“As pessoas estão cansadas dos jogos político-partidários”

Helena Roseta, candidata independente à Câmara Municipal de Lisboa, defende, em entrevista ao SEMANÁRIO, uma maior participação dos cidadãos à frente dos destinos da autarquia, bem como uma efectiva reabilitação da cidade, mostrando-se também contra um eventual fecho do aeroporto da Portela.

Em que medida é que a sua candidatura à CML poderá ser uma alternativa e trazer algo de novo à cidade?
É uma alternativa porque acho que as pessoas chegaram a um ponto, em que estão um pouco cansadas dos jogos político-partidários, tal como tem acontecido. A câmara cai porque os partidos não se entenderam, por haver um clima de suspeição e porque se chegou a uma situação de colapso financeiro. Portanto, acho que é preciso mudar de atitude, mudar de equipa, mudar de gente e sobretudo mudar de maneira de trabalhar e é isso que a minha candidatura propõe. Ela foi viabilizada por 5550 assinaturas, por isso estou aqui com essa legitimidade e aquilo que tenho estado a propor é a necessidade de encontramos um núcleo de medidas de emergência, para aplicar na câmara e na cidade, que permitam inverter o rumo.

Pode enunciar as principais prioridades/projectos da sua candidatura à CML?
A minha candidatura resume-se a duas propostas: reabilitação e participação. Entendemos a reabilitação da cidade como um todo e não apenas a habitação, os fogos devolutos, mas também o espaço público, as ruas, os espaços verdes, reabilitar o próprio sentimento de nos sentirmos agradados e satisfeitos de viver nesta cidade e isso implica uma quantidade enorme de medidas, mas sobretudo mais uma vez uma atitude, porque temos pouco dinheiro e não podemos fazer megaprojectos e essa atitude é o que chamamos de “acupunctura urbana”, ou seja, conseguirmos fazer muito, com pouco dinheiro, independentemente da dívida e que possa ter resultados. Outra coisa que propomos, e que é um traço distintivo da nossa candidatura em relação às restantes, é o problema da participação dos cidadãos, pois toda a gente fala na participação, mas a única candidatura que é realmente participada, desde a sua base e desde a sua origem é esta, tendo inclusive reflexos no nosso programa. Nós estamos já a praticar aquilo que defendemos, que é a participação das pessoas, quer na candidatura e no nosso programa, pois hoje em dia não é possível governar uma cidade, sem que os cidadãos sejam uma parte activa na governação, é isso que ninguém conseguiu fazer até agora e que nós achamos que é imprescindível.

Como caracteriza a gestão autárquica em Lisboa, levada a cabo pelo último executivo?
Acho que chegamos a um ponto de ruptura financeira, não apenas por responsabilidade pelos últimos dois anos, mas por uma responsabilidade acumulada. A câmara chegou a uma situação de desequilíbrio estrutural e está numa situação de desgoverno. Precisamos de agir imediatamente sobre as dívidas imediatas, as de curto prazo, mas precisamos sobretudo de fazer uma reestruturação geral do orçamento da câmara. Temos que baixar a despesa e aumentar a receita. Temos de baixar a despesa sobretudo na contratação de serviços externos, nas assessorias políticas, pois são as coisas onde é preciso cortar. Temos que aumentar a receita, sobretudo com uma melhor cobrança dos impostos municipais, pois há taxas que são cobradas com muito atraso. Há aqui uma quantidade enorme de gente que não está a cumprir o seu dever em relação à cidade. Quanto às medidas de emergência, penso que não há nenhuma maneira de talhar uma situação de asfixia financeira. Vai ter de se declarar a ruptura financeira da câmara e já se devia ter feito isto, por iniciativa do anterior presidente, Carmona Rodrigues, que não o fez. A primeira coisa a fazer, para quem ganhar as eleições, deverá ser fazer uma proposta à Assembleia Municipal e declarar a ruptura financeira, renegociar a dívida com a banca e com os fornecedores. Esta hipótese da ruptura financeira abre a possibilidade da câmara contrair algum empréstimo de imediato, para a renegociação da divida a curto prazo. Senão fizer isso, já ultrapassou todos os limites de endividamento e já não pode pagar.

Que implicações terá, para a cidade, um eventual encerramento do aeroporto de Lisboa, em virtude da possível construção do novo aeroporto na Ota?
É um erro fechar o aeroporto da Portela, porque tem uma função central na cidade. Poderá ter que ser complementado por um aeroporto próximo, mas nunca se pode encerrar em definitivo um aeroporto que faz falta à cidade. Lisboa é uma cidade que está a declinar e quando isso acontece na sua situação de perder actividade e atractividade, tirar-lhe uma solução é um erro. No caso concreto de Lisboa e em termos turísticos, a cidade tem um bom desempenho e tem aumentado a capacidade de atracção turística. Ao darmos uma machadada numa das actividades que até tem um bom desempenho, iremos ter um grande prejuízo para a cidade e por isso opor-me-ei.

