Portugal fica mais espanhol

“- Chamem o Vitorino. Ele que faça o negócio da Galp e da EDP com os italianos e os espanhóis, mesmo sabendo que eles estão concertados!” – É já voz corrente, a propósito do cerco que os espanhóis conseguiram montar a Portugal. Lisboa parece um bazar oriental, mesmo antes do encerramento. Vende-se tudo por baixo preço. Já não há mais “bluff” para fazer. Duzentos dias depois de Sócrates tomar o Poder, Portugal vê comprometidos, em toda a linha, os trunfos que tinha. Os espanhóis compram, contratam e corrompem empresários, políticos e até parecem contar com o apoio institucional do Estado. Já controlam o sector da cerâmica nacional, estão a entrar na construção, no turismo, no imobiliário, nas finanças e na energia. O problema português não se resolve negociando estatutos autonómicos, como acontece com a Catalunha ou o País Basco. O problema português, dizem os espanhóis, resolve-se comprando. Por isso, vender aos espanhóis é hoje o maior problema estratégico e de segurança nacional que o Governo Sócrates tem para resolver.

Nos duzentos dias de Governo socialista falou-se de muitos negócios e de algumas reformas. O aumento das despesas com o Governo socialista obrigou a novo agravamento dos impostos, e o buraco orçamental que subiu para 6,8%, levou mesmo Bruxelas a levantar a Portugal um procedimento por défice excessivo. Com essa estratégia a situação económica agravou-se para níveis recessivos e ainda mais empresas decidiram abandonar Portugal. Esta semana foi a vez da Yahoo sair de Portugal por causa do IVA, a seis por cento acima dos países mais competitivos da Europa comunitária.
Politicamente, o Governo dividiu a legislatura em duas partes. Primeiro, tomou medidas duras para fazer reduzir os custos com a saúde e as reformas e, sobretudo, atreveu-se a afrontar os “lobbies” dos funcionários e as poderosas classes profissionais que sempre afrontaram o poder político, desde os militares aos polícias e magistrados judiciais e do Ministério Público. A onda de protestos alimentou o Verão e entra, agora, pelo Outono dentro. Sócrates aproveita os últimos dias de Sampaio para fazer os confrontos que tem a fazer nesta legislatura, sobretudo porque prevê que Cavaco Silva será o Presidente da República depois de Janeiro.
A preparação do próximo Orçamento do Estado conta exactamente com esse arrefecimento. “Sócrates necessita de fazer algo para reanimar o País”, comenta-se nos meios socialistas. Mas o Governo tem poucas saídas. Só os empresários podem criar emprego. Porém aí, não há renovação possível. Finalmente, o País percebe que nos próximos anos os empresários que estão são os que ficam e, de novo, apenas virão estrangeiros. Nos próximos dez anos o País vai pagar o ganho ilusório decorrente do euro, em que aderimos com um escudo muito valorizado. A súbita riqueza está agora a ser paga, com moderação salarial. Nos últimos dois anos os trabalhadores perderam 5% do poder de compra. Para os trinta por cento que artificialmente os proprietários e banqueiros ganharam em 2000, com a conversão do escudo em euros, a economia nacional vai pagar, a este ritmo, com este marasmo pelo menos durante os próximos oito a dez anos, parece ser um cenário realista. Talvez por isso muitos se empenham nos negócios com Espanha, pois pensam que dez anos é uma eternidade.

A capitulação a Espanha

Ao fim de 200 dias de Governo socialista o traço mais marcante é o do agravamento das condições económicas e de confiança em Portugal. Mas, sobretudo, é no Governo Sócrates que se repercutem decisões antes tomadas. Dentro de pouco mais de trinta dias, os italianos da ENI ficam praticamente com o controlo da Galp. Bruxelas, provavelmente manipulada pelos espanhóis, chumbou o negócio do gás com a EDP. Exactamente ao contrário do que os espanhóis estão a fazer propondo a fusão da Gas Natural com a Endesa, que libertará ainda activos de mais de 9 mil milhões de euros, que permitirá o aumento da capacidade crítica da Iberdrola. Portugal, relegado para uma periferia, tem como caminho aceitar o negócio de Pina Moura com os italianos, quando deveria recomprar, e finalmente pedir ajuda à Iberdrola, para governar o seu próprio mercado. Iberdrola, que agora, pasme-se, tem como representante em Portugal o mesmo Pina Moura.
Mas, a história não se fica por aí, com o Governo, pela mão do infeliz ministro da Economia, ainda por cima a ser humilhado pelo ministro espanhol da Economia, que veio no sexta-feira a Lisboa para dizer na cara do ministro: Portugal não pode comprar a União Fenosa (energia da Galiza) e não é conveniente que participe no “split” final da Endesa. A Espanha perdeu a vergonha. Dita as ordens a Portugal de acordo com os seus interesses, humilha o Governo português em Lisboa e no seu próprio gabinete, onde a cortesia obrigava à boa educação. E para retirar veleidades ao Governo de Sócrates, o Santander, antes de mais pressões nacionais, vende ao presidente do Real Madrid, Peres, a posição que detinha na Fenosa com algumas Caixas.

