BE à zaragata por causa de Fernando Rosas e Joana Amaral Dias

A guerra Alegre-Soares não é o único conflito à esquerda com epicentro nas presidenciais. O SEMANÁRIO sabe que no Bloco de Esquerda o ambiente envolvendo Fernando Rosas e Joana Amaral Dias é muito tenso, por causa do apoio que ambos deram à candidatura presidencial de Mário Soares.

A guerra Alegre-Soares não é o único conflito à esquerda com epicentro nas presidenciais. O SEMANÁRIO apurou que no Bloco de Esquerda o ambiente envolvendo Fernando Rosas e Joana Amaral Dias é muito tenso, por causa do apoio que ambos deram à candidatura presidencial de Mário Soares. Fernando Rosas esteve presente, há um mês, no lançamento da candidatura de Soares, presença que surpreendeu muita gente no Bloco de Esquerda e fora dele. Rosas, historiador conceituado, colabora há alguns anos com a Fundação Mário Soares. Joana Amaral Dias, que já foi deputada do Bloco de Esquerda espantou ainda mais os seus camaradas bloquistas ao aceitar ser mandatária para a juventude de Mário Soares, um cargo de grande projecção, que ombreia com o de mandatário nacional. Rosas e Joana Amaral Dias, cada um com a sua vertente, são duas figuras muito mediáticas do BE, com ocupação de cargos de destaque no quadro do BE, o que, no entender dos maiores críticos do seu apoio a Soares, aumenta as suas responsabilidades políticas.
A linha do Bloco saída da UDP, hoje repreentada destacadamente por Luís Fazenda, é uma das mais críticas do comportamento de Rosas e Joana Amaral Dias, não perdoando não só o pecado político como uma alegada sede de protagonismo, sobretudo na jovem bloquista. A linha da UDP no seio do BE é uma linha mais dura, mais ideológica, de características mais populares. Neste quadro, é mesmo de admitir que depois das presidenciais se queira fazer o ajuste de contas no seio do BE, com eventuais depurações.
No entanto, a tensão bloquista não se restringe ao sector da UDP. No sector trotskista, de Francisco Louçã, também provocou celeuma a posição de Rosas e Joana Amaral Dias. Mesmo alguns sectores da ala mais civilista do BE, com raízes na Política XXI, estão descontentes com a atitude do historiador e da jovem. Por exemplo, há quem diga que Ana Drago, uma das mais activas bloquistas, fiel a certos princípíos, não está nada satisfeita com a posição de Joana Amaral Dias.
O facto de Mário Soares se apresentar com resultados baixos nas sondagens não ajuda Rosas e Amaral Dias, ainda que, qualquer que seja o desfecho da corrida a Belém, as críticas não devam ser abafadas. Se Soares perder, pode estar em cima da mesa a gestão desastrosa da esquerda no dossier das presidenciais, onde Rosas e Amaral Dias deram o seu contributo com os seus desvios soaristas. Se Soares ganhar, há muitas dúvidas sobre a sua acção política com o Bloco, ostracizando a formação política e tendo a tendência de compensar politicamente, muito ao de jeito Soares, quem esteve pessoalmente consigo, ou seja Rosas e Joana Amaral Dias. Este favoritismo pode dar origem a uma guerra pior no BE do que se Soares perder, promovendo convulsões intestinas no BE durante os próximos quatro anos.
Desde a constituição do Bloco de Esquerda este conflito com epicentro nas presidenciais pode representar a primeira dissenção grave no seio do bloco e a sua estreia nas guerras habituais pelo poder. Entretanto, Francisco Louçã, candidato presidencial apoiado pelo Bloco, continua muito activo na sua campanha, fazendo um inteligente “dois em um”. Louçã tem-se desdobrado em iniciativas bloquistas no quadro das eleições autárquicas e vai fazendo “circular” a sua imagem e discurso com vista às presidenciais. Se Jerónimo de Sousa levar a sua candidatura até ao fim, Louçã também o deverá fazer.
Para além das convulsões no Bloco a questão das presidenciais promete uma guerra longa e intensa no PS, sobretudo se Cavaco Silva ganhar as presidenciais. Se o professor ganhar logo à primeira volta, o conflito será maior. Muitos socialistas deverão pedir responsabilidades a Sócrates e à direcção do partido sobre o apoio a Mário Soares. Não só os socialistas que estão hoje abertamente com Manuel Alegre mas também aqueles estão a apoiar Soares mas que gostavam de estar com Alegre, só não o fazendo porque não querem ir contra a linha oficial do partido. Se Cavaco ganhar à segunda, as convulsões deverão ser menores, pelo menos no curto prazo. Se Cavaco fizer um mandato muito activo em Belém, condicionando a activiade do governo e, no limite, conduzindo à sua demissão e à realização de eleições legislativas antecipadas, o conflito no PS pode recrudescer, apontando-se a derrota de Mário Soares como o pecado original da situação política que conduziu à queda do governo. Recorde-se que Manuel Alegre continua a considerar-se o candidato presidencial melhor colocado para bater Cavaco (no contexto de ter tido o apoio do PS). Curiosamente, as últimas sondagens parecem alicerçar a convicção de Alegre, dando melhores resultados ao poeta numa segunda volta com Cavaco do que a Soares.
Entretanto, no PCP, José Saramago também está a provocar alguns engulhos no PCP. O Prémio Nobel da Literatura declarou há pouco tempo, insolitamente, que apoia tanto Jerónimo de Sousa como Mário Soares, o que desagradou a muitos militantes comunistas. Esta semana, num encontro fortuito de rua foi notória a frieza entre Saramago e o candidato da CDU, Ruben de Carvalho, tendo de ser o independente Corregedor da Fonseca a nota de simpatia perante o escritor. Refira-se que Eduardo Prado Coelho também opinou, esta semana, na SIC-Notícias sobre a “duplicidade” do escritor ao apoiar simultameamente Jerónimo e Soares, considerando que o escritor se tem afastado gradualmente do PCP ortodoxo, aproximando-se do PS.|

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