Cavaquistas em torno de Negrão e Marques Mendes na campanha

Esta semana, Pedro Santana Lopes fez uma coisa nunca vista nos anais social-democratas: irrompeu, quase abruptamente, pela Assembleia Distrital de Lisboa, causando surpresa geral para muitos dos presentes e embaraçando notoriamente Paula Teixeira da Cruz. Mas o que disse parece resultar apenas em fogos-fátuos, sem consequências políticas imediatas. O ex-líder e antigo primeiro-ministro vai apenas cumprindo a promessa de “andar por aí”, já que, inclusive entre os seus apoiantes, se pensa que “a sua travessa no deserto ainda não terminou. E continuará pelo menos até depois de realizadas as eleições de 2009”, no dizer de um antigo governante laranja.

Santana Lopes estava a ser desafiado, pelos mais diversos modos, para “fazer este número”. Colheu os aplausos de meia sala, perguntou por que é que “a Câmara tinha caído?” e exigiu que o PSD tornasse muito claras as responsabilidades que o PS tem no actual endividamento da Câmara de Lisboa e formulou votos para que Negrão ganhasse este combate para que ele se disponibilizou.
Os adversários internos da actual liderança distrital, nomeadamente Helena Lopes da Costa, defenderam que nenhum dos actuais vereadores cessantes do PSD deviam integrar a lista de Fernando Negrão à Câmara de Lisboa.
Ideia essa que está a fazer o seu caminho. Alguns dirigentes próximos de Marques Mendes pensam a mesma coisa, até porque António Costa, do PS, também deu sinais de querer fazer uma ruptura com os cessantes dirigentes socialistas na maior autarquia do País.
As informações mais recentes indicam que Fernando Negrão só apresentará publicamente a lista daqui a alguns dias e sobretudo depois de conhecida aquela que Carmona Rodrigues vai apresentar. Para já apenas parece certa, como número dois da lista, a presença do eng.º Salter Cid, antigo secretário de Estado e presidente da Companhia das Lezírias. Ontem, o candidato do PSD esteve, com Marques Mendes, num jantar que contou com mais de meio milhar de pessoas e que decorria, ainda sem discursos, à hora do encerramento desta edição. O que é curioso é que este jantar foi promovido no populoso Bairro de Benfica, por Sérgio Lipari Pinto, que é um dos vereadores cessantes da Câmara de Lisboa.

Cotação de Negrão sobe

Ao longo desta semana a “cotação” interna de Fernando Negrão foi subindo dentro do Partido Social Democrata, mesmo quando alguns dirigentes, mais pessimistas, vão fazendo prognósticos muito negativos acerca dos resultados que serão obtidos pela candidatura de Negrão. Esta semana, Manuela Ferreira Leite, aparentemente sem nenhum esforço e até com voluntarismo, apareceu publicamente num almoço de apoio ao candidato. Uma antiga deputada, que também exerceu funções governativas, disse ao SEMANÁRIO que Negrão é um candidato com grandes qualidades políticas, “sabe o que quer e do que fala”,embora precise de ter alguma cautela na linguagem para efeitos de debate político.
A Comissão de Honra, que esta a ser constituída por Fernando Negrão, também acolhe uma constelação de notáveis social-democratas, nomeadamente de antigos ministros, nomeadamente dos governos de Cavaco Silva, de Durão Barroso e até de Santana Lopes. Como são os casos de Ferreira do Amaral, Eduardo Catroga, Figueiredo Lopes, Álvaro Barreto, Luís Filipe Pereira, Sevinate Pinto e Pedro Lynce. Considerado um dos mais importantes “senadores” do PSD (embora sem a importância e projecção de outros tempos, mas figura muito respeitada), Mota Amaral também empresta o seu nome no apoio a Fernando Negrão.

Muitos candidatos e férias
baralham todas as previsões

Os dirigentes do PSD, cada qual com sua opinião, sobre as eleições de 15 de Julho. O SEMANÁRIO ouviu apoiantes de Marques Mendes, dirigentes afectos a Durão Barroso (que são um grupo poderoso e discreto, na actual conjuntura, e alguns sem terem de momento consonância de posições) a Santana Lopes, personalidades ligadas a Cavaco Silva, muitos antigos membros do Governo e algumas pessoas retiradas da política, mas que continuam interessadas pelo evoluir das múltiplas conjunturas.
Um santanista confrontou o SEMANÁRIO com a seguinte questão: “Se antes das eleições que opuseram o então chefe do Governo e o eng.º Sócrates alguém apontasse para uma vitória clara e inequívoca de Santana Lopes, como é que reagiria?”… Isto para dizer que, em sua opinião, “o candidato Fernando Negrão vai sofrer uma copiosa derrota”.No entanto, noutros sectores foi possível vislumbrar alguma esperança num resultado honroso (“perder por escassa margem”) ou mesmo numa vitória do PSD.
Para muitos, o efeito Carmona Rodrigues (embora alguns pensem que ela vai ser “devastadora” para a candidatura social-democrata) é compensada pelo efeito que a candidatura de Helena Roseta tem na esquerda e em particular na candidatura de António Costa.
Muitas das fontes do “SEMANÁRIO” pensam que o CDS não terá a expressão que teve Maria José Nogueira Pinto e entendem até que o CDS corre o risco de não ser eleito e que isso beneficiará o PSD.
Uma incógnita acerca dos resultados de 15 de Julho foi colocada por muitos e que tem como fundamento o seguinte: “A partir da controvérsia gerada em torno da licenciatura de José Sócrates, e da actuação desastrosa de alguns ministros, o Governo não só já perdeu o estado de graça, como se tem vindo a degradar a um ritmo inimaginável há uns tempos atrás. Quando Jorge Sampaio afirmou esta semana que as eleições de Lisboa não têm significado especial, é porque os socialistas receiam que isso pode vir a acontecer. E pode mesmo acontecer se, até 15 de Julho, essa imagem de degradação do estado do Governo persistir e não for estancada. Por outro lado, António Costa tem uma imagem negativa no poder autárquico, já que foi ele o rosto de medidas legislativas que diminuem receitas camarárias. Só em Lisboa fala-se em mais de 30 milhões de euros, cerca de seis milhões de contos, na moeda antiga, verba bastante considerável.
Acresce que a existência de uma dúzia de candidaturas à presidência da Câmara Municipal de Lisboa vai impor uma “enormíssima” dispersão de votos.
“Imaginemos – diz um adversário interno de Marques Mendes, mas optimista quanto a um bom resultado de Fernando Negrão – um debate com todos os candidatos, mesmo sem tempo limite. Seria uma verdadeira Torre de Babel.
O PSD, aliás, deve precaver-se contra algumas armadilhas que lhe podem ser montadas durante a campanha, nomeadamente na comunicação social. Fernando Negrão deve insistir por debates a dois, entre as forças mais representativas (nomeadamente com o PS e as candidaturas independentes, a que as sondagens atribuem boa votação) deve estar nalgum debate que, porventura, reúna todos os candidatos, mas não deve confrontar-se com o Bloco de Esquerda, com o Partido da Terra ou com o MRPP…
A dispersão de votos, a abstenção e a penetração do eleitorado das candidaturas independentes de Carmona Rodrigues e de Helena Roseta fazem das eleições intercalares de 15 de Julho o acto eleitoral mais imprevisível de todos quanto se realizaram até agora depois do 25 de Abril. Quem diria…

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