2026/09/15

Carlos Encarnação: “Se fosse o PM não falava mais com Ferro”

Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, comenta em entrevista ao SEMANÁRIO a afirmação de Ferro Rodrigues de que conversas futuras com Durão Barroso só com testemunhas: “Se eu fosse ao primeiro-ministro, não teria mais conversas com ele”.

São os últimos desenvolvimentos da quebra de confiança entre Ferro e Durão, provocada pela reforma do sistema político. Em entrevista ao SEMANÁRIO, o autarca de Coimbra analisa outros temas da actualidade, designadamente o discurso de Sampaio no 25 de Abril.

O discurso de Sampaio no 25 de Abril foi muito crítico para o Governo?

Só esperava que a exigência do senhor Presidente da República tivesse começado pelo menos cinco anos antes.

Com os Governos do PS…

Certamente. Nessa altura, o caminho para o descalabro era mais do que evidente. Recordo-me de terem sido consultados economistas que confirmaram esse cenário e o resultado foi zero em termos de intervenção presidencial.

Acha, então, que os Governos do PS mereceriam mais críticas por parte do PR do que o actual Governo?

Tratava-se de uma questão de oportunidade, de actuar antes que o mal crescesse. Não é o caso de serem Governos deste ou daquele partido, foi antes o caso de Governos que encaminharam o País para o desastre.

Mas o Presidente da República criticou, agora, a obsessão do Governo pelo défice…

Se o PS tivesse tido mais precaução e maior preocupação pelo equilíbrio das contas públicas, não seria necessário um tratamento de choque…

Nem as palavras do PR…

Sim, não seria necessário o senhor Presidente da República preocupar-se tanto agora.

Mas não acha que o Governo exagera um pouco com o défice, que, como disse o PR, há vida para além do Orçamento?

Há vida para além do Orçamento e também há País para além do descontrolo das Finanças Públicas. Isto é, o País não é para durar só um ano ou dois, nem só um mandato. É para além disso. É preciso dar garantias para o futuro. Não é possível um Governo governar sem quaisquer limitações, o primeiro-ministro ir-se embora e depois pedir que tratem do problema que deixou.

O PR criticou, no entanto, toda a política económica deste Governo…

Há uma coisa que sei que é necessária. É garantir a disciplina das contas públicas e actuar com os únicos mecanismos que, nesta altura, temos, depois de termos entrado no Euro, para corrigir a situação. Toda a gente sabe que esta actuação é a mais dolorosa.

Diz-se que o Governo, para citar Maquiavel, está a fazer o mal de uma só vez, para depois fazer o bem aos poucos?

Não acho correcta essa crítica nesta altura.

Recordo-lhe, no entanto, que Ferro Rodrigues, na entrevista que concedeu à Rádio Renascença/Público, e referindo-se ao Governo, utilizou a expressão, fazer o mal…

Mas é preciso que o dr. Ferro Rodrigues explique uma coisa: ou ele diz que o Governo está a actuar mal e que o fim da sua actuação é o mal ou, então, o dr. Ferro Rodrigues está a dizer que ele está actuar mal, para depois tudo acabar bem. O dr. Ferro Rodrigues é que tem de se explicar melhor.

Mostrou-se concordante com a política económica deste Governo, mas, por certo, não viu com muitos bons olhos a reforma do património…

Eu vi com muitos bons olhos a reforma da tributação do património. É uma atitude de grande coragem e que vai no caminho certo.

O que é preciso é que Estado central e autarquias actuem sempre na pressuposição de não haver desconfianças recíprocas. Se o Governo pensa que é possível resultar diminuição da receita orçamental pelas autarquias, deve providenciar um mecanismo de garantia. Foi sempre só o que eu disse.

Mas, segundo li, disse também que iria responsabilizar o Executivo pelas obras que se deixassem fazer no concelho de Coimbra, devido à quebra de receitas…

O que eu referi foi o seguinte: se tenho um Orçamento aprovado e um qualquer Governo decide cortar nas receitas que penso receber, certamente que é a essa decisão que se deve imputar o corte correspondente na despesa. A maneira de evitar essa situação foi a que propus.

E o Governo deu-lhe ouvidos?

Segundo entendi, o senhor primeiro-ministro terá oferecido a garantia de ressarcir os municípios, caso existisse diminuição da receita da Sisa.