Três humilhações espanholas

Esta era apenas a terceira humilhação de Portugal em menos de 200 dias. A primeira foi com o TGV, tendo Portugal que aceitar o traçado e os “timings” impostos por Madrid. Mas não se fica por aí. A Espanha impões a construção, a tecnologia e o pacote financeiro a ser pago com o Orçamento de Portugal e os fundos estruturais que deveriam servir para o desenvolvimento do País.
Como se isso não bastasse, até na água, em ano de seca, os portugueses viram os seus direitos legais, aliás, consagrados por tratados internacionais, violados pela Espanha. Portugal não reagiu aos transvasos do rio Douro e acabou por dar a água do Alqueva, paga com dinheiros de Portugal e sem qualquer retorno, à Andaluzia, sem que nada chegue sequer ao Alentejo que se desertifica por fala de ligações que leve para os montes a água que de lá é escoada para o lago do Alqueva.
O último ataque espanhol, facilitado pelos contactos dos Governos de Madrid e Lisboa, conforme João Van Zeller contou esta semana o Parlamento, é já de cariz ideológico. Madrid avança para a compra de uma bomba atómica ideológica, adquirindo o controlo da maior estação de televisão nacional, com o apoio do Governo português a total incapacidade de resposta dos meios políticos. Tudo aparece reduzido à esfera de um negócio privado. Mas todos sabem do embuste: a TVI adquirida pela Prisa é a mais eficaz arma ideológica do partido espanhol em Portugal.
Subitamente, o País, humilhado pela Espanha, descobre que não tem margem de manobra. Os empresários descrentes nas manobras de Governos sucessivos e de políticos sem escrúpulos que se passaram para Espanha, acompanhando o movimento de uma burguesia empresarial, que não hesitou em vender as suas empresas para realizar mais-valias antes que o ciclo da Europa terminasse, não investem no País. Portugal confronta-se com falta de activos para investir, numa altura em que os constrangimentos do Pacto de Estabilidade e Crescimento colocam a nu as fragilidades de uma economia que é inviável, sem solução externa. E a solução externa que seriam o investimento estrangeiro e as exportações estão comprometidos, por falta de visão do Governo e por má imagem do País.

O investimento estrangeiro abandona Portugal

Esta semana, o Governo perdeu mais uma batalha em que se tinha envolvido: o SUV da Volkswagen não vai ser produzido em Palmela. Portugal ainda não percebeu que precisa de investir no capital das empresas investidoras para conseguir canalizar os investimentos estratégicos para o nosso país. Mas neste momento uma política dessas seria imediatamente denunciada pela Espanha, que tem agentes infiltrados e pagos nos mais altos lugares do País. Ainda esta semana, o “Diário Económico”, também comprado pelos espanhóis a Miguel Paes do Amaral, dava conta que um ex-secretário da Energia português, Nuno Ribeiro da Silva, desta vez do PSD, poderia vir a ser contratado pela Endesa.
Como aconteceu ainda antes de 1580, esgotado o ciclo da pimenta e da Índia, por causa da corrupção e dos ataques holandeses, a burguesia de Lisboa e, sobretudo, a alta nobreza logo começou a olhar para Espanha como a solução. Começando pelas megalomanias de um homem rico, D. Manuel I de Portugal que, ao casar com uma filha dos reis católicos, se considera em condições de assumir a coroa de Espanha, até Filipe II, filho de Carlos V e de Isabel de Portugal, que impôs pela força das armas do Duque de Alba os direitos que tinha ao Reino, pois que os castelhanos já o haviam comprado.

