste momento não tem dinheiro para pagar a funcionários e mesmo assim o Estado Federal americano ainda não foi autorizado pelo poder legislativo a avançar com um programa de saneamento das contas públicas da Florida, o que, de certo modo, mostra as tensões que no seio de uma federação política sempre existirão.)
E não deixa de ser curioso que os alemães só avancem na mesma semana em que foi óbvio o colapso das economias do leste, o célebre “quintal alemão”.
O governo alemão e, sobretudo, o Bundesbank receiam injectar moeda por causa do medo de tensões inflacionistas. Vão por isso, provavelmente, pelo caminho da emissão de obrigações europeias.
Por que não? Estamos afinal a acelerar o mercado de tesouro europeu, consolidando a Europa federal, de um modo informal e sem grande espectáculo político.
Talvez esta crise tenha feito mais pela coesão europeia e pela paz na Europa que tudo o que se passou desde a II Guerra Mundial.
O que esteve antes em causa era uma solução pacífica para a Europa com os EUA a financiarem. Agora, pela primeira vez os europeus, leia-se os alemães, enfrentam a responsabilidade de num quadro democrático encontrarem as suas próprias soluções e evitarem uma catástrofe maior.
É esse medo de um perigo maior, esse pragmatismo que fazia falta à Europa.
Esta Europa pode não ter líderes, pode não ter ideias, mas acaba por ir aprendendo com as suas hesitações, com as suas demoras, com os seus erros e enganos. Uma Europa feita aos empurrões, porque tem que ser, uma Europa feita sem vontade, mas porque é condição de paz e progresso.
Isto são boas notícias.

Sobe e desce

Luís Amado
O Parlamento Europeu aprovou ontem, em Bruxelas, uma resolução sobre a utilização de países europeus pela CIA para transporte e detenção ilegal de prisioneiros, sem qualquer referência específica a Portugal, suprimida por iniciativa da delegação do PS. Uma vitória clara da diplomacia de Lisboa.

Manuela Ferreira Leite
Pode não ter imagem nem condições para liderar o PSD, Ângelo Correia tem toda a razão. Mas esta semana acertou em cheio, retomando a agenda de Marques Mendes sobre as PME e recusando o Pacto de Sócrates. A imagem é que não tem recuperação possível. Ou seja, ao contrário do que Marcelo dizia, o problema não era o discurso…

Manuel Pinho
Depois da antecipação das verbas é agora a vez do aumento das comparticipações do QREN. Com efeito, a comparticipação pública no âmbito do QREN, através dos dinheiros da UE, vai aumentar de 35 para 40 por cento para as PME que vejam aprovados projectos considerados como sendo de qualificação e internacionalização, e para 45 por cento para as empresas com projectos abrangidos pelo sistema de incentivos à inovação. Entretanto, ontem, o ministro da Economia, Manuel Pinho, reuniu-se em Bruxelas com o seu congénere alemão, tendo no final afirmado que notou “abertura” da parte deste para tentar resolver o problema da Qimonda, defendendo que “é preciso ter fé”. A solução existe e pode avançar.

Zeinal Bava
No meio de uma conjuntura tão diversa, a Portugal Telecon é uma excepção, com resultados e crescimentos assinaláveis.

Júlio Monteiro
Advogado de Júlio Monteiro garantiu que “nenhuma suspeita recai” sobre o tio de Sócrates, depois deste ter sido ouvido em tribunal como testemunha. Afastado que está aquele familiar do primeiro-ministro, os magistrados poderão em breve avançar com acusações no caso Freeport, afastando as suspeitas que a comunicação social alimentou.

António Mexia
Pela primeira vez desde a criação do Mibel – Mercado Ibérico de Electricidade, o preço médio semanal de electricidade foi mais baixo em Portugal do que em Espanha, no início deste mês. O preço médio ponderado no mercado grossista, na semana de 31 de Janeiro a 6 de Fevereiro, foi de 40,12 euros por megawatt/hora (MWh) em Portugal contra 41,03 MWh em Espanha, diz o regulador espanhol CNE – Comisión Nacional de Energia.