Mas não teria sido preferível ouvir primeiro a Associação Nacional dos Municípios, antes de se ter feito a reforma? Há já quem fale na política de ziguezague do Governo, que, como sabe, era a maior crítica que o PSD fazia a Guterres…

Sim, mas há uma diferença substancial. O anterior Governo prometia e não fazia nada. Este Governo toma uma medida que o que o precedeu sempre anunciou, mas que nunca foi capaz de pôr em prática.

Ou seja, a alteração da Sisa.

Exacto.

Diz-se que foi a revolta dos autarcas que impediu a reforma do sistema político?

Esse é um argumento para quem não quer fazer a reforma do sistema político.

Nisto das reformas, é um pouco como preso por ter cão preso por não ter. Se não se reforma, o Governo nada faz, se se reforma, aqui d’El-rei, cai o Carmo e a Trindade…

É preferível cair o Carmo e a Trindade.

Para que tudo não fique na mesma?

Exactamente.

Mas as divergências na reforma do sistema político, com a quebra de confiança entre Durão e Ferro, não auguram nada de bom…

Sempre achei muito difícil que o dr. Ferro Rodrigues estivesse disposto a aceitar as condições que o dr. Durão Barroso colocasse. Já acompanhei negociações deste tipo há muitos anos.

Como deputado e vice-presidente do grupo parlamentar do PSD?

Exacto.

Acha bem que as conversas telefónicas entre Durão Barroso e Ferro Rodrigues sejam trazidas para a praça pública?

Isso é de um primarismo absoluto.

Explique melhor o que entende por primarismo absoluto.

Uma reacção absolutamente inadmissível num líder político partidário, com a responsabilidade que o dr. Ferro Rodrigues tem.

Ele diz que conversas futuras com Durão Barroso só com testemunhas…

Eu se fosse ao primeiro-ministro, não teria mais conversas com o dr. Ferro Rodrigues.

E a reforma do sistema político? Fica comprometida?

Espero bem que não. Se quer que lhe diga o que penso, o dr. Ferro Rodrigues, daqui a uns dias, cai em si, e reconhece que o procedimento dele não pode ser este.

É a favor da reforma do sistema político?

Com certeza que sou.

E identifica-se totalmente com os pontos de vista do seu partido?

Sim, sim, várias vezes os defendi.

“Não há razão para Portas se demitir”


Como vê a acção do Governo na sua globalidade?

Tem sido positiva. Não sou eu apenas que o reconheço. A maioria dos comentadores assim o tem entendido.

Mas o caso Moderna poderá, segundo se diz, estar a desgastar o Governo?

O dr. Miguel Sousa Tavares já explicou, melhor do que ninguém, o que é o chamado caso Moderna.

Não há assim razão para Paulo Portas se demitir?

Não. O que nós estamos a assistir, e penso que toda a gente já percebeu, é a utilização, para efeitos de alcançar objectivos políticos determinados, designadamente a intenção da oposição de diminuir politicamente o Governo, de uma forma de pressão.

Julga que poderia haver coligação sem Paulo Portas?

Acho que esse problema não se põe.

Porquê?

Porque, nesta altura, não há nenhuma base para colocar em causa a coligação.

As sondagens dão, no entanto, dez pontos de avanço ao PS.

Se um Governo se preocupar em governar para as sondagens, quando o estado do País é crítico, o resultado é o País ficar em estado ainda mais crítico…

Crê, então, que a coligação PSD/PP vai cumprir a legislatura?

Espero bem que sim.

Mas há quem fale em eleições antecipadas…

Haverá sempre.

Como viu o caso Isaltino Morais?

Vi-o como um caso muito penoso pela admiração que tenho pelo dr. Isaltino Morais como autarca.

Acha que ele tomou a atitude que deveria ter tomado, ou seja, demitir-se?

Tomou a atitude que entendeu dever tomar.

Mas, do seu ponto de vista, terá sido a mais correcta?

Certamente.

As distritais do PSD estão em guerra por causa da protecção civil. Querem a cabeça do ministro Figueiredo Lopes…

Não tenho acompanhado esse problema, pelo que não me posso pronunciar.

Em relação às próximas eleições presidenciais, que candidato do PSD preferiria? Santana Lopes, Cavaco Silva ou Mota Amaral?

O candidato que estiver melhor colocado para retratar na Presidência da República uma posição que não seja a mera consequência da vinculação político-partidária, e garanta a independência das funções do Presidente da República. Portanto, um candidato que acrescente e não que concentre.

Mas não me quer dizer qual deles prefere?

Não, porque, colocada a esse nível, a pergunta é extemporânea.

Ainda é cedo para Belém…

Claro.

E sobre as eleições autárquicas de 2005? Tenciona recandidatar-se em Coimbra?