Os últimos anos de Macau

A traição e a facultação de informações e elementos estratégicos a potências estrangeiras são crime em Portugal, mesmo em época de globalização, mas a Procuradoria-Geral da República mostra-se totalmente incapaz de agir nessa matéria, assoberbada que está com os processos de corrupção, que avassalam a política e o desporto nacional, e com o crime violento que, subitamente, irrompe em Portugal com o agravamento da criminalidade organizada ou não, em particular no Algarve e em Lisboa, onde a onda de assaltos a residências e património está a aumentar para números verdadeiramente assustadores.
Com esta sensação de capitulação os principais intermediários do poder organizaram-se aparentemente para o saque final. Enquanto o País definha, a começar no Porto – condenado à periferia da Europa, irrelevante e sem dinheiro – e a acabar no Algarve – onde nenhum espanhol compra sequer uma casa, mas onde os maiores projectos imobiliários, como a Lusotur, de Vilamoura, já estão nas suas mãos -, Lisboa parece um “bazar oriental”, onde se faz a liquidação de última hora, antes do mercado encerrar. Faz lembrar os últimos anos de Macau, onde, para se ganhar mais uma “comissão”, facturar mais uns “favores”, se adjudicaram obras megalómanas, se aceleraram os últimos negócios e se fizeram fortunas, “com corrupção e manha”, tudo em nome da herança portuguesa no Oriente.
O mesmo espírito da “árvore das patacas”, do enriquecimento fácil de última hora, aparece, quando subitamente o Governo tira da cartola a construção do aeroporto da Ota, o segundo aeroporto para Lisboa ainda ontem era anunciado para os “low costs”, ou quando se inverte toda a política do medicamento, até agora orientada para os genéricos, e se opta por facilitar a vida à indústria, por sinal maioritariamente estrangeira.

Os negócios de última hora

A cereja é a compra de novos 14 Airbus anunciados para a TAP e cujo negócio pode mesmo estar encerrado nas próximas semanas, dando comissões superiores à da compra dos submarinos alemães no tempo de Durão Barroso.
A decisão, apesar de ser da TAP, acaba por passar pelo Governo, que detém o controlo accionista da empresa gerida pelo prudente e hábil brasileiro Fernando Pinto. Destruídas as contas de exploração com a subida do preço internacional dos combustíveis refinados, o destino da TAP autónoma parece estar cada vez mais comprometido, sendo o negócio da integração da TAP na Ibéria um velho projecto pensado no tempo do Governo Guterres, que acabou por não ir avante por causa do interesse nacional manifestado numa companhia nacional de bandeira. Mas sendo um mercado com grande volatilidade, a ver pelas falências da Swissair e da Delta Airlines, é de admitir que o projecto possa voltar. Talvez por isso o processo de compra de 14 Airbus para a TAP foi acelerado, pela actual administração, a pedido do Governo socialista. A TAP falhou a tentativa e crescer para a América do Sul com a aquisição da Varig, e avançando para a compra de novos aviões na actual conjuntura pode ficar ainda mais exposta à necessidade de novas alianças, sobretudo, sabendo que o Governo nacional não pode dar ajudas directas às empresas por causa das leis comunitárias sobre a livre concorrência e que a Caixa Geral de Depósitos não terá grande capacidade para fazer aportes de capital. A situação de pré-falência das companhias privadas nacionais, em particular da Portugália, sustentada artificialmente pelo Grupo Espírito Santo, também não permite antever soluções alternativas à da integração ibérica, comenta-se nos meios da aeronáutica. E, finalmente, o ataque das companhias de “low cost” a Lisboa, a começar pela Air Luxor, acaba por ser uma machadada decisiva nas ambições da transportadora aérea nacional.

Ainda é possível a fusão BCP/BPI?

Finalmente, o sector financeiro, onde os espanhóis poderão ainda atacar o BPI, mas onde a privatização da Caixa Geral de Depósitos parece estar afastada para já. Esta semana o mercado antecipou a possibilidade de uma fusão entre o BPI e o BCP; como alternativa à tomada de controlo por parte da Caixa de Barcelona no BPI e, sobretudo, porque esse reforço no capital do BCP criaria melhores condições para o BCP comprar o maior banco romeno, actualmente em fase de negociação. O BCP tem vindo a reforçar os seus meios próprios, através da realização de mais-valias, para se concentrar na internacionalização, evitando assim a necessidade de novos aumentos de capital, mas uma fusão com o BPI poderia ser uma tentativa de travar a invasão espanhola na Banca nacional.
Tal como nos combustíveis, onde a Repsol quer ter 25% do mercado nacional, também, na banca, o Santander, que comprou, na semana passada, 50% do Interbanco, de João Pereira Coutinho, já caminha para os 20% do mercado nacional, sendo o banco mais eficiente do País, devido à transferência de todo o “back-office” para Espanha, o que lhe fez reduzir cerca de 30% os custos de exploração. O aumento da dimensão pode ser a resposta para ganhos adicionais do BCP na área da produtividade, a única resposta possível para evitar uma OPA hostil de algum banco espanhol sobre a maior empresa nacional. Ao fim de 200 dias de Governo socialista, o País parece mais espanhol, mas ainda há sectores dispostos a reagir, apesar das dificuldades da conjuntura.