Santos Ferreira
O Banco Comercial Português fechou ontem a cair mais de 5 por cento. A desvalorização surgiu na sequência de um “research” do JPMorgan, que avaliou os títulos em 0,58 euros. Os títulos do BCP fecharam a cair 5,34% para 0,692, tendo registado uma queda máxima de 7,8% para 0,674 euros. Esta foi a primeira sessão de sempre em que o BCP fechou abaixo da fasquia dos 0,70 euros. A queda de ontem atirou o valor de mercado do BCP para 3,24 mil milhões de euros, o que compara com os 3,82 mil milhões de euros do final de 2008. Ou seja, desde o início do ano a capitalização bolsista caiu 577 milhões de euros. Porém, diante da crise a administração do BCP decidiu avançar com obrigações perpétuas para garantir os rácios de solvabilidade e deste modo não diluir ainda mais a posição dos accionistas, que nesta altura não têm dinheiro para acudir a novos aumentos de capital.

Desce

António Guerreiro
Acabou por ser salvo pelos grandes bancos comerciais portugueses que lhe ficaram com os activos. Mas António Guerreiro tem agora a possibilidade de reconstruir o seu património, assim que a crise passe. O Governo deveria ter feito o mesmo nos casos BPN e BPP. Aprende-se com os erros…

Manuel Fino
Acabou por ter que entregar as acções da Cimpor livres à CGD, que as pagou pelo montante da dívida, considerando estratégico o investimento e assim adiando a constituição de provisões. Mas o Bloco de Esquerda questionou ontem o Governo por causa da operação, realizada na semana passada, onde a Caixa Geral de Depósitos terá comprado quase dez por cento do capital da Cimpor acima do preço de mercado, pagando mais 62 milhões de euros do que valiam os títulos em bolsa.

Fernando Adão da Fonseca
A sede no Porto do Banco Privado Português (BPP) foi ocupada ontem à tarde por cerca de dezena e meia de depositantes, que exigem o pagamento de juros e do capital que alegadamente se encontram em atraso.

Os dois lados da crisepor Ilda Figueiredo

É inadmissível que o governo do PS não tome uma posição clara de protesto e indignação contra estes anúncios de despedimentos colectivos, que são um escândalo, impondo medidas eficazes que impeçam outras tentativas semelhantes, quando o país está numa regressão acentuada e a vida está cada vez mais difícil para a generalidade dos portugueses.