Lisboa é hoje uma cidade voltada de costas para o rio Tejo e a duas velocidades, com zonas bem planeadas e estruturadas, mas também uma cidade antiga com vários edifícios devolutos e degradados. Que medidas tomaria para inverter a actual situação?
Em relação à frente ribeirinha, a questão principal é que esse território é gerido de uma maneira diferente do que é o resto da cidade. Para a cidade funciona o PDM onde existem regras e onde os cidadãos têm direito de se pronunciar sobre elas e de ter a sua opinião. No que diz respeito à frente ribeirinha, a regra é outra, porque é a Administração do Porto de Lisboa que tem a tutela desta área e que gere essa área sem ouvir os cidadãos. Penso que isto é quase uma esquizofrenia, porque o território é o mesmo e tem que haver uma nova entidade gestora para a frente ribeirinha, que incorpore a Administração do Porto de Lisboa, a CML, eventualmente a Armada, que também tem funções naquela área e outras entidades públicas, se for caso disso, para gerirem aquele território, como uma condição, de que não se podem aprovar grandes projectos de execução naquela área sem ouvir os cidadãos. Quanto à questão das zonas dos prédios vazios, temos, de acordo com os últimos números, cerca de 70 mil fogos vazios e isto é negativo para a cidade. Há, portanto, uma série de medidas a tomar, conforme estas diferentes classificações. Para os fogos mais degradados que precisam de reabilitação, há projectos que precisam de ser feitos, há financiamento público para a reabilitação através do Programa Pró-Vida, há a possibilidade de tornar mais rápida a aprovação dos projectos de reabilitação, através de uma via verde para a reabilitação e há a possibilidade de se aplicar o que já está na lei, que é uma taxa cada vez mais alta do IMI, enquanto os prédios não estão a ser utilizados para as suas funções. Usando estes instrumentos ou mais alguns, penso que vamos conseguir voltar a dar vida a zonas vazias da cidade.

Admite algum entendimento/coligação pós-eleitoral com alguma força política?
Vai ser necessário que todas as forças políticas se entendam, porque a situação é de tal maneira crítica, que nem sequer admito que as pessoas se estejam a candidatar para irem para a oposição. E, portanto, estão-se a candidatar para a vereação e esta é o executivo municipal. Quando estiver na câmara aquilo que vou querer é que todos participem no executivo, dependendo da vontade de cada um e que tenham também acordado as medidas que vamos tomar. Contudo, vai ser difícil, mas, nem me passa pela cabeça, ver a câmara, nesta fase de crise, a ser governada com uma parte do executivo a tentar governar e a outra parte a tentar desfazer.

Nesta sua candidatura à CML, o que será para si um resultado positivo ou um resultado negativo?
Um resultado positivo é ela existir e esse já o tenho. Seja qual for o resultado que venha a ter, o simples facto de sozinha, sem partidos, sem máquinas, sem agências, sem dinheiro, sem sedes, sem redes, sem estruturas, estar a disputar a presidência da câmara de Lisboa, como o estou a fazer, em condições de “taco a taco” com candidaturas que estão alicerçadas em estruturas, com muita bagagem e com muita experiência, prova duas coisas. Primeiro, que há espaço para uma candidatura com estas características e, por outro lado, prova que há algum reconhecimento das capacidades que eu e as pessoas da minha lista temos nesta matéria. Qualquer resultado que possamos vir a ter vai ser um milagre da cidadania, e eu estou muito convicta que isso está já está a acontecer.

Alcochete pode ser campo de tiro para Sócrates por Paulo Gaião

Numa semana em que Rui Costa se queixou que o Benfica não o defendeu dos ataques de Joe Berardo, Mário Lino também não viu Sócrates defendê-lo dos ataques de Francisco Van Zeller

