A ode ao documentário

A quinta edição do doclisboa decorre entre 18 e 28 de Outubro. Este é o único festival de cinema documental do País e a programação foi apresentada esta semana na Culturgest. O melhor da produção contemporânea de documentário nacional e internacional regressa para onze dias de projecções, em regime intensivo, com muitas estreias absolutas no nosso país.

O doclisboa é o único festival de cinema em Portugal exclusivamente dedicado ao documentário. O ano passado, naquela que era a sua quarta edição, o doclisboa apostou na capitalização do interesse dos espectadores portugueses pelo documentário e conseguiu trazer às salas da Culturgest um público muito numeroso e entusiasta, conseguindo 22 500 espectadores, reflectindo um índice de ocupação de salas na ordem dos 70%.
O documentário é a temática essencial e foi-se criando ao longo destes quatro anos uma cada vez maior consciência das suas potencialidades e diversidade.
O doclisboa tem apostado na descoberta de novos territórios e na vitalidade do cinema do real.
Em 2007, o festival mantém os principais objectivos das edições anteriores “mostrar ao público português filmes importantes e multipremiados internacionalmente que ainda não chegaram às salas de Lisboa, permitir uma reflexão mais aprofundada sobre temas contemporâneos e de actualidade, dar a conhecer de forma mais sistemática a cinematografia de outros países, organizar debates que mobilizem o público em torno de filmes importantes e de temas transversais, presentes em várias obras”.
Através das suas diferentes actividades, o festival é, também, um motor de transformação do documentário em Portugal (distribuição, financiamento, profissionalização). O festival permite uma reflexão mais aprofundada sobre temas contemporâneos e de actualidade, sendo assim um agente que intervém sobre a sociedade portuguesa, um local onde os filmes se discutem e se pensam nas suas abordagens de produção e artísticas.
Durante 11 dias serão exibidos cerca de 120 filmes, divididos entre a competição internacional (longas, curtas e primeiras obras) competição nacional e investigações. Haverá ainda secções paralelas: “Diários Filmados e auto-retratos”, uma oportunidade única para rever clássicos e raridades que falam da vida dos realizadores ligada ao cinema; “Vento Norte”, que nos traz alguns dos melhores filmes nórdicos; “Riscos e Ensaios”, que reformula a secção Ficções do Real Número Zero.
A “Mostra Retrospectiva: Lech Kowalski” será certamente um dos momentos mais altos do festival. Lech Kowalski, realizador de origem polaca e cidadania inglesa, é uma figura maior do cinema underground americano. Os seus filmes são, desde o início, uma observação das margens, um encontro com outsiders.
Este ano o festival propõe-se a trazer novamente a Lisboa, em primeira-mão, o melhor da produção nacional e internacional de documentário: onze dias de projecções em regime intensivo, ainda com mais filmes, mais secções e mais actividades complementares do que nas anteriores edições.
Este ano surgem algumas novidades relativamente às edições anteriores. O doclisboa terá um segundo espaço de projecção nas duas salas do Cinema Londres. Assim todos os filmes em competição passarão duas vezes, assim como os outros filmes das secções paralelas e extracompetição. O Cinema São Jorge será um espaço importante dos últimos dias do festival – 26, 27 e 28 de Outubro. Por um lado, com sessões escolares organizadas (sexta-feira, 26 de Outubro), por outro, com uma matiné infantil (sábado, 27 de Outubro).
Outra das novidades desta 5.ª edição é a Maratonadoc, que terá lugar no último domingo do festival. Um ou dois comissários escolherão de entre os filmes presentes no festival cerca de 15 dos seus preferidos e farão a apresentação dessas obras. A Maratona terá lugar nas duas salas do cinema São Jorge, a partir das 11 da manhã de dia 28, até de madrugada.
Paralelamente ainda estão programados encontros profissionais entre produtores e realizadores portugueses e representantes do mercado internacional, sob o título “Docbreakfast” e ainda a primeira edição do workshop doclisboa escolas, com o objectivo de aproximar os alunos das escolas de cinema e os jovens realizadores às regras internacionais do meio profissional de documentário.
Este festival é, sem dúvida, um ponto de encontro privilegiado do público com realizadores e outros profissionais nacionais e estrangeiros do documentário e um fórum aberto de reflexão e discussão sobre o estado do mundo e a situação do cinema documental contemporâneo.
Este festival é uma co-produção entre a Apordoc e a Culturgest com o apoio do Ministério da Cultura/ICAM, Câmara Municipal de Lisboa, Egeac e Programa Europeu Media. Patrocinador oficial: Sony. Organização: Apordoc – Associação pelo Documentário. Poderá encontrar mais informação em www.doclisboa.org.