BE à zaragata por causa de Fernando Rosas e Joana Amaral Dias

A guerra Alegre-Soares não é o único conflito à esquerda com epicentro nas presidenciais. O SEMANÁRIO sabe que no Bloco de Esquerda o ambiente envolvendo Fernando Rosas e Joana Amaral Dias é muito tenso, por causa do apoio que ambos deram à candidatura presidencial de Mário Soares.

A guerra Alegre-Soares não é o único conflito à esquerda com epicentro nas presidenciais. O SEMANÁRIO apurou que no Bloco de Esquerda o ambiente envolvendo Fernando Rosas e Joana Amaral Dias é muito tenso, por causa do apoio que ambos deram à candidatura presidencial de Mário Soares. Fernando Rosas esteve presente, há um mês, no lançamento da candidatura de Soares, presença que surpreendeu muita gente no Bloco de Esquerda e fora dele. Rosas, historiador conceituado, colabora há alguns anos com a Fundação Mário Soares. Joana Amaral Dias, que já foi deputada do Bloco de Esquerda espantou ainda mais os seus camaradas bloquistas ao aceitar ser mandatária para a juventude de Mário Soares, um cargo de grande projecção, que ombreia com o de mandatário nacional. Rosas e Joana Amaral Dias, cada um com a sua vertente, são duas figuras muito mediáticas do BE, com ocupação de cargos de destaque no quadro do BE, o que, no entender dos maiores críticos do seu apoio a Soares, aumenta as suas responsabilidades políticas.
A linha do Bloco saída da UDP, hoje repreentada destacadamente por Luís Fazenda, é uma das mais críticas do comportamento de Rosas e Joana Amaral Dias, não perdoando não só o pecado político como uma alegada sede de protagonismo, sobretudo na jovem bloquista. A linha da UDP no seio do BE é uma linha mais dura, mais ideológica, de características mais populares. Neste quadro, é mesmo de admitir que depois das presidenciais se queira fazer o ajuste de contas no seio do BE, com eventuais depurações.
No entanto, a tensão bloquista não se restringe ao sector da UDP. No sector trotskista, de Francisco Louçã, também provocou celeuma a posição de Rosas e Joana Amaral Dias. Mesmo alguns sectores da ala mais civilista do BE, com raízes na Política XXI, estão descontentes com a atitude do historiador e da jovem. Por exemplo, há quem diga que Ana Drago, uma das mais activas bloquistas, fiel a certos princípíos, não está nada satisfeita com a posição de Joana Amaral Dias.
O facto de Mário Soares se apresentar com resultados baixos nas sondagens não ajuda Rosas e Amaral Dias, ainda que, qualquer que seja o desfecho da corrida a Belém, as críticas não devam ser abafadas. Se Soares perder, pode estar em cima da mesa a gestão desastrosa da esquerda no dossier das presidenciais, onde Rosas e Amaral Dias deram o seu contributo com os seus desvios soaristas. Se Soares ganhar, há muitas dúvidas sobre a sua acção política com o Bloco, ostracizando a formação política e tendo a tendência de compensar politicamente, muito ao de jeito Soares, quem esteve pessoalmente consigo, ou seja Rosas e Joana Amaral Dias. Este favoritismo pode dar origem a uma guerra pior no BE do que se Soares perder, promovendo convulsões intestinas no BE durante os próximos quatro anos.
Desde a constituição do Bloco de Esquerda este conflito com epicentro nas presidenciais pode representar a primeira dissenção grave no seio do bloco e a sua estreia nas guerras habituais pelo poder. Entretanto, Francisco Louçã, candidato presidencial apoiado pelo Bloco, continua muito activo na sua campanha, fazendo um inteligente “dois em um”. Louçã tem-se desdobrado em iniciativas bloquistas no quadro das eleições autárquicas e vai fazendo “circular” a sua imagem e discurso com vista às presidenciais. Se Jerónimo de Sousa levar a sua candidatura até ao fim, Louçã também o deverá fazer.
Para além das convulsões no Bloco a questão das presidenciais promete uma guerra longa e intensa no PS, sobretudo se Cavaco Silva ganhar as presidenciais. Se o professor ganhar logo à primeira volta, o conflito será maior. Muitos socialistas deverão pedir responsabilidades a Sócrates e à direcção do partido sobre o apoio a Mário Soares. Não só os socialistas que estão hoje abertamente com Manuel Alegre mas também aqueles estão a apoiar Soares mas que gostavam de estar com Alegre, só não o fazendo porque não querem ir contra a linha oficial do partido. Se Cavaco ganhar à segunda, as convulsões deverão ser menores, pelo menos no curto prazo. Se Cavaco fizer um mandato muito activo em Belém, condicionando a activiade do governo e, no limite, conduzindo à sua demissão e à realização de eleições legislativas antecipadas, o conflito no PS pode recrudescer, apontando-se a derrota de Mário Soares como o pecado original da situação política que conduziu à queda do governo. Recorde-se que Manuel Alegre continua a considerar-se o candidato presidencial melhor colocado para bater Cavaco (no contexto de ter tido o apoio do PS). Curiosamente, as últimas sondagens parecem alicerçar a convicção de Alegre, dando melhores resultados ao poeta numa segunda volta com Cavaco do que a Soares.
Entretanto, no PCP, José Saramago também está a provocar alguns engulhos no PCP. O Prémio Nobel da Literatura declarou há pouco tempo, insolitamente, que apoia tanto Jerónimo de Sousa como Mário Soares, o que desagradou a muitos militantes comunistas. Esta semana, num encontro fortuito de rua foi notória a frieza entre Saramago e o candidato da CDU, Ruben de Carvalho, tendo de ser o independente Corregedor da Fonseca a nota de simpatia perante o escritor. Refira-se que Eduardo Prado Coelho também opinou, esta semana, na SIC-Notícias sobre a “duplicidade” do escritor ao apoiar simultameamente Jerónimo e Soares, considerando que o escritor se tem afastado gradualmente do PCP ortodoxo, aproximando-se do PS.|

