Sócrates e Cavaco reduzem conflitualidade institucional

Primeiro foi Cavaco Silva a baixar a pressão entre Belém e S. Bento, alimentada pela comunicação social durante todo o Verão. A seguir veio Sócrates, na entrevista à RTP, falar em cooperação estratégica. Belém já pode ter percebido que quanto maior conflitualidade com o PS, mais a reeleição de Cavaco fica ameaçada.

Depois da tempestade de Verão

Primeiro foi Cavaco Silva a baixar a pressão entre Belém e S. Bento, alimentada pela comunicação social durante todo o Verão. A seguir veio Sócrates, na entrevista à RTP, falar em cooperação estratégica. Belém já pode ter percebido que quanto maior conflitualidade com o PS, mais a reeleição de Cavaco fica ameaçada. Por sua vez, Sócrates também percebeu que a guerra com Belém só dá trunfos a Ferreira Leite.

Quem ouviu esta semana Cavaco Silva a falar na necessidade de o país se concentrar nos seus problemas, não se distraindo com o episódio das alegadas escutas ao Palácio de Belém e José Sócrates a garantir que o governo e o Presidente da República estavam a cooperar entre si, deve ter tido a sensação de viver uma fantasia de Verão quando no mês de Agosto toda a comunicação social fazia parangonas com a guerra entre a Presidência da República e o executivo, depois de uma fonte presidencial anónima ter colocado a hipótese de o Palácio de Belém estar a ser vigiado.
É bom, no entanto, não tirar conclusões precipitadas porque a fantasia e Verão pode ser, afinal, realidade e a realidade fantasia. Há muito para jogar nos próximos dois anos. As legislativas de 27 de Setembro são apenas o início do campeonato. Depois de avaliar o que se passou em Agosto, com o episódio das alegadas escutas, Sócrates teve ter feito o ponto da situação e concluído que o PS nada tem a ganhar com a conflitualidade com Belém, ou a aparência dela, acabando por dar trunfos a Ferreira Leite.
Se a imagem de conflitualidade com Belém passar psra a opinião pública, há o risco de os portugueses penalizarem o PS. Para o espectro da ingovernabilidade, já bem basta os eleitores não qurerem dar maioria absoluta a nenhum partido em face da experiência com Sócrates, quanto mais enfrentarem o risco de uma má relação entre Belém e S. Bento, mais o país pode ficar ingovernável, ainda para mais havendo uma crise económica e social para gerir. Assim, uma continuada dramatização do conflito institucional, podia levar Ferreira Leite a sustentar que o PSD, mesmo sem maioria absoluta, era o único partido capaz de dar garantias de governabilidade em face das relações normalizadas com Cavaco Silva. Assim, mesmo que os atritos entre Belém e S. Bento sejam reais, com vetos sucessivos às leis socialistase muitas frases sibilinas ou que parecem hoistis ao PS, Sócrates tem de assobiar para o ar. Há, mesmo assim, conflitos institucionais bem mais graves, por exemplo aquele que foi protagonizado por Cavaco Silva e Mário Soares. Sócrates bem pode dar-se por satisfeito por Cavaco nunca ter pisado o risco em relação a poder ser visto como apoiante das reivindicações das várias classes profissionais que afrontaram Sócrates nos últimos quatro anos, o grande problema do primeiro-ministro, que o pode, aliás, levar à derrota eleitoral.

Quanto a Cavaco, o Palácio de Belém já pode ter percebido que quanto maior conflitualidade com o PS, mais grãozinhos de areia se infiltram na máquina de reeleição de Cavaco em 2011. O argumento que serve para o governo, nestas legislativas, também serve para Cavaco nas presidenciais. Os portugueses podem ter-se habituado à cooperação estratégica e, face à instabilidade derivada da ausência de maioria absoluta, não quererem novos riscos. O PS tem, aliás, explorado bem este cenário de Cavaco sem cooperação estratégica, dando gás a nomes muito fortes para poderem ser candidatos presidenciais do PS contra Cavaco. Os socialistas mantém a hipótese de Manuel Alegre em banho-maria e um grupo de socialistas chegou a sondar Jorge Sampaio para uma nova batalha por Belém. Esta guerra pode, no entanto, não ser real e ter um simples objectivo de dissuasão, avisando o Palácio de Belém para não cair em tentações, reais ou mesmo fantasiosas, como as escutas à Presidência da República.