Sócrates está cada vez com menos espaço de manobra para escolher a Ota como localização para o aeroporto. Muita gente, talvez adivinhando os interesses socialistas que se jogam no Oeste, não tem perdido a oportunidade de provocar o primeiro-ministro, encostando-o mais à parede com a ideia de que o governo não vai desistir da localização na Ota. Marcelo Rebelo de Sousa disse no domingo passado que o negócio está feito. Francisco Van Zeller chegou a dizer, esta segunda-feira, que há forças subterrãneas no próprio ministério das Obras Públicas, ao nivel de secretários de Estado, que tudo vão fazer para que o aeroporto se faça na Ota. Belmiro de Azevedo, que apelida a OTA de nado-morto, também parece convencido que o governo não vai recuar na localização do aeroporto. Lobo Xavier defendeu esta quarta-feira que a localização em Alcochete serve apenas para tapar a hipótese da Portela + 1 não sendo uma alternativa real à OTA.
Ora Sócrates já provou que não se deixa cercar. Quando menos se espera é capaz de encontrar uma saída. A hipótese de o governo escolher Alcochete e calar os que tinham a certeza que o primeiro-ministro ia optar pela Ota pode ser uma jogada política de mestre, feita a menos de dois anos das eleições legislativas. Sócrates também já demonstrou que não fica paralisado pelos interesses que giram à sua volta, fora ou dentro do PS, protegido que está pelo poder que exerce e pelo brilho que as sondagens de popularidade lhe continuam a dar. Não será, assim, pelos alegados interesses socialistas em redor da Ota que Sócrates não deixará de agir e decidir.
O primeiro-ministro também tem sido muito hábil a tomar decisões e não só resolver um assunto mas dois ou três, numa estratégia de largo espectro, onde se matam vários coelhos com uma só cajadada. É verdade que com a escolha de Alcochete, Sócrates poderia ter sérios problemas no governo. Talvez Mário Lino chegasse a pedir a demissão, ele que pôs a cabeça no cepo quando se entusiamou com os desertos na margem sul e os “jamais, jamais”. Mas há males que vêm por bem. O problema com Lino pode ser a oportunidade para Sócrates fazer uma remodelação governamental profunda, a menos de dois anos das eleições legislativas. Aliás, é muito curioso que o homem que se concertou com o governo no sentido de apresentar um estudo sobre Alcochete em nome da CIP, tenha sido o mesmo que atacou o ministério de Mário Lino, sem que Sócrates tenha levantado um dedo em defesa da equipa das Obras Públicas. Ontem o pedido de Alberto Martins para que Lino explique o financiamento do TGV também diz muito.
Também é verdade que o recuo do governo na Ota é uma forma de Sócrates dar razão a Marques Mendes, que há muito se bate contra a localização do aeroporto a Oeste. Mas tal poderá considerar-se uma derrota para Sócrates? Talvez não. As vantagens políticas podem ser muito superiores aos prejuízos. Com a escolha de Alcochete, Sócrates dá uma ajuda Mendes. Mas não tem sido o líder do PSD o principal seguro de vida de Sócrates? Com Mendes, Sócrates não arrisca surpresas e pode ter no bolso as eleições de 2009. Não arrisca, por exemplo, que Luís Filipe Menezes queira tirar o lugar a Mendes e que apareça por aí um velocista do cavaquismo ou do barrosismo (que por acaso estiveram em peso no programa Prós e Contras da RTP1) para prejudicar o caminho triunfal do líder socialista. Por sua vez, com o grande troféu anti-Ota para mostrar, Marques Mendes prova que fez uma bela oposição, o que lhe pode garantir um resultado honroso em 2009, ao ponto de ser suficiente para se querer manter na liderança do PSD depois desta data. Por sua vez, com o recuo na Ota, Sócrates pode obter, ainda, duas pequenas satisfações, com repercussões eleitorais. Obriga Marcelo Rebelo de Sousa, Belmiro de Azevedo, Francisco Vanzeller e Lobo Xavier a retratarem-se. Por outro lado, com a revisão da OTA, Sócrates dá uma bofetada aos detractores que dizem que ele é uma cabeça dura e poderá ganhar ainda mais simpatias junto do eleitorado e da opinião pública. Que, já se percebeu, prefere Alcochete à Ota, sensibilizada pelo argumento fácil de que o Estado não tem de pagar terrenos na margem Sul, ao contrário do que se passa no Oeste.

São Berardo da Luz. Com a liberdade que o dinheiro lhe dá, Joe Berardo veio dizer que o rei vai nu no Benfica. Mas o empresário até podia ter ido mais longe porque há muitos anos que está quase tudo errado no Benfica. Rui Costa é apenas a ponta de um icebergue onde se sentam Luís Filipe Vieira, José Veiga, Fernando Santos, Manuel Vilarinho, até Joaquim Oliveira, um grupo que parece ligado por interesses e conveniências pessoais, passando ao lado da avaliação pelos resultados no Benfica, o que era de todo natural que acontecesse num clube de futebol. Não é normal que depois de não ter tido um único êxito, confirmando em absoluto aquilo que muitos tinham a certeza que ia acontecer, Fernando Santos se tenha atrevido, há cerca de um mês, a garantir, quase com provocação para a comunicação social, que ficava no Benfica. Ora, o facto é que Fernando Santos ficou mesmo. A um mês de começar a nova época de futebol, nunca como hoje os benfiquistas se sentiram tão pouco galvanizados com a equipa, adivinhando já novos fracassos. Valeu-lhes, agora, São Berardo para levantarem os ânimos. Porém, tal como Rui Costa não é o maior culpado mas quem o contratou, aqui a responsabilidade é de quem tem permitido a Fernando Santos estas liberdades.
Não é normal que depois de ter saído da estrutura directiva do Benfica, para gerir judicialmente um caso pessoal, José Veiga tenha voltado ao Benfica, como se não houvesse outros dirigentes. Se Veiga fosse um génio da gestão, se tivesse dado muitos títulos ao Benfica, se fosse detentor do passe de dois ou três jogadores fora-série, podia entender-se o regresso do empresário. Mas Veiga é um gestor vulgar, não tem passes maravilha e a única coisa que conseguiu ganhar para o Benfica foi o título de há três anos, num verdadeiro campeonato de coxos, onde o Benfica ganhou, como podia ter ganho o Sporting ou o Porto, porque o demérito dos três foi igual. Não é normal que o antecessor de Luís Filipe Vieira na presidência do Benfica, homem que detém um lote razoável de accões do Benfica e que continua a ser um homem influente na direcção do clube possa ter anunciado impunemente há cerca de um ano, numa profecia pintada a negro, que o clube não ia ganhar título nenhum… até 2011.

