2020/10/24

A guerra no Iraque como redefinição do sistema internacional

Com uma natureza inerentemente trágica, este conflito, que agora dá os primeiros passos, assume-se como um pedaço de História na redefinição do sistema internacional e das futuras relações de poder entre os aliados no Ocidente. A cúpula de poder norte-americana começou uma epopeia que não representa um fim em si mesma, mas uma etapa da nova geoestratégia assumida pela administração Bush, desde a sua ascensão à Casa Branca.

Com uma “oportunidade estratégica” os Estados Unidos desencadearam o início do conflito no Iraque. “As primeiras fases do desarmamento do regime iraquiano já começaram”, informou o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, minutos depois dos primeiros ataques “a alvos selectivos de importância militar” iraquianos.

Na madrugada de quinta-feira, as imagens de guerra começaram a desfilar pelos vários canais de televisão, confrontando o mundo com a triste realidade da guerra e exacerbando os fantasmas e os receios que a crise iraquiana despoletou nos últimos meses.

Já por si com uma natureza trágica, este conflito, que agora dá os primeiros passos, assume-se como um pedaço de História na redefinição do sistema internacional e das futuras relações de poder entre os aliados no Ocidente. A cúpula de poder norte-americana começou uma epopeia que não representa um fim em si mesma, mas uma etapa da nova geostratégia assumida pela administração Bush, desde a sua ascensão à Casa Branca.

Mais do que a remoção de Saddam Hussein e a destruição do seu eventual arsenal de armas de destruição maciça, Washington está empenhado na criação de um novo paradigma para as relações internacionais. Desta forma, a guerra no Iraque está longe de ser única e exclusivamente uma consequência do 11 de Setembro, assim como a abordagem hostil à Coreia do Norte e Irão.

Talvez, os atentados perpetrados pela a al-Qaeda tenham precipitado e delineado a ordem dos acontecimentos, mas o discurso maniqueísta de Bush e a recorrência à retórica da Providência enquadram-se num objectivo geoestratégico a médio e longo prazo, doutrinado no pensamento dos estrategas e especialistas da administração Bush.

Em jogo não está propriamente dita a emergência de uma nova ordem mundial, mas, sim, o ajustamento de um novo modelo emanado da anarquia sistémica proveniente dos acontecimentos de 1989-1991. Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a consequente implosão da União Soviética, em 1991, começou-se a falar em “dividendos da paz” e do triunfo dos valores e instituições comuns euro-americanas, com o “final da História”, de acordo com Francis Fukuyama.

No entanto, o processo de metamorfose sistémica revelou-se dinâmico, e a ruína do regime bipolar de Guerra Fria não foi substituído harmoniosamente pela tão falada nova ordem. No Ocidente, os líderes e os seus povos afirmaram-se em novos projectos e diferentes interpretações sobre o futuro das relações internacionais.

O resto do mundo desprendeu-se da complexa rede montada durante cinco décadas, dando espaço de manobra a todos os prevaricadores que orientam a sua vida em projectos extremistas.

Hoje, Fukuyama fala em “grandes diferenças” no eixo transatlântico, referindo que a crispação entre os dois lados do oceano “não é apenas um problema transitório”. Também, Jeffrey Gedmin, director do Aspen Institute Berlin, fala sobre a “patologia” europeia no que se refere ao uso da força. Mas, foi, talvez, Robert Kagan a assumir sem preconceitos as divergências (enaltecidas nos últimos anos) entre os projectos europeu e americano sobre as relações internacionais, num mundo liderado por uma única superpotência. “É altura de se deixar de pensar que os europeus e os americanos partilham uma visão comum do mundo, ou até mesmo de que ocupam o mesmo mundo”, escrevia Kagan na “Policy Review”, no verão do ano passado.

A guerra ao Iraque é um reflexo da unipolarização do sistema internacional, assente na hiperpotência, Estados Unidos. A falência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a fractura do eixo transatlântico e a fragmentação na União Europeia elevam a guerra iraquiana e o período pós-Saddam, para um patamar ideológico e orientador do equilíbrio futuro entre os principais actores das relações internacionais.

Mais do que a uma guerra, para muitos analistas o mundo poderá estar a assistir à degradação do sistema de alianças forjado dos escombros da IIGM. “O mundo de Acheson está quase em ruínas, eu tenho medo”, referia esta semana ao “Los Angeles Times”, James Chace, professor de relações internacionais no Bard College. “Nós estamos numa nova era e as oportunidades são para ser aproveitadas”, afirmava ao mesmo jornal, William Kristol, um estratega republicano, seguindo o raciocínio do vice-presidente norte-americano, Dick Cheney, que considera que as instituições e alianças internacionais foram “criadas para lidar com conflitos do século XX…mas que podem não ser as estratégias, políticas e instituições mais adequadas para lidar com um novo tipo de ameaça”.

Numa altura em que a dinâmica dos povos está encarregue de finalizar um processo doutrinário tecnicamente iniciado há catorze anos, caberá aos líderes mundiais e seus povos (através de um mecanismo eficiente chamado globalização) afirmarem convictamente as suas visões para o futuro, e concertarem esforços para procederem a uma filtragem das organizações reguladoras do sistema internacional que serão, nas suas opiniões, fulcrais para a paz e segurança globais.

Aqui, a União Europeia, que ontem se reunião em Conselho de Ministros, terá a titânica tarefa de reconquistar a confiança no projecto de construção europeia, e retirar ilações desta crise, que, sem sombra de dúvida deixaram a Europa numa posição fragilizada, perante o mundo.

Se os Estados Unidos poderão estar predispostos para adoptarem atitude neo-isolacionista, dando uma lição à “velha Europa”, e deixando a sua defesa e estabilidade nas suas mãos, isto não quer dizer que os líderes europeus não possam tirar benefícios desta crise, catapultando a construção europeia para outros níveis de integração.

Mas, se a Rússia e a China surgem naturalmente nesta crise como actores relevantes do sistema internacional, a Europa no período pós-Saddam terá de fazer por isso. Durante os últimos catorze anos, o “velho continente” não quis pagar a factura do peso “geopolítico” nas relações internacionais. Hoje, não surpreende que os Estados Unidos estejam no Golfo Pérsico à revelia do Conselho de Segurança, e o contra a vontade da França e da Alemanha.

Nas próximas horas espera-se um ataque massivo no Iraque com a invasão do país pelas forças anglo-americanas. À Europa resta assistir à intervenção bélica, ciente, assim se espera, do quão será importante o eventual papel a desempenhar na reconstrução do Iraque. Neste capítulo, o famoso colunista do “New York Times”, Thomas Friedman, referia que os Estados Unidos não necessitam de aliados para ir para a guerra com o Iraque, mas no processo consequente de nation-building, aí os europeus são sem dúvida uma peça fundamental para o sucesso desta operação, e outras que seja desenvolvidas no futuro.

Ou seja, bem ou mal, os Estados Unidos estão no Iraque a fazer uma guerra para remover Saddam Hussein. Agora, os líderes europeus terão que reagir coerentemente com as suas convicções e interesses e, realisticamente, enquadrarem-se activamente num sistema, que terá certamente espaço para a Europa, se os seus cidadãos estiverem dispostos a pagar o preço.

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