2022/11/27

Política portuguesa: questões pendentespor Pedro Cid

Durão Barroso tem razões de sobra para umas férias tranquilas. Todos os dias vê engrossar aqueles que “não dando nada por ele como primeiro-ministro”, começam a acreditar nas suas capacidades como governante. Agora já não se trata nem de sorte nem de capacidade de resistência: já há provas dadas.

A liderança de Durão Barroso é inquestionável e essa imagem em alta reflecte-se, positivamente, na imagem global do Governo.
Problemas há muitos, centrados, sobretudo, nas questões económicas e financeiras, mas, o essencial – ganhar credibilidade e o respeito do País – está conseguido.
No plano estritamente político, Durão Barroso tem alguns dossiês delicados para gerir. Se é verdade que a coesão da coligação PSD/CDS/PP não pode ser desmentida, à medida que o tempo passa, colocam-se em cima da mesa algumas questões, das quais não é de excluir que a fidelidade dos populares exija um “plafond” de crescimento da sua influência política, que pode causar embaraços às estruturas social-democratas. É que o crescimento da influência política deve ser ponderado, uma vez que não é compreensível que o PSD se deixe diminuir para o CDS/PP crescer. O crescimento, a ocorrer, deve ser à custa dos eleitores da esquerda e em particular a faixa de votantes no PS. Além disso, é desconhecido o impacto eleitoral do Partido da Nova Democracia, de Manuel Monteiro. E este é um tema que só pode ser analisado depois de um primeiro acto eleitoral de envergadura, já que nas eleições europeias – onde o PND vai concorrer – há uma muito grande percentagem de abstenção, embora, como se trata de um círculo nacional, não seja escandalosa a eleição de um ou dois deputados do PND ao Parlamento de Estrasburgo, o que, se se verificar, constituirá já um grande rombo entre os partidos instalados… Uma coisa me parece certa: o PND tem um conjunto de personalidades até agora mais ou menos virgens de actividade política, gente com experiência na sociedade civil, com influência nos seus círculos de actividade profissional. Isso não é mensurável, nesta altura, constitui potencialmente uma força nova a disputar o espaço político ocupado pelos outros partidos. Espero que o PSD não olhe com desprezo para o PND e não aja como se ele fosse inexistente. Pode ter dissabores. É preferível fazer a festa depois de contados os votos, do que antes.
Um crescimento eleitoral do PSD, somando os seus votos, enquanto partido, com a mais-valia de Durão Barroso pode, por outro lado, conduzir à tentação de considerar dispensável o CDS/PP na formação do futuro Governo, no termo da actual legislatura, isto é, uma decisão nesse sentido terá de ser tomada algures no primeiro semestre de 2006. Ainda há muito tempo. Mas é bom reflectir e tomar decisões mutuamente consensuais entre os actuais parceiros de Governo. O exemplo alemão pode ser trazido à colação: o SPD e os Verdes concorrem com listas separadas, num pacto informal de não agressão entre si, isto é, com a predisposição – verificada, à tangente nas recentes eleições – de continuarem coligados no governo do País. PSD e CDS/PP, em Portugal, podem fazer o mesmo. No curto prazo parece inevitável a apresentação de uma lista conjunta PSD/CDS/PP ao Parlamento Europeu, bem como a coligação entre os dois partidos na Região Autónoma dos Açores, como garantia prévia de que os socialistas serão desalojados do poder
O dossiê mais delicado que Durão Barroso tem para gerir, num tempo cada vez mais escasso, é o das presidenciais. Alguém escreveu esta semana, com absoluta razão, que seria redutor que o candidato presidencial fosse objecto de votação (ou de escolha entre mais do que um candidato) num Congresso partidário. O PSD não cairá nessa armadilha. A candidatura presidencial é um acto decisório individualmente tomado por quem se sente disponível para travar, com outros, um combate político e eleitoral com vista à escolha do Presidente da República. Ou seja, primeiro têm de ser conhecidos os cidadãos candidatos. Só depois é que os partidos escolhem e apoiam. É preciso lembrar estas coisas. São comezinhas, é verdade, mas lineares e bloqueadoras de raciocínios enviesados. Nem vale a pena falar no naipe dos candidatos possíveis, onde continua a pontificar o nome de Cavaco Silva. A questão só tem, neste momento, foros de certa importância porque o PSD gostaria de cumprir o desígnio de Sá Carneiro: uma maioria, um Governo e um Presidente. E com Cavaco Silva, e só com ele, as hipóteses são aliciantes…
À esquerda, o PS vive a sua mais dramática crise interna, desde a sua fundação há trinta anos. Ferro Rodrigues, a cada dia que passa, fragiliza a sua liderança. É um político em perda, com constantes declarações desastrosas, todas marcadas por um fantasma que tem sido incapaz de exorcizar: a prisão preventiva de Paulo Pedroso. É certo que, a ser verdade, que o(s) seu(s) telefone(s) está(ão) sob escuta tal facto não pode deixar de causar perplexidade e um enorme incómodo, não apenas para o PS mas para a generalidade da opinião pública. Certo é que o PS é o maior partido da oposição, é alternativa de poder e a democracia enfraquece-se com as suas debilidades. É por isso que Ferro Rodrigues deveria já ter renunciado à liderança do PS, dando lugar a outro em melhores condições políticas e que dê mostras de menor nervosismo e com mais capacidade para fazer oposição à actual coligação.
O PCP continua também na mó de baixo, sem capacidade de auto-regeneração. Depois das eleições de 2006 será apenas um partido residual.

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