2019/11/18

Sócrates e Cavaco reduzem conflitualidade institucional

Primeiro foi Cavaco Silva a baixar a pressão entre Belém e S. Bento, alimentada pela comunicação social durante todo o Verão. A seguir veio Sócrates, na entrevista à RTP, falar em cooperação estratégica. Belém já pode ter percebido que quanto maior conflitualidade com o PS, mais a reeleição de Cavaco fica ameaçada.

Depois da tempestade de Verão

Primeiro foi Cavaco Silva a baixar a pressão entre Belém e S. Bento, alimentada pela comunicação social durante todo o Verão. A seguir veio Sócrates, na entrevista à RTP, falar em cooperação estratégica. Belém já pode ter percebido que quanto maior conflitualidade com o PS, mais a reeleição de Cavaco fica ameaçada. Por sua vez, Sócrates também percebeu que a guerra com Belém só dá trunfos a Ferreira Leite.

Quem ouviu esta semana Cavaco Silva a falar na necessidade de o país se concentrar nos seus problemas, não se distraindo com o episódio das alegadas escutas ao Palácio de Belém e José Sócrates a garantir que o governo e o Presidente da República estavam a cooperar entre si, deve ter tido a sensação de viver uma fantasia de Verão quando no mês de Agosto toda a comunicação social fazia parangonas com a guerra entre a Presidência da República e o executivo, depois de uma fonte presidencial anónima ter colocado a hipótese de o Palácio de Belém estar a ser vigiado.
É bom, no entanto, não tirar conclusões precipitadas porque a fantasia e Verão pode ser, afinal, realidade e a realidade fantasia. Há muito para jogar nos próximos dois anos. As legislativas de 27 de Setembro são apenas o início do campeonato. Depois de avaliar o que se passou em Agosto, com o episódio das alegadas escutas, Sócrates teve ter feito o ponto da situação e concluído que o PS nada tem a ganhar com a conflitualidade com Belém, ou a aparência dela, acabando por dar trunfos a Ferreira Leite.
Se a imagem de conflitualidade com Belém passar psra a opinião pública, há o risco de os portugueses penalizarem o PS. Para o espectro da ingovernabilidade, já bem basta os eleitores não qurerem dar maioria absoluta a nenhum partido em face da experiência com Sócrates, quanto mais enfrentarem o risco de uma má relação entre Belém e S. Bento, mais o país pode ficar ingovernável, ainda para mais havendo uma crise económica e social para gerir. Assim, uma continuada dramatização do conflito institucional, podia levar Ferreira Leite a sustentar que o PSD, mesmo sem maioria absoluta, era o único partido capaz de dar garantias de governabilidade em face das relações normalizadas com Cavaco Silva. Assim, mesmo que os atritos entre Belém e S. Bento sejam reais, com vetos sucessivos às leis socialistase muitas frases sibilinas ou que parecem hoistis ao PS, Sócrates tem de assobiar para o ar. Há, mesmo assim, conflitos institucionais bem mais graves, por exemplo aquele que foi protagonizado por Cavaco Silva e Mário Soares. Sócrates bem pode dar-se por satisfeito por Cavaco nunca ter pisado o risco em relação a poder ser visto como apoiante das reivindicações das várias classes profissionais que afrontaram Sócrates nos últimos quatro anos, o grande problema do primeiro-ministro, que o pode, aliás, levar à derrota eleitoral.

Quanto a Cavaco, o Palácio de Belém já pode ter percebido que quanto maior conflitualidade com o PS, mais grãozinhos de areia se infiltram na máquina de reeleição de Cavaco em 2011. O argumento que serve para o governo, nestas legislativas, também serve para Cavaco nas presidenciais. Os portugueses podem ter-se habituado à cooperação estratégica e, face à instabilidade derivada da ausência de maioria absoluta, não quererem novos riscos. O PS tem, aliás, explorado bem este cenário de Cavaco sem cooperação estratégica, dando gás a nomes muito fortes para poderem ser candidatos presidenciais do PS contra Cavaco. Os socialistas mantém a hipótese de Manuel Alegre em banho-maria e um grupo de socialistas chegou a sondar Jorge Sampaio para uma nova batalha por Belém. Esta guerra pode, no entanto, não ser real e ter um simples objectivo de dissuasão, avisando o Palácio de Belém para não cair em tentações, reais ou mesmo fantasiosas, como as escutas à Presidência da República.

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