Já disse várias vezes que só me recandidatarei, se entender que é útil para Coimbra fazê-lo.

Está satisfeito com o seu trabalho, com a sua obra?

Primeiro estou de consciência tranquila, e, em segundo, estou satisfeito.

Coimbra Capital da Cultura em 2003. Está a tudo a correr conforme o previsto?

Coimbra Capital da Cultura é uma iniciativa, na qual a Câmara Municipal de Coimbra é apenas parceira, com programação própria e de grande qualidade. O conjunto da programação vai continuar a ser muito diversificado e crescentemente atractivo.

Para bem de Coimbra.

Exacto. Para bem de Coimbra.

Cimeira de Paris sem relevância

Mal grado os esforços de hipervalorização do encontro de alto nível entre a França, a Alemanha, a Bélgica e o Luxemburgo “a verdade é que se tratou de mais uma iniciativa parcelar no âmbito da União Europeia” – disse ao SEMANÁRIO uma fonte próxima do Governo português.

O Palácio do Eliseu fez algumas diligências e exerceu pressões para que no encontro de Paris desta semana estivessem presentes, um representante da Comissão, eventualmente o próprio presidente, Romano Prodi e o responsável pela política externa da União, Xavier Solana.

Imediatamente se desencadearam reacções negativas de um conjunto significativo de países membros da União, entre os quais Portugal, que inviabilizaram tal presença.

Como nos disse um assessor político do primeiro ministro, “A reunião de Paris tem o mesmo significado de outras cimeiras ou encontros de alto nível, parcelares que se têm realizado em diversos países, designadamente de sete primeiros ministros, na cidade do Luxemburgo e dos “dezoito” em Atenas.

A reunião de Paris constituiu uma tentativa para projectar ainda mais, no seio da União Europeia, a influência do eixo-franco-alemão. A Bélgica e o Luxemburgo estiveram presentes, na medida que em são países federalistas que reconhecem a necessidade de uma política comum de segurança e defesa.

Contudo, “devemos caminhar com cautela, sem ignorar que são necessários consensos entre os 15 ou até mesmo os 25. Uma política de segurança europeia não deve ser uma alternativa à NATO ou a qualquer outro sistema institucional já estabelecido. O tema é delicado, mas pode avançar-se, passo a passo”, sublinhou uma das fontes contactadas pelo SEMANÁRIO.

A nova guerra americana é contra os “mullahs”

Após 35 anos de opressão pela minoria sunita dominante no extinto partido Baas e na cúpula de poder iraquiana, os representantes dos 16 milhões de xiitas naquele país emergem para ocupar os lugares vagos com o colapso do regime de Bagdad. Ao nível local, os vários líderes xiitas começam a exercer o seu poder decisório na questões políticas.

O Irão assiste ao despertar dos seus “irmãos” xiitas no Iraque, deixando claramente preocupada a administração Bush, que não vê com bons olhos o nascimento de um Estado teocrático, à imagem do que é o Irão. Ontem, o “Washington Post” revelou que os estrategos americanos subestimaram o poder organizativo dos xiitas e não estavam preparados para o surgimento deste fundamentalismo islâmico.

“Não façam mal aos sunitas”, diz aos iraquianos o mais alto líder xiita naquele país, o grande ayatollah, Ali Sitani (73. “Mas se eles (sunitas) vos fizerem mal, vocês têm o direito a defenderem-se”, acrescentou Sitani, num discurso que até há algumas semanas era impensável proferir em público, estando este tipo de acto reservado apenas à minoria sunita, dominante no já extinto partido Baas e na cúpula de poder iraquiana.

O vazio de poder criado pela remoção do regime de Saddam Hussein está a provocar a emergência dos líderes xiitas ao nível do poder local, que começam a ter um peso decisório significativo. Reprimidos pelo partido Baas durante 35 anos, e abandonados pelos americanos em 1991, existe agora a noção de que os xiitas estão a enviar uma mensagem clara aos sunitas e aos cristãos, de que uma nova era de poder chegou ao Iraque. E na verdade, os representantes dos 16 milhões de xiitas iraquianos começam a ocupar lugares administrativos e políticos deixados vagos pelo colapso instantâneo do regime de Bagdad.

“O Exército americano pode controlar estradas, portos e os céus do Iraque, mas em qualquer vizinhança onde os xiitas são maioria, é provável que se encontre um sheik de turbante branco ou imã que começou a exercer as decisões políticas do dia-a-dia”, constatava o correspondente do “Los Angeles Times”. Esta semana, milhares de peregrinos xiitas deslocaram-se à cidade de Karbala – onde Hussein, filho de Ali e neto do profeta Maomé, se tornou mártir num batalha no século VII, simbolizando o sofrimento e a criação da comunidade xiita -, numa demonstração clara do despertar daquela família muçulmana.

