2020/10/24

Barrosistas tentam aproximar-se de Mendes para chegar a Cavaco

A tentativa de aproximação de José Luís Arnaut a Marques Mendes está a levantar alguma polémica no seio da direcção laranja. Para uns, é sinal que começa a cheirar a poder no PSD e que Marques Mendes pode chegar a primeiro-ministro. Para outros, é mero tacticismo: usam Mendes para se aproximarem do cavaquismo, porque o próximo ciclo, no PSD e na direita, será cavaquista, e quem não estiver com Cavaco fica, pelo menos, dez anos afastado do poder.

A aparente ruptura entre o barrosismo e o cavaquismo deu-se no fim do Governo de Durão Barroso, quando Morais Sarmento, José Arnaut, Matos Correia e Miguel Relvas decidiram apoiar o santanismo e promover a indigitação de Santana Lopes para primeiro-ministro, seguindo a decisão de Durão Barroso. Mas tudo se agravou com o desempenho dos mesmos e sobretudo sobre as suas condutas, tornando o grupo dos barrosistas indesejável aos olhos dos cavaquistas, com especial marcação de Manuel Ferreira Leite, que, aliás, já antes punha algumas reservas à sua actuação.
Depois da derrota eleitoral de Santana Lopes, no Congresso que escolheu Mendes para a liderança, o grupo aparentemente desfez-se, com Morais Sarmento primeiro a tentar correr sozinho, mas apercebendo-se que não tinha tropas e, depois, com José Luís Arnaut e Miguel Relvas, traindo Santana Lopes, a passarem do campo de Menezes para o lado de Marques Mendes, assegurando assim a vitória deste no Congresso de Pombal.
Apesar da traição barrosista, Marques Mendes não daria lugares na direcção aos homens de mão do já presidente da Comissão Europeia, que chegavam mesmo a ser tratados, com arrogância, dada a proximidade com os interesses e os negócios, e havendo, na linha dos cavaquistas, mesmo quem, na actual direcção do PSD, defendesse distância clara e assumida.
Pedro Passos Coelho e Azevedo Soares nunca terão visto com bons olhos a colagem dos antigos barrosistas. Mas no seio da direcção de Mendes, esta posição não é unânime, até porque alguns dirigentes actuais consideram que o grupo barrosista já não existe e que o próprio Durão Barroso já se demarcou deles.
Por outro lado, Mendes, tendo no horizonte chegar a primeiro-ministro, tem que começar a federar interesses e sem nada dar aos barrosistas, também não tem que fazer o débito de os afastar. Para isso basta-lhe os casos exemplares de Isaltino Morais e de Valentim Loureiro, com os quais iniciou o seu mandato e que terá que levar até ao fim. E se, no caso de Isaltino Morais, o juiz pode levar por diante a sua, já com o major, as prestações públicas, como ainda aconteceram esta semana, acabam por dar mais espaço de manobra a Marques Mendes e funcionarem politicamente a seu favor.