“O PS não deve fazer coligações pós-eleitorais”

Sónia Sanfona ficou conhecida do País depois de ter assinado o famigerado relatório final da Comissão de Inquérito ao BPN. Assume-se uma alpiarcense convicta e, depois de quatro anos e meio no Parlamento, aceita o desafio de candidatar-se à presidência da sua vila natal: “O turismo é o aspecto mais diferente e inovador no meu programa eleitoral”.

Sónia Sanfona, Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PS e Candidata à Câmara de Alpiarça

Sónia Sanfona ficou conhecida do País depois de ter assinado o famigerado relatório final da Comissão de Inquérito ao BPN. Assume-se uma alpiarcense convicta e, depois de quatro anos e meio no Parlamento, aceita o desafio de candidatar-se à presidência da sua vila natal: “O turismo é o aspecto mais diferente e inovador no meu programa eleitoral”. Sobre as legislativas e a governabilidade, avança que o PS deve Governar sozinho e procurar acordos pontuais com as várias forças políticas.

O que é que a motiva no desafio autárquico?

Comecei a minha intervenção na política como membro de uma Assembleia Municipal, uma experiência muito interessante e que, pessoalmente, acho que contribuiu para eu desenvolver o sentimento de servir os nossos concidadãos. A mim compensa-me pensar que posso fazer alguma coisa pelos outros – o que, francamente, não sei se é um sentimento egoísta. O desafio autárquico é, fundamentalmente, um apelo das nossas raízes. Ao longo deste tempo não deixei de viver na terra onde nasci, tenho dois filhos que vão lá à escola, a minha família é toda de lá… Partilho muito dos problemas e das vantagens de se viver num concelho como o meu e ser-se alpiarcense.

A Câmara Municipal tem sido gerida nos últimos anos pelo PS. O que é que faltou concretizar?

Quem conhecia e conhece Alpiarça há doze anos a esta parte – o período de tempo em que o PS está à frente dos destinos do concelho – pode muito facilmente apreciar as diferenças, quer na gestão quer no rosto, da vila. Alpiarça tem hoje um conjunto de equipamentos sociais, culturais, cívicos que não tinha. Melhorou a rede viária, as infra-estruturas básicas, criou uma zona industrial. Desenvolveu-se, progrediu e modernizou. Mas é claro que há sempre qualquer coisa para fazer.

Pode dar alguns exemplos?

Algumas coisas não foram feitas por manifesta impossibilidade de as conseguir, porque Alpiarça é um concelho pequeno e tem limitações do ponto de vista da capacidade de investimento e de concretização. É preciso melhorar substancialmente a forma como se administra e gere – e profissionalizar essa gestão – a casa museu José Relvas, colocando-a no centro daquilo que quero que seja um programa de desenvolvimento turístico sustentado. Alpiarça tem condições únicas: uma barragem com um valor natural muito específico e de grande qualidade, um pólo desportivo interessante, uma zona ribeirinha que não está aproveitada, uma vala real que precisa de ser despoluída…

O turismo é a sua grande aposta para o município?

O turismo é o aspecto mais diferente e inovador no meu programa eleitoral. Há um conjunto de outras medidas, ideias e projectos que, também sendo novos, não têm esta dimensão. Há medidas de apoio aos empresários, especificamente aos agricultores, apoio ao pequeno comércio… Um conjunto de iniciativas e de ajudas que a autarquia pode desenvolver para a fixação das empresas e do comércio ou na colaboração com os agricultores.

Acredita que a notoriedade que conseguiu alcançar como deputada, designadamente devido à comissão parlamentar sobre o caso BPN, a poderá beneficiar eleitoralmente?

Muito francamente acho que não. Para mim foi fundamental o percurso todo que fiz até chegar à comissão de inquérito do BPN, o culminar de quatro anos e meio de trabalho que desenvolvi no Parlamento. De facto, publicamente, o relatório que fiz tornou-me conhecida, de uma forma mais genérica, no País. Mas isso não resulta em meu benefício ou prejuízo. No meu concelho as pessoas conhecem-me desde que eu nasci, conhecem a minha família, fizeram parte do meu percurso escolar, conhecem-me profissionalmente porque exerci advocacia durante nove anos em Alpiarça…

Tem algum mal os assessores de Belém participarem na elaboração de um programa político de um partido?

