2019/10/22

Portugal fica mais espanhol

“- Chamem o Vitorino. Ele que faça o negócio da Galp e da EDP com os italianos e os espanhóis, mesmo sabendo que eles estão concertados!” – É já voz corrente, a propósito do cerco que os espanhóis conseguiram montar a Portugal. Lisboa parece um bazar oriental, mesmo antes do encerramento. Vende-se tudo por baixo preço. Já não há mais “bluff” para fazer. Duzentos dias depois de Sócrates tomar o Poder, Portugal vê comprometidos, em toda a linha, os trunfos que tinha. Os espanhóis compram, contratam e corrompem empresários, políticos e até parecem contar com o apoio institucional do Estado. Já controlam o sector da cerâmica nacional, estão a entrar na construção, no turismo, no imobiliário, nas finanças e na energia. O problema português não se resolve negociando estatutos autonómicos, como acontece com a Catalunha ou o País Basco. O problema português, dizem os espanhóis, resolve-se comprando. Por isso, vender aos espanhóis é hoje o maior problema estratégico e de segurança nacional que o Governo Sócrates tem para resolver.

Nos duzentos dias de Governo socialista falou-se de muitos negócios e de algumas reformas. O aumento das despesas com o Governo socialista obrigou a novo agravamento dos impostos, e o buraco orçamental que subiu para 6,8%, levou mesmo Bruxelas a levantar a Portugal um procedimento por défice excessivo. Com essa estratégia a situação económica agravou-se para níveis recessivos e ainda mais empresas decidiram abandonar Portugal. Esta semana foi a vez da Yahoo sair de Portugal por causa do IVA, a seis por cento acima dos países mais competitivos da Europa comunitária.
Politicamente, o Governo dividiu a legislatura em duas partes. Primeiro, tomou medidas duras para fazer reduzir os custos com a saúde e as reformas e, sobretudo, atreveu-se a afrontar os “lobbies” dos funcionários e as poderosas classes profissionais que sempre afrontaram o poder político, desde os militares aos polícias e magistrados judiciais e do Ministério Público. A onda de protestos alimentou o Verão e entra, agora, pelo Outono dentro. Sócrates aproveita os últimos dias de Sampaio para fazer os confrontos que tem a fazer nesta legislatura, sobretudo porque prevê que Cavaco Silva será o Presidente da República depois de Janeiro.
A preparação do próximo Orçamento do Estado conta exactamente com esse arrefecimento. “Sócrates necessita de fazer algo para reanimar o País”, comenta-se nos meios socialistas. Mas o Governo tem poucas saídas. Só os empresários podem criar emprego. Porém aí, não há renovação possível. Finalmente, o País percebe que nos próximos anos os empresários que estão são os que ficam e, de novo, apenas virão estrangeiros. Nos próximos dez anos o País vai pagar o ganho ilusório decorrente do euro, em que aderimos com um escudo muito valorizado. A súbita riqueza está agora a ser paga, com moderação salarial. Nos últimos dois anos os trabalhadores perderam 5% do poder de compra. Para os trinta por cento que artificialmente os proprietários e banqueiros ganharam em 2000, com a conversão do escudo em euros, a economia nacional vai pagar, a este ritmo, com este marasmo pelo menos durante os próximos oito a dez anos, parece ser um cenário realista. Talvez por isso muitos se empenham nos negócios com Espanha, pois pensam que dez anos é uma eternidade.

A capitulação a Espanha

Ao fim de 200 dias de Governo socialista o traço mais marcante é o do agravamento das condições económicas e de confiança em Portugal. Mas, sobretudo, é no Governo Sócrates que se repercutem decisões antes tomadas. Dentro de pouco mais de trinta dias, os italianos da ENI ficam praticamente com o controlo da Galp. Bruxelas, provavelmente manipulada pelos espanhóis, chumbou o negócio do gás com a EDP. Exactamente ao contrário do que os espanhóis estão a fazer propondo a fusão da Gas Natural com a Endesa, que libertará ainda activos de mais de 9 mil milhões de euros, que permitirá o aumento da capacidade crítica da Iberdrola. Portugal, relegado para uma periferia, tem como caminho aceitar o negócio de Pina Moura com os italianos, quando deveria recomprar, e finalmente pedir ajuda à Iberdrola, para governar o seu próprio mercado. Iberdrola, que agora, pasme-se, tem como representante em Portugal o mesmo Pina Moura.
Mas, a história não se fica por aí, com o Governo, pela mão do infeliz ministro da Economia, ainda por cima a ser humilhado pelo ministro espanhol da Economia, que veio no sexta-feira a Lisboa para dizer na cara do ministro: Portugal não pode comprar a União Fenosa (energia da Galiza) e não é conveniente que participe no “split” final da Endesa. A Espanha perdeu a vergonha. Dita as ordens a Portugal de acordo com os seus interesses, humilha o Governo português em Lisboa e no seu próprio gabinete, onde a cortesia obrigava à boa educação. E para retirar veleidades ao Governo de Sócrates, o Santander, antes de mais pressões nacionais, vende ao presidente do Real Madrid, Peres, a posição que detinha na Fenosa com algumas Caixas.