CCB Fora de Si!

O CCB deu “carta-branca” aos seus programadores no sentido de dar uma nova visibilidade e usufruto dos espaços exteriores da instituição. O objectivo é a revolução, o libertar dos espaços na sua plenitude. O resultado é uma programação, que, com poucas excepções, se passará nos jardins, praças e esplanadas
do CCB durante os meses de Julho e Agosto de 2007. Mega Ferreira vira o CCB do avesso e põe em prática uma ideia há muito aguardada: CCB Fora de Si!

Esta é a primeira vez, desde a sua abertura em 1993, que o CCB apresenta uma programação para os meses de Verão. Novo-circo, fanfarras, música do mundo, teatro móvel, marionetas, jogos de água e instalações juntam-se a uma programação de jazz, com as quintas de jazz, para fazer do Verão de 2007 uma estação diferente.
CCB Fora de Si é uma programação desenhada para um público internacional. A ideia é que aqueles que, na época de férias, visitam o CCB e procuram pólos de interesse cultural, tenham uma oferta diferente. Há muito que se questionava por que não havia programação no CCB durante o Verão, porque não se programava mais nos espaços exteriores. A resposta surge agora, no tom de solução e de ideia genial, sendo que finalmente a instituição frui do ar livre, das condições atmosféricas dos meses de Verão. Aproveitamento do espaço no seu todo é a ideia-base.
O programa estende-se ao longo de Julho e Agosto e distribui-se pelos vários espaços. Juntam-se companhias portuguesas e estrangeiras, artistas de várias nacionalidades e apresentam-se actividades e espectáculos em diversas áreas.
De quinta-feira a domingo a programação intensifica-se com o objectivo de oferecer sentidos culturais aos fins-de-semana dos lisboetas e de todos os turistas que passam pela capital, apresentando à tarde e à noite propostas de espectáculos que primam pela inovação e heterogeneidade.
A iniciativa conta com o apoio do Instituto do Turismo de Portugal e da Agência de Turismo de Lisboa.
A abertura acontece no dia 1 de Julho (às 18h30). Cavalos brancos pousados no topo da fachada que convidam à entrada. As nuvens descem à terra e os gigantes sobem ao céu, com a envolvência sonora do percussionista Rui Júnior e os seus cem músicos. Esta instalação de insufláveis “Quadriga, Nuvens e Figuras Flutuantes”, de Max Streicher, estará no espaço até Setembro.
Max Streicher é um escultor, oriundo de Toronto, que trabalha com formas cinéticas insufláveis e traz a Lisboa figuras da natureza humana e animal.
Destaque para bandas e músicas oriundas de vários pontos do mundo, como os Balcãs ou o Rajastão, circo marroquino com um grupo acrobático de Tânger. A oferta é diversificada.
O teatro de objectos europeu é trazido por João Calixto, Turak, com “Pequena Fábrica de Pinguins”, de 27 a 29 de Julho, e pela Compagnie de Chemins de Terre, com “Polichineur de Tiroirs”, de 20 a 22 de Julho.
Marionetas reformadas de tamanho natural propõem pequenos espectáculos enquanto servem às mesas dos restaurantes, pela companhia Tof Théatre.
“Sensazione” é outra parte deste todo programativo, uma feira de circo e arte, que vem da Bélgica, com máquinas que convidam o público a pôr em marcha os seus mecanismos, a partir de uma participação acrobática, de 6 a 12 de Julho na Praça do Museu, numa concepção de Peter De Bie e Charlotte Heller, Laika & Time Circus. Uma feira colorida que procura o despertar de sentidos.
Estas duas companhias juntaram-se porque gostam de interacção entre actores e público, e porque estão convencidas de que um novo género teatral ambulante pode ser criado, saltando barreiras que amarram o teatro a um formato mais conhecido.
Pelas mãos do artista francês Flop, chegam experiências com objectos de luz que deslumbram as crianças com a ajuda do sol e da lua. Ocupam o Jardim das Oliveiras de 5 de Junho a 15 de Agosto.
O teatro chega-nos não só da Europa, mas também das Beiras, do Norte e do Alentejo. O Teatro Regional da Serra do Montemuro apresenta “Splash!”, de 13 a 15 de Junho, no Caminho Pedonal. O Teatro das Beiras traz-nos teatro humorístico, com “Piratas! O Mistério de Maria de la Muerte”, em que convida o público a fazer parte da tripulação de uma grande aventura. É teatro do território rural português a invadir o espaço urbano!
E ainda fanfarras com “Taraf Goulamas”, uma fanfarra culinária, com saxofones e ervas aromáticas, “Jaipur Kawa Brass Band”, da Índia: dez músicos, uma bailarina e um faquir, e a “Kumpania Algazarra”, a fanfarra portuguesa de inspiração internacional.
A magia é revelada por “Walkarround Magic” e “Formal Close-Up Show” em vários locais ao ar livre, de 13 a 15 de Julho.
“Walkarround Magic” pode acontecer, inesperadamente, ao lado de alguém que pára ou se senta para conversar ou descansar. É isto que esta programação pode ter de tão intenso, a surpresa e a qualidade da variedade de acontecimentos e movimentos. “Formal Close-up Show” é um espectáculo em que a plateia se reúne e é convidada a participar na execução de efeitos surpreendentes.
Estes são apenas alguns dos destaques de uma vasta programação que se apresenta em Lisboa nos meses de Verão. CCB Fora de Si é a grande aposta de um urbanismo intenso misturado com a arquitectura paisagista que o espaço tem para oferecer. Os olhos postos no rio, no jardim e nos movimentos que se criam. Lisboa em movimento.

