2019/10/22

A nova guerra americana é contra os “mullahs”

Após 35 anos de opressão pela minoria sunita dominante no extinto partido Baas e na cúpula de poder iraquiana, os representantes dos 16 milhões de xiitas naquele país emergem para ocupar os lugares vagos com o colapso do regime de Bagdad. Ao nível local, os vários líderes xiitas começam a exercer o seu poder decisório na questões políticas.

O Irão assiste ao despertar dos seus “irmãos” xiitas no Iraque, deixando claramente preocupada a administração Bush, que não vê com bons olhos o nascimento de um Estado teocrático, à imagem do que é o Irão. Ontem, o “Washington Post” revelou que os estrategos americanos subestimaram o poder organizativo dos xiitas e não estavam preparados para o surgimento deste fundamentalismo islâmico.

“Não façam mal aos sunitas”, diz aos iraquianos o mais alto líder xiita naquele país, o grande ayatollah, Ali Sitani (73. “Mas se eles (sunitas) vos fizerem mal, vocês têm o direito a defenderem-se”, acrescentou Sitani, num discurso que até há algumas semanas era impensável proferir em público, estando este tipo de acto reservado apenas à minoria sunita, dominante no já extinto partido Baas e na cúpula de poder iraquiana.

O vazio de poder criado pela remoção do regime de Saddam Hussein está a provocar a emergência dos líderes xiitas ao nível do poder local, que começam a ter um peso decisório significativo. Reprimidos pelo partido Baas durante 35 anos, e abandonados pelos americanos em 1991, existe agora a noção de que os xiitas estão a enviar uma mensagem clara aos sunitas e aos cristãos, de que uma nova era de poder chegou ao Iraque. E na verdade, os representantes dos 16 milhões de xiitas iraquianos começam a ocupar lugares administrativos e políticos deixados vagos pelo colapso instantâneo do regime de Bagdad.

“O Exército americano pode controlar estradas, portos e os céus do Iraque, mas em qualquer vizinhança onde os xiitas são maioria, é provável que se encontre um sheik de turbante branco ou imã que começou a exercer as decisões políticas do dia-a-dia”, constatava o correspondente do “Los Angeles Times”. Esta semana, milhares de peregrinos xiitas deslocaram-se à cidade de Karbala – onde Hussein, filho de Ali e neto do profeta Maomé, se tornou mártir num batalha no século VII, simbolizando o sofrimento e a criação da comunidade xiita -, numa demonstração clara do despertar daquela família muçulmana.

Mas, se durante décadas os xiitas estiveram forçosamente adormecidos no Iraque, o mesmo não se pôde dizer do Irão, que após a revolução de 1979, e que provocou a queda do xá Reza Palhevi, viu emergir uma elite religiosa xiita, altamente conservadora e que ainda hoje lidera os desígnios daquele país, através do Conselho dos Guardiões, liderado pelo, ayatollah, Ali Khamenei. A apetência de Teerão para apoiar os movimentos xiitas espalhados pelo Médio Oriente foi sempre uma evidência, como se constata, por exemplo, como a guerrilha do Hezbollah, no sul do Líbano.

O Irão vê-se agora livre do seu inimigo de longa data, e da minoria sunita que liderava o Iraque, para assistir à emergência de uma nova liderança xiita, em consonância com os interesses iranianos. Esta estratégia provoca a desconfiança norte-americana e, certamente, acciona mecanismos na política externa da administração Bush para lidar com a eventual desordem sistémica na região. Por ora, e como escreve o capitão de Fragata, António Silva Ribeiro, nestas páginas, todos parecem ter percebido a mensagem, com excepção da Síria, confrontada com os Estados Unidos, mas resta saber se a administração norte-americana ficará satisfeita com a resignação destes regimes.

“EUA envolvidos na IV GM”

Num tom mais apaziguador, Bush disse esta semana que Damasco tinha “recebido” a mensagem, contrastando com a linguagem hostil da semana passada. No entanto, até onde Washington aplicará a sua visão imperial para o Médio Oriente? James Woolsey, membro da comissão de aconselhamento de política de defesa do Pentágono, e antigo director da CIA, acredita que os Estados Unidos estão envolvidos na “Quarta Guerra Mundial”, não apenas contra o regime de Saddam Hussein, mas com contra os mullahs do Irão e os “fascistas” da Síria.

De acordo com um artigo de Michael Elliott, na revista “Time”, a administração ainda não chegou a qualquer acordo sobre o próximo passo a dar naquela região. Elliott cita uma fonte da Casa Branca, ao afirmar que não existe nenhum plano definido para uma acção militar contra o Irão ou a Síria, mas adianta que isso não significa que uma nova aventura militar não aconteça. Mas, caso se venha a verificar esse cenário, não será certamente para breve.