A Presidência da República deve ser um órgão equidistante, imparcial e independente. A partir do momento em que é eleito, o Presidente da República deve ser o Presidente de todos os portugueses. Tenho alguma dificuldade em perceber por que razão os seus assessores, pessoas da sua confiança e que trabalham consigo e o aconselham, não se protegem deste tipo de intervenção. Muito sinceramente, não estou preocupada com a contribuição que os assessores do Presidente deram para o programa do PSD. Mas do ponto de vista da imagem externa transparece uma ideia que não é positiva, no sentido em que a independência e a equidistância deve ser assegurada.

Essa ideia poderá ser propositada. Isto é, a Presidência querer fragilizar Sócrates para beneficiar Ferreira Leite.

Pode. Mas também pode ser uma espécie de aproveitamento por parte do PSD para publicitar a participação de assessores do Presidente na elaboração do programa do PSD e demonstrar aos portugueses que o Presidente estará em consonância com aquilo que o partido irá apresentar. Quem mais fragilizado sai deste processo é o Presidente, que deveria manter a sua preocupação de equidistância.

Cavaco Silva já devia ter vindo a público afastar-se destas acusações, até sobre espionagem em Belém?

O público em geral está a dar uma importância a este assunto que ele não tem. Provavelmente o Presidente pensará a mesma coisa. Se o Presidente tivesse tido algum indício ou sensação de que podia estar em causa a sua privacidade ou a do seu gabinete, teria agido em conformidade. A Procuradoria-geral da República existe exactamente para isto.

Que avaliação política faz das relações entre Belém e S. Bento?

Não acho que as relações entre a Presidência e o Governo sejam más, de todo. Mas eu sou um agente externo, estou a falar da forma como que vejo. Os vetos presidenciais estão previstos na Constituição e representam o exercício de um poder legítimo do Presidente. A análise que faço é que nalguns casos os vetos fundaram-se em razões objectivas, sobretudo dúvidas de constitucionalidade; e noutros por opções pessoais de formação do Presidente, que é uma pessoa mais conservadora. Nesse sentido, compreendo melhor alguns vetos do que outros.

Gostaria de ver Manuel Alegre como Presidente da República?

O Partido Socialista deve ter um candidato presidencial. O partido tem no seu seio e na comunidade que não sendo militante se encontra no seu espectro político um conjunto de personalidades e figuras que podem perfeitamente desempenhar o cargo de Presidente da República com elevação. Entre essas figuras vejo Manuel Alegre.

Como o mais destacado?

Na minha análise, o Governo do PS, nos últimos quatro anos e meio, teria tido alguma dificuldade no relacionamento com a Presidência da República se Manuel Alegre fosse Presidente.

Mais do que teve com Cavaco Silva?

Não sei… Teria tido alguma dificuldade porque isso foi visível ao longo do mandato. Houve um conjunto de propostas legislativas que claramente não teriam tido acolhimento na Presidência da República e tiveram. Provavelmente haveria outras que teriam acolhimento e com o actual Presidente não tiveram. Vejo alguma distância, não do ponto de vista ideológico porque o PS é só um, há um posicionamento muito diferente entre aquilo que tem sido a linha do Governo e a posição de Manuel Alegre. Não lhe estou a dizer que é completamente incompatível que o Manuel Alegre seja Presidente com um Governo do eng. Sócrates, é possível.

Pessoalmente preferiria alguém com um perfil mais semelhante ao de José Sócrates?

Eventualmente haverá alguns outros putativos candidatos a PR que possam ser, do ponto de vista do pensamento político, mais próximos do eng. José Sócrates. Estamos num exercício especulativo. O que acho é que o PS deve ter um candidato presidencial…

Não se perspectiva que nenhum partido tenha uma maioria absoluta; o bloco central é afastado pelo PS e pelo PSD, os partidos mais pequenos recusam-se a coligar e apoiar os partidos maiores, talvez com excepção ao CDS. Como é que a governabilidade é assegurada neste cenário?
Não acho que o Partido Socialista deva fazer coligações pós-eleitorais. Não o fez nesta fase pré-eleitoral e julgo que não o fará depois das eleições. Estou convencida que o PS vai ganhar as eleições legislativas. É provável que não saia destas eleições com maioria absoluta, mas acho que essa também é uma escolha que os portugueses têm que fazer, porque se há quem anuncie com grande veemência que as maiorias absolutas fazem diminuir a participação democrática – ideia com a qual eu não concordo -, a verdade é que as maiorias absolutas permitem uma estabilidade governativa que a maioria relativa não garante. O PS deve procurar entendimentos, em cada área, com a força política que mais se aproxime daquilo que é o seu programa, daquilo que são as suas opções políticas.

