2019/12/05

Acordo Ortográfico ganha novo ímpeto 17 anos depois

O famigerado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa,
ao fim de 17 anos, ganhou um novo impulso. Parece que
os países lusófonos vão ratificar as novas regras da língua escrita. O Governo português anunciou a sua disposição
de aprovar, até ao final do ano, o Protocolo Modificativo
do referido acordo. O ministro Luís Amado parece ter conseguido dar-lhe “novo ímpeto” com a concordância
de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau comprometidas
a “ratificar rapidamente” o Acordo, que já vai na sua terceira versão. E que, na melhor das hipóteses, estará implantado na prática daqui a quatro anos.

O debate sobre o Acordo Ortográfico tem andado a várias velocidades e a ritmos diferentes. Assinado em Lisboa a 16 de Dezembro de 1990 no meio de alguma controvérsia, chegou a ter uma data prevista para a sua entrada em vigor: 1 de Janeiro de 1994. Tal não aconteceu, porque apenas Portugal, Brasil e Cabo Verde o ratificaram.
Todos, de uma forma genérica, sobretudo os políticos concordam agora que o Português teria uma maior projecção no futuro, por ser (actualmente) a quinta língua mais falada em todo o mundo, em termos absolutos, e a terceira no Ocidente depois do Inglês e do Espanhol. Para já o ministro dos Negócios Estrangeiros conta com a disposição manifestada por Angola, Moçambique e Guiné-Bisau de o “ratificarem rapidamente”.
Diz quem sabe que quando todo o processo, legal e diplomático, estiver concluído, serão precisos, pelo menos, mais quatro anos de adaptação, para permitir que os dicionários, manuais escolares e todo o material de aprendizagem se actualize ortograficamente. Isto para Portugal e Brasil, mas quanto ao tempo necessário em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe ninguém se atreve a dar qualquer palpite. Muito menos em relação a Timor-Leste, que não solicitou ainda a adesão ao acordo.
Esperemos que não se regresse à guerra mesquinha de quem cede mais de um e do outro lado do Atlântico. Os especialistas já fizeram contas ao estudo das modificações propostas no Acordo e chegaram à seguinte conclusão: 1,6% do vocabulário será alterado em Portugal, enquanto no Brasil essa mudança só chegará à taxa de 0,45%.
Por sua vez, os políticos assumem que a “Língua Portuguesa ficará mais forte” e que “a unificação do acordo ortográfico trará um maior crédito na área internacional”.
Ninguém tem coragem de assumir que o português de Portugal e o português do Brasil “não mudará, nem facilmente, nem substancialmente”. Há quem diga, por exemplo, que nós continuaremos a dizer “autocarro”, enquanto o brasileiro preferirá usar a palavra “ónibus”, e os angolanos, provavelmente irão manter o “maximbombo”. E há os inventivos que têm pena antecipada de perder a fogosidade e o humor de palavras como “estou sornicando” (bater uma sorna) ou dizer, ao parceiro do lado, “vou bicar”, para expressar que vai tomar uma bica.

Algumas mudanças

Há, no entanto, algumas mudanças no acordo. Passaremos a escrever “ação”, em vez de “acção” e “ato” em vez de “acto” e os brasileiros deixarão de escrever “acadêmico” com acento circunflexo, perfilhando o nosso “académico”. Do lado de lá do Atlântico, também vão ter de abdicar do trema na palavra “tranquilo”. Por cá desaparece da actual grafia além do “c” (exemplo anterior) também o “p”, nas palavras em que essas letras não são pronunciadas, como “baptismo” e “óptimo”. E até o “húmido” deixará de ter o h e passará a ser escrito assim: “úmido”.
De acordo com Malaca Casteleiro, um linguísta de primeira linha desde a primeira hora, o hífen desaparece completamente para os brasileiros, quando o segundo elemento da palavra composta comece com “s” ou “r”, casos em que estas consoantes devem ser dobradas, como em antirreligioso” e “contrarregra”. Acrescenta, ainda, que apenas quando os prefixos terminam em “r” se manterá o hífen. E dá exemplos: hiper-realista, super-resistente.
O acento circunflexo também desaparece de cena nas paroxítonas (palavras com acento tónico na penúltima sílaba) terminadas em “o” duplo (“voo” e “enjoo”), usado na ortografia do Brasil, mas não na de Portugal.
E o mesmo acento – o circunflexo – desaparece também da terceira pessoa do presente do indicativo ou do conjuntivo dos verbos “crer”, “ler”, “dar”, “ver” e seus derivados. Ou seja, passará a escrever-se creem, leem, deem e veem. O acento agudo, deixará de se usar no Brasil, nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas, como “assembleia” e “ideia”. E o alfabeto, com a incorporação de “k”, “w” e “y”, deixará de ter 23 letras, para passar a contar com 26.

As datas e marcas

Já agora fique a saber que esta história de um Acordo Ortográfico já vem de longe. Até no tempo de Salazar se chegou a mexer na matéria, o que lhe mereceu um encolher de ombros benevolente, ao dizer “deixem andar porque levará ainda muito, muito tempo a concretizar”. “Se chegar a vigorar algum dia…”, acrescentou pata aqueles que o acompanhavam no gabinete de trabalho.
Passo a passo, depois do 25 de Abril, o primeiro pontapé de saída ocorreu a 16 de Dezembro de 1990, quando foi assinado em Lisboa. O dia 1 de Janeiro de 1994 era a data prevista para a sua entrada em vigor. Tal não aconteceu, porque apenas Portugal, Brasil e Cabo Verde o ratificaram.
Quatro anos depois (1998), em Julho, foi assinado o primeiro protocolo modificativo, no qual estava prevista a entrada em vigor do acordo, depois do depósito de ratificação por parte de todos os Estados signatários, mas sem apontar qualquer data.
A 4 de Julho de 2004 assinou-se um novo protocolo modificativo, que prescindiu da aplicação unânime do acordo, dependendo a sua “entrada em vigor da ratificação por três países”. Neste momento uma coisa é para praticamente adquirida. É a de que os manuais escolares e os livros considerados didácticos não vão ser os mesmos nos três continentes, o que não significa que não volte a moda dos chamados prontuários ortográficos, em cada um dos Estados, para mais fácil manuseamento das escolas e redacções de comunicação social.
O futuro o dirá.|

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.