2020/02/19

O novo paradigma tecnológico e o aniversário do Governopor Rui Teixeira Santos

Qual é a guerra actual? É a guerra digital. O novo paradigma tecnológico, introduzido pela guerra americana, torna inevitável a sua vitória, seja qual for o número de mortos.

Não se trata de uma doutrina. Trata-se de uma realidade, igual àquela que o Homem do Bronze enfrentou quando começou a Idade do Ferro.

Não foi só por audácia que os 300 espartanos, comandados pelo Rei Leónidas, travaram os 260 mil persas de Xerxes. Foi sobretudo porque a tecnologia e o armamento, as lanças de ferro e os escudos maiores dos Espartanos eram invencíveis, perante as espadas de cobre e as defesas dos persas.

Quem não perceber isto, não percebe o que está a acontecer no mundo e será julgado pela história como autor de políticas miseráveis que contribuíram não só para a ruína da Europa, mas para a sua total e definitiva irrelevância a nível internacional.

Fica para sempre provado que são estes políticos e economistas pouco avisados, que nunca foram à guerra e que nada sabem de História da Humanidade, que mataram a Europa e insensatamente a estão a conduzir para um beco de escravidão sem sentido.

O problema dos nossos economistas é que não percebem que as restantes variáveis não são constantes como vem nos livros. Não percebem que quando se dá um salto tecnológico, está-se a dar um salto sociopolítico e económico.

E como a Europa não é mais que um grande Portugal, o mesmo problema só se repete em escala maior. Por amor de Deus, calem o doutor Cavaco Silva, prendam Teodora Cardoso, demitam a Ferreira Leite e não deixem Miguel Beleza falar. A brigada do reumático continua a não perceber o que está a acontecer e na linha dos contabilistas de Bruxelas, como o inacreditável Pedro Solbes, todos os dias se enganam nas suas previsões e com a mesma cara apresentam novas previsões.

Devia haver uma Inquisição para prender as bruxas do nosso tempo. Cavaco e Ferreira Leite conduziram Portugal a uma crise económica porque não percebiam em 1992 nada de política cambial. Agora alegremente agravam a situação de Portugal, porque não percebem nada do efeito da tecnologia na guerra, na economia e, já a seguir, na política monetária, com a moeda digital global.

Cavaco não percebeu

Cavaco Silva não percebeu que tem de haver dinheiro para armas, porque sem armas não há nada mais. Ferreira Leite não percebeu por que é que o Governo ao fim de um ano não fez uma única reforma e o pouco que fez em finanças públicas só contribuiu para aumentar a fuga aos impostos e pesar na recessão e acelerar o aumento do desemprego.

Estamos todos de acordo que são necessárias reformas estruturais e contenção nos gastos públicos e redução das despesas do Estado. Mas, ao contrário do que diz Cavaco e Ferreira Leite, nada disso se faz nesta conjuntura de recessão.

Um bom governo acautelaria que a recessão fosse evitada a todo o custo, que os efeitos em termos de desemprego fossem reduzidos, até por causa dos impactos nas contas da Segurança Social, que nesta conjuntura não se provocasse choques na função pública e perseguições aos empresários, como se o não cumprimento por parte de alguns fosse a matriz do comportamento de todos.

Ferreira Leite não percebeu a tempo a crise que aí vinha e por isso o País paga agora a sua incompetência.

Do mesmo modo que a Europa não percebe, agora, que tem que apoiar o senhor Colin Powell, sob o risco de Dick Cheney e Donald Rumsfeld prosseguirem, sem sequer nos ouvir. E têm toda a razão: porque tem uma superioridade tecnológica, embora lhes falte as boas maneiras.

E nisso erraram os novos falcões do Pentágono. Porque, certos da superioridade do resultado, descuraram a guerra psicológica e o controlo dos media, onde os iraquianos têm estado a ganhar a todos os títulos, acentuando o antiamericanismo que já existia no mundo árabe.

Os ingleses, neste processo, têm sido notáveis, até na moderação dos impulsos imperialistas americanos. Aznar e Barroso surpreendentemente têm estado bem. Já Maquiavel ensinava que mais vale estar dentro do processo do que ser neutral, como quer a esquerda europeia, retrógrada e romântica, sem perceber que a questão não é de belicismo, mas de revolução tecnológica, que necessariamente cria uma nova guerra, uma nova política e um novo contexto económico.

O pilar europeu

Que as opiniões públicas europeias estejam contra a guerra, já era de esperar. Mas, do mesmo modo que o aprofundamento da União Europeia é um imperativo de Segurança e de Defesa, que aliás a América sempre apoiou, na lógica do pilar europeu da Aliança Atlântica, também o claro alinhamento com os EUA nos propósitos de segurança no Médio Oriente têm que ser um objectivo.

A Europa, que não tem uma guerra há muito tempo, está esquecida que quem ganha a guerra tem direito ao saque. Portanto, não vale a pena lágrimas de crocodilo ou orações e missas encomendadas por tal propósito. Os iraquianos terão que pagar o esforço de guerra anglo-americana que, obviamente, vão beneficiar com isso, passando militarmente para a era tecnológica seguinte.