Mas, se durante décadas os xiitas estiveram forçosamente adormecidos no Iraque, o mesmo não se pôde dizer do Irão, que após a revolução de 1979, e que provocou a queda do xá Reza Palhevi, viu emergir uma elite religiosa xiita, altamente conservadora e que ainda hoje lidera os desígnios daquele país, através do Conselho dos Guardiões, liderado pelo, ayatollah, Ali Khamenei. A apetência de Teerão para apoiar os movimentos xiitas espalhados pelo Médio Oriente foi sempre uma evidência, como se constata, por exemplo, como a guerrilha do Hezbollah, no sul do Líbano.

O Irão vê-se agora livre do seu inimigo de longa data, e da minoria sunita que liderava o Iraque, para assistir à emergência de uma nova liderança xiita, em consonância com os interesses iranianos. Esta estratégia provoca a desconfiança norte-americana e, certamente, acciona mecanismos na política externa da administração Bush para lidar com a eventual desordem sistémica na região. Por ora, e como escreve o capitão de Fragata, António Silva Ribeiro, nestas páginas, todos parecem ter percebido a mensagem, com excepção da Síria, confrontada com os Estados Unidos, mas resta saber se a administração norte-americana ficará satisfeita com a resignação destes regimes.

“EUA envolvidos na IV GM”

Num tom mais apaziguador, Bush disse esta semana que Damasco tinha “recebido” a mensagem, contrastando com a linguagem hostil da semana passada. No entanto, até onde Washington aplicará a sua visão imperial para o Médio Oriente? James Woolsey, membro da comissão de aconselhamento de política de defesa do Pentágono, e antigo director da CIA, acredita que os Estados Unidos estão envolvidos na “Quarta Guerra Mundial”, não apenas contra o regime de Saddam Hussein, mas com contra os mullahs do Irão e os “fascistas” da Síria.

De acordo com um artigo de Michael Elliott, na revista “Time”, a administração ainda não chegou a qualquer acordo sobre o próximo passo a dar naquela região. Elliott cita uma fonte da Casa Branca, ao afirmar que não existe nenhum plano definido para uma acção militar contra o Irão ou a Síria, mas adianta que isso não significa que uma nova aventura militar não aconteça. Mas, caso se venha a verificar esse cenário, não será certamente para breve.

As preocupações com a Síria e com o Irão são fundamentadas. Desde sempre que estes dois países apoiam o movimento Hezbollah, considerado pelo vice-secretário de Estado, Richard Armitage, o “A Team” dos terroristas. Além disso, o programa de armas de destruição maciça iraniano é uma realidade. E quanto à Síria, os Estados Unidos terão que lidar mais cedo ou mais tarde com Damasco, se quiserem garantir a estabilidade entre Israel e um futuro Estado palestiniano, no que respeita ao acesso dos recursos hídricos, dos montes Golã, controlados por israelitas e sírios, um assunto longe de estar resolvido.

Ontem, o jornal “Washington Post” revelou que os estrategos americanos subestimaram a capacidade organizativa dos xiitas e que não estavam preparados para o surgimento deste fundamentalismo religioso que se está a fazer sentir no Iraque, e de que Karbala é um bom exemplo. De acordo com fontes citadas pelo jornal, os americanos estão a tentar o mais rapidamente possível preencher o vácuo de poder existente em Bagdad e no resto do país.

Durante esta semana, altos dirigentes americanos receberam inúmeros relatórios constatando a grande organização xiita. “Nós não queremos que o fundamentalismo persa ganhe um ponto de apoio”, disse um membro da administração americana ao “Washington Post”. “Nós queremos encontrar mais clérigos moderados e colocá-los em posições de influência”, acrescentou.


CIA apoia clérigos moderados

Inserido nesta estratégia, a CIA tem apoiado alguns membros religiosos, deslocando-os para várias cidades iraquianas, onde possam estabelecer bases políticas. No entanto, é algo que os serviços secretos não fazem há muito tempo, nem de forma significativa.
Quem parece estar bastante activo são os iranianos que têm enviado desde a queda de Saddam Hussein agentes altamente treinados para o sul do Iraque, com o objectivo de promoverem clérigos xiitas “amigos” na defesa dos interesses iranianos. Este dado foi avançado ontem pelo “New York Times”, citando fontes governamentais americanas.

