2020/09/26

Sonaecom ainda tem que pagar os estragos da OPA à PT para poder …

Esta semana, Ângelo Paupério veio dizer aos jornais que a Sonaecom ponderava a possibilidade de se juntar com a PT Multimédia. Depois do “spin-off” da PT. Um cenário desejável de consolidação no mercado de telecomunicações e que daria à PTM o acesso ao negócio dos telefones fixos e móvel. Mas fontes próximas dos actuais accionistas da PT Multimédia consideram que o negócio ainda não se pode fazer, ainda que as duas empresas casem perfeitamente.

Em cima da mesa está ainda o passado recente da última OPA da Sonaecom à PT Multimédia e os ressentimentos criados nos accionistas da PT. Nem Luís Silva nem Joaquim de Oliveira, muito menos Ricardo Salgado ou mesmo a Caixa Geral de Depósitos veriam com bons olhos uma tomada de controlo por parte da Sonae na PTM. Para isso, a Sonaecom teria que pagar nunca menos de 15 ou 16 euros por acções, o que seria impossível, na cultura do grupo, mesmo agora que Belmiro de Azevedo se afastou.
Para já. No máximo, com a blindagem, a Sonaecom poderá ir apenas até aos 10%, o que dificilmente cabe na cultura do grupo do norte.
Por outro lado, uma fusão aproveitando a fragilidade da Soanecom, cujas acções caíram mais de 30% desde o fim da OPA e cujos prejuízos são persistentes (a Sonaecom nunca teve lucros) onde os interesses da Sonaecom seriam compatibilizados com os restantes accionistas, eventualmente deixando o sector das telecomunicações de ser estratégico para o grupo Azevedo, também ainda não pode ser equacionada, pelo simples facto que existem nos accionistas da PTM grandes desconfianças relativamente ao grupo do Norte. “É preciso tempo e uma mudança de postura da Sonaecom para que a atitude possa mudar.”
Por outro lado, existe ainda a forte hostilidade política do grupo do Norte ao governo socialista e em particular ao primeiro-ministro. O facto de Belmiro de Azevedo ter dito publicamente que o Governo deve muito à Sonae levaria certamente o mercado a entender que se estava a fazer “pagamentos”, caso o Governo se empenhasse na fusão entre a PTM e o grupo do Norte. O excesso de linguagem cria agora embaraços que dificultam uma operação que todos os analistas consideram fazer sentido economicamente e que aumentaria o nível de concorrência no mercado das telecomunicações em Portugal.

Caixa BI aposta na compra da Cabovisão
pela Sonaecom

É neste contexto de dificuldades, que, aparentemente, o mercado não interiorizou em face da subida das cotações, que o Caixa BI acredita que é possível uma consolidação entre a Sonaecom e a Cabovisão, da empresa canadiana Cogeco. A casa de investimento coloca, assim, de lado a hipótese da empresa liderada por Ángelo Paupério vir a comprar a PT Multimédia.
Concretamente, na segunda feira, o Diário Económico noticiava que a Sonae estaria a estudar a corrida à PTM. O presidente da Soanecom, Ângelo Paupério disse que a empresa não vai abdicar do seu papel consolidador do mercado e que “se alguém interpretar esta declaração como uma intenção de comprar a PTM a qualquer preço, não está a perceber”. No entanto, o mesmo responsável adianta que “vai haver um momento em que vamos dizer se a PTM está, ou não está, nos projectos de crescimento da Soanecom”.
Numa nota de análise, João Fidalgo, analista do Caixa BI, afirma que “com o ‘spin-off’ da PTM, a Soanecom encontra-se muito atenta ao enquadramento competitivo que irá surgir, ao mesmo tempo que coloca pressão a que se assista a uma efectiva concorrência entre a operadora de cabo e a sua anterior holding, pelo que acreditamos que seja possível uma consolidação envolvendo a Sonaecom e a Cabovisão”.
Na opinião de João Fidalgo, “as recentes entrevistas por parte do management da Cogeco não excluem este nosso cenário”, considerando que o sector das Telecomunicações caminha no sentido da convergência de plataformas e tecnologias tornando imperativo que o agrupamento (“bundling”) de serviços exista nas ofertas comerciais das operadoras, facto que não tem sido premente até muito recentemente.”

