Barrosistas tentam aproximar-se de Mendes para chegar a Cavaco

A tentativa de aproximação de José Luís Arnaut a Marques Mendes está a levantar alguma polémica no seio da direcção laranja. Para uns, é sinal que começa a cheirar a poder no PSD e que Marques Mendes pode chegar a primeiro-ministro. Para outros, é mero tacticismo: usam Mendes para se aproximarem do cavaquismo, porque o próximo ciclo, no PSD e na direita, será cavaquista, e quem não estiver com Cavaco fica, pelo menos, dez anos afastado do poder.

A aparente ruptura entre o barrosismo e o cavaquismo deu-se no fim do Governo de Durão Barroso, quando Morais Sarmento, José Arnaut, Matos Correia e Miguel Relvas decidiram apoiar o santanismo e promover a indigitação de Santana Lopes para primeiro-ministro, seguindo a decisão de Durão Barroso. Mas tudo se agravou com o desempenho dos mesmos e sobretudo sobre as suas condutas, tornando o grupo dos barrosistas indesejável aos olhos dos cavaquistas, com especial marcação de Manuel Ferreira Leite, que, aliás, já antes punha algumas reservas à sua actuação.
Depois da derrota eleitoral de Santana Lopes, no Congresso que escolheu Mendes para a liderança, o grupo aparentemente desfez-se, com Morais Sarmento primeiro a tentar correr sozinho, mas apercebendo-se que não tinha tropas e, depois, com José Luís Arnaut e Miguel Relvas, traindo Santana Lopes, a passarem do campo de Menezes para o lado de Marques Mendes, assegurando assim a vitória deste no Congresso de Pombal.
Apesar da traição barrosista, Marques Mendes não daria lugares na direcção aos homens de mão do já presidente da Comissão Europeia, que chegavam mesmo a ser tratados, com arrogância, dada a proximidade com os interesses e os negócios, e havendo, na linha dos cavaquistas, mesmo quem, na actual direcção do PSD, defendesse distância clara e assumida.
Pedro Passos Coelho e Azevedo Soares nunca terão visto com bons olhos a colagem dos antigos barrosistas. Mas no seio da direcção de Mendes, esta posição não é unânime, até porque alguns dirigentes actuais consideram que o grupo barrosista já não existe e que o próprio Durão Barroso já se demarcou deles.
Por outro lado, Mendes, tendo no horizonte chegar a primeiro-ministro, tem que começar a federar interesses e sem nada dar aos barrosistas, também não tem que fazer o débito de os afastar. Para isso basta-lhe os casos exemplares de Isaltino Morais e de Valentim Loureiro, com os quais iniciou o seu mandato e que terá que levar até ao fim. E se, no caso de Isaltino Morais, o juiz pode levar por diante a sua, já com o major, as prestações públicas, como ainda aconteceram esta semana, acabam por dar mais espaço de manobra a Marques Mendes e funcionarem politicamente a seu favor.