De acordo com a informação divulgada, alguns dos agentes infiltrados pertencem à ala militar de um grupo opositor ao regime sunita de Saddam no exílio no Irão, conhecido como Badr Brigade.

Apesar da presença de forças especiais norte-americanas na fronteira do Iraque com o Irão tem sido difícil controlar a incursão dos agentes iranianos. De acordo com algumas fontes oficiais, as manobras destes agentes ainda não são totalmente conhecidas, mas avisam para o potencial perigo das ligações entre o regime iraniano e o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, sediado em Teerão, do qual a Badr Brigade é o seu braço armado, e de que o ayatollah, Muhammad Bakir al-Hakim é líder, ainda por regressar ao Iraque.

“French connection”

O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, afirmou ontem que a França irá sofrer as consequências por ter ameaçado vetar qualquer resolução que desse o aval a uma guerra no Iraque. “Nós temos de analisar a relação. Nós temos que ter em conta todos os aspectos da relação com a França à luz desta situação”, disse o chefe da diplomacia americana numa cadeia de televisão americana.

As palavras de Powell surgem um dia depois da França ter proposto a suspensão imediata das sanções civis das Nações Unidas, ressalvando, no entanto, que o embargo de que o Iraque é alvo há treze anos não deveria ser levantado na sua totalidade enquanto os inspectores das Nações Unidas não se certificassem do desarmamento do país.

A iniciativa francesa apanhou as autoridades americanas de surpresa, e mais uma vez colocaram Washington numa situação de desconfiança face a Paris. Esta estratégia delineada por Paris poderá estar relacionada com os interesses franceses na região. Enquanto o Conselho de Segurança das Nações Unidas não aprovar uma nova resolução que levante as sanções ao Iraque “nós podemos suspender as sanções e ajustar o programa petróleo por alimentos, visando o seu fim”, disse o embaixador francês para a ONU, Jean-Marc de la Sabliere.

A proposta francesa está a ser vista com desconfiança pelos norte-americanos que a interpretam como um instrumento da política externa gaulesa para aceder ao mercado iraquiano antes que seja implementado um novo Governo em Bagdad e que as suas instituições e estruturas económicas estejam de pé.

Os Estados Unidos, que apoiam o levantamento das sanções, estão a estudar a melhor forma de o fazer. A Rússia perante o anúncio de Paris, manteve-se em silêncio, sendo que a posição oficial de Moscovo até à data tem sido a de manter as sanções, permitindo ao Kremlin manter o controlo do programa petróleo por alimentos, através do Conselho de Segurança, e assim defender os seus interesses do petróleo russo, introduzindo-o no mercado a preço satisfatórios.

Seja como Paris e Moscovo têm sido fortemente criticados nos últimos tempos por alguma imprensa americana que não se coibiu de falar em interesses económicos. Para o senador Arlen Specter, a posição francesa nos últimos tempos em relação ao petróleo iraquiano tem sido uma “chantagem internacional sofisticada”. Independentemente das propostas avançadas, Paris e Moscovo mantêm-se intransigentes quanto à necessidade do regresso dos inspectores das Nações Unidas ao Iraque.

Entretanto, o chefe da UNMOVIC teceu dura críticas aos EUA e Reino Unido por terem apresentado provas duvidosas da existência de laboratórios de produção de armas químicas.

A Europa e o Atlântico – um outro caminhopor G. d’Oliveira Martins

Começa agora o momento mais difícil e complexo da crise iraquiana

Depois da aventura militar – cujos perigos e riscos ficaram plenamente confirmados -, trata-se de saber em que medida haverá condições para reconduzir o processo à esfera das Nações Unidas (como bem têm defendido os britânicos) e de que modo poderá a comunidade internacional contribuir para a estabilização de uma região instável e perigosa.

Devo dizer que estou pessimista quanto a estas possibilidades – uma vez que foram cometidos demasiados erros e que a atitude estratégica da administração Bush parte de uma perigosíssima ignorância da História.

No entanto, julgo que há oportunidades interessantes a explorar, designadamente no tocante à política europeia. Neste ponto, penso que deve haver uma grande determinação, contra quaisquer tentações de cepticismo ou de cinismo. Sem ilusões, do que precisamos é de realismo – de modo a que a Constituição da União Europeia consagre um autêntico equilíbrio de poderes e uma capacidade de afirmação europeia na política externa de segurança e de defesa.