Não seria melhor um Governo estável apoiado por uma maioria estável?

Seria melhor um governo estável com uma maioria absoluta do PS. Sempre que o PCP e o Bloco se identifiquem com as propostas do Partido Socialista e as queiram viabilizar, são perfeitamente bem-vindos. Não concordo, por exemplo, com a proposta feita pelo Engenheiro Ferro Rodrigues relativamente às coligações, convidar o PCP ou o Bloco para o Governo…

Ferro Rodrigues também fala no PSD, no Bloco Central.

A questão do PSD parece-me que está posta de parte à partida, porque quer a dra. Manuela Ferreira Leite quer o próprio eng. Sócrates puseram de parte essa possibilidade.

Mas quem perder vai-se embora… Isto é, se o PS perder, talvez o Ferro Rodrigues seja um possível líder.
Não me parece. O caminho do País é no sentido do futuro, da inovação e o caminho do Partido Socialista é rigorosamente o mesmo. Não me parece nada que tenhamos de voltar atrás, sem com isto querer dizer o que quer que seja relativamente ao eng. Ferro Rodrigues, que é uma pessoa que estimo e que aprecio bastante. Mas, na minha opinião, o futuro do PS não passa por aí. O Partido Socialista é um partido moderno, de uma esquerda democrática avançada.

Voltando ao Bloco Central…
Eventualmente o País necessitava desse entendimento, o que eu acho é que será muito difícil com uma líder do PSD como Manuela Ferreira Leite. Acho que a dra. Manuela Ferreira Leite começou muito mal a pré-campanha legislativa, com uma proposta de destruição total de tudo o que o Partido Socialista fez. A dra. Manuela Ferreira Leite propõe que aquilo que se fez que se apague, que se destrua, que se rasgue e que, portanto, se comece do zero. O PSD voltou a trazer um discurso de profundo desânimo a Portugal. Nós temos tido um Partido Socialista e um Governo que procura puxar o país para cima, diz às pessoas que não podemos desanimar, que não é altura de baixar os braços, que é preciso lutar pelas coisas, que é preciso estarmos convencidos de que somos capazes de fazer, somos capazes de mudar, vamos ultrapassar a crise. Depois, tempos um PSD a puxar-nos sistematicamente para baixo.
O papel da oposição não é fazer oposição às medidas do Governo?
O papel da oposição deve ser construtivo. O papel da oposição é dizer “nós não concordamos com isto e, em alternativa, a solução é esta”. Este é o papel de uma oposição responsável. Não é o papel de crítica destrutiva, sistemática, inconsistente, sem qualquer tipo de proposta alternativa. Porque é assim que tem funcionado o PSD ao longo deste tempo. É o vazio das ideias, é o vazio das propostas. As pessoas vêem e sentem isto, até porque a dra. Manuela Ferreira Leite não aparece agora aos portugueses, já cá anda há algum tempo, tem um passado, tem uma história. Por isso, neste quadro, é difícil encontrar aqui o equilíbrio necessário para que os dois maiores partidos se entendam e possam governar em conjunto.
Uma das acusações que Manuela Ferreira Leite faz é de claustrofobia democrática. Que comentários faz?

Acho espantoso como é que a dra. Manuela Ferreira Leite, depois do processo de constituição das listas para estas eleições legislativas, tenha a coragem de dizer aos portugueses que o País vive um clima de claustrofobia democrática. Nunca tinha visto uma manobra tão desleal como aquela que foi feita pela direcção do PSD relativamente aos seus principais adversários internos, que com ela disputaram a liderança do partido.

Manuela Ferreira Leite fundamenta que precisa de ter um grupo parlamentar leal, que acredite plenamente no seu projecto político.
É preciso ter um grupo leal e é preciso ter diversidade, porque a diversidade também é qualidade. Relembro que o eng. José Sócrates também teve um opositor na luta interna pela liderança do partido e que esse opositor foi membro do Grupo Parlamentar durante estes quatro anos e meio. Ninguém tem dúvidas que Manuel Alegre exerceu o seu mandato rigorosamente como quis exercê-lo. E a sua voz dissonante não foi sempre negativa, ao contrário daquilo que as pessoas às vezes querem fazer passar. O debate interno e a dissonância que às vezes existe entre opções é saudável do ponto de vista democrático. A dra. Manuela Ferreira Leite não percebeu uma coisa fundamental: o dr. Passos Coelho não foi eleito líder do PSD, mas teve uma rotação expressiva no seu partido e representa, de facto, uma parte significativa do que é o PSD. Isto revela o receio do afrontamento ou da possível sombra que, eventualmente, o dr. Passos Coelho podia fazer à dra. Manuela Ferreira Leite. O País caminha para o futuro e os partidos políticos também caminham e hoje a dra. Manuela Ferreira Leite já é passado e o dr. Passos Coelho pode ser futuro.