Começa a cheirar a poder no PSD
A estratégia de Marques Mendes assenta basicamente no facto de não ser a oposição que ganha as eleições, mas o Governo que as perde. E nesse contexto, como aconteceu com Durão Barroso e Santana Lopes, Mendes só tem que assegurar que se mantém à frente do PSD até às próximas legislativas.
Os analistas próximos do líder social-democrata começam já admitir que as coisas podem acelerar. Paula Teixeira de Cruz chegou mesmo em entrevista a dizer que “os ciclos políticos estão a encurtar numa advertência clara de que pode haver eleições legislativas antecipadas.
A evolução do confronto dentro do PS parece estar a apostar para aí, pensa-se no PSD. A guerra entre o coordenador autárquico Jorge Coelho e o primeiro-ministro José Sócrates pelo controlo do Governo do País é assumida no seio do PS. E a questão das presidenciais só veio dividir ainda mais o partido. Soares não gosta de Sócrates e se ganhar facilmente o substituiria por um líder a seu gosto, mesmo sem eleições legislativas. Só que a campanha de Soares começou mal. O velho presidente impôs-se ao partido por “gula” do poder, humilhando Manuel Alegre e levando por prisioneiro o próprio primeiro-ministro.
Por outro lado, quem não está a gostar do rumo da governação é o Presidente Jorge Sampaio. Sampaio não quer ser um equívoco histórico entre Soares I e Soares II, e começou já a marcar Sócrates, o elo mais fraco da candidatura presidencial dos socialistas. Atacou o Governo socialista nos incêndios e esta semana humilhou o primeiro-ministro em frente dos militares, sentando-o como o ministro da Defesa com os chefes militares de decidiram protestar contra as decisões administrativas do Governo.
É o lado soixante-huitard de Sampaio a reagir contra o argumento de autoridade, agravando a crise do Estado e a falta de respeito pelas instituições e pela autoridade do primeiro-ministro, em nome de um vago sentimento de unidade nacional, generoso, mas que coloca o Estado em causa. E, Sampaio, bem informado e politicamente avisado, sabe bem o efeito do seu gesto: desgasta o primeiro-ministro e sabe que Sócrates não tem autoridade nem força política para obrigar o presidente a promulgar ou a não promulgar sem diligências públicas humilhantes para o chefe do executivo.
Assumindo-se como comandante em Chefe das Forças Armadas, o Presidente da República está basicamente a diminuir o chefe do Governo, exactamente, para, desse modo, diminuir também Mário Soares e a candidatura socialista, legitimada pelo primeiro-ministro.
Basicamente, Sampaio poderá mesmo, mais tarde ou mais cedo, agravar o cerco aos socialistas e ao Governo, o que, admitem fontes social-democratas, poderá ser entendido como um sinal de compreensão pelas razões da candidatura nacional, e não partidária como a de Soares, de Cavaco Silva à Presidência da República.
Ora, cercado pelo aparelho socialista que quer mandar no Governo e nos negócios do Estado, maltratado por Soares que lhe retirou todo o espaço de liberdade e de escolha nas presidenciais e, finalmente, “malhado” pelo próprio Presidente da República nos seus últimos quatro meses de mandato. O primeiro-ministro pode sentir-se isolado e sem condições de Governo.
E o pior nem seria isso. Sócrates tem preparação política e capacidade e já não é ingénuo. Sabe quanto custa o poder e como com o PS tudo é mais complicado. Conhece bem as peças e ate poderia destrui-las assim o quisesse. Num congresso, Sócrates poderia sempre tirar todo o poder a Jorge Coelho, que só existe na política enquanto tiver o palco do PS, admite-se no PSD.
O problema também não seria Soares. Que Sócrates, estando em Belém, pode sempre destruir, pois é ele que dá empregos e “assina o cheque”. Nem mesmo Sampaio, desacreditado em fim de mandato e sem futuro algum.
O problema é que a situação económica não melhora, piora todos os dias e que a acção do Governo tem sido errada e agravado a crise económica e de confiança no País. O problema é que não há volta a dar. Ou seja: o problema permanece o mesmo que Barroso e Guterres enfrentaram. Isto parece ingovernável e, portanto, mais vale abandonar a política e o Governo. A capacidade de intervenção do Governo é actualmente quase nula e ninguém valoriza o esforço do governante.
Ou seja, prevê-se já que, à semelhança de Guterres e Barroso, Sócrates seja tentado a abandonar o Governo de Lisboa e partir para uma carreira internacional ou outra, deixando livre o caminho para Cavaco Silva convocar eleições legislativas antecipadas.
Ora, neste contexto, para Marques Mendes é natural que o PSD ganhe essas eleições, eventualmente marcadas para Outubro de 2006. As legislativas normalmente dever-se-iam realizar apenas em 2009, mas num contexto de crise económica agravada e de duas derrotas sucessivas do PS – nas autárquicas e nas presidenciais -, a legitimidade política da maioria parlamentar fica definitivamente prejudicada e, portanto, teria sempre que haver eleições antecipadas.
Neste particular, Cavaco Silva, sendo um institucional, não cometerá o erro de Sampaio com Santana Lopes, dizem fontes mendistas.
E é exactamente aqui, no carácter institucional de Cavaco Silva que o PSD se divide. Para uns, Cavaco Silva nunca fará eleições antecipadas antes de substituir a direcção do PSD. Ou seja, antes de colocar à frente do partido um cavaquista: eventualmente Ferreira Leite, embora António Borges, apesar de desacreditado, continuar a acalentar esperanças de conseguir chegar à liderança do partido.
Nesse sentido, o próximo ciclo seria cavaquista e Arnaut, Sarmento e Relvas poderiam ser úteis nessa estratégia, mudando em tempo oportuno do lado de Marques Mendes para os dos cavaquistas, tornando assim úteis para o ciclo seguinte, acreditam os críticos da aproximação dos barrosistas a Mendes.
Já os mendistas crêem, que sendo Cavaco Silva, um institucionalista jamais se imiscuirá na vida interna do partido, como aliás o tem feito nos últimos dez anos, destinguindo-se tambem por isso, de Mário Soares, no entendimento que faz do papel moderador do presidente da Republica. E nesse sentido, Cavaco Silva fará como qualquer outro Presidente da República, antes de Sampaio: dará posse ao líder do maior partido parlamentar, ou seja, permitirá que Marques Mendes, sendo um nogueirista e não um cavaquista, chegue à chefia do Governo, eventualmente negociando, claro está, as pastas fundamentais para os cavaquistas. Trata-se obviamente de algo que Marques Mendes estará preparado para aceitar, comenta-se no PSD.|

