2020/10/20

Campanha de boatos e cartazes está a ser demolidora para socialistas

Um cartaz cor-de-rosa com as figuras sinistras do guterrismo, que querem voltar à ribalta política com Sócrates e o PS depois de 20 de Fevereiro, é o último cartaz da JSD, lembrando aos portugueses em quem não devem votar. A campanha do PSD pode chocar as elites e não ser do agrado dos media

Um cartaz cor-de-rosa com as figuras sinistras do guterrismo, que querem voltar à ribalta política com Sócrates e o PS depois de 20 de Fevereiro, é o último cartaz da JSD, lembrando aos portugueses em quem não devem votar. A campanha do PSD pode chocar as elites e não ser do agrado dos media. Mas é de uma eficácia extraordinária: desde a vitimização de Santana Lopes ao ataque ao carácter oportunista e incompetente do guterrismo e à orientação sexual dos candidatos, tudo está a postos para inverter a tendência e deixar tudo na mesma: o PSD tem tudo para se manter no poder. E, no final, os estrategas da campanha de Santana Lopes não têm dúvidas: as elites, que são sempre “as mais chocadas” e as últimas a mudarem, vão apoiar o PSD, dizem os autores da campanha. Simplesmente porque não querem Sócrates e a família guterrista com o apoio desnecessário de Freitas do Amaral no governo de Portugal. O desespero socialista está patente nas palavras de Jorge Coelho e no posicionamento de António Vitorino para suceder a Sócrates no PS.

A partir do comício de Braga, a onda de boatos fez o seu percurso e acabou por condicionar o discurso político antes do arranque da campanha eleitoral para as legislativas de 20 de Fevereiro. Nas elites políticas, a crítica foi unânime à baixeza dos boatos. Mas no IC 19 e nas baixas classes médias, a vida privada e o carácter dos candidatos está a fazer o seu percurso, de um modo eficaz politicamente e demolidor para a confiança dos políticos. E, nessas circunstâncias, o PSD acaba por sair vencedor, mesmo que não esteja em causa o programa político, nem sequer a composição do próximo Governo.
Nos bastidores do PSD, Santana Lopes não tinha que fazer nada: depois dos “colos”, veladas insinuações dos apoiantes de Braga, Santana Lopes caiu doente e deveria aparecer apenas na noite de ontem, no debate entre os dois candidatos a primeiro-ministro, afirmando que, do lado dele, jamais houve insinuações sobre a vida privada ou os negócios do candidato socialista, e que, bem pelo contrário, o achava nas mesmas condições que ele, Santana, aliás, também divorciado e pai de filhos.
Teria sido uma estratégia demolidora para o líder socialista, conforme pensam os estrategas do PSD apoiados pela escola brasileira. Santana Lopes perde as elites e perde mesmo credibilidade nos meios económicos mais importantes. Mas essas elites nunca elegeram nenhum Governo e nunca fizeram nenhum resultado eleitoral. Esses têm efeito, quando muito, nas votações de Paulo Portas, basicamente com apoios em alguns grupos de interesses e, sobretudo, na gente humilde das feiras, que normalmente não é sensível à orientação sexual dos dirigentes.
Já o mesmo não se passa nas classes médias suburbanas, e que estão na cidade em primeira geração, para quem a homofobia está presente na educação e que rejeita comportamentos liberais e costumes demasiado abertos. É esse eleitorado suburbano que vai decidir as próximas eleições e que, em última análise, vai dizer se tudo continua na mesma, com o PSD a ser o partido mais votado e a maioria parlamentar a ser de direita.
Ao contrário do que a contra-informação dos media, globalmente ao serviço da estratégia do PS, vai fazendo passar, o PSD de Santana Lopes vem de 32% dos votos obtidos por Durão Barroso, nas eleições europeias e de uma vitória tangencial em 2002, que só foi possível porque a campanha eleitoral terminou. A base eleitoral de Barroso estava a desfazer-se diariamente, depois de no início Barroso aparecer nas sondagens com maioria absoluta.

O exemplo de Barroso

Para os estrategas do PSD, José Sócrates está aparecer demasiado como um candidato alternativo, sem consistência e sobretudo sem conteúdo. O PSD tem tido a habilidade de reduzir o debate a “fait divers”, que vão evitando a discussão do passado, situação que o PS acaba por não conseguir contornar: desde o debate nas televisões, em que Sócrates acabou por impor um formato, em que os outros partidos praticamente não passam em canais generalistas (os debates, até ontem, ocorreram em sinal fechado, distribuído pela TV Cabo, na SIC Notícias), o que acaba por facilitar a bipolarização. Por outro lado, depois da marcação dos debates ter anulado o efeito dos programas eleitorais, o debate à volta dos “colos do outro candidato” acabou por dominar as conversas e sobretudo as entrevistas aos líderes dos políticos e a opinião publicada.
Esta semana, na entrevista a Sócrates na RTP e na entrevista a Paulo Portas na TSF, parte significativa do tempo de antena foi gasto a discutir a legitimidade da crítica à vida privada, às insinuações e aos boatos maldosos, como armas políticas nesta campanha eleitoral.
Ora enquanto se discute essas matérias, obviamente acaba por se acentuar os efeitos mais perversos do boato, da difamação ou da simples informação privada, acabando por ter um efeito não desejado por parte da candidatura de José Sócrates.
Para Paulo Portas o universo da política trata da vida pública e não da vida privada, lembrando a expressão de Maria José Nogueira Pinto, que a política não deve espreitar pelo buraco das fechaduras. Essa reserva do CDS/PP leva o partido da direita a defender uma campanha pela positiva, anunciando medidas e temas políticos, e evitando entrar no debate, que anima os grandes partidos. É uma estratégia inteligente para o seu eleitorado, pois Paulo Portas sabendo que o seu partido só entra nas classes altas e nas muito baixas, sabe que o discurso da vida privada não pega no seu eleitorado e aí ele tem apenas que se concentrar em manter a mobilização. Com a abstenção a subir, isso é quanto basta para o PP manter os seus oito por cento ou conseguir mesmo subir até aos dez por cento. Daí que a marcação do PP ao PCP será uma estratégia inteligente e Portas nem tenha perdido tempo com o ataque de Francisco Louçã a propósito da falta de legitimidade para Portas falar sobre a vida e o aborto, ele que nunca teve filhos e por isso não conhece o “sorriso de uma criança”.
A partir de Louçã estavam abertas as portas para os “boatos e insinuações” que iriam enlamear a campanha e o líder socialista, o que acabou por condicionar todo o debate da última semana.