Eis porque a reaproximação europeia a que se tem assistido nos últimos dias deve ser prosseguida. Como tenho defendido, é indispensável que o eixo franco-alemão seja completado por uma Entente Cordiale, que inclua a perspectiva britânica e atlântica.

Jacques Amalric dizia há dias, no “Libération”, que uma vitória na guerra poderia transformar-se numa derrota na paz. Afinal, o resultado desde o início previsível para o conflito não impedirá só por si que “o sonho do Iraque democrático se torne a mais completa utopia”. E isto porque o país é um Estado medieval, com interesses e grupos contraditórios, e uma ditadura fundada em concepções arcaicas, situada no coração de uma das regiões mais explosivas do mundo.

Tudo aponta, de facto, para a eternização da raiva, do medo, da incerteza, da irracionalidade e da violência. E como reagirão as populações? Como será evitado o desenvolvimento de diversos pólos de radicalismo e de irracionalidade? Como será definido um fim à vista para uma situação de excepção que venha a ser decretada? Como reparar os estragos na ordem internacional já produzidos? Por que razão regressam as ameaças de violência? Como garantir eficazmente um combate contra o terrorismo internacional?

Todas estas perguntas representam sérios motivos de medo e de incerteza. A desconfiança instalou-se por toda a parte e as imagens dramáticas de uma guerra que se tem caracterizado por centenas de vítimas civis e pelos efeitos absurdos do “fogo amigo” vão perseguir daqui para a frente a posição norte-americana no mundo.

E o certo é que um dos efeitos imediatos da “desordem estabelecida”, da divisão da Europa e da tensão entre Estados Unidos e Velho Continente é já o enfraquecimento inexorável, com efeitos imprevisíveis, do pólo ocidental. A “lei da selva” ocupa o lugar do direito e de uma ética democrática.

Se nada for feito no sentido de inverter este estado de coisas poderemos temer o pior. A memória da destruição da Europa de 1945 está a desvanecer-se – e há cada vez mais aprendizes de feiticeiros a brincar com o fogo.

E a economia? A recuperação continua a ser adiada. E falta lucidez para encontrar políticas sérias e seguras de carácter anticíclico. As economias ocidentais precisam de investimentos reprodutivos, de políticas activas de emprego, de mais eficiência fiscal e de uma sábia síntese entre os progressos nas economias reais e no capital social e a melhoria da competitividade.

A desorganização da guerra só vai fazer piorar as coisas. Alguns limitar-se-ão a esperar por Godot – e perderão. Outros terão de se pôr ao caminho, tentando perceber que a paz e a reconstrução exigem o espírito de um New Deal mundial e o fim dos erros de um lado e do outro do Atlântico.

Afinal, europeus e norte-americanos têm de compreender que um caminho de divisão e de desinteligências conduzir-nos-á para o abismo, de um lado e do outro do Atlântico. Se os Estados Unidos perderem arrastarão a Europa – e o enfraquecimento da Europa só tornará mais débil a posição norte-americana. Quem apostar na cizânia europeia vê-la-á funcionar como um violento “boomerang”. E quem continuar a apostar na doutrina Monroe (“a América para os americanos”), fiando-se apenas no poder militar e na lógica da superpotência auto-suficiente, terá a surpresa desagradável de acordar um dia como império de pés de barro – como a História ensina, duramente.

Eis porque a parábola dos vimes merece ser recordada. Os vimes separados tornam-se frágeis e vulneráveis, mesmo para um Império, supostamente invencível. Os vimes unidos exigem, porém, na política internacional que não haja subserviência ou dependência, mas autonomia e complementaridade. E a opção europeia exige esta tomada de consciência – de que a união faz a força. E esta crise grave, e o que se lhe vai seguir, se revelou a divisão da Europa, demonstrou a exigência de mais Europa política e de uma tomada de consciência sobre a defesa dos valores e dos interesses comuns.

Há dias, o meu amigo Adam Michnik justificou o seu apoio à posição americana – e fê-lo com argumentos sérios que temos de respeitar. Mas temos de entender o porquê desta tomada de posição de um democrata de sempre e de um grande europeu (ao lado de Bronislaw Geremek ou de Vaclav Havel). No fundo, o que Michnik nos exigiu, a nós europeus, foi maior audácia na criação de instrumentos comuns orientados para a segurança e a paz no continente europeu e no mundo.

Exigiu-nos mais Europa política, como base de uma solidariedade necessária euro-atlântica, assente no multilateralismo e no respeito mútuo e numa convergência voluntária, nunca numa imposição unilateral.