“Não apresentamos uma candidatura a fingir”

Em entrevista ao SEMANÁRIO, o historiador e deputado do Bloco de Esquerda, Fernando Rosas, diz que não há qualquer “ambiguidade” quanto ao seu apoio, em matéria presidencial. Rosas apoia Francisco Louçã e só esteve presente no lançamento da candidatura de Mário Soares por uma questão de amizade. O deputado refere que o BE não apresenta candidaturas “fantasmas”, até porque essa não é a forma do Bloco estar na política. Mobilizar o eleitorado à esquerda, assim como combater o candidato da direita e as políticas do Governo
de José Sócrates, são objectivos da candidatura presidencial de Francisco Louçã.

A Mesa Nacional do Bloco de Esquerda aprovou na semana passada o nome de Francisco Louçã, como o candidato presidencial apoiado pelo BE. Disse-se que a candidatura é para “ir até ao fim”. Este “até ao fim” é para ir a votos?
Sobre isso não há a mais pequena dúvida. O próprio Francisco Louçã deixou isso muito claro. Trata-se de uma candidatura para ir até ao fim, no sentido em que vai às urnas e apela ao apoio político dos portugueses, traduzido através do voto.

Quais são os objectivos do BE nas presidenciais?
Naturalmente derrotar a direita, criticar o Governo do PS pela continuidade que tem feito em relação às políticas de direita e, também, apresentar o projecto (do BE) de esquerda socialista, popular. E afirmar as alternativas que temos para responder a alguns dos principais problemas do País.

Quando refere derrotar o candidato de direita, tem noção de que o candidato apoiado pelo Bloco não tem hipóteses de ganhar?
A concorrência de vários candidatos à esquerda não enfraquece estas candidaturas. Pelo contrário. A mobilização de todos os votantes do eleitorado de esquerda é a primeira e principal condição para na primeira volta se obter uma maioria absoluta, mais de 50%, na votação das várias esquerdas que concorrem.