Com os olhos nos mais pequenos!

A aprendizagem cultural e as actividades para um público infanto-juvenil são cada vez mais procuradas. O número crescente de actividades e espectáculos para os mais novos merece agora um olhar mais atento. O CCB é uma das instituições com uma aposta mais forte neste segmento, através do Centro de Pedagogia e Animação, que procura incentivar o consumo cultural e a aprendizagem através da sua programação para o público infanto-juvenil. Destacamos agora algumas das experiências que consideramos mais enriquecedoras, para participar durante o mês de Maio.

Nas oficinas do Centro de Pedagogia e Animação do CCB podem encontrar-se algumas actividades que têm por origem ou por fim a leitura. O público-alvo são crianças, pais, professores, contadores de histórias, ilustradores, bibliotecários, todos aqueles que têm alguma relação com os livros. Amanhã, 19 de Maio, durante a tarde, as salas do CPA recebem professores, contadores, ilustradores e bibliotecários. “Contos de meter medo ao susto” é uma oficina de criação literária, através da análise dos objectos mágicos que vivem dentro dos contos que por alguma razão provocam o medo. A partir do livro “A Bruxa Arreganha-Dentes”, das suas imagens e da personagem, far-se-á um trabalho de recontar a história. Será ainda proposto um trabalho de criação de novos objectos mágicos, com os quais se constrói uma nova personagem e um novo conto de meter medo ao susto.
Também amanhã, durante a tarde, realiza-se uma outra oficina para pais e mães que gostam de contar histórias e para os seus filhos. “Histórias para pais e mães” é uma oficina em que é proposto a estes pais um percurso através da história das suas histórias, desde que as ouviram até que as começaram a contar. Esta oficina incide muito sobre o trabalho de voz e de expressão corporal, porque afinal os contos moram no corpo e é com ele que se podem fazer viver os textos que atravessam a nossa vida e que se transformam tantas vezes na nossa própria história.
Simultaneamente, acontece uma oficina de “Histórias para filhos”, onde os mais pequenos contadores de histórias se preparam para contar uma história aos pais e mães que precisam dela para viver e para adormecer.
No domingo também há uma actividade especial e cujo formato se tem vindo a repetir. “O Mercadinho da Primavera” é feito para meninos e meninas de todas as idades. A ideia é trazer tudo de casa: brinquedos, livros, comidinhas, canções, histórias. Qualquer coisa para a troca que se efectua nos jardins do CCB.
“Biblioteca de Mala Aviada” é para crianças a partir dos seis anos e outra actividade que tem como fim o impulso da leitura. Durante os meses de Maio e Junho, a biblioteca poderá ser usada em três formatos: a “Mala Aviada 1” consiste na ideia do professor ir buscar a mala ao Centro de Pedagogia e Animação (CPA) e pode utilizá-la na sua sala de aula como desejar, durante uma semana; a “Mala Aviada 2” proporciona o inverso, as crianças deslocam-se ao CPA e a mala passeia nas redondezas do Centro Cultural de Belém, com um bibliotecário especializado; por fim a “Mala Aviada 3” é a última hipótese, em que a mala se desloca à escola com um bibliotecário especializado. Esta biblioteca terá uma vida imensa, desaparecendo e reaparecendo em malas de viagem. Podem partir em qualquer direcção, desde Belém até ao ponto mais a norte de Portugal.