As preocupações com a Síria e com o Irão são fundamentadas. Desde sempre que estes dois países apoiam o movimento Hezbollah, considerado pelo vice-secretário de Estado, Richard Armitage, o “A Team” dos terroristas. Além disso, o programa de armas de destruição maciça iraniano é uma realidade. E quanto à Síria, os Estados Unidos terão que lidar mais cedo ou mais tarde com Damasco, se quiserem garantir a estabilidade entre Israel e um futuro Estado palestiniano, no que respeita ao acesso dos recursos hídricos, dos montes Golã, controlados por israelitas e sírios, um assunto longe de estar resolvido.

Ontem, o jornal “Washington Post” revelou que os estrategos americanos subestimaram a capacidade organizativa dos xiitas e que não estavam preparados para o surgimento deste fundamentalismo religioso que se está a fazer sentir no Iraque, e de que Karbala é um bom exemplo. De acordo com fontes citadas pelo jornal, os americanos estão a tentar o mais rapidamente possível preencher o vácuo de poder existente em Bagdad e no resto do país.

Durante esta semana, altos dirigentes americanos receberam inúmeros relatórios constatando a grande organização xiita. “Nós não queremos que o fundamentalismo persa ganhe um ponto de apoio”, disse um membro da administração americana ao “Washington Post”. “Nós queremos encontrar mais clérigos moderados e colocá-los em posições de influência”, acrescentou.


CIA apoia clérigos moderados

Inserido nesta estratégia, a CIA tem apoiado alguns membros religiosos, deslocando-os para várias cidades iraquianas, onde possam estabelecer bases políticas. No entanto, é algo que os serviços secretos não fazem há muito tempo, nem de forma significativa.
Quem parece estar bastante activo são os iranianos que têm enviado desde a queda de Saddam Hussein agentes altamente treinados para o sul do Iraque, com o objectivo de promoverem clérigos xiitas “amigos” na defesa dos interesses iranianos. Este dado foi avançado ontem pelo “New York Times”, citando fontes governamentais americanas.

De acordo com a informação divulgada, alguns dos agentes infiltrados pertencem à ala militar de um grupo opositor ao regime sunita de Saddam no exílio no Irão, conhecido como Badr Brigade.

Apesar da presença de forças especiais norte-americanas na fronteira do Iraque com o Irão tem sido difícil controlar a incursão dos agentes iranianos. De acordo com algumas fontes oficiais, as manobras destes agentes ainda não são totalmente conhecidas, mas avisam para o potencial perigo das ligações entre o regime iraniano e o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, sediado em Teerão, do qual a Badr Brigade é o seu braço armado, e de que o ayatollah, Muhammad Bakir al-Hakim é líder, ainda por regressar ao Iraque.

“French connection”

O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, afirmou ontem que a França irá sofrer as consequências por ter ameaçado vetar qualquer resolução que desse o aval a uma guerra no Iraque. “Nós temos de analisar a relação. Nós temos que ter em conta todos os aspectos da relação com a França à luz desta situação”, disse o chefe da diplomacia americana numa cadeia de televisão americana.

As palavras de Powell surgem um dia depois da França ter proposto a suspensão imediata das sanções civis das Nações Unidas, ressalvando, no entanto, que o embargo de que o Iraque é alvo há treze anos não deveria ser levantado na sua totalidade enquanto os inspectores das Nações Unidas não se certificassem do desarmamento do país.

A iniciativa francesa apanhou as autoridades americanas de surpresa, e mais uma vez colocaram Washington numa situação de desconfiança face a Paris. Esta estratégia delineada por Paris poderá estar relacionada com os interesses franceses na região. Enquanto o Conselho de Segurança das Nações Unidas não aprovar uma nova resolução que levante as sanções ao Iraque “nós podemos suspender as sanções e ajustar o programa petróleo por alimentos, visando o seu fim”, disse o embaixador francês para a ONU, Jean-Marc de la Sabliere.

A proposta francesa está a ser vista com desconfiança pelos norte-americanos que a interpretam como um instrumento da política externa gaulesa para aceder ao mercado iraquiano antes que seja implementado um novo Governo em Bagdad e que as suas instituições e estruturas económicas estejam de pé.

Os Estados Unidos, que apoiam o levantamento das sanções, estão a estudar a melhor forma de o fazer. A Rússia perante o anúncio de Paris, manteve-se em silêncio, sendo que a posição oficial de Moscovo até à data tem sido a de manter as sanções, permitindo ao Kremlin manter o controlo do programa petróleo por alimentos, através do Conselho de Segurança, e assim defender os seus interesses do petróleo russo, introduzindo-o no mercado a preço satisfatórios.

Seja como Paris e Moscovo têm sido fortemente criticados nos últimos tempos por alguma imprensa americana que não se coibiu de falar em interesses económicos. Para o senador Arlen Specter, a posição francesa nos últimos tempos em relação ao petróleo iraquiano tem sido uma “chantagem internacional sofisticada”. Independentemente das propostas avançadas, Paris e Moscovo mantêm-se intransigentes quanto à necessidade do regresso dos inspectores das Nações Unidas ao Iraque.

Entretanto, o chefe da UNMOVIC teceu dura críticas aos EUA e Reino Unido por terem apresentado provas duvidosas da existência de laboratórios de produção de armas químicas.

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