Fazem uma interpretação com base nos resultados das presidenciais de 1986?
Não. Estamos a fazer uma interpretação com base no funcionamento do sistema eleitoral português. Um candidato só passa à segunda volta se tiver mais de 50% dos votos. Na primeira volta espera-se que nenhum candidato o tenha, ou pelo menos o candidato da direita não o tenha seguramente. A primeira condição para assegurar este desiderato é que toda a esquerda se mobilize. Se a esquerda tivesse um único candidato, uma parte dela não ia a votos, porque se abstinha, não se reconhecia nesse candidato. Havendo vários candidatos que preenchem grande parte daquilo que são as várias facetas que a esquerda reveste neste País, é de supor que a totalidade, ou quase totalidade, do eleitorado de esquerda esteja mobilizado para votar. Há uma coisa que esses votos todos assegurarão, provado com muita probabilidade, o candidato da direita não vence as eleições na primeira volta.

Partem do pressuposto que Cavaco Silva, se avançar, não terá mais de 50% na primeira volta?
Se todo o eleitorado de esquerda se mobilizar creio que não. Sociologicamente o voto do eleitorado de esquerda, sobretudo em eleições presidenciais, tem sido maioritário.

Mas Cavaco Silva foi o único líder partidário, até hoje, que ganhou eleições legislativas com mais de 50%?
Perdeu as presidenciais.

Na semana passada esteve presente no lançamento de candidatura de Mário Soares, o que lhe valeu algumas críticas de alguns militantes do BE. Como interpreta essas críticas?
Respeito-as, ainda que não concorde com elas. Os camaradas (do BE) que me criticaram têm todo o direito de o fazer. Fui (ao lançamento da candidatura de Mário Soares) e deixei muito claro junto dos órgãos de comunicação social, no próprio acto. Fui por razões pessoais, que derivam de uma longa amizade e colaboração com o dr. Mário Soares. Mas isso não significa que o dr. Mário Soares seja o meu candidato. O meu candidato é o candidato apoiado pelo BE. É por ele que eu farei campanha. Não há nenhuma ambiguidade.

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, disse, na Festa do Avante, que o BE avançava com uma candidatura presidencial por que o PCP já tinha avançado a sua. Não há uma marcação de posições à esquerda?
Não. Isso não tem sentido.

Porém, muitas das críticas que o BE tem feito, de que esta candidatura (de Francisco Louçã) não vai desistir, alude a candidaturas passadas do PCP…… Em primeiro lugar, o BE na sua curta história sempre apresentou candidato próprio nas eleições presidenciais. Aliás, da última vez fui eu próprio. Não apresentamos candidaturas por causa de nenhum outro partido. Apresentamos porque somos um partido que aspira ter um papel de resposta nacional à crise do País. Temos um programa para o País. Agimos em consequência com isso, ou seja, apresentando uma candidatura. Uma candidatura que busca a afirmação do seu projecto político. Em segundo lugar, na realidade, à esquerda não fomos nós que iniciámos essa tradição dos candidatos fantasmas. Foi o Partido Comunista. O PCP fará o que entender, naturalmente tem o seu pleno direito. Nós não concordamos com essa prática. Não faz parte com a nossa maneira de estar na política, apresentar candidatos a fingir. Não o faremos.

Na semana passada, em entrevista ao jornal SEMANÁRIO, o deputado socialista e apoiante de Mário Soares, Vítor Ramalho, tal como o ex-Presidente Soares reiterara anteriormente, indicara o facto de ser salutar a união da esquerda na primeira volta. A visão do Bloco de Esquerda é diferente?Achamos que havendo várias esquerdas é salutar que elas apresentem os seus distintos programas ao eleitorado. O Partido Comunista Português representa uma certa visão do mundo e do País. O candidato apoiado pelo Partido Socialista apresentará uma visão, provavelmente, parecida com a do partido que a apoia. E nós (Bloco de Esquerda) temos uma visão alternativa relativamente a uma e a outra. É salutar, do ponto de vista do esclarecimento eleitoral, que as três concorram. Ainda por cima, no sistema político eleitoral português, essa concorrência não só não vai diminuir nenhuma das candidaturas de esquerda, mas vai permitir que todo o eleitorado de esquerda esteja presente nas urnas para afirmar a sua vontade.
Nesse sentido vai mobilizar todo o eleitorado de esquerda que, como disse, terá como consequência, à primeira volta, permitir que pelo menos o candidato da direita não vença à primeira volta.