O que lamentamos é que, em Portugal, os nossos generais e almirantes queiram comprar equipamento da Idade da Pedra em segunda-mão aos EUA, não percebendo que, para o esforço de guerra, vale a pena os países endividarem-se, até porque isso beneficiará as gerações futuras.

É, aliás, um debate que costumamos ter em Economia Política.

Uma das grandes vantagens de Portugal, hoje, é ter à frente do Governo um homem da Ciência Política, que esteve nos EUA e que não se deixou contaminar pelas velhas doutrinas conservadoras dos generais que defendem os exércitos pouco flexíveis, enormes e convencionais.

A nova doutrina americana é contrária à europeia tradicional: exércitos profissionais, rápidos e com capacidade de adaptação ao terreno, apostados na precisão da guerra digital, cuja margem de erro é de apenas 2%. Uma margem suficiente para Saddam ter as suas imagens na Al Jezzira, mas insuficiente para colocar em causa a limpeza da ocupação.

Ora isto é algo que Barroso pode entender, mas que, na sua “entourage”, até no seu gabinete, poucos percebem.

Para Cavaco ou Ferreira Leite são verdadeiros símbolos isotéricos de outro mundo.

Perceber a tecnologia é como que “receber a luz”: ou se está nessa, ou não se entende. É esta a lógica dos jovens, mas é também a lógica das novas igrejas. É este o “admirável novo mundo da América”, que a Europa afrancesada ou a Alemanha provinciana desconfiam, porque não percebem.

A cruzada da América

A América neoconservadora assume o direito à sua cruzada. E se a Síria ou o Irão se colocarem a jeito, alimentando a guerra no Iraque, como outros antes fizeram na Coreia, que se desenganem, pois a história terá outro fim, dada a superioridade estratégica da guerra digital americana, e só estarão a acelerar o inevitável processo de controlo e destruição das armas nucleares do Irão e das armas de destruição maciça da Síria.

E de pouco ou nada vale dizer, mesmo Blair a braços com a sua crise de popularidade interna, que não se irá com a América ao Irão ou à Síria, à Líbia ou à Coreia do Norte. Porque a América, até ao próximo ciclo eleitoral (Novembro de 2004), vai ter como prioridade estratégica eliminar os perigos do terrorismo e provavelmente criar as condições económicas para acabar com a economia paralela que financia o terrorismo, a corrupção e o tráfico de armas e de droga.

E, neste momento, se quisermos participar no processo temos que ir em socorro de Powell, em vez de fazermos manifestações. Porque, como disse, à guerra digital se seguirá a moeda digital, muito mais regulamentada, muito mais controlada por um poder central, que será provavelmente o da FED, retirando-nos definitivamente qualquer possibilidade de política monetária, tornando impossível a economia paralela e a fuga ao fisco.

E porque a moeda é uma questão de fidúcia na autoridade que a gere, obviamente o mundo confiará muito mais na América da guerra digital e da vitória, que na Europa das manifestações e do discurso pacifista ou da neutralidade.

Liberal dentro de fronteiras, a América imperial é absolutamente conservadora internacionalmente.

Exactamente ao contrário dos pacifistas europeus, que são conservadores nas contas públicas e nas políticas e depois irresponsavelmente, liberais nas relações internacionais.

O discurso nacionalista

No meio disto, que espaço resta à governação dos países, ameaçados pela recessão, dirigidos por incompetentes contabilistas de segunda classe, e em face da globalização com a sua independência nacional e soberania ameaçadas?

Obviamente, resta o discurso ideológico da afirmação dos valores constantes da história, como referencial cabalístico de uma necessidade, qual desígnio, também ele divino, porque havemos de ser nós, os portugueses, senhores do nosso destino, protegidos pela mãe de Deus, Nossa Senhora e, depois, rainha de Portugal.

Neste período de indecisão e de guerra, vai Durão Barroso a Atoleiros (Fronteira, Portalegre), por ocasião do primeiro aniversário do Governo, celebrar o mito e reafirmar que hão-de os portugueses no mundo governar-se a si mesmos, pois ninguém mais que os próprios lhes garante o bom governo.

Porque, ao fim do ano de governo da Convergência Democrática, a recessão é maior, as falências, o desemprego e a dívida pública dispararam, a confiança e o consumo caíram, as despesas públicas aumentaram, os impostos subiram, mas as receitas fiscais desceram, fazendo subir o défice público, os espanhóis tomaram mais conta dos nossos centros de decisão (até o BCP está sob ameaça do BBVA) e nenhuma das reformas estruturais foi feita (à excepção dos genéricos), a Durão Barroso resta a reafirmação da pátria, e o bom senso aconselharia a que este aniversário passasse despercebido.

Porque a Portugal não sobra margem para posição diversa da espanhola, a Barroso não resta mais espaço que o da afirmação da Nação. O discurso ideológico cobre a realidade, mostrando que Barroso intui o espaço que lhe resta nesta conjuntura difícil, sabendo bem que Portugal só recupera, se os outros recuperarem também.

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