Nas visitas e reuniões em que tenho participado, um pouco por todo o País, são notórias as críticas à política do Governo e às inúmeras injustiças que continuam a ser praticadas.
Por um lado, acentua-se uma crise profunda na área das micro, pequenas e diversas médias empresas, a quem têm faltado os apoios públicos que sobram para a banca e os grupos económicos, que vivem asfixiadas pela burocracia e escassez de financiamento bancário, que sofrem directamente as consequências da baixa do poder de compra da população, contribuindo também para agravar a situação com o aumento de falências, despedimentos e atrasos no pagamento de salários. O que se está a passar é a conhecida proletarização dos pequenos empresários, de que já falava Karl Marx, quando descreveu as inevitáveis crises do sistema capitalista.
Por outro lado, a crescente multiplicação de casos de algumas médias, mas sobretudo, de grandes empresas, incluindo grupos económicos e multinacionais que, aproveitando o pretexto da crise, estão a tentar reduzir custos, fomentando despedimentos, reduzindo tempo de trabalho, pressionando os trabalhadores que ficam a maiores ritmos e cargas de trabalho. Um dos casos mais escandalosos é o da Corticeira Amorim, cujos lucros, no conjunto dos dois últimos anos, foram superiores a 30 milhões de euros, sendo que mais de seis milhões se registaram em 2008. No entanto, este mês, a Corticeira Amorim anunciou o despedimento de cerca de 200 trabalhadores, alegando o efeito da crise, esquecendo que foram eles quem ajudaram a construir o grupo que vale muitos milhões de euros, para o que também contribuíram apoios públicos, incluindo fundos comunitários.
É inadmissível que o governo do PS não tome uma posição clara de protesto e indignação contra estes anúncios de despedimentos colectivos, que são um escândalo, impondo medidas eficazes que impeçam outras tentativas semelhantes, quando o país está numa regressão acentuada e a vida está cada vez mais difícil para a generalidade dos portugueses.
São particularmente os trabalhadores, os reformados, os agricultores e pescadores, os micro e pequenos empresários quem está a ser mais atingido pela crise, que assume níveis cada vez mais preocupantes, empurrando para o desemprego milhares de pessoas. Simultaneamente, as grandes empresas e grupos económicos e financeiros mantêm lucros, embora menos elevados do que anteriormente, e, no entanto, são quem mais continua a beneficiar dos apoios públicos e financiamentos estatais, o que é uma injustiça.
Sabe-se que todos os dados divulgados demonstram que a crise é mais profunda do que o Governo tentou fazer crer. Não só o INE tornou claro que o produto caiu mais do dobro do esperado e que a recessão tem uma dimensão inquietante e profunda, como estudos e documentos da Comissão Europeia demonstram que esta situação tem também raízes estruturais e mais profundas do que a crise actual. Por exemplo, o estudo recentemente divulgado da Eurydice, intitulado “Reduzir as desigualdades sociais e culturais para a educação e o acolhimento das crianças e jovens na Europa” demonstra que, mesmo antes desta crise, Portugal já estava entre os seis países com piores situações de pobreza e exclusão social na UE 27. Já aí se afirmava que uma das situações mais preocupantes era em Portugal, com mais de 20% das famílias com crianças de menos de seis anos a viver em risco de pobreza, confirmando as nossas repetidas preocupações em relação às políticas do governo PS.
A realidade actual, com mais de 500 mil pessoas efectivamente no desemprego, revela que a crise continua a aprofundar-se com o encerramento de centenas de empresas por todo o País, paragens na produção, salários em atraso, agravamento da precariedade e redução de salários, numa dimensão que não se explica apenas pela crise internacional, mas também por uma política nacional que há muito tinha conduzido o País ao atraso e à crise.
A evolução das contas nacionais, que não reflecte ainda a gravidade da evolução deste princípio do ano, mostra o nosso país como um dos mais penalizados pela actual crise, com um crescimento nulo em todo o ano de 2008, depois de anos de diminuto crescimento económico.
Impõe-se, pois, uma inversão rápida destas políticas. É urgente travar esta tendência avassaladora de destruição de empresas e de emprego com a dupla crise que enfrentamos. É preciso, rapidamente, retomar o caminho da recuperação económica e da criação de emprego, utilizando outras políticas, outras soluções e outras medidas.
Há soluções para os problemas que estamos a enfrentar e é possível outro rumo para o País. É preciso tomar medidas concretas, imediatas e bem dirigidas, o que exige o investimento público como elemento estruturante no combate à recessão económica, à dinamização da produção, ao reforço dos meios financeiros das autarquias para um rápido investimento público com reflexos rápidos, designadamente nos planos do emprego e da melhoria dos equipamentos sociais e colectivos.
Exige, igualmente, a efectiva dinamização do investimento público da administração central dirigida ao estímulo da economia local e dos sectores económicos a ele ligados, acompanhado do reforço e do desbloqueamento imediato ou antecipação de verbas comunitárias destinadas ao apoio aos sectores produtivos nacionais.
Por último, implica também uma ajuda imediata às micro, pequenas e médias empresas e à salvaguarda do aparelho produtivo nacional, nomeadamente o congelamento ou redução dos preços na energia, nas telecomunicações e nas portagens, por forma apoiar os factores competitivos do tecido produtivo nacional. O que deve ser acompanhado da adopção de uma orientação de negociação de acordos para pagamento das dívidas ao fisco e à segurança social, que garantam a viabilidade das empresas e a manutenção dos seus postos de trabalho, ou, ainda, a eliminação do Pagamento Especial por Conta para as pequenas empresas.

Sócrates vai demitir-se antes do Congresso do PS?

E se Sócrates se demitisse antes do Congresso do PS, tornado a reunião magna do final do mês numa grande arena de exaltação socialista e tributo ao seu herói, rumo às legislativas? Para já, José Sócrates vai ser eleito secretário-geral do PS nas directas deste sábado.