China ganha batalha dos têxteis bloqueados nas alfândegas europeias

Têxteis portugueses acusam CE de fraqueza face
a interesses organizados

“A Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) lamenta profundamente a cedência da Comissão Europeia à pressão do ‘lobby’ da distribuição e das autoridades chinesas.” Assim classifica a ATP o pacto preliminar obtido segunda-feira, em Pequim, que define que mais de 87 milhões de artigos de vestuário e 130 toneladas de fio de linho, retidos há algumas semanas nas alfândegas europeias, podem ser liberados e introduzidos no mercado.
De acordo com Paulo Nunes de Almeida, presidente daquela associação, o pacto agora celebrado contraria a determinação do passado dia 10 de Junho para controlar a importação de artigos têxteis e de vestuário chineses na Europa. O acordo determinava a reintrodução temporária – até final de 2007 – de quotas em 10 categorias de produto, em resposta ao crescimento exponencial das exportações chinesas.
E apesar da Comissão Europeia ter revelado “firmeza” nas negociações, “que fazia crer que os acordos assinados eram para cumprir, mal-grado as pressões dos importadores e distribuidores europeus e as ameaças de guerra comercial por parte da China”. Interesses que, no entender de Paulo Almeida, prevaleceram “infelizmente face aos da indústria e do emprego têxtil europeus”, resultando na celebração do acordo estabelecido esta semana.
O acordo anunciado em Pequim terá ainda que ser ratificado pelos Estados-
-membros embora a ATP explica que dado haver apenas uma minoria de bloqueio a querer impedi-lo, um retrocesso da medida é, neste momento, “altamente improvável”. A convenção prevê, segundo informações recolhidas junto da Euratex, que metade das 87 milhões de peças e das 130 toneladas de fio de linho sejam desbloqueadas fora dos termos do entendimento estabelecido em Junho último, o que constitui uma “inexplicável e inaceitável cedência” da UE relativamente à China. A restante metade será liberada, recorrendo-se em parte a quotas de produtos têxteis ainda não esgotadas ou por conta das quotas do ano que vem.

Aquisição da Fenosa pela Galp faz sentido

Segundo os analistas do BPI e da Espírito Santo Research, a possibilidade de a Galp Energia comprar a posição do Santander na União Fenosa faz sentido do ponto de vista ibérico. No entanto, a empresa espanhola Union Fenosa afirma-se preocupada com a concentração que poderá pressupor esta OPA, caso não haja intervenção por parte das autoridades, o que levará a uma posição dominante do sector energético do grupo.

A possibilidade de a Galp Energia comprar a posição do Santander na Unión Fenosa faz sentido do ponto de vista ibérico, segundo os analistas do BPI, que destacam o interesse de saber qual a posição da EDP neste cenário. A Espírito Santo Research tem a mesma opinião, mas alerta para os potenciais problemas de concorrência desta operação. O “Jornal de Negócios” noticiou esta semana que o ministro da Economia, Manuel Pinho, defende a compra da participação de 22% do Santander na Unión Fenosa pela Galp Energia. Adianta que já existiam contactos com o banco espanhol para o negócio, mas a sua realização poderá ser acelerada pela OPA da Gas Natural sobre a Endesa. No “Iberian daily”, os analistas do BPI consideram que este movimento “pode fazer sentido numa base ibérica, tendo em conta o recente anúncio da OPA da Gás Natural sobre a Endesa”. A “questão-chave será saber se os accionistas minoritários na Unión Fenosa podem tirar partido do hipotético preço a pagar ao Santander”, dizem. Segundo o “Jornal de Negócios”, o Santander pede 2 mil milhões de euros por esta posição de 22% no capital da Fenosa, que no mercado está avaliada em 1,5 mil milhões de euros. O banco espanhol quer um prémio na venda desta posição, por esta ser de controlo. A Unión Fenosa, terceira maior eléctrica espanhola, tem sido apontada, há vários anos, como um potencial alvo da EDP em Espanha, um cenário que perdeu alguma força quando a eléctrica de João Talone reforçou a posição na Hidrocantábrico para quase 100%.