Dentro destas malas encontram-se mais que livros, encontram-se alimentos para a vontade de ler livros de outra forma. Os livros preparam-se para se entregarem de novo às árvores que lhes deram origem. A partir de um livro deitado numa mala, as crianças serão convidadas a criar folhas para colocarem numa árvore perto de si, que se transformará numa verdadeira história inventada por todos. Os livros afinal andam atrás da sua origem: a madeira. Quem passar por lá durante esse dia poderá ler um livro, ou apenas uma folha, ou toda uma história. O que interessa é o contacto com os livros.
Ainda em Maio a sala do Centro de Pedagogia e Animação recebe “A Galinha da Minha Vizinha”. Este é um espectáculo com criação e interpretação da companhia Circolando e de Graça Ochoa. Num mundo em que qualquer vizinha tem uma galinha melhor que a minha, costuram-se sonhos. Um espectáculo no qual a casa e o espaço se constroem com amigos imaginários que ocupam as horas livres. Sozinhos sentimo-nos mais livres e conseguimos deixar sair dos nossos baús fechados muitos sonhos e todas as histórias.
Depois de as crianças assistirem ao espectáculo “A Galinha da Minha Vizinha”, propõe-se a realização de uma oficina de dança. onde os principais estímulos para o movimento serão elementos do espectáculo. De 21 a 27 de Maio, para crianças dos 6 aos 12 anos.
E em Junho há mais! Momentos de cultura e de aprendizagem, mas também de diversão e brincadeira. Como estas há outras propostas de várias instituições culturais pelo país, basta estar de olhos postos nos mais pequenos. Um percurso cada vez mais trabalhado ao nível educativo pelas escolas e pelos pais. Não fique aí parado. Participe!

A clausura e o luto de Lorca

Uma casa, seis mulheres e Lorca revisitado de forma moderna. O clássico do autor espanhol “A Casa de Bernarda Alba” é adaptado pelo grupo Teatro à Parte que, simbolicamente, homenageia o autor, dando o nome “A Casa de Lorca” à peça. No contexto da Guerra Civil espanhola, o confronto intemporal entre liberdade e repressão é transposto para palco. O SEMANÁRIO aproveitou para conversar com o encenador da peça, Jorge Parente, de forma a desvendar algumas das inovações que o Lorca do século XXI nos traz.

Porquê Lorca, um autor tão desconcertante?
Fazer Lorca é um desafio estimulante para qualquer encenador e para qualquer amante de poesia e depois porque, quando li esta obra, era fascinante ver como Lorca criava uma desenvoltura e agilidade enorme na linguagem, tornando vivas as próprias personagens da peça. Foi, no fundo, a partir da leitura que nasceu a curiosidade por encenar este espectáculo, que fala de sentimentos, de valores e beleza.

Há, portanto, uma preferência pessoal por este autor?
Sim, podia escolher outro e estando a dirigir um grupo amador de teatro não tenho interesse em criar texto próprio, caso contrário estaria a dirigir um grupo profissional de teatro. Eu, de facto, gosto de sentir uma peça a cativar-me ou a motivar-me pelas personagens e pelo texto.