Em condições excepcionais tudo é ainda possível no PSD

E se Sócrates se demitisse antes do Congresso do PS, tornado a reunião magna do final do mês numa grande arena de exaltação socialista e tributo ao seu herói, rumo às legislativas? Para já, José Sócrates vai ser eleito secretário-geral do PS nas directas deste sábado. É o ponto de não retorno para um homem debaixo de fogo nas útimas semanas. Entretanto, em vários sectores do PSD há a convicção de que uma demissão de Sócrates também poderia levar os social-democrata a apelar a todas as suas energias, galvanizando o partido em torno de um novo líder, uma figura credível
mas com notoriedade e boa imagem mediática, capaz de tirar, realmente, a vitória a Sócrates ao apanhar o líder socialista num momento de grande fragilidade. Quem? Só há um social-democrata nessas condições: Marcelo Rebelo de Sousa.

E se Sócrates se demitisse antes do Congresso do PS, tornando a reunião magna do final do mês numa grande arena de exaltação socialista e tributo ao seu herói, rumo às legislativas? Sócrates parece ter muita coisa a ganhar se puser tudo em pratos limpos. A legitimação nas urnas, contra suspeitas e ameaças, poderia ser a solução. Não ficando à espera de Godot, que pode não chegar. Por um lado, o processo Freeport pode não ser finalizado tão depressa , face às numerosas diligências que ainda têm de ser feitas. Por outro, mesmo se o processo for finalizado, o barulho pode continuar. Ou porque não foram feitas todas as diligências ou pelo próprio clima de suspeitas que se gerou à volta do Ministério Público. Deste modo, a opção pela via das urnas, coloca o assunto no campo político, afastando-o das fragilidades judiciais. Sócrates tem como motivação para ir por este caminho as várias sondagens que deram o PS com as mesmas margens confortáveis em relação ao PSD. A demissão de PM e as eleições antecipadas teriam, também, a grande vantagem para Sócrates de, com grande probabilidade, obrigar o PSD a ir às urnas com Ferreira Leite na liderança, perante o aperto de tempo para os social-democratas mudarem de líder, fazerem directas e ainda realizarem um novo Congresso. Nas sondagens, Ferreira Leite tem aparecido com valores muito fracos, que ameaçam o PSD com o seu pior resultado de sempre. Mesmo nas projecções depois do ressurgimento do caso Freeport, a líder laranja manteve os fracos indicadores, o que até motivou uma reacção do PSD, denunciado a credibilidade das sondagens.
Mas será mesmo assim? Em vários sectores do PSD há a convicção de que a necessidade faz o hábito e a oportunidade. Ironicamente, perante a demissão de Sócrates, o PSD também poderia ter um apelo de sobrevivência, com os laranja s a exortarem à demissão de Ferreira Leite, em face do interesse superior do partido e do país. Curiosamente, os sucessivos timings que os críticos da líder lhe têm dado, onde se enquadram quer os críticos previsíveis, como Luís Filipe Menezes, quer os mais imprevisíveis, que têm vindo de sectores cavaquistas e mendistas, ficariam resolvidos por si só com a demissão de Sócrates. Ou seja, Ferreira Leite tinha mesmo perdido a oportunidade porque já não havia mais tempo para mostrar resultados. Em vários sectores social-democratas há a convicção, no cenário de legislativas antecipadas, de que é possível vencer Sócrates , sobretudo face ao momento de grande fragilidade que o primeiro-ministro enfrenta face ao caso Freeport. Esta oportunidade pode, aliás, não se repetir. O perigo de Sócrates ganhar as legislativas, derrotando Ferreia Leite, e encerrar por via política o caso Freeport, é considerado como muito perigoso no PSD. Até porque Sócrates , com mais quatro anos de mandato garantidos, ficava com muitas cartas para jogar. Se ganhasse com maioria absoluta, ficava mesmo com o baralho todo. Nos mesmos sectores laranjas, há também a percepção de que os maus resultados das sondagens, mesmo com o Freeport, não são o efeito de uma legitimação de Sócrates em relação ao caso do outlet de Alcochete mas que são, sim, reflexo da inexistência de uma alternativa política real ao líder socialista. Neste quadro, se aparecesse um líder laranja credível mas com envergadura, notoriedade e boa imagem mediática teria grandes hipóteses de tirar a vitória a Sócrates. Quem? Só há um social-democrata nessas condições: Marcelo Rebelo de Sousa.
Pedro Passos Coelho, apesar do esforço que tem feito para se manter à tona política nos últimos meses, com grande prejuízo, aliás, para Ferreira Leite, não tem, naturalmente, a envergadura intelectual, a carreira profissional, a notoriedade e projecção mediática de Marcelo Rebelo de Sousa.