Negócio dificilmente será aprovado
pela Comissão Europeia

A ENI tem um importante papel neste negócio, pois é accionista de referência da Galp Energia e controla 50% do capital da empresa de gás da Fenosa. “Apesar de consideramos que este negócio faz sentido do ponto de vista estratégico para a Galp, Fenosa e ENI, lembramos que será preciso uma autorização das autoridades da concorrência da União Europeia”, diz o analista Fernando Garcia, da Espírito Santo Research. A mesma fonte afirma que “dadas as perspectivas de um aumento nos níveis de concentração no mercado energético ibérico dado do negócio entre a Gás Natural e a Endesa, acreditamos que o negócio Galp/ENI/Fenosa dificilmente será aprovado pela União Europeia”. A Comissão Europeia chumbou a aquisição da Gás de Portugal pela EDP, mas não será chamada a pronunciar-se na fusão Gás Natural/Endesa, pois ambas as empresas tem mais de dois terços da sua actividade no mesmo país (Espanha).
O negócio EDP/EGDP necessitou do aval de Bruxelas devido ao envolvimento da ENI, que controla 33,33% da Galp.
“Também interessante será analisar a posição da EDP neste cenário e até que ponto poderá acontecer uma aproximação Galp/EDP, com vista a criar o terceiro maior operador ibérico no sector da energia”, referem os analistas Enrique Manrique e Laura Alonso, do BPI. Na terça-feira, o BPI afirmava que com a fusão da Gás Natural com a Endesa no horizonte, a EDP poderia voltar a tentar comprar a GDP à Galp Energia, um negócio que foi vetado por Bruxelas e que é semelhante ao agora previsto em Espanha. O banco de investimento alerta ainda para a importância da Iberdrola, que, segundo a imprensa, quer aumentar a sua posição na Galp Energia. A Iberdrola está interessada em tomar uma posição estratégia na Galp Energia e entrar no concurso para a atribuição de potência eólica em consórcio com a Energias de Portugal (EDP). Já no que diz respeito à aquisição da EDP dos activos da Endesa no sector do gás em Portugal, o BPI comenta que esta é uma com um impacto “neutral a positivo”, mas negligenciável do ponto de vista económico. A Endesa vai deixar de estar presente no mercado de gás natural em Portugal, onde detém participações nas distribuidoras Portgás (12,4%) e Setgás (9,7%). No dia em que a Gas Natural lançou uma OPA hostil sobre a Endesa, a EDP chegava a acordo com a Endesa Gas para a compra da sua participação nas distribuidoras de gás natural em Portugal.

