2020/11/30

O enguiço do Côapor Ilda Figueiredo

Sabe-se que o Governo continua com uma única prioridade – cumprir o objectivo de redução do défice do Orçamento do Estado. Mas para perceber o real alcance desta medida no estrangulamento do País, no retrocesso do desenvolvimento regional e local encetado após o 25 de Abril de 1974, exige que se saia de Lisboa ou do Porto e se vá até ao interior.

Foi o que fizemos no último fim-de-semana. Começámos por Almeida, onde pudemos constatar a indignação que ali se vive pelo anúncio da venda da Pousada Senhora das Neves. Autarcas, população e trabalhadores temem pelo futuro, não só da pousada e do emprego de quem ali trabalha, mas pelo forte impacto negativo que tal medida terá no desenvolvimento desta zona fronteiriça, com um passado e uma história que merecem um mínimo de respeito e de atenção dos governantes portugueses.
Ora, mesmo após a alienação lamentável de parte do património da Enatur, a maioria do seu capital continua a ser público, pelo que cabe ao Governo impedir a venda e manter em funcionamento normal a Pousada Senhora das Neves, situada em pleno coração do centro histórico de Almeida, que mantém condições ímpares para ser um pólo dinamizador do turismo cultural de toda a zona do Vale do Côa, rica pelo seu património cultural e natural, a que falta a promoção pública para incentivar mais investimento, mais emprego, mais turismo, e impedir a desertificação crescente das zonas do interior do País.
A Pousada Senhora das Neves, construída no interior das importantes muralhas de Almeida, que é uma verdadeira âncora para a promoção do turismo da região, pode e deve ser completada com outros investimentos públicos, designadamente piscina, museu militar a instalar nas casamatas das muralhas, continuando o trabalho meritório já realizado em Almeida.
Mas o seu pleno aproveitamento está ligado ao destino da pousada e ao roteiro do Côa, onde se junta a beleza natural e o património construído, como, logo a seguir, se pode ver em Trancoso, em Marialva, em Foz Côa, e em todo o parque arqueológico da região. Para não falar de Espanha, ali ao lado, com Salamanca e outras zonas históricas, com quem Portugal podia desenvolver projectos integrados de desenvolvimento, aliando a cultura ao desenvolvimento, e apostando na captação de fundos comunitários, como o Interreg e outros para zonas fronteiriças, em que agora a Alemanha está a apostar com o argumento da adesão dos países de leste com quem faz fronteira.
Só que também o parque arqueológico está enguiçado. É certo que o enguiço vem já do governo anterior, embora tenha o mérito de, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 4/96, publicado em 17 de Janeiro, ter decidido mandar avaliar o património mundial de valia indiscutível, abrindo caminho à sua preservação na inserção natural em que se encontra, e eliminando em definitivo a hipótese de construção da barragem. Mas o engenheiro António Guterres abandonou o governo antes do início da construção do museu, peça-chave para a dinamização de todo o projecto de desenvolvimento da região.
Só que o enguiço continua com o actual Governo. O projecto de museu, cuja maqueta pude ver em Foz Côa, estava orçamentado e pronto a avançar como bandeira da região e marca do sítio, junto das instalações da barragem interrompida, símbolo da substituição da política do betão pela aposta forte na política cultural no interior do País, foi cancelado pelo actual Governo.
Inadmissivelmente, tudo voltou à estaca zero.
Sabe-se que, recentemente, foi lançado um concurso de ideias para um novo projecto de museu, noutro local, e que se terá iniciado o processo de expropriações.
Mas, dado que ainda não há sequer um novo projecto, e muito menos qualquer orçamento, correm-se sérios riscos do parque arqueológico continuar sem museu até finais da década actual, o que constitui um sério revés para o desenvolvimento de toda a região, e, possivelmente, uma oportunidade perdida de utilizar fundos comunitários, quando tanto se precisa de investimento público.
Daí que a minha indignação tenha sido vertida para uma carta endereçada ao ministro da Cultura, embora mais propriamente o devesse ter sido ao primeiro-ministro. É que não é apenas a cultura do País que está a perder com a situação, mas todo o desenvolvimento de Trás-os-Montes e Alto Douro.
É urgente que se quebre este enguiço que estrangula o desenvolvimento do Vale do Côa. O Governo deve ir reunir na região, rever os projectos e calendários que tem para a construção do museu arqueológico do Côa, dada a sua inegável importância para a projecção da riqueza cultural deste vale e para o desenvolvimento desta vasta zona do interior do País, cujo desenvolvimento turístico, em estreita ligação com a zona de fronteira, pode ser integrado num projecto mais vasto com a Espanha, servindo de âncora ao desenvolvimento do turismo cultural e ao desenvolvimento regional, combatendo, assim, a desertificação crescente das zonas do interior de Portugal.

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