2019/10/22

Cavaco promete informar portugueses

Aos poucos, o prof. Cavaco Silva vai deixando os sinais “necessários e suficientes” para confirmar que vai ser candidato presidencial, sem que, com isso, altere os calendários que ele próprio anunciou há algumas semanas – decisão oficial só depois das eleições autárquicas. Os últimos dados, com origem em Londres, aonde se deslocou esta semana, são de que já falou com a família sobre o assunto e que anunciará primeiro a “boa nova” (a expressão não é dele) aos portugueses “não daqui a muito tempo” (esta sim, frase sua.)

No campo da esquerda e em particular à volta de Mário Soares, registam-se alguns desassossegos, com Manuel Alegre a manter uma pressão quanto a uma hipótese de candidatura para recolher os votos dos que não votam em Soares, nem nos outros candidatos da esquerda.
De certa forma, Portugal volta a ser um laboratório político, nesta balbúrdia eleitoral em que está envolvido e a que pode acrescer uma nova campanha, entre as autárquicas e as presidenciais, por causa do referendo sobre o aborto. Informações reservadas, a que o SEMANÁRIO teve acesso, indicam que o Presidente cessante, Jorge Sampaio, não estará pelos ajustes e não vai convocar o referendo como desejam os socialistas e o bloquistas. Na mesma linha de informação, existem indícios, a que se pode atribuir credibilidade, tendo em conta as fontes consultadas, sabe-se que tem havido distanciamento progressivo entre Belém e S. Bento, sobretudo devido à substituição do ministro das Finanças, a nomeações controversas feitas pelo Governo, que não agradaram a Jorge Sampaio, o que, em privado, terá assumido críticas ao modo como José Sócrates tem conduzido a governação do País.
O Presidente teve esta semana uma actividade quase alucinante em Nova Iorque, com um conjunto muito relevante de contactos com as mais destacadas personalidades mundiais, mas não fica claro, eventualmente por falta de informações oficiais ou oficiosas, que repercussão podem ter esses contactos na política externa portuguesa. Por exemplo, houve uma cimeira de chefes de Estado dos países de Língua Portuguesa, mas não houve nenhum eco do que lá foi abordado. Há questões pendentes entre Portugal e alguns países africanos, Sampaio encontrou-se, em separado, com os Presidentes da África do Sul e de Moçambique. O que trataram, que assuntos analisaram? Mistério total.
É nas relações externas que Sampaio se move como peixe na água, mas são pouco visíveis os resultados práticos das diligências de representação externa do Presidente da República. É assim, desde sempre.
Quando regressar a Lisboa, Sampaio volta à complexidade doméstica, provavelmente com a consciência plena de que já não deve tomar, a quatro meses de fim de mandato, decisões da mais alta relevância política, e deve, por isso, fazer tranquilamente uma “presidência de gestão”, intervindo nos casos mais agudos, como aconteceu com os militares, mas deixando ao seu sucessor a capacidade para decidir, por exemplo, o caso do referendo. Seria uma “enorme surpresa” (no dizer de vários dirigentes de quadrantes diversos, incluindo do PS, que o SEMANÁRIO ouviu) que Sampaio fizesse a vontade a José Sócrates e convocasse os portugueses para o referendo.
Fechado este parêntesis, voltamos ao laboratório político. Estamos a poucas semanas de uma campanha eleitoral para o poder local, que é quase seguro que o PSD vai ganhar (obtendo o maior número de câmaras que governará nos próximos quatro anos), mas há autarquias emblemáticas que podem ampliar a vitória laranja ou atenuar a derrota socialista.
No que diz respeito a Lisboa, Porto e Sintra, os dados disponíveis indicam que a incerteza em relação a Lisboa e Sintra vai durar até ao último momento, mas que no Porto, salvo qualquer incidente não previsível nesta altura, Rui Rio deve ter a eleição garantida, com maioria absoluta. Também por isso, era aguardado com muita expectativa o frente a frente na SIC entre Manuel Maria Carrilho e Carmona Rodrigues, que se iniciou na mesma altura em que esta edição entrava nas rotativas e de que, por isso, não é possível dar a mínima informação.
Em Sintra, depois de um certo período de alguma displicência, o PSD e Fernando Seara começaram a trabalhar duramente no terreno, tal como há muito que estão fazendo João Soares, Jorge Coelho e o Partido Socialista. Os debates públicos entre os candidatos à Câmara de Sintra não foram muito concludentes, já que os protagonistas se envolveram em discussões, empastando as suas declarações umas nas outras, com manifesto prejuízo dos respectivos auditórios.
Para alguns observadores, a iniciativa do PS de lançar, de modo intercalar ( passe a expressão), o referendo sobre o aborto, serviria para distrair algumas atenções em relação aos dois actos eleitorais já programados. Os socialistas entendem que os debates nacionais efectuados sobre a questão do aborto propiciam um referendo positivo no sentido da absoluta despenalização. Por isso, um pouco “atarantado” com a previsível derrota no poder local e com todas as incertezas no que diz respeito à candidatura de Mário Soares, o PS encontraria no referendo um ânimo de vitória. Além disso, a campanha do referendo desviaria também atenções para a política real de austeridade que deve ser vertida no Orçamento para 2006, cuja discussão parlamentar deve ocorrer entre finais de Outubro e todo o mês de Novembro.