Na sua lógica “desconstruir para construir”, em que pontos pegou para alterar o texto original?
O meu processo de encenação tem sempre essa máxima e isso de facto dá-me grande gozo. Eu vou procurar respostas no texto e depois vou mais longe do que o próprio autor me dá a entender. O gozo de pegar numa peça é para mim cortar cenas, cortar personagens, reinventar outros espaços, dar vozes a personagens que não tinham voz. Na “Casa do Lorca” eu tive a ousadia de criar cenas, mas com uma particularidade que é o facto de as cenas criadas por mim terem sido feitas com base em palavras de outros textos do próprio autor. Nunca palavras inventadas por mim, mas sim palavras do próprio Lorca.

A intenção em colocar os actores como alter-egos das mulheres da casa tem que propósito?
Eu estou a trabalhar com um grupo de 23 elementos onde a maioria são homens. Desse modo, e tendo em conta que as personagens principais da peça são mulheres, que faria aos homens? Houve uma necessidade de criar um espectáculo para todos os elementos do grupo e é esse processo que me dá gozo. Já foram feitas várias versões de “A Casa de Bernarda Alba” mas, de facto, esta forma com que montei o espectáculo é de facto muito minha e original. Ao funcionarem como alter-ego das mulheres, funcionam também como mecanismo de espelho, inverso a cada uma delas e, ao mesmo tempo, duplo de cada uma das personagens. Retirei praticamente os diálogos e transformei-os em monólogos que representam cada uma das filhas. No fundo eles mostram ao público aquilo que elas são, aquilo que escondem e não dizem à mãe castradora que têm. Representam a crueldade, a raiva escondida no inconsciente das mulheres. Funcionam como uma psique daquele universo feminino. Esta é de facto a grande curiosidade pois, mulheres que vivem a esconder os seus sentimentos são aqui demonstradas de forma muito mais provocadora, e o teatro é também feito de provocação.

Acha que no actual contexto social esta peça ainda funciona como espelho da realidade?
Esta peça funciona de facto como espelho. Há uma série de mulheres que podem identificar-se com a peça. No fundo acaba por ser o costume. O luto que a Bernarda mãe provoca nas filhas era na altura um costume real e uma tradição levada a extremos. É dentro deste excesso que leva a que aquelas mulheres sejam altamente reprimidas e que uma série de conflitos interiores nasçam nelas de forma extrema até à morte, até porque a morte está sempre presente em Lorca.

Parecia aliás que Lorca já previa que esta seria a sua última peça…
Esta foi a última peça dele e por isso a peça funciona como homenagem, daí chamar-se a “Casa de Lorca” e não “A Casa de Bernarda Alba”. Pegando numa frase do próprio autor, “depois de morrer, continuarei a viver”. Penso que ele quis dizer com isto para os leitores e para o público continuarem a ler e a acompanhar a obra dele. Seria a forma de ele continuar vivo depois de morto. Inicio até o espectáculo com uma cena inventada em que começa com o fuzilamento dele e onde diz precisamente essa frase. Ao longo da representação ele interfere na peça, não em diálogo, mas num plano simbólico com incidência sobre o universo dele. Ele vai “parir as personagens femininas” que criou.

E a nível cénico como é que criaram a Casa?
Eu trabalho com as imagens e alguém me disse um dia que eu era um “arquitecto do espaço cénico”. Quando pego numa obra, não quero que ninguém crie um espaço por mim. Gosto de fazê-lo. Eu vejo tudo e quando ensaio imagino desde logo o espaço. E nesta peça o espaço é de certa maneira minimalista e aproveito esse facto para o colocar de forma simbólica, tendo como forte presença uma jaula. O lado da jaula representa a prisão e então quis mostrar isso de forma simbólica. São os homens que utilizam mais a jaula, já que representam o lado mais surrealista da peça, ao passo que as mulheres estão no plano naturalista.

A fragmentação cultural através da dança

Bill T. Jones está de regresso a Portugal. “Blind Date” é o espectáculo que estará em cena nos dias 4 e 5 de Maio, no Centro Cultural de Belém. Bill T. Jones e Arnie Zane Dance Company.