Começa a cheirar a poder no PSD
A estratégia de Marques Mendes assenta basicamente no facto de não ser a oposição que ganha as eleições, mas o Governo que as perde. E nesse contexto, como aconteceu com Durão Barroso e Santana Lopes, Mendes só tem que assegurar que se mantém à frente do PSD até às próximas legislativas.
Os analistas próximos do líder social-democrata começam já admitir que as coisas podem acelerar. Paula Teixeira de Cruz chegou mesmo em entrevista a dizer que “os ciclos políticos estão a encurtar numa advertência clara de que pode haver eleições legislativas antecipadas.
A evolução do confronto dentro do PS parece estar a apostar para aí, pensa-se no PSD. A guerra entre o coordenador autárquico Jorge Coelho e o primeiro-ministro José Sócrates pelo controlo do Governo do País é assumida no seio do PS. E a questão das presidenciais só veio dividir ainda mais o partido. Soares não gosta de Sócrates e se ganhar facilmente o substituiria por um líder a seu gosto, mesmo sem eleições legislativas. Só que a campanha de Soares começou mal. O velho presidente impôs-se ao partido por “gula” do poder, humilhando Manuel Alegre e levando por prisioneiro o próprio primeiro-ministro.
Por outro lado, quem não está a gostar do rumo da governação é o Presidente Jorge Sampaio. Sampaio não quer ser um equívoco histórico entre Soares I e Soares II, e começou já a marcar Sócrates, o elo mais fraco da candidatura presidencial dos socialistas. Atacou o Governo socialista nos incêndios e esta semana humilhou o primeiro-ministro em frente dos militares, sentando-o como o ministro da Defesa com os chefes militares de decidiram protestar contra as decisões administrativas do Governo.
É o lado soixante-huitard de Sampaio a reagir contra o argumento de autoridade, agravando a crise do Estado e a falta de respeito pelas instituições e pela autoridade do primeiro-ministro, em nome de um vago sentimento de unidade nacional, generoso, mas que coloca o Estado em causa. E, Sampaio, bem informado e politicamente avisado, sabe bem o efeito do seu gesto: desgasta o primeiro-ministro e sabe que Sócrates não tem autoridade nem força política para obrigar o presidente a promulgar ou a não promulgar sem diligências públicas humilhantes para o chefe do executivo.
Assumindo-se como comandante em Chefe das Forças Armadas, o Presidente da República está basicamente a diminuir o chefe do Governo, exactamente, para, desse modo, diminuir também Mário Soares e a candidatura socialista, legitimada pelo primeiro-ministro.
Basicamente, Sampaio poderá mesmo, mais tarde ou mais cedo, agravar o cerco aos socialistas e ao Governo, o que, admitem fontes social-democratas, poderá ser entendido como um sinal de compreensão pelas razões da candidatura nacional, e não partidária como a de Soares, de Cavaco Silva à Presidência da República.
Ora, cercado pelo aparelho socialista que quer mandar no Governo e nos negócios do Estado, maltratado por Soares que lhe retirou todo o espaço de liberdade e de escolha nas presidenciais e, finalmente, “malhado” pelo próprio Presidente da República nos seus últimos quatro meses de mandato. O primeiro-ministro pode sentir-se isolado e sem condições de Governo.
E o pior nem seria isso. Sócrates tem preparação política e capacidade e já não é ingénuo. Sabe quanto custa o poder e como com o PS tudo é mais complicado. Conhece bem as peças e ate poderia destrui-las assim o quisesse. Num congresso, Sócrates poderia sempre tirar todo o poder a Jorge Coelho, que só existe na política enquanto tiver o palco do PS, admite-se no PSD.
O problema também não seria Soares. Que Sócrates, estando em Belém, pode sempre destruir, pois é ele que dá empregos e “assina o cheque”. Nem mesmo Sampaio, desacreditado em fim de mandato e sem futuro algum.
O problema é que a situação económica não melhora, piora todos os dias e que a acção do Governo tem sido errada e agravado a crise económica e de confiança no País. O problema é que não há volta a dar. Ou seja: o problema permanece o mesmo que Barroso e Guterres enfrentaram. Isto parece ingovernável e, portanto, mais vale abandonar a política e o Governo. A capacidade de intervenção do Governo é actualmente quase nula e ninguém valoriza o esforço do governante.
Ou seja, prevê-se já que, à semelhança de Guterres e Barroso, Sócrates seja tentado a abandonar o Governo de Lisboa e partir para uma carreira internacional ou outra, deixando livre o caminho para Cavaco Silva convocar eleições legislativas antecipadas.
Ora, neste contexto, para Marques Mendes é natural que o PSD ganhe essas eleições, eventualmente marcadas para Outubro de 2006. As legislativas normalmente dever-se-iam realizar apenas em 2009, mas num contexto de crise económica agravada e de duas derrotas sucessivas do PS – nas autárquicas e nas presidenciais -, a legitimidade política da maioria parlamentar fica definitivamente prejudicada e, portanto, teria sempre que haver eleições antecipadas.
Neste particular, Cavaco Silva, sendo um institucional, não cometerá o erro de Sampaio com Santana Lopes, dizem fontes mendistas.
E é exactamente aqui, no carácter institucional de Cavaco Silva que o PSD se divide. Para uns, Cavaco Silva nunca fará eleições antecipadas antes de substituir a direcção do PSD. Ou seja, antes de colocar à frente do partido um cavaquista: eventualmente Ferreira Leite, embora António Borges, apesar de desacreditado, continuar a acalentar esperanças de conseguir chegar à liderança do partido.
Nesse sentido, o próximo ciclo seria cavaquista e Arnaut, Sarmento e Relvas poderiam ser úteis nessa estratégia, mudando em tempo oportuno do lado de Marques Mendes para os dos cavaquistas, tornando assim úteis para o ciclo seguinte, acreditam os críticos da aproximação dos barrosistas a Mendes.
Já os mendistas crêem, que sendo Cavaco Silva, um institucionalista jamais se imiscuirá na vida interna do partido, como aliás o tem feito nos últimos dez anos, destinguindo-se tambem por isso, de Mário Soares, no entendimento que faz do papel moderador do presidente da Republica. E nesse sentido, Cavaco Silva fará como qualquer outro Presidente da República, antes de Sampaio: dará posse ao líder do maior partido parlamentar, ou seja, permitirá que Marques Mendes, sendo um nogueirista e não um cavaquista, chegue à chefia do Governo, eventualmente negociando, claro está, as pastas fundamentais para os cavaquistas. Trata-se obviamente de algo que Marques Mendes estará preparado para aceitar, comenta-se no PSD.|

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