Inquietação à esquerda,tranquilidade no PSD e CDS

As eleições presidenciais mobilizam, já, todos os estados-maiores partidários. Com visível inquietação à esquerda, com notória tranquilidade nas hostes do PSD e do CDS/PP. Os dois parceiros da anterior coligação governativa aguardam que Cavaco Silva cumpra os seus calendários e anuncie oficialmente a decisão pessoal que já consolidou ao longo dos últimos meses, ou seja, de que será candidato presidencial, procurando convencer os portugueses a votar em si para o Palácio de Belém.
Apesar dos rumores, do clima de intriga, dos cenários eventuais em torno de Pedro Santana Lopes e de Paulo Portas “a especulação pode dar azo ao que se quiser, mas a realidade é apenas uma e é sobre ela que devemos trabalhar”, como disse ao SEMANÁRIO um dos mais importantes dirigentes do CDS/PP. Ou seja, Cavaco é candidato, frisará o que disse esta semana em Londres (“sou hoje um espírito muito, muito independente dos partidos políticos), a partir daíi receberá o apoio do PSD (que vai mobilizar estruturas de apoio logístico à campanha) e do CDS/PP, que disponibilizará para apoiar a campanha do modo que o candidato entender.
Nem Paulo Portas nem Pedro Santana Lopes se vão imiscuir na campanha de Cavaco Silva e se o fizerem será para apoiar, nunca para criticar. O recém–ex-primeiro-ministro, que volta ao Parlamento como deputado, já tem estabelecida a sua própria logística profissional, com escritório próprio de advocacia, parecendo com isso legítimo dizer-se que está disponível para fazer uma travessia no deserto, na perspectiva da eleição presidencial de Cavaco Silva.
Conhecem-se menos os planos de Paulo Portas em relação aos rumos que vai dar à sua vida política e profissional, mas também existem sinais de que, enquanto os quadros políticos não estiverem estabilizados em função dos actos eleitorais que se avizinham, o antigo ministro da Defesa e líder do CDS/PP não deve expor-se politicamente nos tempos mais próximos.
As sondagens publicadas há poucos dias, outros estudos levados a cabo, nomeadamente pelo PS, e cujo conteúdo tem sido guardado na reserva do conhecimento restrito de meia dúzia de dirigentes, criaram desassossego na terceira candidatura presidencial de Mário Soares. Fala-se mesmo em rever estratégias, em erros de análise cometidos no arranque da candidatura. Manuel Alegre diz que não está excluído que ainda possa avançar, alguns afirmam que está a fazer “bluff”, mas Helena Roseta avisa, em artigo publicado na revista “Visão”, que o “voto anda solto” e que “há muita gente que não se revê em nenhum dos candidatos anunciados”, concluindo com um enigmático apelo, escrito nos seguintes termos: “Até 30 dias antes do acto eleitoral podem apresentar-se outras candidaturas. Creio que é um dever cívico contribuir para que tal aconteça.”
Teremos de aguardar a candidatura do prof. Cavaco Silva e analisar as guerrilhas da esquerda. Uma e outras são decisivas para o debate presidencial que, apesar de tudo, só vai ter contornos reais quando todos os candidatos estiverem no terreno. Parece possível arriscar dizer que na escolha do próximo Chefe do Estado não haverá “primárias à esquerda”, como houve em 1986. A contenda resolver-se-á, com grande probabilidade, à primeira volta…

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