2019/12/05

Soares quer Alegre para impedir vitória de Cavaco à primeira volta

O desafio que Mário Soares fez esta semana a Manuel Alegre, para que se candidate a Belém, integra-se na estratégia soarista de impedir a eleição de Cavaco Silva logo à primeira volta das presidenciais. Soares está convencido que vence mas só à segunda volta, quando todos os candidatos de esquerda apelarem ao voto em si, inclusive Alegre, mais maleável depois ir também a jogo. Nas últimas sondagens, Cavaco aparecia à beira de ganhar logo no primeiro “tour”. Ora, a captação de votos do professor à esquerda, ainda que mínima, ou mesmo a simples abstenção de esquerda, pode ser suficiente para Cavaco fazer a festa antecipada.

A estratégia de Mário Soares para as presidenciais parece cada vez mais querer repetir o quadro das eleições para a Presidência da República de 1986, quando vários candidatos à esquerda se apresentaram na primeira volta da corrida e poucos votos à esquerda, se perderam para a abstenção ou para o candidato da direita, que era na altura Freitas do Amaral. O desafio que Soares fez esta semana a Manuel Alegre para que se candidate a Belém integra-se nesta estratégia e visa impedir o perigo de eleição de Cavaco Silva logo à primeira volta das presidenciais. Segundo as sondagens publicadas no passado fim-de–semana, o ex-primeiro-ministro laranja estava à beira de ganhar a eleição no primeiro “tour”. Ora, qualquer transferência, ainda que miníma, de votos à esquerda para Cavaco pode dar-lhe a vitória na primeira volta. Caso Alegre não concorra, votos que deveriam ser fieís ao poeta poderiam ir parar à abstenção ou mesmo directamente a Cavaco. Nas contas da aritmética eleitoral, a abstenção à esquerda poderá revelar-se, de facto, decisiva para Cavaco. Recorde-se que o professor alcança excelentes “performances” nas sondagens sem ainda se ter candidatado oficialmente, o que só deverá acontecer depois das eleições autárquicas de 9 de Outubro.
A maneira como Soares se atravessou no caminho de Alegre não é, de facto, muito propícia a que apoiantes do poeta votem directamente em Soares. A guerra de palavras entre os dois homens também não ajuda este propósito. Ainda esta semana, Alegre deu a entender que, face ao facto de o PS não o apoiar, considerava de mau gosto o desafio de Soares para que se candidatasse a Belém. No entanto, mesmo mantendo o machado de guerra em riste, Alegre acabou por dar sinais de que poderá estar a cair na estratégia de Soares. O poeta aclarou a sua própria declaração sobre as presidenciais de há três semanas, dizendo que nunca disse que era candidato mas também nunca disse que não era. Por sua vez, em relação a Cavaco Silva, o poeta referiu que o seu objectivo é derrotar o professor. Nas declarações feitas esta semana, Alegre pareceu continuar convencido de que é o candidato da esquerda melhor colocado para derrotar Cavaco, passando à segunda volta, avaiação, no minímo, contraditória com as invectivas do poeta de que o desafio de Soares para que avance foi de mau gosto. Quando Soares ainda não era candidato presidencial, apoiado pelo PS, Alegre também fazia esta mesma avaliação de ser o candidato melhor posicionado para “bater” Cavaco. No entanto, a realidade é que hoje, face à ausência de qualquer apoio partidário, o poeta parece a anos-luz de poder alcançar o seu objectivo de passagem à segunda volta. Este discurso vitorioso de Alegre também pode já não ser inocente. O poeta pode já estar a trabalhar psicologicamente para acalmar a sua revolta contra Soares, indo à luta… e que ganhe o melhor. Para um homem de combates como Alegre esta equação pode ser essencial. Daí que, tal como Soares já está a dizer que tem a certeza que ganha, Alegre diga que tem condições para bater Cavaco só com apoios inorgânicos. Se perder, o que fica para o poeta é uma boa disputa, havendo condições políticas e psicológicas para apelar ao voto em Mário Soares.
Face às características do conflito que opõe Alegre a Soares, podia dizer-se que o poeta faz o papel que Salgado Zenha fez há vinte anos. Zenha, amigo pessoal e político de Soares rompeu com o líder do PS no início dos anos 80 e acabou por concorrer contra si nas presidenciais. No entanto, perante a ausência de apoios partidários, Alegre talvez se assemelhe mais à posição de Maria de Lourdes Pintasilgo. Recorde-se que nas eleições presidenciais de 1986, Mário Soares, apoiado pelo PS, teve 25,4 por cento dos votos na primeira volta, Salgado Zenha alcançou 20,9 por cento e Maria de Lourdes Pintasilgo, só com apoios inorgânicos, obteve 7,4 por cento. Estas percentagens somadas dão 53.7 por cento. Freitas do Amaral, apoiado por toda a direita, não conseguiu melhor do que 46,3 por cento. A esquerda, ainda que dispersa (e talvez por causa desta mesma dipersão) conseguiu mobilizar todo o seu eleitorado, não permitindo qualquer “fuga” para Freitas do Amaral e, na segunda volta, com Zenha e Pintasilgo a apelarem ao voto em Soares, Mário Soares acabou por ganhar a eleição presidencial com 51,2 por cento dos votos, tendo Freitas 48,8 por cento.

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