BPI diz que Sonaecom não deverá pagar um prémio elevado pela PTM

Já do seu lado, os analistas do Banco BPI consideraram que a PT Multimédia se encontra a um valor mais razoável para ser adquirida pela Sonaecom, uma vez que o preço das suas acções registou uma correcção de 12% na semana passada, mas que, a concretizar-se a operação, a empresa liderada por Ângelo Paupério não deverá pagar um valor elevado pela ex-subsidiária do Grupo PT, já que não existem grandes sinergias a serem retiradas desta união.
Os analistas do BPI consideram que as declarações do CEO da Sonaecom Ângelo Paupério ao “Diário Económico” têm um impacto “Neutral” no título, uma vez que “estas posições da Sonaecom e da Sonae SGPS não são novas”.
Relativamente à possibilidade da compra da PTM pela Sonaecom, o BPI nota que “uma vez que não prevemos sinergias significativas deste negócio, também não esperamos que a Sonaecom pague um prémio elevado sobre o que pensamos ser a avaliação fundamental da PTM, nomeadamente o nosso preço-alvo de 10,15 euros para o fim de 2008”.
“Em adição, acreditamos que a sobreposição dos mercados da PTM e da Sonaecom deve ser bastante elevada, e por isso a combinação das duas empresas não deve permitir uma grande complementaridade entre os dois negócios”, nota.
Quanto ao desejo do Grupo Sonae de manter a sua presença no sector das Telecomunicações, o BPI nota que “Belmiro de Azevedo não se referiu especificamente à Sonaecom. Isto não exclui a possibilidade de manter a exposição [ao sector] através de outros veículos que não sejam a Sonaecom”.

Interessados terão de esperar até passar um ano sobre a última OPA

Porém, se alguém lançar uma oferta sobre a PT Multimédia imediatamente a seguir ao “spin-off” não será com certeza a Sonaecom, dizem alguns analistas. Só no caso de a empresa liderada por Ângelo Paupério ter chegado a acordo com os accionistas da PTM e obtido o consentimento da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) para a operação. Isto porque, de acordo com o Código dos Valores Mobiliários, artigo n.º 186, uma empresa só pode avançar com uma OPA “sobre os valores mobiliários pertencentes à mesma categoria dos que foram objecto de oferta” dozes meses após o desfecho da primeira oferta – neste caso 2 de Março de 2008. Apesar da OPA ter sido lançada sobre a casa-mãe Portugal Telecom (PT) tinha como contrapartida, caso tivesse sucesso, o lançamento de uma outra sobre a PTM – uma vez que a PT ainda detém mais de 50% da PTM. Logo estava implícito que a segunda OPA tinha que acontecer se a primeira se concretizasse.
A Sonaecom ainda não decidiu se o seu futuro passa pela PTM e, a passar, qual é a melhor forma de aproximação, noticiava ainda o “Diário Económico”. Enquanto isso outros “players” continuam silenciosos, mas atentos, deixando evidente que o futuro da dona da TV Cabo está longe da clarificação.
Embora o momento não seja comparável, é preciso não esquecer que, durante a OPA, houve manifestações de interesse na compra da rede que viesse a ser alienada pela Sonaecom, caso esta comprasse a PT. Na ocasião, há cerca de um ano, Abel Mateus, presidente da Autoridade da Concorrência, obteve respostas da Vodafone, Cabovisão, SGC – empresa de João Pereira Coutinho -, Cofina e Radiomóvel. Ao questionário da AdC também responderam os fundos de capital de risco Silver Lake, Apollo e BC Partners. A generalidade das entidades consideravam a PTM – rede de cabo – mais facilmente transaccionável que a rede de cobre.
Agora, as mesmas entidades, ou tomam posições accionistas na PTM, para se posicionarem, como é o caso da Cofina, ou preferem não se pronunciar, como a Vodafone e a SGC. Outras ainda não descartam a possibilidade da compra mas garantem que o momento não é oportuno.
Seja qual for a intenção é preciso esperar pelo “spin-off”, que deverá estar concluído no final do mês de Outubro. Passado este obstáculo há outros. Ao lançar uma OPA o potencial comprador terá sempre que contar com uma empresa com estatutos blindados a 10% do capital. Tal como aconteceu na PT, só o voto favorável dos accionistas permite levantar a blindagem que dá acesso ao controlo da empresa. Além disso, não há “golden share” do Estado, mas há uma posição de mais de 15% da CGD, que claramente terá uma palavra a dizer em todo o processo.

Sonaecom funde Optimus com Novis no início de Novembro

Entretanto, a Sonaecom vai proceder à fusão destas duas empresas numa só, de forma a conseguir “poupanças substanciais nos investimentos futuros” ao nível das infra-estruturas de transmissão e nas “despesas de funcionamento”, que enfrenta pelo facto de ter “duas estruturas jurídicas, sem que existam quaisquer razões que justifiquem a manutenção da actual situação”, segundo explicou a empresa à Anacom.
Antes de tornar efectiva esta operação, o que acontecerá a 1 de Novembro, a Sonaecom, única accionista da Optimus e da Novis, vai “limpar” os saldos contabilísticos das duas para que as contas da nova empresa arranquem do zero. Uma forma de preparar a empresa par a futura fusão?

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