Fenosa preocupada com concentração
no mercado enrgético

A empresa espanhola Union Fenosa anunciou que vai analisar os novos cenários que se abrem no sector energético resultantes da OPA hostil da Gás Natural sobre a Endesa, ao mesmo tempo que reafirma a importância das autoridades de defesa da concorrência e organismos reguladores para evitar posições de domínio de mercado, divulgou a empresa em comunicado. A empresa afirma-se preocupada com a concentração que poderá pressupor esta OPA, caso não haja intervenção por parte das autoridades, e que levará a uma posição dominante do sector energético do grupo resultante que, ao agrupar duas empresas com actividades eléctricas e de gás, “consolidaria a posição de domínio e limitaria a concorrência entre o gás e a electricidade, o qual resultaria em prejuízo dos consumidores”.
“Em linha com as preocupações expressadas pelo Governo de Espanha, que o levaram à revisão da regulação eléctrica”, a Unión Fenosa entende que “a transparência nas operações, a igualdade de oportunidades entre agentes e a salvaguarda dos direitos dos consumidores devem guiar a regulação dos mercados energéticos”. Num momento em que se define uma nova regulação com o objectivo de equilibrar estruturalmente o sector no âmbito da concorrência e da liberalização, “uma mudança empresarial tão relevante poderia condicionar as novas normas, que devem garantir a igualdade de oportunidades entre os agentes de mercado, empresas e consumidores”. A empresa espanhola espera que a nova regulação fixe com clareza, transparência e sustentabilidade as regras do jogo e afirma-se “confiante na actuação dos organismos reguladores e nas autoridades da concorrência, tanto espanholas como comunitárias, de tal forma que se condicione qualquer processo de concentração, com o objectivo de evitar distorções no comportamento dos mercados”.

Endesa quer Bruxelas a decidir sobre OPA
hostil da Gás Natural

A Endesa quer que sejam as autoridades da concorrência da Comissão Europeia a decidir sobre a oferta pública de aquisição hostil lançada pela Gás Natural sobre a maior eléctrica espanhola. Segundo o “El Pais”, o presidente do conselho de administração da Endesa, que se opõe à OPA da Gás Natural, está a preparar uma estratégia de defesa da investida da Gás Natural, que passa por pedir que seja Bruxelas a analisar os problemas de concorrência decorrentes da operação. Rafael Miranda teve já um contacto com o comissário europeu da Energia, Andris Piebalgs, e deverá aproveitar este contacto para forçar que seja Bruxelas a analisar o caso. Para se defender da ofensiva da Gás Natural, a Endesa contratou já quatro bancos de investimento para definir a estratégia a prosseguir. Segundo as regras actuais, a operação não terá de ser analisada por Bruxelas, pois as duas empresas em causa tem mais de dois terços do volume de negócios no mesmo país: Espanha. Bruxelas bloqueou a intenção da Energias de Portugal de comprar a Gás de Portugal, por considerar que a operação era prejudicial para os consumidores.

Alegre alerta que “República e a democracia não têm donos”

Sem nunca dizer que desiste de ser candidato a Belém, Manuel Alegre sai desse palco, mas está disponível para que “a expectativa de alternativa e de esperança” seja projectada “para outros combates”. Pela simples razão, como disse, esta semana, em Viseu, de que “às vezes pode acontecer o inesperado”. No seu discurso acusou de “autismo” os partidos e disse estar “presente” para “não deixar morrer um espaço de liberdade, de espírito crítico e de re-invenção da vida política”.