O regresso dos temas económicos e programáticos

Santana Lopes decidiu afastar-se e depois, quando confrontado com as insinuações, desmentiu totalmente o envolvimento do PSD e dele próprio em tal baixeza. Sócrates e o PS estavam então a vitimizar-se de um problema que só os próprios tinham criado e decidido ampliá-lo, exactamente numa estratégia de “demages control”. Mas o tacticismo está a demonstrar-se desastroso para o PS nas classes médias, embora continuasse a limitar o crescimento do PSD e da credibilidade de Santana Lopes nas elites e nas classes altas.
Santana Lopes está particularmente preparado em matérias económicas e de finanças públicas. Tem os números todos na cabeça e acompanhou a elaboração do último Orçamento do Estado, o que lhe dá uma vantagem relativa para debates com o candidato socialista. Só que a sua credibilidade ficou bastante afectada com as “trapalhadas” do Governo e sobretudo com a pouca qualidade do Executivo. A própria decisão de cortar com o barrosismo, por exemplo, esta semana no dossier Galp, foi penosa para o PSD. E como Santana Lopes não teve coragem de deixar de fora os barrosistas que o traíram e permitiu a desordem que se instalou à sua volta, a sua imagem de líder político acabou por sair bastante chamuscada.
Mas o primeiro-ministro não desistiu por isso de marcar pontos nas elites, em particular nas elites económicas, contando neste particular com a ajuda de António Mexia e de alguns líderes de opinião. Esteve esta semana no American Club a falar a empresários e jornalistas sobre política económica, um discurso que interessa à minoria que Santana Lopes quer cativar, mas que o PSD sabe que é irrelevante para os resultados de 20 de Fevereiro.
Sócrates pode levar aí vantagem, mas apenas até ao confronto dos números. É exactamente com isso que Santana Lopes pode jogar. O debate de ontem evidenciou um primeiro-ministro solto e à vontade em matéria económica, muito realista e a prometer aquilo que as classes médias querem ouvir: baixa de impostos e combate ao desemprego. Tudo no âmbito de contas públicas sãs, sem as quais não há desenvolvimento económico sustentável.
O discurso começa a passar, mas sobretudo o PSD não tem ilusões: as elites podem não ser importantes nesta votação, mas vão ser importantes para relançar a economia do País e por isso o primeiro-ministro tem que começar já a olhar para a governação que se segue.
Neste momento o que interessa é que o PS continua, a cerca de duas semanas, à defesa. As insinuações sobre a vida privada de Sócrates acabam por fazer o seu caminho, por infames que sejam, e por ter resultados nas classes médias e médias baixas. Para as elites tudo mudará, logo que comece a haver a percepção que o PS não tem condições para ganhar as eleições e que tudo poderá continuar na mesma. Nestas circunstâncias, o discurso económico, e pela positiva, de Santana Lopes dá o pretexto para as elites oportunisticamente mudarem de campo, como tinham começado a fazer contra Barroso e a favor de Ferro, nas eleições de 2002.

Socialistas preocupados

O desespero começa a tomar conta do lado socialista. O primeiro sinal foi dado pelo próprio líder da campanha socialista, Jorge Coelho, ao gritar contra as “porcarias” que estão a surgir na campanha: “porcarias, porcarias!”; depois foi a vez de Manuel Carrilho anunciar os seus alegados apoios para uma eventual candidatura à Câmara de Lisboa. Carrilho aparece com mais independentes e gente de maior qualidade que as “Novas Fronteiras”, num posicionamento para uma eventual candidatura à liderança do PS, caso as coisas corram mal.
Mas o maior sinal veio mesmo do insuspeito António Vitorino admitindo poder ser candidato a líder do PS, em entrevista ao “Público” e à Renascença.
O antigo comissário percebe que a campanha do PSD pode ser miserável, mas que surte o efeito desejado. Os portugueses podem não quer votar no PSD, mas o que não querem seguramente é Sócrates como primeiro-ministro. O PS, que tinha a oportunidade de voltar agora ao poder, acaba por ser penalizado pelo candidato a primeiro-ministro. Como reserva está António Vitorino: ele sempre disso que, para voltar, tinha primeiro que estar resolvido o problema Sócrates e Jorge Coelho. Parece que estará mais cedo do que todos esperavam…, deixando Sampaio com um problema de consciência difícil: o que fará o Presidente depois de 20 de Fevereiro?

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