2022/11/27

O tempo anormalpor Jorge Ferreira

Os campos agonizam com uma seca de frio e de Inverno e a política agoniza com uma seca de dignidade e de interesse

Portugal regressou ao tempo da Campanha Alegre. Os campos agonizam com uma seca de frio e de Inverno e a política agoniza com uma seca de dignidade e de interesse, com a cumplicidade do “star system”.
Seca de ideias: Santana Lopes e Sócrates fogem das ideias como o diabo foge da cruz. A tirania do ultramarketing político moderno pode ser a perversão da essência da democracia, que é o confronto e o debate de ideias. A ideia é que, quanto menos falar do concreto, mais votos tem.
Constituição, Constituição Europeia, referendo, política orçamental, política económica, Pacto de Estabilidade e Crescimento, investimento, educação, saúde, portagens, sistema fiscal, contrato social, isto é, o que está compreendido nas contrapartidas públicas pelo pagamento de impostos, empresas, acesso à Justiça, tudo isto e muito mais são contratempos que os candidatos concordam em evitar.
Seca de interesse: quando o tema de campanha por excelência é a boataria, nos cidadãos, já de si enfastiados pelo triste espectáculo em que o País vive desde que Durão Barroso foi embora, aumenta a descrença e a indiferença, com o perigo da abstenção a espreitar. Nada garante que os indecisos das sondagens optem por votar.
Seca de democracia: as opções eleitorais do País estão seriamente condicionadas pela mediocracia. São as televisões, não o povo quem decide quem se ouve, quem se vê e, consequentemente, em quem não se vota. Estações privadas fazem coberturas cubanas de discursos cubanos de mais de uma hora, de quem querem e lhes apetece, sem garantirem a equidade no tratamento das várias candidaturas. Violam despudoradamente a Lei e o alegado Estado de Direito está desarmado e não actua. O Presidente da República está calado, como se nada se passasse. Marcelo Rebelo de Sousa também.
O problema é quando começar a chover. A água chegará, mesmo fora de tempo, violenta e arrasadora. E ao queixume das sementeiras agonizantes sucederá o queixume das inundações e da falta de prevenção. Nessa altura se calhar já teremos um novo Governo, que se queixará do anterior e da pesada herança que lhe deixou. A campanha alegre destes dias de telenovelas venezuelanas baratas e de mau gosto dará lugar a mais uma campanha triste de desgraça nacional e do fatalismo lusitano.
Do que isto está mesmo a precisar é de uma varridela. Democrática. Em urnas. Pelo voto. Ousará Portugal?

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