Cavaco promete informar portugueses

Aos poucos, o prof. Cavaco Silva vai deixando os sinais “necessários e suficientes” para confirmar que vai ser candidato presidencial, sem que, com isso, altere os calendários que ele próprio anunciou há algumas semanas – decisão oficial só depois das eleições autárquicas. Os últimos dados, com origem em Londres, aonde se deslocou esta semana, são de que já falou com a família sobre o assunto e que anunciará primeiro a “boa nova” (a expressão não é dele) aos portugueses “não daqui a muito tempo” (esta sim, frase sua.)

No campo da esquerda e em particular à volta de Mário Soares, registam-se alguns desassossegos, com Manuel Alegre a manter uma pressão quanto a uma hipótese de candidatura para recolher os votos dos que não votam em Soares, nem nos outros candidatos da esquerda.
De certa forma, Portugal volta a ser um laboratório político, nesta balbúrdia eleitoral em que está envolvido e a que pode acrescer uma nova campanha, entre as autárquicas e as presidenciais, por causa do referendo sobre o aborto. Informações reservadas, a que o SEMANÁRIO teve acesso, indicam que o Presidente cessante, Jorge Sampaio, não estará pelos ajustes e não vai convocar o referendo como desejam os socialistas e o bloquistas. Na mesma linha de informação, existem indícios, a que se pode atribuir credibilidade, tendo em conta as fontes consultadas, sabe-se que tem havido distanciamento progressivo entre Belém e S. Bento, sobretudo devido à substituição do ministro das Finanças, a nomeações controversas feitas pelo Governo, que não agradaram a Jorge Sampaio, o que, em privado, terá assumido críticas ao modo como José Sócrates tem conduzido a governação do País.
O Presidente teve esta semana uma actividade quase alucinante em Nova Iorque, com um conjunto muito relevante de contactos com as mais destacadas personalidades mundiais, mas não fica claro, eventualmente por falta de informações oficiais ou oficiosas, que repercussão podem ter esses contactos na política externa portuguesa. Por exemplo, houve uma cimeira de chefes de Estado dos países de Língua Portuguesa, mas não houve nenhum eco do que lá foi abordado. Há questões pendentes entre Portugal e alguns países africanos, Sampaio encontrou-se, em separado, com os Presidentes da África do Sul e de Moçambique. O que trataram, que assuntos analisaram? Mistério total.
É nas relações externas que Sampaio se move como peixe na água, mas são pouco visíveis os resultados práticos das diligências de representação externa do Presidente da República. É assim, desde sempre.
Quando regressar a Lisboa, Sampaio volta à complexidade doméstica, provavelmente com a consciência plena de que já não deve tomar, a quatro meses de fim de mandato, decisões da mais alta relevância política, e deve, por isso, fazer tranquilamente uma “presidência de gestão”, intervindo nos casos mais agudos, como aconteceu com os militares, mas deixando ao seu sucessor a capacidade para decidir, por exemplo, o caso do referendo. Seria uma “enorme surpresa” (no dizer de vários dirigentes de quadrantes diversos, incluindo do PS, que o SEMANÁRIO ouviu) que Sampaio fizesse a vontade a José Sócrates e convocasse os portugueses para o referendo.
Fechado este parêntesis, voltamos ao laboratório político. Estamos a poucas semanas de uma campanha eleitoral para o poder local, que é quase seguro que o PSD vai ganhar (obtendo o maior número de câmaras que governará nos próximos quatro anos), mas há autarquias emblemáticas que podem ampliar a vitória laranja ou atenuar a derrota socialista.
No que diz respeito a Lisboa, Porto e Sintra, os dados disponíveis indicam que a incerteza em relação a Lisboa e Sintra vai durar até ao último momento, mas que no Porto, salvo qualquer incidente não previsível nesta altura, Rui Rio deve ter a eleição garantida, com maioria absoluta. Também por isso, era aguardado com muita expectativa o frente a frente na SIC entre Manuel Maria Carrilho e Carmona Rodrigues, que se iniciou na mesma altura em que esta edição entrava nas rotativas e de que, por isso, não é possível dar a mínima informação.
Em Sintra, depois de um certo período de alguma displicência, o PSD e Fernando Seara começaram a trabalhar duramente no terreno, tal como há muito que estão fazendo João Soares, Jorge Coelho e o Partido Socialista. Os debates públicos entre os candidatos à Câmara de Sintra não foram muito concludentes, já que os protagonistas se envolveram em discussões, empastando as suas declarações umas nas outras, com manifesto prejuízo dos respectivos auditórios.
Para alguns observadores, a iniciativa do PS de lançar, de modo intercalar ( passe a expressão), o referendo sobre o aborto, serviria para distrair algumas atenções em relação aos dois actos eleitorais já programados. Os socialistas entendem que os debates nacionais efectuados sobre a questão do aborto propiciam um referendo positivo no sentido da absoluta despenalização. Por isso, um pouco “atarantado” com a previsível derrota no poder local e com todas as incertezas no que diz respeito à candidatura de Mário Soares, o PS encontraria no referendo um ânimo de vitória. Além disso, a campanha do referendo desviaria também atenções para a política real de austeridade que deve ser vertida no Orçamento para 2006, cuja discussão parlamentar deve ocorrer entre finais de Outubro e todo o mês de Novembro.