“Há cinco candidatos do sistema e dois falsos independentes”

Manuel Monteiro pretende assumir o papel de José Sá Fernandes da direita na Câmara Municipal de Lisboa. Em entrevista ao SEMANÁRIO, o candidato refere que será “a voz dissidente, a voz anti-sistema, a voz de ruptura com o ‘status quo’ que permitiu que a CML tenha cavalgado para o pântano onde efectivamente se encontra”. Monteiro alertou, ainda, que “controlar os bairros sociais é controlar um sindicato de votos”.

O que é que a sua presença teria acrescentado ao debate de Terça-feira entre sete dos doze candidatos à Câmara Municipal de Lisboa?
É sempre difícil falar em causa própria. O debate demonstrou que há cinco candidatos do sistema e dois falsos independentes, é bom realçarmos isto. Helena Roseta só é candidata independente porque o PS não a quis como candidata, é um facto; Carmona Rodrigues é candidato independente porque o PSD lhe tirou o tapete, se o PSD o quisesse manter ele continuaria a ser o candidato do partido.
Na minha perspectiva, as questões de fundo que dizem respeito a Lisboa não são tratadas e não foram abordadas no debate de terça-feira. Houve uma tentativa de consensos, de coligações… penso que está tudo a tentar dizer: “votem em mim para eu ser vereadorzinho”. A minha lógica, ao contrário, é de ruptura. A CML e a cidade têm problemas que nenhum dos senhores que estiveram no debate tem coragem para abordar.

E Quais são?
Não ouvimos falar da transparência, como factor verdadeiramente incisivo; não ouvimos falar dos fenómenos de corrupção, pois estes senhores pactuaram directa ou indirectamente com o sistema que permitiu a existência de corrupção na cidade de Lisboa, pondo de lado, à esquerda, Sá Fernandes e Ruben de Carvalho. Mas a verdade é que todos estiveram relacionados com o sistema que permite a existência de arquitectos na CML que possuem amplos gabinetes cá fora. Há quem diga que muitas das obras municipais que são aprovadas na cidade de Lisboa são curiosamente aquelas que têm arquitectos cá fora e que simultaneamente também trabalham na Câmara, não ouvimos falar disto.
Se eu lá tivesse estado teria dito que comigo não há vereadores na CML com gabinetes lá fora, teriam de fazer uma opção. Portanto, isto são testemunhos muito objectivos das novidades trazidas pela minha presença. Por outro lado, teria dito que muitas das grandes aberrações que têm sido feitas em Lisboa em matéria urbanística, são feitas com o silêncio da Ordem dos Arquitectos, cuja bastonária é a arquitecta Helena Roseta.

Pretende, portanto, ser um candidato de ruptura, de cisão, de denúncia…Eu sou um candidato dissidente. Embora esteja envolvido numa candidatura, tenho saudades de homens como Nuno Krus Abecassis ou Gonçalo Ribeiro Teles, que falavam de Lisboa com Paixão e que verdadeiramente se dedicaram à cidade. Aquilo a que hoje assistimos, salvo honrosas excepções, é a uma lógica de funcionalismo, isto é, as pessoas são candidatas porque têm de ser candidatas. No debate de terça-feira, o dr. Fernando Negrão até se enganou e falou de Setúbal em vez de Lisboa. Eles são candidatos mas não queriam vestir esse papel, tanto Telmo Correia, como António Costa, ou Fernando Negrão.
Os únicos candidatos, dos sete, que têm uma visão estratégica para a cidade, embora não seja a minha, são Ruben de Carvalho e José Sá Fernandes. Eu sou, num outro patamar que não o da esquerda, a voz dissidente, a voz anti-sistema, a voz de ruptura com o status quo que permitiu que a CML tenha cavalgado para o pântano onde efectivamente se encontra.

Ao Trazer humoristas para a sua campanha não está a denegrir a imagem da democracia?
Quando os partidos pagam milhares de euros para terem os chamados cantores “pimba” nos seus comícios, julgo que essa preocupação não existe. À nossa maneira e em função dos nossos meios, que são claramente menores face às demais candidaturas, estamos a trazer o humor, promovendo jovens actores. Os textos desses jovens actores vão interpretar a mensagem política que me parece essencial e que será a coluna vertebral da minha candidatura.

Falemos dessa mensagem política. O que é que um vereador do PND pode trazer para a Câmara de Lisboa?
A lógica do sistema político é ter de conquistar votos seja onde for e, portanto, não dizer nada que possa pôr em causa a conquista de votos. Eu não. Eu vou ao centro da questão. A minha primeira reforma passaria por extinguir todas as empresas municipais. É preciso dividir Lisboa em quatro grandes áreas e atribuir a concessionários privados os Lixos, os jardins, os estacionamentos. Três áreas muito concretas que entregaria a privados com o compromisso, no contrato de concessão, destes absorverem as pessoas que hoje trabalham na CML. Deste modo, contribuiríamos para o emagrecimento da Câmara e consequente diminuição dos custos de funcionamento.