Três humilhações espanholas

Esta era apenas a terceira humilhação de Portugal em menos de 200 dias. A primeira foi com o TGV, tendo Portugal que aceitar o traçado e os “timings” impostos por Madrid. Mas não se fica por aí. A Espanha impões a construção, a tecnologia e o pacote financeiro a ser pago com o Orçamento de Portugal e os fundos estruturais que deveriam servir para o desenvolvimento do País.
Como se isso não bastasse, até na água, em ano de seca, os portugueses viram os seus direitos legais, aliás, consagrados por tratados internacionais, violados pela Espanha. Portugal não reagiu aos transvasos do rio Douro e acabou por dar a água do Alqueva, paga com dinheiros de Portugal e sem qualquer retorno, à Andaluzia, sem que nada chegue sequer ao Alentejo que se desertifica por fala de ligações que leve para os montes a água que de lá é escoada para o lago do Alqueva.
O último ataque espanhol, facilitado pelos contactos dos Governos de Madrid e Lisboa, conforme João Van Zeller contou esta semana o Parlamento, é já de cariz ideológico. Madrid avança para a compra de uma bomba atómica ideológica, adquirindo o controlo da maior estação de televisão nacional, com o apoio do Governo português a total incapacidade de resposta dos meios políticos. Tudo aparece reduzido à esfera de um negócio privado. Mas todos sabem do embuste: a TVI adquirida pela Prisa é a mais eficaz arma ideológica do partido espanhol em Portugal.
Subitamente, o País, humilhado pela Espanha, descobre que não tem margem de manobra. Os empresários descrentes nas manobras de Governos sucessivos e de políticos sem escrúpulos que se passaram para Espanha, acompanhando o movimento de uma burguesia empresarial, que não hesitou em vender as suas empresas para realizar mais-valias antes que o ciclo da Europa terminasse, não investem no País. Portugal confronta-se com falta de activos para investir, numa altura em que os constrangimentos do Pacto de Estabilidade e Crescimento colocam a nu as fragilidades de uma economia que é inviável, sem solução externa. E a solução externa que seriam o investimento estrangeiro e as exportações estão comprometidos, por falta de visão do Governo e por má imagem do País.

O investimento estrangeiro abandona Portugal

Esta semana, o Governo perdeu mais uma batalha em que se tinha envolvido: o SUV da Volkswagen não vai ser produzido em Palmela. Portugal ainda não percebeu que precisa de investir no capital das empresas investidoras para conseguir canalizar os investimentos estratégicos para o nosso país. Mas neste momento uma política dessas seria imediatamente denunciada pela Espanha, que tem agentes infiltrados e pagos nos mais altos lugares do País. Ainda esta semana, o “Diário Económico”, também comprado pelos espanhóis a Miguel Paes do Amaral, dava conta que um ex-secretário da Energia português, Nuno Ribeiro da Silva, desta vez do PSD, poderia vir a ser contratado pela Endesa.
Como aconteceu ainda antes de 1580, esgotado o ciclo da pimenta e da Índia, por causa da corrupção e dos ataques holandeses, a burguesia de Lisboa e, sobretudo, a alta nobreza logo começou a olhar para Espanha como a solução. Começando pelas megalomanias de um homem rico, D. Manuel I de Portugal que, ao casar com uma filha dos reis católicos, se considera em condições de assumir a coroa de Espanha, até Filipe II, filho de Carlos V e de Isabel de Portugal, que impôs pela força das armas do Duque de Alba os direitos que tinha ao Reino, pois que os castelhanos já o haviam comprado.

