2019/11/18

“Não apresentamos uma candidatura a fingir”

Em entrevista ao SEMANÁRIO, o historiador e deputado do Bloco de Esquerda, Fernando Rosas, diz que não há qualquer “ambiguidade” quanto ao seu apoio, em matéria presidencial. Rosas apoia Francisco Louçã e só esteve presente no lançamento da candidatura de Mário Soares por uma questão de amizade. O deputado refere que o BE não apresenta candidaturas “fantasmas”, até porque essa não é a forma do Bloco estar na política. Mobilizar o eleitorado à esquerda, assim como combater o candidato da direita e as políticas do Governo
de José Sócrates, são objectivos da candidatura presidencial de Francisco Louçã.

A Mesa Nacional do Bloco de Esquerda aprovou na semana passada o nome de Francisco Louçã, como o candidato presidencial apoiado pelo BE. Disse-se que a candidatura é para “ir até ao fim”. Este “até ao fim” é para ir a votos?
Sobre isso não há a mais pequena dúvida. O próprio Francisco Louçã deixou isso muito claro. Trata-se de uma candidatura para ir até ao fim, no sentido em que vai às urnas e apela ao apoio político dos portugueses, traduzido através do voto.

Quais são os objectivos do BE nas presidenciais?
Naturalmente derrotar a direita, criticar o Governo do PS pela continuidade que tem feito em relação às políticas de direita e, também, apresentar o projecto (do BE) de esquerda socialista, popular. E afirmar as alternativas que temos para responder a alguns dos principais problemas do País.

Quando refere derrotar o candidato de direita, tem noção de que o candidato apoiado pelo Bloco não tem hipóteses de ganhar?
A concorrência de vários candidatos à esquerda não enfraquece estas candidaturas. Pelo contrário. A mobilização de todos os votantes do eleitorado de esquerda é a primeira e principal condição para na primeira volta se obter uma maioria absoluta, mais de 50%, na votação das várias esquerdas que concorrem.

Fazem uma interpretação com base nos resultados das presidenciais de 1986?
Não. Estamos a fazer uma interpretação com base no funcionamento do sistema eleitoral português. Um candidato só passa à segunda volta se tiver mais de 50% dos votos. Na primeira volta espera-se que nenhum candidato o tenha, ou pelo menos o candidato da direita não o tenha seguramente. A primeira condição para assegurar este desiderato é que toda a esquerda se mobilize. Se a esquerda tivesse um único candidato, uma parte dela não ia a votos, porque se abstinha, não se reconhecia nesse candidato. Havendo vários candidatos que preenchem grande parte daquilo que são as várias facetas que a esquerda reveste neste País, é de supor que a totalidade, ou quase totalidade, do eleitorado de esquerda esteja mobilizado para votar. Há uma coisa que esses votos todos assegurarão, provado com muita probabilidade, o candidato da direita não vence as eleições na primeira volta.

Partem do pressuposto que Cavaco Silva, se avançar, não terá mais de 50% na primeira volta?
Se todo o eleitorado de esquerda se mobilizar creio que não. Sociologicamente o voto do eleitorado de esquerda, sobretudo em eleições presidenciais, tem sido maioritário.

Mas Cavaco Silva foi o único líder partidário, até hoje, que ganhou eleições legislativas com mais de 50%?
Perdeu as presidenciais.

Na semana passada esteve presente no lançamento de candidatura de Mário Soares, o que lhe valeu algumas críticas de alguns militantes do BE. Como interpreta essas críticas?
Respeito-as, ainda que não concorde com elas. Os camaradas (do BE) que me criticaram têm todo o direito de o fazer. Fui (ao lançamento da candidatura de Mário Soares) e deixei muito claro junto dos órgãos de comunicação social, no próprio acto. Fui por razões pessoais, que derivam de uma longa amizade e colaboração com o dr. Mário Soares. Mas isso não significa que o dr. Mário Soares seja o meu candidato. O meu candidato é o candidato apoiado pelo BE. É por ele que eu farei campanha. Não há nenhuma ambiguidade.

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, disse, na Festa do Avante, que o BE avançava com uma candidatura presidencial por que o PCP já tinha avançado a sua. Não há uma marcação de posições à esquerda?
Não. Isso não tem sentido.

Porém, muitas das críticas que o BE tem feito, de que esta candidatura (de Francisco Louçã) não vai desistir, alude a candidaturas passadas do PCP…… Em primeiro lugar, o BE na sua curta história sempre apresentou candidato próprio nas eleições presidenciais. Aliás, da última vez fui eu próprio. Não apresentamos candidaturas por causa de nenhum outro partido. Apresentamos porque somos um partido que aspira ter um papel de resposta nacional à crise do País. Temos um programa para o País. Agimos em consequência com isso, ou seja, apresentando uma candidatura. Uma candidatura que busca a afirmação do seu projecto político. Em segundo lugar, na realidade, à esquerda não fomos nós que iniciámos essa tradição dos candidatos fantasmas. Foi o Partido Comunista. O PCP fará o que entender, naturalmente tem o seu pleno direito. Nós não concordamos com essa prática. Não faz parte com a nossa maneira de estar na política, apresentar candidatos a fingir. Não o faremos.

Na semana passada, em entrevista ao jornal SEMANÁRIO, o deputado socialista e apoiante de Mário Soares, Vítor Ramalho, tal como o ex-Presidente Soares reiterara anteriormente, indicara o facto de ser salutar a união da esquerda na primeira volta. A visão do Bloco de Esquerda é diferente?Achamos que havendo várias esquerdas é salutar que elas apresentem os seus distintos programas ao eleitorado. O Partido Comunista Português representa uma certa visão do mundo e do País. O candidato apoiado pelo Partido Socialista apresentará uma visão, provavelmente, parecida com a do partido que a apoia. E nós (Bloco de Esquerda) temos uma visão alternativa relativamente a uma e a outra. É salutar, do ponto de vista do esclarecimento eleitoral, que as três concorram. Ainda por cima, no sistema político eleitoral português, essa concorrência não só não vai diminuir nenhuma das candidaturas de esquerda, mas vai permitir que todo o eleitorado de esquerda esteja presente nas urnas para afirmar a sua vontade.
Nesse sentido vai mobilizar todo o eleitorado de esquerda que, como disse, terá como consequência, à primeira volta, permitir que pelo menos o candidato da direita não vença à primeira volta.

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