“Admiro a determinação e a coragem com que a ministra da educação tem

Adopção, divórcio, educação, sexualidade e violência são temas que despertam até o mais desatento cidadão. Com Eduardo Sá, doutorado em Psicologia clínica pela Universidade de Coimbra viajámos por entre os problemas sociais que afectam Portugal.

Nos dias que correm são cada vez mais as reportagens, estudos e livros que abordam o tema do bullying. Considera que actualmente as crianças são mais agressivas que outrora?
Não. A agressividade é tão natural como a sede e faz bem à saúde. É, ao mesmo tempo, um ansiolítico e um anti-depressivo da maior utilidade para todos nós. Aliás, talvez todos tenhamos sido mal-educados para a agressividade: todos nós teremos aprendido a reprimi-la quando, no fundo, ganharíamos mais se aprendêssemos a brincar com a agressividade e a utilizá-la com maneiras. As crianças não são mais agressivas hoje do que seriam outrora. No entanto, trabalham horas demais todas as semanas, têm aulas cada vez mais longas, e recreios mais minúsculos. Se repararmos que, regra geral, as crianças têm as famílias mais democráticas que alguma vez elas tiveram e, ao mesmo tempo, vão crescendo fechadas em pequenos apartamentos, receio que estejamos a educá-las cada vez com mais espaço interior e cada vez mais em espaços físicos e em tempos espartilhados. Se não lhes dermos espaço para exprimirem aquilo que sentem e, muito menos, para manifestarem esse ansiolítico e anti-depressivo fantástico (que é a agressividade) receio que, embora não sejam mais agressivas, estejam tão obrigadas a fazer de “panelas de pressão” que, por isso, têm défices de atenção, perturbações de comportamento e pareçam mais agressivas.

Mas então, qual o papel que os pais, professores e auxiliares têm na identificação ou diminuição do bullying?
Os pais têm a obrigação de entender que toda a agressividade que se guarda transforma-se em violência. Daí que, em primeiro lugar, as crianças devam ter tempos e espaços para brincarem. Brincar na companhia dos amigos é o melhor antídoto para a violência. Em segundo lugar, têm a obrigação de perceber que as crianças que nunca são agressivas podem parecer uns anjos mas não aprendem (com os erros) a ser boas pessoas. Em terceiro lugar, era bom que os pais e os professores nunca esquecessem que se educa com bons exemplos; não tanto com bons conselhos. E que, muitos dos conselhos que os pais e os professores dão às crianças acerca do bullying acabam por ser uma forma de lhes dizerem: “olha para o que eu digo não olhes para o que eu faço”. Em quarto lugar, devem separar as crianças, episodicamente, agressivas daquelas que nunca são agressivas ou que, pelo contrário, o são sempre. Isto quer dizer que as crianças que violentam os colegas são crianças que se vingam nos colegas dos maus-tratos dos pais ou que experimentam com eles os maus exemplos que têm em casa. Numa ou noutra destas situações, são crianças em perigo. Porque maltratam e porque delapidam o espaço e as relações educativas. Por último, é fundamental que, logo que intuam que uma criança está a ser alvo de violência em meio escolar, devem ser sensatos e lestos a protegê-la porque as consequências desses actos são incalculáveis e podem comprometer, para sempre, o percurso educativo e a relação com a escola.

Que leitura faz sobre as opções de um director de informação que escolhe transmitir um sequestro em directo para todo o País?
Eu acho que o choque informativo pode, em determinadas circunstâncias, ser um instrumento de interpelação que nos faça despertar. Nem sempre uma situação de choque transforma uma peça informativa num tablóide. No entanto, se a ganância por audiências se sobrepõe ao compromisso de informar pode fazê-lo. Um sequestro em directo pode ser, no limite, uma forma de intervir socialmente. E pode ajudar a alargar a consciência dos cidadãos para dramas que convivem com a sua distracção de todos os dias. Repeti-lo até à exaustão, dissecá-lo em todos os pormenores, por mais insignificantes que sejam, pode transformar a informação num voyeurismo que me incomoda, reconheço.

