2020/10/22

A doença e o inquéritopor Jorge Ferreira

O líder do PS afirmou no passado fim-de-semana que o País está doente. Santana Lopes defendeu no domingo um inquérito parlamentar à legalidade das escutas ao líder do PS, depois de Paulo Pedroso ter sido preso preventivamente, escutas essas que o “Público” quantificou e que o DN e o JN negam que tenham existido.

Primeiro: a assinalável divergência entre três órgãos de comunicação social de “referência”, como se costuma dizer, passou despercebida no meio desta confusão. E é preocupante do ponto de vista da credibilidade da comunicação social. Quem mente, quem diz a verdade e quem mente, mente porquê? Por que foi enganado? Por que foi intoxicado? Bom, seja lá quem for que tem razão, pergunto-me se os jornais que se enganaram e ao serem enganados, enganaram, não devem uma palavrinha aos seus devotados leitores sobre o assunto…

Segundo: um dos riscos da hiperinformação em que hoje vivemos é o de rapidamente esquecermos o essencial, face à torrente de pormenores com que a comunicação social delicia a opinião pública.

Entre a roupa do juiz Rui Teixeira, os “fait-divers” do procurador-geral da República, ou o que os presos nas alas VIP comem, ouvem e lêem, todos somos entretidos, quase sem darmos por isso, com o acessório que nos faz distrair do essencial.

Não sei, nem posso saber se Ferro Rodrigues tem razão. Não conheço o processo. Se eu fosse jornalista provavelmente mão “amiga”, violadora eternamente impune do segredo de justiça, já me teria feito chegar algumas peças processuais. Mas não sou. Quando o processo deixar de estar em segredo de justiça será possível saber o que sucedeu.

Mas o que eu sei é que o País está doente há muito tempo. Um problema como o da pedofilia na Casa Pia, que consegue desenvolver-se sem que instituições políticas, responsáveis políticos, polícias e comunicação social mexam um dedo durante dezenas de anos, só prova que Portugal é um país doente. Doente de indiferença. Doente de silêncios. Doente de cumplicidades e de encobrimentos. Mesmo alguns que agora não se cansam de exibir preocupações com as crianças, estiveram lá antes… e nada.

Mas também doente de costumes. Julgo mesmo que se um pedófilo viesse agora a público assumir os seus actos corria o sério risco de ser “absolvido” pela coragem de o fazer. Tal é a inversão de valores na escala das sociedades contemporâneas.

Ora, sugestão oportuna e justificada, antes de um inquérito às escutas num determinado processo de investigação criminal (cuja utilidade em tese nem sequer discutimos), teria sido a de fazer um inquérito parlamentar sobre a responsabilidade política do que sucedeu na Casa Pia. Mas esse inquérito, o verdadeiro inquérito e “pai” de todos os outros inquéritos, ninguém com responsabilidades no arco da governação o sugeriu até agora. Espantosamente.

Com a vossa licença, sugiro eu.

Lisboa, 24 de Julho de 2003

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