Moderados do PS convidam Sampaio para candidato

É uma autêntica “bomba” política. O SEMANÁRIO sabe que alguns moderados do PS, próximos de José Sócrates, convidaram recentemente Jorge Sampaio para ser candidato presidencial em 2011.

Eleições presidenciais em 2011

É uma autêntica “bomba” política. O SEMANÁRIO sabe que alguns moderados do PS, próximos de José Sócrates, convidaram recentemente Jorge Sampaio para ser candidato presidencial em 2011.

O Presidente da República, Cavaco Silva, bem se pode acautelar porque o PS não está só a trabalhar para as legislativas mas também já para as presidenciais de 2011, demonstrando que as duas eleições estão muito mais interligadas do que se pensa. O SEMANÁRIO sabe que alguns moderados do PS, próximos de José Sócrates, convidaram Jorge Sampaio para ser candidato presidencial em 2011. Jorge Sampaio, que foi Presidente da República entre 1996 e 2006, venceu Cavaco Silva na sua primeira eleição, há dez anos, tendo frustrado as expectativas do então ex-líder do PSD e ex-primeiro-ministro. Recorde-se que Cavaco Silva chegou a interromper o seu mandato de primeiro-ministro, em 1994, depois do célebre período de reflexão no Pulo do Lobo, no Alentejo, para se candidatar à Presidência da República. Desde que saiu da Presidência da República, com um capital político intacto, muito ligado ao magistério de influência que exerceu em momentos-chave dos mandatos e que contribuiu para unir os portugueses, Jorge Sampaio tem mantido uma acção pública muito intensa, quer a nível internacional, na luta contra a tuberculose, quer a nível nacional, ainda recentemente tendo desenvolvido os seus bons ofícios para que existisse uma coligação de esquerda em Lisboa. Refira-se que Jorge Sampaio, apesar de uma vida política muito intensa, é um homem relativamente novo, fazendo 70 anos em Setembro, sendo mais jovem que Cavaco Silva.
A grande dúvida passa, naturalmente, por saber se Jorge Sampaio aceita este desafio. Num cenário em que Cavaco se recandidata, as condições políticas de uma candidatura socialista são bastante mais desfavoráveis. Tanto Ramalho Eanes, como Mário Soares e Jorge Sampaio fizeram dois mandatos no Palácio de Belém. Nas reeleições dos Presidentes, os portugueses corresponderam com votações muito elevadas, das quais a mais expressiva foi a de Mário Soares, com 70 por cento de votos. Certamente que Sampaio não é alheio a este aspecto desfavorável, ainda para mais com o risco de a sua candidatura ser interpretada no sentido de não querer permitir a Cavaco os dois mandatos que ele próprio cumpriu. É muito cedo, porém, para decisões sobre a matéria.