Os conteúdos da televisão nacional são os adequados?
No essencial, são. Aliás, eu acho que a televisão é responsabilizada, vezes demais, duma forma demagógica, por alguns educadores batoteiros. Somos todos melhor educados quanto mais plural for a nossa educação. E a televisão tornou a educação mais aberta e mais democrática. Haverá séries ou situações episódicas pouco recomendáveis para as crianças e para os jovens? Sem dúvida. Mas isso transforma os pais numa entidade reguladora no crescimento dos filhos. Se a televisão interfere, negativamente, no crescimento das crianças é porque os pais a transformam, vezes demais, numa babysitter e num atelier de tempos livres como se ela os substituísse sempre que estão indisponíveis para os filhos. E isso sim, potencia, por omissão, todos os conteúdos menos recomendáveis que a televisão lhes transmita.

As famílias tradicionais são cada vez menos surgindo famílias monoparentais e recompostas. Quais as repercussões que estes novos modelos têm no desenvolvimento das crianças/jovens?
Se as famílias tradicionais seriam uma mãe a fazer de mãe, um pai a fazer de pai e o espírito de Natal a ligar as pessoas então as famílias tradicionais, felizmente, nunca existiram. As famílias estão hoje, felizmente, à beira da extinção. Primeiro, porque os pais juntos por fora não significava que estivessem juntos por dentro. Em segundo lugar, o pai e a mãe juntos nem sempre quis dizer que ambos dessem tempo aos filhos. Tempo para brincar, educar, contar histórias ou passear. Em terceiro lugar, pais carcomidos pelo trabalho, sem grandes recursos económicos, sem electrodomésticos (!), sem conseguirem garantir um espaço (em casa) para a criançada, ou sem terem meios de lhes darem uma educação básica que esbatesse as assimetrias sociais, por mais juntos que estivessem, não seriam, só por isso, melhores. Por último, pais juntos significou, em muitas das nossas famílias, uma avó ou uma tia ou uma empregada a fazerem de mãe. Um irmão ou um tio ou um avô a representarem o pai. Mais importante do que terem os pais juntos por fora e divorciados por dentro, para as crianças é muito importante que eles estejam por dentro. Famílias reconstruídas significam que as crianças possam passar a ter duas referências de mãe e de pai, o que exige dos pais maiores cuidados e mais clareza nos gestos que repartem entre si, com as suas novas companhias, com a gestão dos seus gestos educativos para com os filhos que essa nova companhia possa ter e com os novos filhos que venham a nascer duma nova relação. O divórcio exige que os pais se tornem melhores pais para merecerem ser pais. E, é importante que se diga que, se a percentagem de divórcios tem vindo a aumentar, a percentagem de pais que, no contexto dum divórcio, tem reclamado guarda conjunta e que, efectivamente, a levam à prática, antes e depois do divórcio se dar, tem aumentado vertiginosamente.

O novo Código do Trabalho prevê um aumento da duração da licença de maternidade. Quais as vantagens desta alteração para a relação mãe-filho e o desenvolvimento do bebé?
Os primeiros meses de vida de uma pessoa são fundamentais para que se desenvolva uma relação que servirá de matriz para todas as outras relações e para sempre. Os bebés que têm mais e melhor mãe são mais tranquilos, desenvolvem-se melhor e tornam-se, por isso, mais inteligentes. Os cuidados educativos, no primeiro ano de vida, são o grande arquitecto do sistema nervoso do bebé. São tantos e tão incalculáveis, pela vida fora, esses ganhos que, do ponto de vista do bebé, a medida que foi tomada pelo Governo deve ser aplaudida, vivamente. É igualmente fundamental a licença de maternidade englobar a mãe e o pai, o Código do Trabalho assuma que se começa a ser mãe ou pai na gravidez, e que se protejam todos os pais que fazem questão de estar em todos os momentos da gravidez de um filho. Num segundo momento, seria bom que se recomendasse, através de campanhas, por exemplo, que se reparta a licença de maternidade pela mãe e pelo pai, uma vez que os primeiros meses do pós-parto são esgotantes, em termos físicos, e representam uma fractura tão vertical com a vida que se tinha que isso não ajuda o bebé. Quando um bebé tem duas pessoas (que lhe pegam, lhe falam, o olham e o embalam de forma diferente) a amá-lo isso obriga-o a ser um bocadinho igual a cada um o que é mais de meio caminho andado para o ajudarmos a cultivar a sua personalidade desde o princípio.

