2020/11/30

O problema espanholpor Paulo Gaião

Se tívessemos sido menos obcecados com a Europa
e mais preocupados com o interesse nacional teríamos aplicado melhor os fundos europeus e não estariamos, como estamos hoje, cada vez mais nas mãos dos espanhóis

Um dos maiores problemas portugueses com Espanha é considerar-se, por via de um discurso moderno contra fantasmas passados, que a entrada dos nossos vizinhos nos negócios estratégicos lusos é perfeitamente natural. Outro problema, ainda maior, é argumentar que tudo faz parte do quadro neo-liberal da economia e que a prova que temos uma atitude preconceituosa contra os espanhóis é não entrarmos em dramatizações nacionalistas quando os franceses, os ingleses ou os alemães compram posições em Portugal. Estas duas equações só aumentam, por um lado, a gravidade do nosso problema com Espanha, iludindo-nos com razões que parecem racionais e lógicas, mas que, vistas num contexto global, das nossas características como Estado, são perigosamente falaciosas. Por outro lado, diminuem, ainda mais, as nossas defesas e a nossa capacidade de reacção perante Madrid. Até podemos sentir que está qualquer coisa profundamente errada na invasão económica espanhola e termos vontade de agir mas a ideia de estarmos a ser provincianos e pormos a nu os nossos complexos, face à história passada, ainda nos diminui mais. Se, por hipótese, tivesse que ser encontrado o autor desta ideia do complexo português com Espanha era possível dizer que ele era espanhol e que tinha tido por objectivo enfraquecer ainda mais os portugueses ao criar uma espécie de duplo complexo: o complexo histórico e o complexo de ter o complexo da dominação espanhola, quando Espanha só nos quer bem.
Com um Estado português forte e linhas estratégicas muito ricas e diversificadas, o investimento espanhol em Portugal seria um benefício que seria avaliado apenas em termos puramente económicos, dificilmente se extrapolando para o campo da influência e dominação política. Quando a França investe na Grã-Bretanha ou vice-versa, avalia-se basicamente o investimento por si, sem o ver na perspectiva de invasão gaulesa ou anglo-saxónica. Isto é assim não só por razões históricas, no quadro de duas grandes potências europeias mas pelo facto de ambos os países serem muito ciosos dos seus interesses estratégicos (curiosamente, ora a França, ora a Inglaterra, sempre protegeram Portugal contra os anseios expansionistas de Madrid, perigosos por alterarem o equilíbrio europeu). É caso para pegar na imagem popular muito conhecida e perguntar: vem primeiro o ovo ou a galinha? A França e a Inglaterra são duas potências europeias porque defendem os seus interesses estratégicos ou defendem os seus interesses estratégicos porque são duas grandes potências? No meio pode estar a virtude, o que dá um grande peso ao factor que interessa trazer à colação no caso português. Para se ser uma potência é, pelo menos, preciso defender os nossos interesses estratégicos. Ora , Portugal, não é um Estado forte e não tem linhas estratégicas que o engradeçam, em boa medida porque não tem sabido ter um sentido estratégico, do que é vital para os portugueses e para o país.
Entrar na Europa foi, obviamente, uma solução acertada (e inevitável) mas o país perdeu-se na obsessão europeia, talvez aqui, o reflexo de um verdadeiro complexo, derivado do “orgulhasamente sós” de Salazar, da política nacionalista e ultramarina do antigo regime . Com a revolução do 25 de Abril, quisemos fazer uma ruptura com o passado e não admitimos que as questões do antigamente pudessem, sequer, ser reflectidas e sintetizadas em novas soluções. O que se passou no 25 de Abril é, no entanto, compreensível. A culpa maior não foi dos que fizeram a Revolução e, com o coração ao pé da boca, não tiveram sentido estratégico na governação. A culpa maior foi dos que, com a alma a definhar, deixaram o Estado apodrecer antes da revolução, seguindo soluções que, a coberto de serem aplicadas para servir o interesse nacional, o prejudicaram grandemente. Contudo, para o que interessa, a culpa destes últimos não diminui a culpa dos primeiros. Nos início dos anos de 80 houve visionários que alertaram para a necessidade de Portugal não viver apenas na Europa e para a Europa. Por exemplo, em 1981, o diagnóstico do saudoso Professor Barradas de Carvalho era de que a integração europeia de Portugal conduziria, inevitavelmente, à iberização do país. Repare-se que ninguém defendeu que Portugal não entrasse na CEE, mas sim que era preciso, prevendo a integração ibérica, com comando de Madrid face à envergadura de Espanha (em boa medida pelo valor acrescentado da Catalunha e do País Basco no mosaico espanhol) fazer outras apostas, naturamente atlantistas, viradas para o Brasil e a América Latina (fazendo no mundo hispânico, o que a Espanha está hoje a fazer em África) e para os países africanos de expressão portuguesa (ainda que face à instabilidade africana, o Brasil fosse, de facto, a grande aposta em termos estratégicos, como ainda nunca se fez). Com esta diversidade, tirávamos partido da nossa posição no Brasil e em Àfrica para a utilizar, precisamente, na Europa, ajudando também estes “países irmãos” a terem alguma influência junto de Bruxelas. Se fosse preciso (e certamente que o teria sido), este esforço teria de ser feito à custa do nosso europeísmo, tornando-nos eurocépticos, como faz a Grã-Bretanha. Perguntar-se-à, naturalmente, que um país recém-aderente que sorveu fundos estruturais não se podia dar ao luxo de ser eurocéptico? Pode ser. Mas, como diz o provérbio, quanto mais uma pessoa se agacha, mais se vê o rabo. Na verdade, de que tem servido Portugal ser exemplar em comportamento europeu, se a economia do país está de pantanas? Pode, também, naturalmente, dizer-se que Portugal está na situação em que está porque não soube aproveitar os fundos europeus. Também é verdade. Mas também é, seguramente, verdade que teríamos aplicado melhor os fundos estruturais se tívesssemos sido mais ousados, mais originais e muito menos bem-comportados e agradecidos. Enfim, teríamos, aproveitado muito melhor os fundos da UE se tivéssemos sido menos obecados com a Europa e pensássemos mais em termos de interesse estratégico nacional. E ao termos aproveitado melhor os fundos, com o vector do interesse nacional, não estaríamos, certamente, como estamos hoje, cada vez mais nas mãos dos espanhóis.

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