Este convite a Jorge Sampaio não é, naturalmente, alheio ao aumento da conflitualidade entre Belém e São Bento, marcada nas últimas duas semanas por mais um veto presidencial, em relação à lei das uniões de facto, e ao episódio das suspeitas de vigilância do Palácio de Belém, lançado por uma fonte anónima da Presidência da República e nunca desmentida por Cavaco Silva. Os socialistas podem já ter percebido que, face às más relações existentes, o clima de cooperação estratégica que marcou os anos de 2006 e 2007 nunca mais se vai repetir e que qualquer governo socialista vai ter em Cavaco um adversário. Deste modo, a estratégia socialista a montar, e o mais rápido possível, parece passar pela apresentação de um candidato presidencial ganhador em 2011.
A degradação ainda maior das relações entre S. Bento e Belém, que pode ocorrer nos próximos dois anos, pode alterar o quadro de hoje e até tornar imperiosa a candidatura de Sampaio, mesmo perante a recandidatura de Cavaco. Depois das eleições de 27 de Setembro, e face à ausência de maioria absoluta, tanto do PS como do PSD, o Presidente da República poderá ter um papel ainda mais interventivo. Perante a aproximação e cumplicidade crescentes entre Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite, a acção do Presidente da República poderá ser alvo de fortes criticas. No quadro de um governo minoritário PS, com Ferreira Leite a manter-se, apesar da derrota eleitoral, na liderança do PSD com o beneplácito de Belém, o PS pode ver a sua acção muito dificultada por Cavaco. No cenário de um Bloco Central, com algum envolvimento ou mesmo a égide de Belém, a acção de Cavaco também poderá ser, objectivamente, prejudicial ao PS, desgastando mais os socialistas do que o seu parceiro de coligação social-democrata. No quadro de um governo minoritário do PSD, ou mesmo de coligação com o CDS, os socialistas também podem ser alvo de uma estratégia em tenaz, com epicentro em Belém, tendo como objectivo o seu isolamento. O melhor cenário para o PS seria, como se vê, o de Sampaio não se recandidatar, por razões pessoais ou do foro político, nomeadamente o de considerar, de forma altruística, que a sua acção impediria sempre o PSD de Ferreira Leite de se autonomizar e voar mais alto, por exemplo tentando uma maioria absoluta em legislativas antecipadas. Esta hipótese de Cavaco não se recandidatar seria, também, o melhor quadro para a candidatura de Jorge Sampaio.
Manuel Alegre tem sido o nome mais falado para poder ser o candidato oficial do PS a Belém. Mas o poeta tem muitos anticorpos no PS, sobretudo na ala moderada, e, mesmo entre o PCP e o BE Alegre está longe de ser uma figura unânime. Por sua vez, Alegre, apesar de ter recolhido um milhão de votos nas presidenciais de 2009, foi para todos os efeitos derrotado por Cavaco Silva, e logo à primeira volta. Deste modo, uma vitória sobre Cavaco Silva, ainda para mais num quadro mais difícil de reeleição de Cavaco Silva, parece pouco provável.
Por sua vez, António Guterres, actual Alto Comissário para os Refugiados, outro nome que tem sido falado para candidato presidencial do PS, parece ser uma aposta arriscada do PS. António Guterres está há muito fora da ribalta política. Por outro lado, está por provar que Guterres já tenha sido reabilitado politicamente, depois do ano negro de 2001 e da sua demissão de primeiro-ministro. O próprio António Guterres pode não estar disponível para ser candidato, pelos mesmos motivos políticos e pessoais que o levaram a abandonar a política e a lançar-se numa carreira internacional. Depois do Alto Comissariado da ONU, António Guterres pode, aliás, ter hipóteses de ser o próximo secretário-geral da ONU, tal como o SEMANÁRIO revelou há um mês, o que o afastaria por longos anos da política portuguesa.
Jorge Sampaio aparece, assim, como figura em melhores condições para tentar a reconquista do Palácio de Belém por parte dos socialistas.

Partidos regressam ao trabalho

O título deste texto é deveras erróneo. Os partidos políticos, neste final de legislatura e num período eleitoral tão importante, com eleições legislativas agendadas para 27 de Setembro e as autárquicas a 11 de Outubro, não deixaram de estar activos – e muito.

As rentrées dos partidos políticos, este ano, assumem uma natureza um pouco diferente, e por uma razão óbvia: não houve, propriamente, nenhuma pausa na política nacional. Os dois actos eleitorais que se aproximam não o deixaram. Portanto, em vez de regressos vamos ter continuações, mais um palco onde os líderes vão defender programas e fazer críticas, com bandeiras, muitas palmas e câmaras de televisão.

O título deste texto é deveras erróneo. Os partidos políticos, neste final de legislatura e num período eleitoral tão importante, com eleições legislativas agendadas para 27 de Setembro e as autárquicas a 11 de Outubro, não deixaram de estar activos – e muito. Não obstante este pormenor, e como há sempre a necessidade de um regresso oficial, os vários aparelhos partidários já anunciaram as rentrées políticas.

CDS na Praça do Peixe

O CDS é o primeiro partido a marcar oficialmente o regresso de férias (embora Paulo Portas e a sua entourage tenham passado o mês de Agosto a percorrer o País), com o tradicional comício na Praça do Peixe. O CDS escolhe habitualmente Aveiro, o círculo eleitoral de Paulo Portas, para as iniciativas de abertura do ano político. Antes do comício na Praça do Peixe, à noite, haverá uma “reunião geral” com candidatos às eleições legislativas, autárquicos e com os presidentes das concelhias.
No entanto, a apresentação do programa eleitoral do partido ficou marcada para uma semana mais tarde, a 30 de Agosto, com o apoio às PME, a Segurança e a Justiça entre as prioridades dos democratas-cristãos.