A adopção é sempre um processo bastante moroso, sendo necessário conquistar várias etapas até obter as condições para o desejado momento. Os juízes privilegiam a ligação com os pais biológicos aquando um confronto entre pais adoptivos e pais biológicos. Qual o impacto que esta decisão tem para a criança/jovens e para os pais adoptivos?
Portugal não tem sido um país muito amigo das crianças. Não só porque há milhares de crianças que, a coberto de alguma ilegalidade, têm o Estado como seu tutor (o que é um completo absurdo, e sugere uma colectivização insuportável das crianças), mas também porque não é verdade que a adopção seja um processo único, rápido, claro, despoluído de pequenos poderes e de decisões arbitrárias, em todo o País.
Às vezes, o Estado confunde uma cédula pessoal com um título de registo de propriedade e é urgente que se distinga um progenitor dum pai. Nem sempre um progenitor se transforma num pai. E aquilo que o Estado faz – quando se perdem os meses mais importantes da vida de uma pessoa (com consequências irreversíveis) para acolher as indecisões de um progenitor em relação à parentalidade ou para ir à procura de um tio-avô da progenitora, que nunca a conheceu, é um bom exemplo daquilo que, um dia, quando Portugal for um País mais amigo das crianças, vai deixar de existir. Como em todos nós, depois de uma pessoa ter entrado na nossa vida, nunca mais sai. Nem com ordem de despejo! Adoptar é ter uns segundos pais. E, como se passa connosco, quando um novo namoro paga por aquilo que todos os outros nos provocaram, com as crianças adoptadas, os novos pais pagarão pelos maus-tratos que os anteriores lhes infligiram. Se os maus-tratos não tenham sido todos os dias, anos a fio é melhor. Se os maus-tratos dos primeiros pais não tiverem sido agravados por maus-tratos que estas crianças tenham vivido em orfanatos, ainda melhor. Porque tantos maus-tratos a multiplicarem-se uns nos outros exigem que quem adopta não seja só pai ou mãe mas precise de ser um misto de anjo e de técnico de saúde mental, ao mesmo tempo. O que não é justo. Mas, muitas vezes, infelizmente, é o que se passa.

A união de facto entre homossexuais é um assunto que mais tarde ou mais cedo será abordado na Assembleia da República. Após a obtenção deste objectivo, provavelmente, provavelmente seguir-se-á a luta pela aprovação da adopção. Qual a sua opinião relativamente a esta questão?
Continuo a defender que aquilo que está em causa numa adopção não é o género ou a orientação sexual de uma pessoa mas as suas competências para a parentalidade. Se elas forem avaliadas de forma competente é quanto basta para que as crianças percebam que o bem duma família passa pela pluralidade de exemplos num mesmo denominador comum de verdade.

O sexo nos dias que decorrem é visto segundo novos padrões, havendo uma maior troca de parceiros e relações mais fugazes. Qual a relação que os jovens têm com a sua sexualidade?
Continuo a achar que falamos demais da sexualidade dos jovens e dos seus comportamentos de risco quando, no fundo, quem acaba por ter comportamentos sexuais de maior risco são, muitas vezes, os pais e outros educadores dos adolescentes. Os jovens têm, regra geral, uma relação muito mais saudável com a sexualidade já que não lhe atribuem uma importância tão hegemónica como os adultos. Os jovens percebem que os bebés não vêm de Paris e despertam, entre perplexidade e excitação, para ela. Não iniciam tão precocemente, como muitos dos seus pais fizeram, a sua vida sexual, e estão, seguramente, muito melhor informados do que eles. É claro que haverá sempre dois tipos de jovens doentes, por mais que não o aparentem: aqueles que sexualizam, compulsivamente, seja o que for e aqueles que acham a sexualidade um aspecto animal, primário ou degradante da Natureza Humana. Ora é por isso que eu acho que se tem de se repensar, profundamente, a educação para a sexualidade. Falar do aparelho genital, de contraceptivos ou de doenças sexualmente transmissíveis não chega. È importante que se diga aos adolescentes que devia ser proibido casar com a primeira namorada e que nas relações amorosas, como em tudo o que há de sério na vida, errar é aprender. E que devia ser proibido casar para sempre, no sentido de, ao assumirmos que queremos que viver com alguém, estarmos autorizados a adormecer “em serviço”, a descuidar os mimos e os pequenos gestos de ternura. E que, por mais importantes que sejam, as relações morrem se não forem mimadas. E que mais importante do que nos despirmos por fora é despirmo-nos por dentro. E que, depois de uma pessoa ter um lugar no nosso coração, não fazemos um voto de castidade com a vida, e vamos estar, de forma sábia, a comparar as pessoas que temos dentro de nós com todas as outras com que trabalhamos, com quem nos cruzamos na rua, etc. E que esta imensa complexidade humana transforma as relações amorosas e a sexualidade no projecto mais sério e mais redentor que algum de nos terá na vida.