Manuel Alegre retirou-se do palco da corrida a Belém, nunca usando a frase feita de “não sou candidato”, mas uma outra, mais subtil, de “nas presentes circunstâncias, fico onde estou”. Se o fez por querer ser “legalista” esperando o que a Comissão Nacional do PS vai decidir no domingo sobre a matéria, como mandam os estatutos, também não deixou transpirar se essa era “a sua razão”. Se sai de vez ou se volta, neste ou noutro cenário e/ou palco, quando colocou a reserva de “às vezes pode acontecer o inesperado”, também só ele o sabe.
Por isso, o discurso de Manuel Alegre teve tantas “leituras” dos vários analistas e provocou, logo de seguida, e em cascata, tantas perguntas para uma resposta “concreta” pedida pelos jornalistas presentes. O futuro o dirá, apesar de Maria de Belém Roseira, a seu lado na mesa de Viseu, ter dito a um interrogador o seguinte: “Ele não é candidato. Só não percebeu isso quem tem problemas de literacia”. E, como sua apoiante, ela preferiu chamar a atenção paras as palavras do seu camarada, que alertam para uma crise de auto-estima generalizada.
O deputado-poeta (como amigavelmente todos lhe chamam) discursou à sua maneira, digno das “tradições literárias” que todos lhe reconhecem. Um discurso “bom” e “generoso”. Quis explicar a razão da “disponibilidade” para ser um pré-candidato: “Por imperativo cívico e para mostrar que não havia nenhum vazio à esquerda”. Apesar de ter dito que o seu avanço criou “uma expectativa de alternativa e de esperança”, ficou por explicar o capítulo seguinte, quando acrescentou que esse capital “é preciso projectar para outros combates”, pois “a vida não pára aqui” ou porque “às vezes pode acontecer o inesperado”.
Um discurso pautado por críticas aos aparelhos partidários, por exemplo, quando criticou “um apoio prévio da direcção socialista”, antes de o assunto ter sido discutido nos órgãos próprios do partido. E também quando disse que “há mais vida para além do aparelho”, numa clara referência à frase de Jorge Sampaio, que Alegre fez questão de elogiar na sua intervenção.
Fica, assim, mais que justificada esta passagem do seu discurso: “Não sou responsável pela decisão da direcção do PS. Não fui eu que dividi. Não serei pelos seus resultados. Mas também não quero ser responsável pela divisão da Esquerda”.
Mas também um discurso em que meteu um “programa político” de uma eventual cadeira presidencial, quando apontou a existência de “uma crise do Estado, que, se não for atalhada poderá transformar-se em crise da própria República”.
Não disse, preto no branco, que desistia da sua candidatura. Fê-lo, todavia, nas entrelinhas e de forma subtil e poética (como é seu timbre). E, de forma clara e inequívoca acrescentou mais um motivo: “Não sou responsável pela decisão pré-anunciada da direcção do PS. Não serei responsável pelos seus resultados. Mas também não quero ser responsável pela divisão da esquerda”. Aliás, quanto a este último ítem, já depois do seu discurso, e em conversa com um jornalista, Alegre descaiu-se aludindo a um hipotético “compromisso de toda a esquerda” num apoio a Soares, que só o PCP se apressou a desmentir.
Mais acutilante explicou por que motivo discorda do processo do apoio da direcção do PS à recandidatura de Soares, numa alusão crítica a José Sócrates: “o processo não foi claro”. E, além disso, somou o seu parecer: “não está conforme com os critérios republicanos de renovação política”. Aliás, indagado sobre se apoiaria ou não Soares, o vice-presidente da Assembleia da República, invocou a “renovação” uma “mudança” e por uma razão pessoal: “porque sou republicano”.
Contudo, Alegre quis deixar uma nota de esperança e, quiçá, o lamiré para uma oposição interna, quando frisou que “a vida não pára aqui” e quando, perante os portugueses que “querem alternativa, querem frontalidade e querem mudança”, explicitou: “É por isso que aqui estou. Para não deixar morrer um espaço de liberdade, de espírito crítico e de re-invenção da vida política”.
Não se esqueceu de lançar algumas farpas a Cavaco Silva – “traz consigo o risco de uma subversão do equilíbrio de poderes e do nosso regime semi-presidencialista” -, mas, também, disparou, provavelmente, sobre todos os partidos. As seguintes frases têm a sua assinatura: “O país político-partidário sofre de autismo”, (…) “os aparelhos estão mais preocupados em preservar os seus feudos do que em abrir-se aos cidadãos, à sociedade e à vida” e ” Portugal não é um projecto contabilístico, nem pode reduzir-se ao mero deleite do jogo político”.
Será que estará aqui o segredo da sua futura intervenção “projectando para outros combates” a sua vontade porque “há muita gente que poderá não se sentir mobilizada, nem representada e esse é o pior dos vazios”?