2020/01/26

A indiferença é uma doença social

Crimes, abusos e acidentes acontecem em espaços públicos com uma crescente frequência, alguns destes com contornos macabros, mas cada vez menos impressionam o comum cidadão, que muitas das vezes passa ao lado destas situações sem demonstrar o menor sentimento de preocupação.

• Crimes, abusos e acidentes acontecem em espaços públicos com uma crescente frequência, alguns destes com contornos macabros, mas cada vez menos impressionam o comum cidadão, que muitas das vezes passa ao lado destas situações sem demonstrar o menor sentimento de preocupação. Na sua opinião de que padece a nossa sociedade, tendo em conta esta realidade? O que pode levar ao desinteresse do homem perante aquilo que se passa diante dos seus olhos?
• Considera a indiferença uma doença social?

TRS:
Uma indiferença crónica perante situações que exigem uma responsabilidade cívica dos cidadãos deve ser considerada uma doença social. Este não devia ser o caso sério em Portugal com uma tradição religiosa ainda bastante presente. Mas a integração europeia e a globalização em geral estão a alterar os comportamentos. O bem-estar material tornou-se a prioridade da procura e isto a qualquer custo! É o espírito de capitalismo selvagem que vai dominar cada vez mais. As práticas religiosas que suavizavam as diferenças no passado estão a ser substituída pelos discursos de justiça e direitos humanos! Estamos a viver ironia! Proclamam-se direitos para proteger o que se roubou? Não foi assim que Europa instaurou o direito internacional depois de ter colonizado os territórios alheios? Se está agora a sofrer as consequências dos seus comportamento dos séculos de abusos de direitos, bem o merece.

• Nesta semana, imagens chocantes circularam por todo o mundo global e agitaram principalmente a consciência Italiana – numa praia do referido país, os corpos de duas crianças que se afogaram, jazem na areia perante a total indiferença dos banhistas que continuam a gozar o sol como nada se passasse. De referir um “ligeiro” pormenor: as duas meninas de 11 e 12 anos eram ciganas. Pensa que o racismo é um dos motivos que leva à indiferença social nos dias de hoje?

TRS:
O racismo fez parte da experiência colonial para os milhões das populações das antigas colónias. O Acto Colonial do Estado Novo é uma ilustração disto no Império Colonial português, que por razões diplomáticas designou-o “Províncias Ultramarinas” nos anos 50. Bem dizem os indianos: Justiça humana não existe. A justiça faz-se: É a doutrina de Karma. Todos os problemas ou as doenças sociais do Ocidente são consequências dos seus comportamentos passados. Ninguém escapa ao seu Karma. A União Europeia é uma construção de colonialismo dos brancos pelos brancos. Os ciganos fazem parte deste fenómeno, mas com tempo serão incluídos outros povos dos países do Leste, etc. É o novo racismo de povos “sem cor”!

• A omissão de auxílio é uma conduta criminalizada nos países ditos civilizados, sendo que em Portugal já constitui crime há cerca de 20 anos. No entanto, surge uma questão: porque será necessário criminalizar aquilo que deveria ser do mais puro censo comum?

TRS:
Também não compreendo o que há para criminalizar somente hoje o que devia ser criminalizado em todos os tempos! A não ser que os europeus, incluindo os portugueses, consideram-se mais civilizados hoje! Duvido. Tem é a mania de gabar de possuírem nível moral superior!

• Haverá algo a fazer pela nossa sociedade para inverter este crescente desinteresse social?

TRS:
Seria útil ouvir e praticar o que dizia Pe. António Vieira (estamos a comemorar o 4º aniversário do seu nascimento) no século XVII sobre o Quinto Império: descrevia da seguinte maneira o seu rei ressuscitado (leia-se o «lusófono do futuro»): “soube ser humilde, que é a qualidade que Deus mais que todas busca nos que quer fazer instrumentos de suas maravilhas, sem reparar em outras imperfeições e fraquezas humanas”. (1) Acho que podem fazer muito sentido os mitos e profecias acerca de um destino grandioso de Portugal e da comunidade lusófona, sintetizada no Quinto Império como metáfora da consciência e da fraternidade universal, que todavia só se realizarão se depurados dos luso-centrismos do passado, em colaboração com o melhor de todos os povos e culturas e optando por “nunca mais orgulhosamente sós”.

1) VIEIRA, Padre António, Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, Ed. Nova Atica, s/d, p, 75.

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