Inquietação à esquerda,tranquilidade no PSD e CDS

As eleições presidenciais mobilizam, já, todos os estados-maiores partidários. Com visível inquietação à esquerda, com notória tranquilidade nas hostes do PSD e do CDS/PP. Os dois parceiros da anterior coligação governativa aguardam que Cavaco Silva cumpra os seus calendários e anuncie oficialmente a decisão pessoal que já consolidou ao longo dos últimos meses, ou seja, de que será candidato presidencial, procurando convencer os portugueses a votar em si para o Palácio de Belém.
Apesar dos rumores, do clima de intriga, dos cenários eventuais em torno de Pedro Santana Lopes e de Paulo Portas “a especulação pode dar azo ao que se quiser, mas a realidade é apenas uma e é sobre ela que devemos trabalhar”, como disse ao SEMANÁRIO um dos mais importantes dirigentes do CDS/PP. Ou seja, Cavaco é candidato, frisará o que disse esta semana em Londres (“sou hoje um espírito muito, muito independente dos partidos políticos), a partir daíi receberá o apoio do PSD (que vai mobilizar estruturas de apoio logístico à campanha) e do CDS/PP, que disponibilizará para apoiar a campanha do modo que o candidato entender.
Nem Paulo Portas nem Pedro Santana Lopes se vão imiscuir na campanha de Cavaco Silva e se o fizerem será para apoiar, nunca para criticar. O recém–ex-primeiro-ministro, que volta ao Parlamento como deputado, já tem estabelecida a sua própria logística profissional, com escritório próprio de advocacia, parecendo com isso legítimo dizer-se que está disponível para fazer uma travessia no deserto, na perspectiva da eleição presidencial de Cavaco Silva.
Conhecem-se menos os planos de Paulo Portas em relação aos rumos que vai dar à sua vida política e profissional, mas também existem sinais de que, enquanto os quadros políticos não estiverem estabilizados em função dos actos eleitorais que se avizinham, o antigo ministro da Defesa e líder do CDS/PP não deve expor-se politicamente nos tempos mais próximos.
As sondagens publicadas há poucos dias, outros estudos levados a cabo, nomeadamente pelo PS, e cujo conteúdo tem sido guardado na reserva do conhecimento restrito de meia dúzia de dirigentes, criaram desassossego na terceira candidatura presidencial de Mário Soares. Fala-se mesmo em rever estratégias, em erros de análise cometidos no arranque da candidatura. Manuel Alegre diz que não está excluído que ainda possa avançar, alguns afirmam que está a fazer “bluff”, mas Helena Roseta avisa, em artigo publicado na revista “Visão”, que o “voto anda solto” e que “há muita gente que não se revê em nenhum dos candidatos anunciados”, concluindo com um enigmático apelo, escrito nos seguintes termos: “Até 30 dias antes do acto eleitoral podem apresentar-se outras candidaturas. Creio que é um dever cívico contribuir para que tal aconteça.”
Teremos de aguardar a candidatura do prof. Cavaco Silva e analisar as guerrilhas da esquerda. Uma e outras são decisivas para o debate presidencial que, apesar de tudo, só vai ter contornos reais quando todos os candidatos estiverem no terreno. Parece possível arriscar dizer que na escolha do próximo Chefe do Estado não haverá “primárias à esquerda”, como houve em 1986. A contenda resolver-se-á, com grande probabilidade, à primeira volta…