PS arranca ano político na praia

No PS, a rentrée ficou a cargo da Juventude Socialista que, entre 27 e 30 de Agosto, organiza um acampamento para jovens na praia de Santa Cruz, que tem o seu ponto alto, sábado, com um discurso do secretário-geral do PS e primeiro-ministro, José Sócrates.
Com o programa eleitoral já apresentado em Julho, o PS marcou para 6 de Setembro outro momento importante: uma Convenção Nacional, que reunirá cerca de mil pessoas e que marcará o arranque da campanha eleitoral às legislativas, também com a presença de José Sócrates.
PSD opta mais uma vez por Castelo de Vide
O PSD volta a apostar na tradicional Universidade de Verão para principiar oficialmente o ano político. Há um ano, o discurso de encerramento de Manuela Ferreira Leite era muito esperado, visto que simbolizava o fim do longo período de silêncio a que a líder se tinha reservado. Os social-democratas, entre 24 e 30 de Agosto, em Castelo de Vide, vão juntar oradores como Marques Mendes, Pedro Santana Lopes ou Marcelo Rebelo de Sousa. Os trabalhos serão encerrados com o discurso da líder.
No entanto, este que costuma ser o momento da rentrée social-democrata tem este ano um concorrente: a apresentação do programa de Governo do PSD, a 27 de Setembro, que decorrerá fora da Universidade de Verão, ainda sem local definido.
Comunistas na Quinta da Atalaia
O PCP será o partido a fazer mais tarde a sua rentrée formal, com a 33.ª Festa do Avante! a decorrer a 4, 5 e 6 de Setembro na Quinta da Atalaia, no Seixal. A Grande Gala de Ópera, os portugueses Clã, Maria João e Mário Laginha e os espanhóis Ska P são algumas das principais atracções do programa cultural da edição deste ano da Festa do Avante, que terá na abertura e encerramento os discursos políticos do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, partido que apresentou o programa de Governo na semana passada.

Bloco em Almada
O Bloco de Esquerda escolheu o último fim-de-semana de Agosto para fazer a sua rentrée política, repetindo os moldes do ano passado com a iniciativa “Socialismo 2009 – Debates para a Alternativa”, entre 28 e 30 de Agosto, em Almada. O debate irá centrar-se na discussão das prioridades do programa de Governo do BE, apresentado em Julho, e encerrará com uma intervenção do líder Francisco Louçã.

“É o princípio do fim da crise”

Para Sócrates a notícia não podia ser melhor: a economia portuguesa inverteu a tendência de queda, ao crescer 0,3 por cento no segundo trimestre do ano, segundo dados ontem divulgados pelo INE. “Os resultados são o princípio do fim da crise”, afirmou José Sócrates, em conferência de imprensa após o Conselho de Ministros.

Para Sócrates a notícia não podia ser melhor: a economia portuguesa inverteu a tendência de queda, ao crescer 0,3 por cento no segundo trimestre do ano, segundo dados ontem divulgados pelo INE. “Os resultados são o princípio do fim da crise”, afirmou José Sócrates, em conferência de imprensa após o Conselho de Ministros. Certamente expectante é que a inversão da tendência de queda contagie, também, as intenções de votos no Partido Socialista. Para o líder do executivo, não poderia haver melhor motivo, que este, para interromper as férias que gozava na vizinha Espanha.