“Futuro sorri mais a Santana que a Cavaco”

O futuro sorri mais a Santana Lopes do que a Cavaco Silva na corrida a Belém, designadamente porque o primeiro é mais jovem do que o segundo, afirma Guilherme Silva, líder parlamentar do PSD, em entrevista ao SEMANÁRIO, concedida nas vésperas de a maioria fazer um ano de Governo.

O número um da bancada social-democrata fala de tudo e de todos, revelando que dentro de uma semana Durão Barroso reunirá com o grupo parlamentar do PSD.

O arrastar da guerra no Iraque poderá provocar uma recessão económica à escala mundial, o que prejudicaria a retoma da economia portuguesa para breve…

É verdade que a guerra e o seu arrastamento podem agravar a situação económica mundial.

Com consequências inevitáveis para a economia portuguesa…

Naturalmente que sim. Em todo o caso, a incerteza anterior quanto à existência ou não de conflito, que se concretizou, estava a ter os seus efeitos negativos para a economia.

A certeza dir-se-ia preferível à incerteza…

O ideal é que não tivesse havido guerra, mas sendo inevitável como se demonstrou, importa que seja rápida com as menores consequências possíveis para ambas as partes, em particular para as populações inocentes.

Poderei deduzir das suas palavras que ainda temos que apertar mais o cinto por causa da guerra?

Vamos passar ainda um período difícil, que será mais ou menos prolongado, consoante a guerra se arrastar por mais ou menos tempo. Somos uma economia aberta com uma grande dependência externa e que só poderá arrancar arrastada pelas grandes economias europeias.

Retomando a questão inicial, pensa que ainda é possível a retoma da economia portuguesa em 2004, ou mesmo ainda no segundo semestre de 2003, como alguns crêem?

Penso que em 2004, e se o conflito no Golfo se resolver rapidamente, esta circunstância virá a ter virtualidades e repercussões positivas na retoma económica interna e externa.

Mas concretamente: acha que ainda vão ser pedidos mais sacrifícios aos portugueses dos que já foram pedidos?

Espero que não. Importa aqui salientar a compreensão que os portugueses têm tido para as dificuldades que herdámos e para as medidas menos agradáveis que foi necessário tomar para sanear as finanças públicas e reduzir o défice. Uma casa não se começa a construir pelo telhado.

Mas há uma polémica, dentro da maioria, entre Miguel Cadilhe e Manuela Ferreira Leite. O primeiro defende para já a aplicação do choque fiscal e o aumento da despesa pública…

O comissário Sobles interveio a propósito dessa aparente divergência e disse isso mesmo: que ela era mais aparente do que real…

Estará a dizer que não há divergências entre Miguel Cadilhe e Manuela Ferreira Leite?

Têm ambos razão. Apenas importa introduzir em relação às posições de ambos o brocardo latino “ratione temporis”, ou seja, as medidas propostas por ambos têm razão de ser em tempos diferentes…

Dir-se-á que Miguel Cadilhe se precipitou um pouco ao defender para já a concretização do choque fiscal…

Não sei se poderemos chamar propriamente precipitação. A diferença entre ambos, nesta ocasião, decorre de um ser ministro das Finanças e outro ter sido. É compreensível que haja um pequeno choque – não um choque fiscal – entre as ópticas de cada um.

A ministra Manuela Ferreira Leite está a ser um pouco criticada, em alguns sectores, por estar a exagerar, segundo dizem, com as medidas impopulares…

Há uns defensores de alguma flexibilização, mas a verdade é que Portugal é um país pequeno e até agora a União Europeia, e designadamente a Comissão, não tomou qualquer posição no sentido de Portugal ser autorizado a ultrapassar os limites fixados para o défice. Seria irresponsável continuar no laxismo do passado, de desrespeito das metas europeias.

Há quem diga que Portugal voltou a ser bom aluno…

No âmbito das pessoas como dos Estados é sempre melhor ser bom aluno do que cábula ou lanterna vermelha…

Ainda sobre a guerra: é a favor ou contra ela?

Obviamente que no domínio dos princípios sou frontalmente contra a guerra.

Qualquer pessoa bem formada é contra a guerra. Não é uma questão de esquerda ou de direita…

Nem de pacifistas de primeira ou de segunda…

Está contra as manifestações pela paz que se realizaram em todo o mundo, incluindo Portugal?

Respeito e compreendo essas manifestações, se bem que analistas insuspeitos já tenham adiantado que essas manifestações e as hesitações de alguns Estados face ao regime de Saddam Hussein tiveram efeito negativo e criaram ao regime iraquiano a ideia de que não havia firmeza ocidental na exigência do desarmamento. Infelizmente, essas atitudes podem ter propiciado a necessidade da guerra.