Soares quer Alegre para impedir vitória de Cavaco à primeira volta

O desafio que Mário Soares fez esta semana a Manuel Alegre, para que se candidate a Belém, integra-se na estratégia soarista de impedir a eleição de Cavaco Silva logo à primeira volta das presidenciais. Soares está convencido que vence mas só à segunda volta, quando todos os candidatos de esquerda apelarem ao voto em si, inclusive Alegre, mais maleável depois ir também a jogo. Nas últimas sondagens, Cavaco aparecia à beira de ganhar logo no primeiro “tour”. Ora, a captação de votos do professor à esquerda, ainda que mínima, ou mesmo a simples abstenção de esquerda, pode ser suficiente para Cavaco fazer a festa antecipada.

A estratégia de Mário Soares para as presidenciais parece cada vez mais querer repetir o quadro das eleições para a Presidência da República de 1986, quando vários candidatos à esquerda se apresentaram na primeira volta da corrida e poucos votos à esquerda, se perderam para a abstenção ou para o candidato da direita, que era na altura Freitas do Amaral. O desafio que Soares fez esta semana a Manuel Alegre para que se candidate a Belém integra-se nesta estratégia e visa impedir o perigo de eleição de Cavaco Silva logo à primeira volta das presidenciais. Segundo as sondagens publicadas no passado fim-de–semana, o ex-primeiro-ministro laranja estava à beira de ganhar a eleição no primeiro “tour”. Ora, qualquer transferência, ainda que miníma, de votos à esquerda para Cavaco pode dar-lhe a vitória na primeira volta. Caso Alegre não concorra, votos que deveriam ser fieís ao poeta poderiam ir parar à abstenção ou mesmo directamente a Cavaco. Nas contas da aritmética eleitoral, a abstenção à esquerda poderá revelar-se, de facto, decisiva para Cavaco. Recorde-se que o professor alcança excelentes “performances” nas sondagens sem ainda se ter candidatado oficialmente, o que só deverá acontecer depois das eleições autárquicas de 9 de Outubro.
A maneira como Soares se atravessou no caminho de Alegre não é, de facto, muito propícia a que apoiantes do poeta votem directamente em Soares. A guerra de palavras entre os dois homens também não ajuda este propósito. Ainda esta semana, Alegre deu a entender que, face ao facto de o PS não o apoiar, considerava de mau gosto o desafio de Soares para que se candidatasse a Belém. No entanto, mesmo mantendo o machado de guerra em riste, Alegre acabou por dar sinais de que poderá estar a cair na estratégia de Soares. O poeta aclarou a sua própria declaração sobre as presidenciais de há três semanas, dizendo que nunca disse que era candidato mas também nunca disse que não era. Por sua vez, em relação a Cavaco Silva, o poeta referiu que o seu objectivo é derrotar o professor. Nas declarações feitas esta semana, Alegre pareceu continuar convencido de que é o candidato da esquerda melhor colocado para derrotar Cavaco, passando à segunda volta, avaiação, no minímo, contraditória com as invectivas do poeta de que o desafio de Soares para que avance foi de mau gosto. Quando Soares ainda não era candidato presidencial, apoiado pelo PS, Alegre também fazia esta mesma avaliação de ser o candidato melhor posicionado para “bater” Cavaco. No entanto, a realidade é que hoje, face à ausência de qualquer apoio partidário, o poeta parece a anos-luz de poder alcançar o seu objectivo de passagem à segunda volta. Este discurso vitorioso de Alegre também pode já não ser inocente. O poeta pode já estar a trabalhar psicologicamente para acalmar a sua revolta contra Soares, indo à luta… e que ganhe o melhor. Para um homem de combates como Alegre esta equação pode ser essencial. Daí que, tal como Soares já está a dizer que tem a certeza que ganha, Alegre diga que tem condições para bater Cavaco só com apoios inorgânicos. Se perder, o que fica para o poeta é uma boa disputa, havendo condições políticas e psicológicas para apelar ao voto em Mário Soares.
Face às características do conflito que opõe Alegre a Soares, podia dizer-se que o poeta faz o papel que Salgado Zenha fez há vinte anos. Zenha, amigo pessoal e político de Soares rompeu com o líder do PS no início dos anos 80 e acabou por concorrer contra si nas presidenciais. No entanto, perante a ausência de apoios partidários, Alegre talvez se assemelhe mais à posição de Maria de Lourdes Pintasilgo. Recorde-se que nas eleições presidenciais de 1986, Mário Soares, apoiado pelo PS, teve 25,4 por cento dos votos na primeira volta, Salgado Zenha alcançou 20,9 por cento e Maria de Lourdes Pintasilgo, só com apoios inorgânicos, obteve 7,4 por cento. Estas percentagens somadas dão 53.7 por cento. Freitas do Amaral, apoiado por toda a direita, não conseguiu melhor do que 46,3 por cento. A esquerda, ainda que dispersa (e talvez por causa desta mesma dipersão) conseguiu mobilizar todo o seu eleitorado, não permitindo qualquer “fuga” para Freitas do Amaral e, na segunda volta, com Zenha e Pintasilgo a apelarem ao voto em Soares, Mário Soares acabou por ganhar a eleição presidencial com 51,2 por cento dos votos, tendo Freitas 48,8 por cento.