Diminuição do passivo da CML.
Exacto. Por outro lado, há muito gente avençada na Câmara que trabalha o triplo de muitos senhores que estão no quadro e que não põem lá os pés, embora recebam o ordenado ao fim do mês. Estes senhores têm de ter uma guia de marcha e irem para casa. Como seria fundamental que pessoas que estão nos gabinetes de juristas, de arquitectos ou de engenheiros da Câmara, formalmente a tempo inteiro, mas na prática part-time para depois terem os seus complementos, fossem também convidados a rever a sua situação e a sair.
Em nome da reforma administrativa interviria rapidamente nos bairros sociais. Rendas a dois eurosEstão a brincar comigo! Permitir que continuem a viver pessoas em casas da Câmara que têm segunda habitação fora da cidade de Lisboa e que ostentam níveis de riqueza superiores a muita gente que pede dinheiro a um banco para comprar casa? Não!
Não é admissível que uma empresa que gere a habitação social gaste mais do que aquilo que recebe. O que a GEBALIS gasta na manutenção do parque habitacional, estamos a falar de 25 mil fogos e de 110 mil pessoas, é superior às suas receitas. Hoje, controlar os bairros sociais é controlar um sindicato de votos. Por exemplo, no Bairro da Boavista e no Bairro do Casal dos Machados há grupos de cidadãos organizados em carrinhas para irem votar em determinados partidos. Estas situações conduzem a que as casas sejam atribuídas em função da filiação partidária. E ninguém fala disto…

Que pelouro escolheria se fosse eleito presidente da CML?
Se fosse presidente da CML assumiria para mim a condução estratégica da cidade. Ou seja, não quereria um pelouro específico, mas teria o planeamento como objectivo principal. A questão do planeamento é fundamental. Subsidiariamente teria comigo a educação e a cultura. É um crime estar a acontecer em Lisboa uma situação que se está a verificar no resto do país, que é o encerramento de escolas.

CCB Fora de Si!

O CCB deu “carta-branca” aos seus programadores no sentido de dar uma nova visibilidade e usufruto dos espaços exteriores da instituição. O objectivo é a revolução, o libertar dos espaços na sua plenitude. O resultado é uma programação, que, com poucas excepções, se passará nos jardins, praças e esplanadas
do CCB durante os meses de Julho e Agosto de 2007. Mega Ferreira vira o CCB do avesso e põe em prática uma ideia há muito aguardada: CCB Fora de Si!

