2022/11/27

As idiossincrasias do cavaquismo tardio por Paulo Gaião

Com o alarmismo sobre o Estatuo dos Açores, o voto do imigrante e agora a independência do Kosovo, em plena crise financeira mundial, será o cavaquismo tardio uma mera forma de exercício político idiossincrático?

Salvo o devido respeito pela figura do Presidente da República, esta quarta-feira, no Palácio de Belém, ocorreu um encontro de urgência entre duas personalidades recentemente marcadas pela idiossincrasia política, Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite, tendo como tema de agenda, em plena crise financeira mundial, um assunto não menos idiosssincrático e insólito, de que ninguém se lembrava há muito, talvez nem mesmo os sérvios, para quem a questão sempre provocou pele de galinha mas que hoje talvez estejam mais dispostos a tudo esquecer, o Campo dos Melros e a humilhação da Nato, em benefício da entrada do seu país na União Europeia. A questão da independência do Kosovo marcou a reunião de Belém, eram cinco da tarde, hora do chá, pedida com carácter de urgência por Ferreira Leite. De um lado esteve o homem que, há um mês, estarreceu o país com uma mensagem dramática sobre o Estatuto dos Açores, levantando a questão bizantina de o Presidente da República passar a ter de ouvir os órgãos políticos da região quando dissolvesse a Assembleia Legislativa regional, parecendo não compreender que as regiões autónomas não são o Continente e que os órgãos regionais podem e devem ter direitos especiais que a Assembleia da República não tem. Do outro esteve a mulher que, há um mês, tinha marcado outra iniciativa de urgência, neste caso uma conferência de imprensa, para explicar aos jornalistas que o PSD estava indignado e ia recorrer a todas as instâncias por causa de uma lei socialista escandalosa, sobre a exigência do voto… presencial para os imigrantes nas próximas eleições legislativas, uma forma que já está em exercício nas eleições europeias e para o Presidente da República. Será o neo-cavaquismo ou o cavaquismo tardio uma mera forma de exercício político idiossincrático? Para quem tenha dúvidas, idiossincrasia, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa significa predisposição particular do organismo que faz que um indivíduo reaja de maneira pessoal à influência de agentes exteriores; característica comportamental peculiar a um grupo ou a uma pessoa
Já não é possível prever até onde chegará o desnorte estratégico de Ferreira Leite. No fim-de-semana, numa iniciativa social-democrata, sentiu-se o seu discurso mais solto, com a líder mais à vontade. Para dias depois, voltar a quebrar expectativas e fazer da questão do Kosovo uma matéria prioritária. Centenas de milhares de portugueses estão desempregados, têm salários em atraso, vêem os seus rendimentos “comidos” pela inflação, contraíram o consumo, trabalham cada vez mais e ganham o mesmo ou ainda menos, têm cada vez menos tempo para si e para a família, proletarizam-se, vêem o Estado tirar-lhes direitos e a qualidade de vida que lhes prometerem, década após década, como condição básica do Estado de direito económico e social, parte essencial do contrato social, perdeu-se abruptamente… mas Ferreira Leite faz um pedido de urgência ao Presidente da República para ser recebida e discutir a questão do Kosovo. Será que também foi uma armadilha de Luís Amado, já sabendo que Ferreira Leite ia cair? Como se não bastasse, à saída do Palácio de Belém, Ferreira Leite elogiou o governo de Sócrates por ter sido cauteloso e não ter reconhecido a independência do Kosovo. É óbvio que não havia necessidade e que era preferível Ferreira Leite ter guardado para si os elogios ao executivo. Por sua vez, para além da matéria do Kosovo aparecer como desadequada face à gravidade da crise mundial, a própria realidade alterou-se radicalmente. Hoje, os albaneses talvez já não queiram ser o bastião europeu de uma América falida, profundamente enredada nos seus problemas internos e podem estar à espera de um gesto amigo, e consensual, da União Europeia. Foi para isto que Ferreira Leite pediu com urgência a reunião com Cavaco Silva? Não sabemos, porque a líder do PSD nada nos disse de novo, não marcando pontos políticos.
A insólita reunião de Ferreira Leite com Cavaco ocorreu no dia a seguir à líder do PSD ter acusado Sócrates de já vir tarde tranquilizar os portugueses sobre as suas poupanças, em consequência da instabilidade mundial. Mas é caso para perguntar. Falou Ferreira Leite antes de Sócrates para ter uma palavra pedagógica aos portugueses ou antecipando-se ao primeiro-ministro, para mostrar as omissões e fragilidades do executivo em momentos difíceis? Não, não falou. Preferiu falar do Kosovo, depois de Sócrates já ter falado da crise. Ferreira Leite repetiu, ainda, as criticas que Paulo Rangel já tinha feito a Sócrates por ter diabolizado o mercado da Bolsa, referindo-se a ele como um jogo. Errar uma vez, por imprevidência é normal. Insistir no erro começa a ser trágico para uma líder cujo objectivo é ser alternativa ao governo e ganhar as legislativas de 2009. Perante as opiniões quase unânimes de que os erros e a irresponsabilidade dos gestores do casino têm de ser penalizadas, dando origem a uma nova ordem financeira mundial, como ontem referiu Joe Berardo, Ferreira Leite considera ser o tempo certo para proteger a bolsa dos seus diabolizadores. É mais um problema de desadequação à realidade e mais um erro estratégico, bem patente no facto de até Cavaco Silva ter dado importantes sinais de que tem de se virar uma página na bolsa e no antro de especulação em que esteve mergulhada nos últimos anos. Recorde-se uma vez mais que, em 1987, na crise bolsista de então, ficou célebre a frase do primeiro-ministro Cavaco Silva de que se estava vender gato por lebre na Bolsa portuguesa. Não pode deixa de espantar que o próprio cavaquismo não acerte agulhas na sua estratégia. E não estamos só a falar de Ferreira Leite. As declarações recentes de Cavaco Silva sobre a necessidade de o Orçamento de Estado para 2009 ter medidas para os mais desfavorecidos, é ouro sobre azul na estratégia do Governo e do PS de ter folga na despesa pública e social para tentar ganhar votos à esquerda no ano de todas as eleições e conseguir repetir a maioria absoluta nas legislativas de 2009.
Crise mundial. Com o medo de perder o controlo do poder do Estado, às mãos da revolta popular de toda a gente, pé descalço, remediados, classes médias, novos-ricos e muitos abastados caídos em desgraça, o sistema é capaz dos actos mais sacrílegos do mercado para tentar salvar o capitalismo. Conseguirá? Ou, pelo menos, conseguirá manter a estabilidade política e social, depois do capitalismo empobrecer as massas?

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