Bill T. Jones é um dos maiores expoentes da dança contemporânea e uma das vozes mais acutilantes das questões actuais, que regressa agora a uma panóplia de temas morais e políticos, com este novo trabalho sobre valores e multiculturalidade. “Blind Date” parte para a exploração de temas como a pátria e o amor a ela, a honra, o sacrifício e o trabalho dedicado a uma causa maior do que nós próprios, como se fossem quase valores praticamente perdidos no mundo moderno e na sociedade construída.
“E onde é que fica a noção de singularidade num mundo tão múltiplo e tão fragmentado? Em certos aspectos, o trabalho do artista é tentar reconstruir. […] Talvez seja isso o que ‘Blind Date’ faz” , declara Bill T. Jones.
A companhia que o acompanha, constituída por dez bailarinos com uma técnica invulgar (Asli Bulbul, Leah Cox, Maija Garcia, Shaneeka Harrell, Shayla-Vie Jenkins, Wen-Chung Lin, Erick Montes, Charles Scott, Donald C. Shorter Jr, Stuart Singer e Andrea Smith), é uma companhia multicultural, com quase 25 anos, inclui bailarinos da Turquia, China, México.
Trocam histórias pessoais e movimentam-se num cenário sensorial de cores primárias e influências musicais e vídeos oriundos de todo o mundo. Este é de facto um “Blind Date”, onde sabedoria e eloquência encontram um fundamentalismo embrutecido nesta explosiva meditação sobre forças e crenças opostas. No fundo é uma troca, em que os backgrounds são como puzzles com peças opostas, mas onde há espaço para conhecer. O resultado é uma experiência de dança/teatro com muitas facetas, que, “ao combinar preocupações políticas e morais com ingenuidade coreográfica, e aptidão teatral” é, ao mesmo tempo, comovente, divertido e triste.
Bill T. Jones é bailarino, coreógrafo e director artístico. Começou a estudar dança na State University de Nova Iorque, em Binghampton, onde estudou bailado clássico e dança moderna. Antes da fundação da sua companhia (Bill T. Jones/Arnie Zane Dance Company), coreografou e actuou em vários palcos, como solista e em duo com o seu falecido companheiro Arnie Zane.
Já coreografou para a sua companhia inúmeros trabalhos, assim como a convite de companhias de bailado clássico e moderno.
Ao longo da sua carreira tem obtido prestigiados prémios. Em 1979, foi-lhe concedido o “Creative Artists Public Service Award” em coreografia e, em 1980, 81 e 82 o “Choreographic Fellowship do National Endowment for the Arts”. Em 1986, Bill T. Jones e Arnie Zane foram galardoados com o “New York Dance and Performance (“Bessie”) Award” pela temporada do Joyce Theater e, em 1989 e 2001, obteve ainda mais dois “Bessies”, um pelo seu trabalho em “D-Man in the Waters” (1989) e outro por “The Table Project” e “The Breathing Show” (2001). Em 1993, foi premiado com o “Dance Magazine Award “e em 1994 recebeu a “Mac Arthur Fellowship”. Em 2000, The Dance Heritage Coalition intitulou-o “Um Insubstituível Tesouro da Dança”. Em 2003 obteve o “Dorothy and Gillian Gish Prize” e dois anos depois venceu o “Wexner Prize”, o “Samuel H. Scripps American Dance Festival Award for Lifetime Achievement” e um “Harlem Renaissance Award”.
Este “Blind Date” é um encontro com vendas, mas onde se pode tirá-las na promoção da liberdade, da tolerância e paz.
“E o que dizer da nossa sociedade opressiva e militarista? Sempre fui crítico dessa sociedade. Só o facto de tentar viver exclusivamente da arte é, em certo sentido, uma rebelião contra essa sociedade. Digo-lhe isto como uma forma de mostrar que Blind Date é o que é porque, consciente ou inconscientemente, estou a lutar contra esta percepção do mundo e a minha própria incompreensão do que a dança significa na minha cultura”, conta Bill T. Jones.
Bill T. Jones estará em Lisboa por duas noites (4 e 5 de Maio, às 21h, no CCB) para relembrar alguns valores, através de corpos e mentes dançantes.