O plano Gates: um país estrangeiradopor Paulo Gaião

Portugal parece uma América dos pequeninos, onde
o inglês é dominante, Bill Gates é imperador e o céu
é o limite, como disse Sócrates, lembrando o filme “Top Gun”

A “carreirinha” dos ministros a colocarem a assinatura em série nos protocolos com Bill Gates arrisca-se a ficar na história do país como o acto mais pindérico desde o 25 de Abril. George Orwell era capaz de fazer um livro magnífico com a imagem risívelde vários ministros portugueses a assinarem em série um contrato com Bill Gates. E Charlie Chaplin talvez fizesse um “remake” do seu “Mundo Moderno”.
Por detrás de muitas medidas bem-vindas de Sócrates, começam a descobrir-se coisas muito pouco agradáveis. Como se tivesse que haver um preço a pagar por estarmos a ser razoavelmente bem governados.
A coberto da crise, o país está a vender a sua dignidade. Há dois meses, já tinha parecido estranho, a forma subalterna como Manuel Pinho andou em bolandas com a AutoEuropa e pareceu um auxiliar do dono da ENI. Há três meses também houve qualquer coisa de estranho no ar quando a apresentação do projecto da Ota, uma obra de Estado, de grande envergadura foi sustentado por dois funcionários bancários. Hoje, foi a “carreirinha” dos ministros a colocarem a assinatura em “série” nos protocolos com Bill Gates.
Jorge Sampaio, com o seu habitual conformismo, também embalou nas homenagens a Bill Gates, deixando o Estado ainda mais ajoelhado ao dono da Microsoft. Até se desconfia que o Presidente da República pode ter segredado a Bill Gates que estava a ter direito ao seu minuto de fama… com o homem mais rico do mundo. O que se passa com estes socialistas que, ano após ano, governo após governo, não perdem o fascínio pelo dinheiro? Caindo em situações tristíssimas. Abdicando, de mão beijada, da soberania portuguesa. Bill Gates vai formar as polícias e o até o sector de informações, o que pode colidir com os interesses estratégicos do país.
Há qualquer coisa de anormal na obessão de Sócrates com o plano tecnológico. Sem se interrogar, sequer, se ao fim de trinta anos de revolução informática em curso, um novo paradigma tecnológico não está prestes a surgir. Sem avaliar as reais necessidades do país, não ao nível da cibernáutica e do instrumento que ela representa, mas ao nível do que realmente interessa, o fundo da questão, o conhecimento, humanístico e científico aplicados, seja por que via for. Na verdade, de que serve dominar um computador, se ele depois não é aproveitado na valorização do saber das pessoas? Sem questionar, ainda, que meio Portugal já fez cursos de informática há vinte anos, quando o país utilizou os fundos da CEE e nem por isso Portugal saiu da crise e os portugueses deram um salto qualitativo. Que ilusão e panaceia são estas do plano tecnológico? Quem é que Sócrates quer enganar? Sem questionar, também, as razões porque, seis anos depois, a Agenda de Lisboa – que aceitou o repto de colocar a Europa na vanguarda mundial do e-governement – não foi ainda desenvolvida. Porque será que o entusiasmo com a era da informação é mais de Portugal do que dos outros? E porque será que tanto Sócrates como António Guterres têm esta fixação com os computadores?
Mário Soares dizia há um mês que Sócrates era o anti-Guterres. Pode ser. Mas numa coisa, Sócrates é parecido com Guterres: ambos adoram Bill Gates. Curiosamente, as três vezes que o dono da Microsoft esteve em Portugal, foi sempre debaixo da protecção socialista. Porque será?
Por outro lado, nada se sabe do conteúdo dos contratos assinados com Bill Gates, dos encargos e contrapartidas para ambas as partes, o que traduz uma falta de transparência que começa a ser regra neste governo socialista. Sobre o aeroporto da Ota também tardou a serem conhecidos os estudos. E quando o foram, revelaram-se frágeis e insuficientes, ao ponto de Sócrates dizer quem quem tivesse estudos contra a localização escolhida para a Ota que os apresentasse.
Para além do plano tecnológico e de Bill Gates, também há qualquer coisa de profundamente anormal com a obsessão de Sócrates com o ensino do inglês nas escolas básicas. À semelhança do campo informático, não se questiona a importância na aprendizagem da língua mais falada do mundo. O que se questiona é a forma como Sócrates acredita, quase com fé religiosa, que o inglês é o futuro. A exemplo da informática, estamos perante um simples instrumento. Por outro lado, quem garante a Sócrates que não é o chinês a língua do futuro? Ou o espanhol? Esta semana, perante uma criança irrepreensível no inglês, Sócrates anunciou-lhe do seu oráculo que aquele conhecimebto se ia revelar fundamental para toda a sua vida. Estamos a exagerar? Vejam-se as imagens.
Em conclusão, Portugal parece uma América dos pequeninos, onde o inglês é dominante, Bill Gates é imperador e o céu é o limite, como disse Sócrates, lembrando o filme “Top Gun”.
Julgava-se que José Sócrates era um homem de mentalidade pouco portuguesa, um moderno cidadão do mundo tecnológico, sem traumas e fantasmas do passado. Ora, com o plano Gates, Sócrates denuncia-se.
O primeiro-ministro é, afinal, um homem com marcas profundas. Que alia a vanguarda tecnológica às raízes profundas do provincianismo e messianismo lusitano.
Não podia haver homem melhor escolhido do que Bill Gates para cumprir o papel do Eleito. Não vem envolto em nevoeiro mas em bites. A diferença é que no reino da Microsoft, não há quimeras, há software que vale cifrões.
Por outro lado, Sócrates tem outra marca muito portuguesa, que caracterizou várias camadas de elites iluminadas: o pensamento de que o que é estrangeiro é bom. Que abriu a porta do país, em várias épocas, a destacados estrangeiros. Especialmente, no século XVIII e XIX, ao nível do exército, um sector então na crista da onda (tal como hoje a tecnologia informática), que se acreditava não poder ser devidamente reorganizado por portugueses. Com prejuízo evidente para a dignidade do Estado e independência nacional, contrataram-se, então, sumidades militares tanto em França, como na Inglaterra e Alemanha. Como hoje com Bill Gates.

O síndrome do PRD. Manuel Alegre está a seguir a passos largos o caminho do extinto PRD do general Eanes. Está enebriado com os votos e até já tem o caso de um estranho atestado médico em que parece que quem decide se está doente ou não é Manuel Alegre. Para a Assembleia da República e para a Comissão Nacional do PS, o atestado funciona. Para o jantar da Trindade, o atestado não se aplica e até dá direito a copo de whisky. Foi exactamente por coisas deste género que o PRD se afundou e a sua base de apoio regressou ao seu local de origem.|

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