Esta é a primeira vez, desde a sua abertura em 1993, que o CCB apresenta uma programação para os meses de Verão. Novo-circo, fanfarras, música do mundo, teatro móvel, marionetas, jogos de água e instalações juntam-se a uma programação de jazz, com as quintas de jazz, para fazer do Verão de 2007 uma estação diferente.
CCB Fora de Si é uma programação desenhada para um público internacional. A ideia é que aqueles que, na época de férias, visitam o CCB e procuram pólos de interesse cultural, tenham uma oferta diferente. Há muito que se questionava por que não havia programação no CCB durante o Verão, porque não se programava mais nos espaços exteriores. A resposta surge agora, no tom de solução e de ideia genial, sendo que finalmente a instituição frui do ar livre, das condições atmosféricas dos meses de Verão. Aproveitamento do espaço no seu todo é a ideia-base.
O programa estende-se ao longo de Julho e Agosto e distribui-se pelos vários espaços. Juntam-se companhias portuguesas e estrangeiras, artistas de várias nacionalidades e apresentam-se actividades e espectáculos em diversas áreas.
De quinta-feira a domingo a programação intensifica-se com o objectivo de oferecer sentidos culturais aos fins-de-semana dos lisboetas e de todos os turistas que passam pela capital, apresentando à tarde e à noite propostas de espectáculos que primam pela inovação e heterogeneidade.
A iniciativa conta com o apoio do Instituto do Turismo de Portugal e da Agência de Turismo de Lisboa.
A abertura acontece no dia 1 de Julho (às 18h30). Cavalos brancos pousados no topo da fachada que convidam à entrada. As nuvens descem à terra e os gigantes sobem ao céu, com a envolvência sonora do percussionista Rui Júnior e os seus cem músicos. Esta instalação de insufláveis “Quadriga, Nuvens e Figuras Flutuantes”, de Max Streicher, estará no espaço até Setembro.
Max Streicher é um escultor, oriundo de Toronto, que trabalha com formas cinéticas insufláveis e traz a Lisboa figuras da natureza humana e animal.
Destaque para bandas e músicas oriundas de vários pontos do mundo, como os Balcãs ou o Rajastão, circo marroquino com um grupo acrobático de Tânger. A oferta é diversificada.
O teatro de objectos europeu é trazido por João Calixto, Turak, com “Pequena Fábrica de Pinguins”, de 27 a 29 de Julho, e pela Compagnie de Chemins de Terre, com “Polichineur de Tiroirs”, de 20 a 22 de Julho.
Marionetas reformadas de tamanho natural propõem pequenos espectáculos enquanto servem às mesas dos restaurantes, pela companhia Tof Théatre.
“Sensazione” é outra parte deste todo programativo, uma feira de circo e arte, que vem da Bélgica, com máquinas que convidam o público a pôr em marcha os seus mecanismos, a partir de uma participação acrobática, de 6 a 12 de Julho na Praça do Museu, numa concepção de Peter De Bie e Charlotte Heller, Laika & Time Circus. Uma feira colorida que procura o despertar de sentidos.
Estas duas companhias juntaram-se porque gostam de interacção entre actores e público, e porque estão convencidas de que um novo género teatral ambulante pode ser criado, saltando barreiras que amarram o teatro a um formato mais conhecido.
Pelas mãos do artista francês Flop, chegam experiências com objectos de luz que deslumbram as crianças com a ajuda do sol e da lua. Ocupam o Jardim das Oliveiras de 5 de Junho a 15 de Agosto.
O teatro chega-nos não só da Europa, mas também das Beiras, do Norte e do Alentejo. O Teatro Regional da Serra do Montemuro apresenta “Splash!”, de 13 a 15 de Junho, no Caminho Pedonal. O Teatro das Beiras traz-nos teatro humorístico, com “Piratas! O Mistério de Maria de la Muerte”, em que convida o público a fazer parte da tripulação de uma grande aventura. É teatro do território rural português a invadir o espaço urbano!
E ainda fanfarras com “Taraf Goulamas”, uma fanfarra culinária, com saxofones e ervas aromáticas, “Jaipur Kawa Brass Band”, da Índia: dez músicos, uma bailarina e um faquir, e a “Kumpania Algazarra”, a fanfarra portuguesa de inspiração internacional.
A magia é revelada por “Walkarround Magic” e “Formal Close-Up Show” em vários locais ao ar livre, de 13 a 15 de Julho.
“Walkarround Magic” pode acontecer, inesperadamente, ao lado de alguém que pára ou se senta para conversar ou descansar. É isto que esta programação pode ter de tão intenso, a surpresa e a qualidade da variedade de acontecimentos e movimentos. “Formal Close-up Show” é um espectáculo em que a plateia se reúne e é convidada a participar na execução de efeitos surpreendentes.
Estes são apenas alguns dos destaques de uma vasta programação que se apresenta em Lisboa nos meses de Verão. CCB Fora de Si é a grande aposta de um urbanismo intenso misturado com a arquitectura paisagista que o espaço tem para oferecer. Os olhos postos no rio, no jardim e nos movimentos que se criam. Lisboa em movimento.

A semana negra de Sócrates

Os resultados económicos são fracos, alertou Cavaco Silva no passado domingo, no discurso do 10 de Junho, em Setúbal, deixando o primeiro-ministro com as orelhas a arder. Sócrates ainda não tinha tido tempo de se recompor da forte assobiadela do povo de Setúbal, indignado com as palavras de há um mês do ministro Mário Lino, que chamou “deserto” à margem Sul, e com o aumento do desemprego no distrito. Um dia antes, Mário Soares, numa entrevista, aconselhava José Sócrates a mudar o rumo, virando à esquerda. Aproveitando também para se manifestar chocado pelo facto de Sócrates admirar Tony Blair. Já esta segunda-feira, o governo, cercado pelo Presidente da República e por grupos de interesse poderosos, viu-se obrigado a abrir a porta a Alcochete para localização do novo aeroporto. É a primeira vez que o governo recua numa questão magna, o que pode fragilizar o seu processo de decisão e deixá-lo nas mãos de grupos de interesses.

Os resultados económicos são fracos, alertou Cavaco Silva no passado domingo, na sua intervenção do 10 de Junho, deixando o primeiro-ministro com as orelhas a arder. O Presidente da República nem concretizou os indicadores económicos mas se o tivesse feito, o efeito para o governo ainda teria sido pior. O investimento está estagnado, o desemprego cresce, os portugueses estão cada vez mais endividados, os sectores da construção e do imobiliário, que funcionam como barómetros da saúde das economias, estão em baixa há meses consecutivos. No discurso do Ano Novo de 2007, Cavaco já tinha avisado o governo que os resultados tinham de aparecer. A meio do caminho, sentiu-se já no dever de dizer que a coisa não está famosa. Para um economista como Cavaco, habituado a previsões, não deve ser difícil avaliar que quando os resultados não surgem a meio do ano, é porque também não surgem no final. Ainda por cima, Cavaco queria o investimento português a crescer acima da média europeia, o que, já se viu, nas condições actuais, não passar de uma miragem.
Momentos antes do discurso de Cavaco Silva, José Sócrates tinha sido assobiado pelos setubalenses, indignado com as palavras de há um mês do ministro Mário Lino, que chamou “deserto” à margem Sul no contexto da construção do novo aeroporto, e também com o aumento do desemprego no distrito. Não é a primeira vez que Sócrates é assobiado mas o mau período que atravessa, tornou os assobios mais visíveis e amargos. Por azar, as comemorações do 10 de Junho tinham de ser precisamente em Setúbal, um distrito “maldito” para governos a viverem momentos de crise. Em 1983, quando era primeiro-ministro, Mário Soares conheceu o forte descontentamento do governo. Em 1993, foi a vez do primeiro-ministro, Cavaco Silva, provar o fel dos setubalenses. Curiosamente, com Mário Soares, então Presidente da República, a meter achas na fogueira. Desta vez foi a vez de Sócrates. Ironicamente, Cavaco até foi aplaudido. Nem faltou em Setúbal D. Manuel Martins, conhecido como o bispo vermelho, para tornar as coisas ainda mais difíceis para Sócrates. D. Manuel Martins, que fez a vida negra a Cavaco em 1993, foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (circunstância que se revelou outro azar para Sócrates) e aproveitou para dizer que “o povo de Setúbal é considerado o mais interventivo, porque não se deixa comer. Uma das marcas da cidadania é não e deixar comer, não se deixar gozar”. Quem ouviu, só se pode ter lembrado do “direito à indignação” de Soares contra Cavaco há dez anos.