Santana Lopes pondera presidenciais ou novo partido

Santana Lopes renunciou ao mandato de presidente da Câmara Municipal, depois de ter sido avisado por Miguel Relvas e Matos Correia da contagem dos prazos para a retoma do mandato de deputado no Parlamento.

Enquanto Cavaco Silva se prepara para anunciar no próximo dia 15 de Outubro a sua candidatura presidencial, o antigo primeiro-ministro Santana Lopes pondera a hipótese de lançar a sua candidatura presidencial.
Tendo ontem renunciado ao mandato de presidente da Câmara Municipal, depois de ter sido avisado por Miguel Relvas e Matos Correia da contagem dos prazos para a retoma do mandato de deputado no Parlamento, Santana Lopes, que deverá voltar à advogacia, está em período de reflexão sobre o seu futuro político. A maioria dos seus conselheiros é, contudo, contra a possibilidade de Santana Lopes avançar para uma candidatura, caso Cavaco Silva acabe por efectivar a sua candidatura. Mas do lado de Santana Lopes o facto de Cavaco Silva estar a demorar o arranque da sua candidatura pode ser fatal para o centro e para a direita, como aconteceu, há dez anos, quando Cavaco Silva perdeu contra Jorge Sampaio.
Por outro lado, a possibilidade de directas, já depois do congresso de Março próximo no PSD, pode também estar presente no futuro de Santana Lopes. O antigo primeiro-ministro pode ultrapassar Luís Filipe Menezes, que tem poucas condições para a liderança do PSD e tentar defrontar os cavaquistas ou Marques Mendes em eleições directas. Finalmente, sectores próximos de Santana Lopes admitem que verdadeiramente Santana Lopes deveria agora resguardar-se durante dois nos para depois, eventualmente com Paulo Portas, refundar a direita, criando um novo partido político.

Helena Lopes da Costa
quer Distrital de Lisboa

Depois da ruptura de Helena Lopes da Costa, aliás, já anunciada há meses, por causa da candidatura de Carmona Rodrigues e da expulsão de Isaltino Morais, a crise está instalada na Distrital de Lisboa, cujo presidente pode não chegar ao fim do mandato. Na última assembleia da Distrital de Lisboa, Helena Lopes da Costa, que tem o apoio do núcleo de Algés, já tinha preparado o confronto com António Preto, que acusa de não ouvir a direcção e conduzir individualmente a Distrital de Lisboa.
António Preto, próximo de Ferreira Leite, apesar do processo em curso sobre alegadas irregularidades financeiras, pode avançar com a sua recandidatura em caso de eleições antecipadas, ao mesmo tempo que os barrosistas querem ganhar protagonismo para poderem negociar com os cavaquistas, se a oportunidade se colocar. Morais Sarmento poderia ser um nome com peso a avançar para a Distrital de Lisboa, embora Miguel Relvas tenha tentado uma reaproximação a Santana Lopes, para assegurar o nome de Matos Correia para candidato à liderança da Distrital de Lisboa.
Matos Correia, um dos próximos de Durão Barroso, é deputado e depois das eleições foi trabalhar para o SAG, que conta através dele assegurar que o presidente da Comissão Europeia influencie a Volkswagen no sentido de não vir para Portugal directamente, mantendo a SIVA como importador, renovando a concessão que está a terminar. Matos Correia era, já antes, junto de Durão Barroso, o homem de ligação aos negócios.