E Marcelo ainda pode avançar?

O comentador televisivo já por várias vezes , nos últimos meses, criticou Ferreira Leite. Teve sempre de emendar a mão a seguir, o que pode ter sido deliberado, de modo a ganhar espaço, demarcando-se de Ferreira Leite ao mesmo tempo que se mantém, naturalmente, solidário com ela, como membro da mesma família política cavaquista. Mesmo as juras recentes de Marcelo de que só seria candidato em condições muito excepcionais poderiam estar reunidas perante a demissão de Sócrates e a quase inevitabilidade de Ferreira Leite ser derrotada nas urnas.

Marcelo Rebelo de Sousa poderá ser, também, o único candidato a líder para o qual Ferreira Leite poderia admitir renunciar, face á envergadura e historial do professor, sem perder minimamente a face, cumprindo o interesse do partido e, sobretudo, o interesse do país. Por sua vez, com o avanço de Marcelo, as muitas famíliias do PSD não tinham outra alternativa que não dar-lhe apoio, mesmo a contragosto. Passos Coelho não tinha margem para não o apoiar. Santana Lopes, envolvido na luta pela capital, também não poderia afrontar Marcelo. Ou seja, o professor tinha excelentes condições para unificar o partido à sua volta. Todos os anteriores líderes do partido poderiam apoiá-lo, Durão Barroso, Santana Lopes, Marques Mendes, mesmo Luís Filipe Menezes, sem espaço para ter outra posição. Marcelo Rebelo de Sousa seria também a personalidade melhor colocada para captar algumas figuras de projecção, independentes, para apoiarem o PSD e integrarem um futuro governo sombra Marcelo seria ainda, o melhor líder para combater Sócrates com o argumento de que poderia ser ele o melhor garante para aplicar politicas correctas contra a crise económica, apresentando um programa minucioso e coerente.
Figura pública notória, que os portugueses todos conhecem, Marcelo não deveria ter dificuldades em impor-se rapidamente. A pressão do calendário poderia, aliás, jogar a favor do professor. Não haveria tempo para operações de desgaste, que têm sido muito habituais no PSD em relação aos últimos líderes.

Reunião magna dos socialistas marcada para o final do mês
O que espera do congresso do PS?

Simões Ilharco

A reunião magna dos socialistas, que é antecedida das directas, a realizar hoje e amanhã, está marcada para o final do corrente mês. À pergunta do SEMANÁRIO, “O que espera do congresso do PS?”, respondem cinco socialistas, que contemplam algumas das sensibilidades do partido.

Manuel Alegre
“Nada de novo”

“Infelizmente, não espero nada de novo.”

Marcos Perestrelo
“Projecto sólido”

“Espero que o congresso do PS seja uma oportunidade de reafirmação do PS, como o único partido com um projecto sólido para Portugal, capaz de modernizar e desenvolver o País.”

Vítor Ramalho
“Reforço do ideário”

“Como sempre disse, espero que proporcie um debate sobre ideias, suportadas nas causas do socialismo democrático. É fundamental que o PS reforce o seu ideário, porque é com ele, só com ele, que se ganhará o futuro.”

Miguel Coelho
“Reafirmar liderança”

“Espero do congresso do PS a reafirmação desta liderança no País e no partido e, muito naturalmente, espero, também, a confirmação das propostas políticas que são apresentadas nesta moção de estratégia.”

Paulo Pedroso
“Plataforma política”

“Espero que dele surja a plataforma política para o Governo, na próxima legislatura, e a formulação de uma nova política local com que o PS se apresentará às autárquicas.”