Ota na linha da realpolitik

Um dia antes do 10 de Junho, Mário Soares, numa entrevista ao “Expresso”, aconselhava José Sócrates a mudar o rumo, virando à esquerda. Aproveitando também para se manifestar chocado por Sócrates admirar Tony Blair. Vários comentadores já se tinham interrrogado sobre os silêncios de Mário Soares e espantou muita gente o “branqueamento” total que fez no jantar de aniversário ao caso da licenciatura do primeiro-ministro. Tão crítico, contra tudo e todos, inclusivamente contra dirigentes do PS, no tempo de Durão Barroso e Santana Lopes, parecia que Soares tinha enfiado a viola no saco. Por mais um azar de Sócrates, Soares tinha de quebrar o silêncio numa altura péssima para o governo.
Já esta segunda-feira, o governo, cercado pelo Presidente da República e por grupos de interesse poderosos, viu-se obrigado a abrir a porta a Alcochete para localização do novo aeroporto. É a primeira vez que o primeiro-ministro cede numa questão de interesse vital. Se o fim-de-semana tinha sido negro para o executivo, a segunda-feira foi de escuridão completa. No meio de um esforço hercúleo para se justificar, a fragilidade de Sócrates veio ao de cima quando declarou que Alcochete tinha ficado na gaveta porque a Força Áerea não queria abrir mão do campo de tiro. Para um homem que tem a sua popularidade por causa de se marimbar nos interesses, representa um mau momento
Mas é a Força Aérea quem manda no país? Em muitas reformas que já fez, Sócrates levou tudo à frente, provando que o Estado, de que é primeiro-ministro, não fica nas mãos de grupos de interesse. Agora vem dizer que Alcochete nunca avançou por causa de um ramo militar. É mais uma prova que alguma coisa se partiu esta semana com o primeiro-ministro.
Depois de andar dois anos a insistir no aeroporto na Ota, o governo espantou, esta segunda-feira, quando abriu a porta à localização em Alcochete. Estava tudo à espera que Mário Lino abrisse o concurso internacional para a Ota mas o primeiro-minitro fez uma volta de 180 graus sem pestanejar. É quase certo que tudo foi combinado com Sócrates. O ministro até parecia outro. Quase pediu desculpas pelas suas palavras do deserto na margem sul. Sem explicar, claro, que não se faz um aeroporto num sítio onde só há camelos.
No “inner circle” de Sócrates, a situação à volta do aeroporto começou a ser vista como crítica logo depois de Cavaco ter pedido mais debates sobre a localização do aeroporto. No governo percebeu-se bem que o caso era sério com Belém. Pela primeira vez. Quando Mário Lino cometeu a sua gaffe do deserto a situação ficou no limite. Era preciso agir quanto antes. Além do mais, António Costa começava a ficar perigosamente pressionado em Lisboa por causa da insistência do Governo na localização na Ota, a mais de cinquenta quilómetros da capital. As sirenes de alarme soaram quando se soube que a CIP e Francisco Van Zeller viram as portas de Belém franqueadas, para apresentar um dossier a defender a localização do aeroporto em Alcochete.
José Sócrates, com aquele sentido prático das coisas, que tão bem tem demonstrado no plano internacional, na reapolitik com a China, Angola, Venezuela e Rússia, mudou as agulhas na questão do aeroporto. Com Francisco Vanzeller, o homem que ainda há quinze dias disse que os trabalhadores grevistas poupavam muito dinheiro, já que não faziam gastos, José Sócrates fez mesmo um pacto, o que também não é novo no líder do PS. VanZeller ia fazer um estudo sério e aturado sobre Alcochete. Sócrates prometeu que ia ser dispensada uma atenção especial ao dossier, não indo para o lixo.
No seio do governo e dos socialistas, parece haver o convencimento de que a saída para o aeroporto foi airosa. O executivo deixa de estar pressionado politicamente com a OTA. A bola vai passar para o Laboratório Nacional de Engenharia Civil e o PSD não deverá ter espaço de manobra para aceitará a decisão desta prestigiada instituição. Ou seja, se a escolha for pela OTA, tudo o que os social-democratas disseram desta localização, lesiva para o interesse nacional, parece ficar esquecido. Cavaco também deverá calar-se. Não deixará, porém, de ser estranho que uma entidade técnica acabe por tomar uma decisão vital, de carácter político.
É verdade que se o LNEC decidir pela OTA, o governo vê reafirmada a sua opção. No entanto, tal poderá ser uma vitória de Pirro. Um governo que sempre fez gala de decidir, no interesse geral, pode acabar por ficar nas mãos de uma instituição técnica. Ora isto pode vir a ter um alto preço político. O governo pode vir a ser acusado de, pelo facto de não ter sabido tratar politicamente o dossier do novo aeroporto, centrando desde muito cedo as atenções numa só localização e não sabendo transmitir da melhor maneira os estudos já realizados, ter dado margem a que os técnicos decidissem uma questão eminentemente política. É, aliás, por aqui, que Cavaco Silva, sem poder afrontar o LNEC pode aproveitar uma “aberta” para voltar a colocar o governo em xeque na questão do aeroporto.
Neste longo processo sobre a localização do novo aeroporto há muitos enigmas. Cavaco Silva também tem muito que explicar. No tempo em que era primeiro-ministro, Cavaco teve que tomar duas importantes decisões em matéria de obras públicas e tomou-as, na localização da ponte Vasco da Gama e na Barragem do Alqueva. Sem grandes dúvidas, nem debates, nem rebuliços com grupos de interesses. Hoje, as dúvidas e receios que levanta com a construção do novo aeroporto não encaixam bem no passado político de Cavaco, com tudo exposto e confessado, aliás, pela própria caneta na sua “Autobiografia política” (ed. Círculo de Leitores), tal como o SEMANÁRIO recordou na semana passada. A localização da ponte Vasco da Gama foi aprovada formalmente em Conselho de Ministros. Já o Alqueva, segundo o próprio, foi uma decisão pessoal sua, assumindo todas as responsabilidades para o futuro. Não deixa até de poder parecer contraditório, o facto de Cavaco querer resultados económicos e estar tão receoso com os milhares que vão ser gastos. Como o Presidente da República bem sabe, num país com graves problemas estruturais como Portugal, os indíces positivos mais rápidos são conseguidos à custa de grandes investimentos públicos que depois induzem o crescimento do emprego, do consumo e do rendimento.