Na educação, o Governo, tem apostado na introdução de disciplinas extra-curriculares aumentando a carga horária das crianças/jovens. Qual a sua opinião relativamente a esta medida?
É claro que é importante que a escola diversifique as áreas de aprendizagem das crianças mas não ganha, acho eu, se criar disciplinas de 1ª e de 2ª ligas. Muito tempo de aulas e pouco tempo de recreio entre elas faz mal ao desenvolvimento das crianças. Pouco tempo para brincar, quando se regressa da escola, faz pior, ainda. As crianças trabalham demais. Muitas vezes, começam a trabalhar às oito da manhã, prolongam o trabalho até às oito da noite e ainda trazem trabalho para casa. Foi por isso que, há algum tempo, propusemos um dia de greve nacional aos trabalhos de casa, como forma de chamar a atenção para o facto de mais escola não representar melhor escola.

Considera que na área da Educação o Governo tem actuado bem?
Admiro a determinação, a coragem e a perseverança com que a senhora ministra da educação tentando transformar um sistema educativo que, desde 1975, parecia ser impossível de tocar. É claro que não concordo com todas as medidas que tem tomado, mas ficaria muito preocupado (por mim e por ela) se concordasse com todas. Acho que a educação pré-escolar precisa de ser, tendencialmente, pública, gratuita e para todos. E acho que num País amigo as crianças os professores são um bem de primeira necessidade, e terão de dispor de condições de trabalho, terão de ser acarinhados e terão de ser bem pagos. Mais do que com choques tecnológicos ou com choques fiscais, o mundo transformou-se de dentro para fora da escola. A escola foi a invenção ais bonita da Humanidade! Qualquer governo que governe com os olhos postos no futuro deverá organizar uma Lei de Base da Família e da Criança e mobilizar recursos sérios para a educação. Talvez mudar o mundo passe por isto, simplesmente. E é tão fácil!

Foi aprovado na Assembleia da República a Ordem dos Psicólogos. Qual a vantagem para os Psicólogos em Portugal?
A vantagem passa por, definitivamente, separarmos os licenciados em psicologia dos psicólogos, e credibilizar-se – humana, científica e tecnicamente – o exercício da psicologia.

E qual o estado actual da Psicologia em Portugal?
Temos algumas boas escolas de psicologia, licenciados em psicologia que serão os profissionais que mais compram formação técnica e científica pós-graduada neste pais. Precisamos de formações de especialidade mais credíveis. Precisamos de força negocial para que se percebam algumas bizarrias como, por exemplo, a licenciatura em psicologia (ao contrário da de filosofia) ainda não ser reconhecida pelo Estado como habilitação suficiente para se leccionar a disciplina de psicologia, no ensino secundário.

Que conselhos quer deixar aos pais portugueses?
Gostava que percebessem que são mais sábios do que imaginam. Gostava que entendessem que pecam por falar por actos e por omissões e nunca por dizerem: “amo-te Teresa” de forma clara. Gostava que assumissem que as relações com as pessoas que nos amam são aquilo que nos dá vida ou nos mata devagarinho. E que só nos deprimimos por falta de mimo. Que nunca esquecessem que o melhor do mundo é o futuro. E que o futuro vai continuar a aceitar pessoas imperfeitas.|

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.