Terá havido, no entanto, uma subavaliação por parte dos EUA da resistência iraquiana. Os americanos porventura pensavam que tudo seria mais fácil…

Acho que é muito difícil ajuizar com rigor esse tipo de situação. Pela razão simples de que no âmbito das guerras há todo um conjunto de actuações, oculto e reservado, que não chega à opinião pública, o que é compreensível, como há, de um lado e de outro, muita contra-informação, o que impede a avaliação correcta da questão que me coloca.


Forte acusação aos socialistas
“PS traiu os aliados de Portugal”

O frentismo de esquerda que se verificou nas moções de censura poderá prejudicar o PS. É essa a sua convicção…

A questão mais delicada que se coloca nesse frentismo não é apenas a do PS poder ser prejudicado, mas sim a de que sendo o PS um partido de alternância em Portugal, quando voltar ao Governo, levará consigo, no âmbito da política externa, esta traição aos nossos tradicionais aliados, pelo que será mau para o País ter um Governo de base PS…

Segundo as sondagens, não falta muito para esse Governo. O PS tem oito pontos de avanço sobre o PSD…

O PS governava, como se sabe, em função das sondagens. Na oposição, não se desabituou dessa forma de estar. Só que conjunturas de sondagens favoráveis são efémeras e a hora da verdade é a hora das eleições.

A coabitação entre Sampaio e Durão Barroso tem sido à prova de guerra…

Quer o PR, quer o primeiro-ministro, têm um superior sentido de Estado. E sabem perfeitamente interpretar em cada momento o interesse nacional. O País teve o conforto de verificar que Portugal, numa matéria tão delicada, agiu a uma só voz, com a sintonia dos orgãos de soberania, quando muitos esperavam e desejavam mesmo um conflito institucional.

De qualquer forma, Sampaio não terá a 25 de Abril a “prenda” que tanto desejava, ou seja, a reforma do sistema político…

Estamos a trabalhar afindcadamente nisso e posso dizer-lhe que alguns dos documentos essenciais dessa reforma poderão estar concluídas dentro de quinze dias, a tempo, portanto, do 25 de Abril…

Refere-se à Lei dos Partidos e à Lei do Financiamento dos partidos?

Exacto.

Aqui já há consenso entre o PSD e o PS?

Nos aspectos mais relevantes há efectivamente consenso.

O acordo mostra-se mais difícil nas questões eleitorais…

Já foi assim no passado e compreende-se que as implicações que as mudanças nas leis eleitorais podem importar, levantem algumas dificuldades na aproximação entre os dois maiores partidos, na qual, porém, acredito que venha a acontecer.

Em contrapartida, o seu grupo parlamentar já não reúne há mais de um mês com o primeiro-ministro. O que é que se passa?

Não há nenhuma regra de presenças mensais do senhor primeiro-ministro em reuniões do grupo parlamentar. Naturalmente, todos os deputados gostam de ter o primeiro-ministro em reuniões do grupo parlamentar com a maior frequência possível. Mas todos compreendem, particularmente nestes momentos graves da vida nacional e internacional, que o senhor primeiro-ministro tem estado extremamente absorvido e com inúmeras solicitações, designadamente no estrangeiro. Em todo o caso – e ao contrário do que acontecia nos governos anteriores – o senhor primeiro-ministro tem vindo com muita frequência à Assembleia da República e não falhou até agora um só debate mensal.

O grupo parlamentar compreende e privilegia uma presença institucional no Parlamento. Dentro de uma semana, o senhor primeiro-ministro reunirá com o grupo parlamentar do PSD…

Para terminar: prefere Santana Lopes ou Cavaco Silva, como candidato do PSD a Belém?

Sobre essa questão, tenho dito que o PSD nunca tem apenas um só candidato nem mesmo apenas dois para os mais altos cargos do Estado.

Mas respondendo à pergunta…

Cada um desses potenciais candidatos, incluindo os referidos na pergunta, deve ter a humildade para, no momento certo, e ainda é muito cedo, darem prioridade e respeitarem aqueles que estiverem melhor colocados para ganhar esse batalha. Quer o prof. Cavaco Silva, quer o dr. Santana Lopes são políticos de grande dimensão e gabarito e com qualidades para o exercício do cargo de Presidente da República.

Naturalmente, o dr. Santana Lopes é mais jovem e terá com certeza mais “chances” e oportunidades futuras na corrida a Belém.