Foi com optimismo, mas com cautela, que José Sócrates anunciou ao país o “princípio do fim da crise”. Para o primeiro-ministro, estes dados são “animadores e positivos”, mostrando que “o Governo está num caminho seguro para sair de uma das mais graves crises da economia”. No entanto, fez questão de sublinhar que este ” não é o fim da crise, mas sim o princípio do fim da crise”, salientando que “há ainda desafios a enfrentar”. “Tenho boas indicações e bons sinais, e não apenas dos resultados da economia, que nos permitem olhar para este número como um número sustentável no futuro”, afirmou, definindo este momento como sendo de “viragem”, mas advertindo que os portugueses vão ter “ainda de suportar as consequências da crise económica, que não se deixarão de sentir”. Sócrates salientou que há “ânimo económico” e que “este crescimento faz com que Portugal saia da situação de recessão”, adiantando ainda que mesmo entre os congéneres europeus o “declínio económico é muito inferior” e que, “um pouco por todo o mundo, a situação económica melhorou”, o que aumenta as perspectivas do crescimento económico. Relativamente ao impacto da crise no emprego, Sócrates considerou que é “muito cedo para dizer”. “O impacto no emprego será mais retardado” e “só se dará uns meses depois”. Não deixando, no entanto, de afirmar as políticas do actual governo, como alavancas deste crescimento. Para Sócrates, as políticas deste executivo “ajudaram muita gente a encontrar emprego e a aguentar o seu emprego e as empresas a encetar negócios” e “permitiram que cerca de 75 mil a 100 mil portugueses mantivessem o seu emprego”, disse Sócrates. O líder do executivo reitera que Portugal é, assim, dos primeiros países europeus a sair da recessão económica, facto que leva o executivo a prometer, para o terceiro trimestre, melhorar os níveis de actividade económica, em relação à média europeia. Mas ainda deverá ser cedo para encomendar o bolo e mandar abrir o champanhe. O arranque do “motor” exportador ainda demorará a fazer sentir-se, antes de se poder, definitivamente, fechar o agora anunciado fim do ciclo recessivo. Teixeira dos Santos cauteloso nas palavras O ministro das Finanças saudou, tal como Sócrates, os números divulgados pelo INE, mas advertiu, na mesma linha que o primeiro-ministro, que a saída de Portugal da recessão não significa o fim da crise. “O crescimento em cadeia do primeiro para o segundo trimestre deste ano termina a recessão técnica iniciada em meados de 2008. Mas isto não é o fim da crise que nos tem afectado”, sublinha Teixeira dos Santos. Numa reacção escrita à comunicação social, o responsável afirma que, para virar a página da crise será preciso que o crescimento se mantenha de “forma sustentada” e que esta dinâmica se “reflicta na criação de emprego”. Portanto, enquanto os motores privados permanecerem travados, “os apoios do Governo à economia e ao emprego devem manter–se de forma a consolidar a recuperação do crescimento”, defende o ministro. Neste contexto, sublinha, “há que apostar na qualificação dos portugueses e na modernização e internacionalização da nossa economia para assegurar um crescimento mais forte a médio e longo prazo. O esforço de investimento privado com esse fim deve ser incentivado e o investimento público deve ser mantido.” CDS-PP: números “não permitem grandes euforias” O deputado democrata-cristão Diogo Feio alerta para não entrar em euforia com os números revelados pelo INE. “Em primeiro lugar, continuamos com dados negativos quanto ao investimento. Em segundo lugar, não há uma consequência no emprego. Em terceiro lugar, o investimento demonstra que as nossas empresas ainda não estão numa posição positiva quanto à sua liquidez, como seria necessário.” “Há economias europeias que estão a reagir bem melhor do que a nacional; e, por outro lado, o segundo trimestre de todos os anos, é naturalmente bem melhor do que o primeiro. É um trimestre em que há mais crescimento”, notou ainda o deputado. Bloco de Esquerda aponta “profunda crise” O Bloco de Esquerda não está convencido, nem se deixa contagiar pelo optimismo do Governo. A deputada bloquista, Helena Pinto, sustenta que o aumento do crescimento económico não reflecte a realidade social do país. Os dados do INE significam, antes, ser “necessário e urgente que o Governo reforce as medidas sociais de apoio aos desempregados, nomeadamente aqueles que não têm acesso ao subsídio de desemprego”, interpreta a bloquista. Helena Pinto lembra que “o desemprego em Portugal continua em crescimento”. PCP: economia continua em recessão Uma posição semelhante tem o PCP perante os dados ontem divulgados pelo INE. “É um erro grave considerar que o país saiu da recessão, porque a variação em cadeia melhorou”, declarou o deputado José Lourenço, para quem as políticas do Executivo socialista são “manifestamente insuficientes” para contrariar o ciclo recessivo em que o país está mergulhado. O deputado comunista defende que uma análise correcta deverá ser feita em comparação, não com o primeiro trimestre do ano, mas antes com o segundo trimestre do ano passado. “Em termos homólogos, o que aconteceu é que mantivemos um decréscimo de menos 3,7 por cento, idêntico ao do primeiro trimestre”, disse. Já a CGTP considera “estranho” que a economia melhore no segundo trimestre quando o desemprego está a crescer “de forma substancial” e continuam as situações de falências de empresas, afirmou ontem Maria do Carmo Tavares, da Comissão Executiva. “Causa estranheza a melhoria da economia com o desemprego a crescer de forma substancial e [quando] continuam as falências de empresas e os salários em atrasos” sublinhou.