Os últimos anos de Macau

A traição e a facultação de informações e elementos estratégicos a potências estrangeiras são crime em Portugal, mesmo em época de globalização, mas a Procuradoria-Geral da República mostra-se totalmente incapaz de agir nessa matéria, assoberbada que está com os processos de corrupção, que avassalam a política e o desporto nacional, e com o crime violento que, subitamente, irrompe em Portugal com o agravamento da criminalidade organizada ou não, em particular no Algarve e em Lisboa, onde a onda de assaltos a residências e património está a aumentar para números verdadeiramente assustadores.
Com esta sensação de capitulação os principais intermediários do poder organizaram-se aparentemente para o saque final. Enquanto o País definha, a começar no Porto – condenado à periferia da Europa, irrelevante e sem dinheiro – e a acabar no Algarve – onde nenhum espanhol compra sequer uma casa, mas onde os maiores projectos imobiliários, como a Lusotur, de Vilamoura, já estão nas suas mãos -, Lisboa parece um “bazar oriental”, onde se faz a liquidação de última hora, antes do mercado encerrar. Faz lembrar os últimos anos de Macau, onde, para se ganhar mais uma “comissão”, facturar mais uns “favores”, se adjudicaram obras megalómanas, se aceleraram os últimos negócios e se fizeram fortunas, “com corrupção e manha”, tudo em nome da herança portuguesa no Oriente.
O mesmo espírito da “árvore das patacas”, do enriquecimento fácil de última hora, aparece, quando subitamente o Governo tira da cartola a construção do aeroporto da Ota, o segundo aeroporto para Lisboa ainda ontem era anunciado para os “low costs”, ou quando se inverte toda a política do medicamento, até agora orientada para os genéricos, e se opta por facilitar a vida à indústria, por sinal maioritariamente estrangeira.

Os negócios de última hora

A cereja é a compra de novos 14 Airbus anunciados para a TAP e cujo negócio pode mesmo estar encerrado nas próximas semanas, dando comissões superiores à da compra dos submarinos alemães no tempo de Durão Barroso.
A decisão, apesar de ser da TAP, acaba por passar pelo Governo, que detém o controlo accionista da empresa gerida pelo prudente e hábil brasileiro Fernando Pinto. Destruídas as contas de exploração com a subida do preço internacional dos combustíveis refinados, o destino da TAP autónoma parece estar cada vez mais comprometido, sendo o negócio da integração da TAP na Ibéria um velho projecto pensado no tempo do Governo Guterres, que acabou por não ir avante por causa do interesse nacional manifestado numa companhia nacional de bandeira. Mas sendo um mercado com grande volatilidade, a ver pelas falências da Swissair e da Delta Airlines, é de admitir que o projecto possa voltar. Talvez por isso o processo de compra de 14 Airbus para a TAP foi acelerado, pela actual administração, a pedido do Governo socialista. A TAP falhou a tentativa e crescer para a América do Sul com a aquisição da Varig, e avançando para a compra de novos aviões na actual conjuntura pode ficar ainda mais exposta à necessidade de novas alianças, sobretudo, sabendo que o Governo nacional não pode dar ajudas directas às empresas por causa das leis comunitárias sobre a livre concorrência e que a Caixa Geral de Depósitos não terá grande capacidade para fazer aportes de capital. A situação de pré-falência das companhias privadas nacionais, em particular da Portugália, sustentada artificialmente pelo Grupo Espírito Santo, também não permite antever soluções alternativas à da integração ibérica, comenta-se nos meios da aeronáutica. E, finalmente, o ataque das companhias de “low cost” a Lisboa, a começar pela Air Luxor, acaba por ser uma machadada decisiva nas ambições da transportadora aérea nacional.

Ainda é possível a fusão BCP/BPI?

Finalmente, o sector financeiro, onde os espanhóis poderão ainda atacar o BPI, mas onde a privatização da Caixa Geral de Depósitos parece estar afastada para já. Esta semana o mercado antecipou a possibilidade de uma fusão entre o BPI e o BCP; como alternativa à tomada de controlo por parte da Caixa de Barcelona no BPI e, sobretudo, porque esse reforço no capital do BCP criaria melhores condições para o BCP comprar o maior banco romeno, actualmente em fase de negociação. O BCP tem vindo a reforçar os seus meios próprios, através da realização de mais-valias, para se concentrar na internacionalização, evitando assim a necessidade de novos aumentos de capital, mas uma fusão com o BPI poderia ser uma tentativa de travar a invasão espanhola na Banca nacional.
Tal como nos combustíveis, onde a Repsol quer ter 25% do mercado nacional, também, na banca, o Santander, que comprou, na semana passada, 50% do Interbanco, de João Pereira Coutinho, já caminha para os 20% do mercado nacional, sendo o banco mais eficiente do País, devido à transferência de todo o “back-office” para Espanha, o que lhe fez reduzir cerca de 30% os custos de exploração. O aumento da dimensão pode ser a resposta para ganhos adicionais do BCP na área da produtividade, a única resposta possível para evitar uma OPA hostil de algum banco espanhol sobre a maior empresa nacional. Ao fim de 200 dias de Governo socialista, o País parece mais espanhol, mas ainda há sectores dispostos a reagir, apesar das dificuldades da conjuntura.

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