Alentejo em movimento

A temporada de 2006 de dança em Évora é preenchida por uma programação intensa e de grande qualidade em grande parte apresentada pelo Espaço do Tempo (de Montemor-o-Novo). O Espaço do Tempo, sob a direcção de Rui Horta, e em co-produção com o Centro Dramátrico de Évora, com organização da Câmara Municipal de Évora, apresentam este mês dois espectáculos imperdíveis.

“Berna, n.º 49 Kramgasse” é um espectáculo de Cláudia Nóvoa e será apresentado nos dias 10 e 11 Fevereiro, no Espaço do Tempo em Montemor-o-Novo. Cláudia Nóvoa fazia parte do Ballet Gulbenkian e alguns dos espectáculos que lhe deram mais prazer interpretar foram “Jardim Cerrado”, de Nacho Duato, e “Old Children”, de Mats Ek. A bailarina, depois de “Solidão aos Molhos”, regressa à criação, em nome próprio, com um elenco de cúmplices que partilharam a despedida daquela companhia de dança.
Criou o espectáculo, agora apresentado, em 2005, ano mundial da física. Ao ler alguns jornais, Cláudia Nóvoa sentiu algum interesse em relação a um pormenor da morte de Albert Einstein. Este pormenor foi o facto do patologista que lhe realizou a autópsia lhe tirar o cérebro para melhor o estudar, guardou pedaços em formol, andando fugido durante mais de 40 anos. Foi assim que a coreógrafa assumiu o desafio de “entrar no cérebro deste cientista famoso” e começou a sua própria ciência. Estudou e passou a conhecer melhor os responsáveis de grandes descobertas da humanidade e criou um espectáculo, que se pode dizer que é fruto do fascínio da evolução do conhecimento científico. O espectáculo foi construído em residência artística no Convento da Saudade, em Montemor-o-Novo e esta será a sua primeira apresentação, neste novo espaço de espectáculos.
Na base, o comportamento do átomo, a grandeza do cosmos, a relatividade do tempo, as forças de interacção. A viagem começou com Einstein, são tratados os conceitos de espaço, tempo, velocidade, luz, massa e energia. O nome “Berna, n.º 49 Kramgasse” nasce da importância da residência em Berna, onde o cidadão suíço pensou e elaborou a teoria da relatividade. Isto aconteceu em 1905, há 100 anos. Hoje essa casa é um museu muito visitado e Cláudia Nóvoa é uma bailarina, que interpreta o papel de coreógrafa e cria “Berna, n.º 49 Kramgrase”. A “performance” conta com a interpretação da própria coreógrafa, Romeu Runa, Sandra Rosado e Pedro Mendes. O desenho de luz é de Paulo Graça, a música de Mário Franco e a fotografia de António Rebolo.
O espectáculo vive da energia e do movimento, assumindo um interesse pelo lado poético da matéria. Propõe-se a olhar de uma forma quase nua sobre a expressividade do corpo, sem recurso a grandes tecnologias.
No fim-de-semana seguinte, “Obstrucsong” estará no Teatro Municipal Garcia Resende, em Évora, depois de ter passado por Praga, Berna e Bruxelas, além da Dinamarca, Polónia, entre outras cidades. O espectáculo está em digressão desde Maio de 2005. Coreografado por Palle Granhoj, um dos mais prolíficos e criativos coreógrafos da cena dinamarquesa e interpretado pela Companhia Gtanhoj Dans (Dinamarca), esta é uma performance criada em cooperação com os intérpretes: Aline Rodriguez, Anne Eisensee, Daila Chaimsky, Dorte Petersen, Gaute Grimeland, Kristoffe Pedersen e Jannik Nielsen. Palle Granhoj dirige a peça num tapete de lã. Nas suas palavras, às vezes quando ouves música, um simples acorde pode ser suficiente para nos pôr com uma determinada disposição. “Obstrucsong” é a sua tentativa de deixar uma dança simples e física, uma canção em forma de ritual, dar à audiência a sensação de que falta algo. O que falta é explorado neste espectáculo.
O espaço puro enquadra o essencial do seu método: a obstrução técnica. Segundo o coreógrafo, grelhas e obstáculos são limitativas para os intérpretes, deixando surgir novas possibilidades. It was complex… I just need it to be really simple!
A fonte de luz primária é a lâmpada e os engenhos simples, caixas de lata, tampas e varões flexíveis fazem a moldura do espaço de dança e do palco. As línguas usadas neste espectáculo são o volapuk e o inglês, fazendo com que haja uma exploração diversa da linguagem. A voz dos intérpretes é o foco. Todos os sons se baseiam na voz natural e acústica. Da respiração dos intérpretes surgem sons estranhos e curiosidades que crescem através dos sussurros, até se tornarem num canto e em gritos. Segundo a crítica finlandesa: they sing like an angle choire.
O design é de Per Victor. “La Libre Belgique” considera a ideia sedutora, o conceito vertiginoso e a entrega é feita com humor, precisão e luminosidade. Os arranjos musicais são de Laila Skovmand. Esta é uma performance de uma companhia com um curriculum longo e que é uma lufada de ar fresco na dança moderna. Subirá ao palco deste teatro na cidade de Évora nos dias 17 e 18 de Fevereiro às 21h30.

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