O que quer Cavaco?

Mas o quer, realmente, Cavaco Silva? Há cada vez mais dados contraditórios. O discurso de Ano Novo foi “perigoso” para o governo, o do 10 de Junho também. Já o manifesto que assinalou o seu primeiro ano, elaborado em Março passado, foi bastante simpático para o executivo, voltando a bater na tecla da cooperação estratégica, da confiança e lealdade e do respeito pelos poderes de cada órgão de soberania. Mas ao mesmo tempo que lembra que não tem poderes executivos, Cavaco deixou-se envolver a fundo no processo do novo aeroporto, que faz parte das competências do governo. Até no campo da doutrina que enforma acção de Cavaco, há dados que dão que pensar. Joaquim Aguiar, assessor político de Belém, no seu livro “O Fim das Ilusões, Ilusões do Fim”, escreve que “quando a relação entre o Presidente da República e o primeiro-ministro é de tipo conflitual, com hostilidade expressa ou com mera cooperação passiva, tanto o eleitorado como os grupos organizados, que dependem da continuidade da trajectória política porque foi nesse quadro que estabeleceram as suas expectativas, utilizaram essas divergências no topo das instituições para impedirem qualquer mudança, referenciando-se a um ou a outro conforme as circunstâncias, mas sempre com o objectivo de impedir a adopção de políticas de mudança.”. Ora, o que se está a passar com o dossier do novo aeroporto parece estar, precisamente, a aumentar o poder dos grupos de interesse, referenciando-se ora a Cavaco, no caso da defesa de Alcochete, ora a Sócrates e ao governo, no caso da defesa da Ota.
O que aconteceu esta semana, com o presidente da CIP, Francisco Vanzeller a entregar o dossier Alcochete a Cavaco é, aliás, muito curioso. Por muito menos, quando Soares fazia reuniões conspiratórias que desgastavam o governo, o então primeiro-ministro Cavaco Silva ia aos arames. Os factos são tão estranhos que há quem ponha a hipótese de uma nova convergência entre Cavaco e Sócrates para desatar o nó Górdio da Ota. Sócrates estaria, então, ao corrente de tudo, das reuniões do grupo de Alcochete, do dossier, da eminência parda do ambiente, Carlos Borrego, como peça essencial e, sobretudo, da recepção de Cavaco a Vanzeller. Este cenário, animador para o executivo, não joga, porém, com o discurso de Cavaco do 10 de Junho dos “fracos resultados”. económicos. Há, assim, quem defenda, que os sinais de crise institucional são mesmo reais e que Sócrates também sabe disso mas que está a fingir que não sabe, à procura de melhores momentos para reagir.