CDS e PSD estão a fazer tudo erradopor Rui Teixeira Santos

O mais constrangedor é que estão a fazer tudo errado à direita.

O mais constrangedor é que estão a fazer tudo errado à direita. O CDS, em vez de defender acordos – qualquer tipo de acordos – para se salvar, diz que vai sozinho, não percebendo que sem um discurso de unidade deixa de fazer sentido e coloca-se mesmo à margem do sistema político e o PSD, que deveria afirmar a sua autonomia como alternativa ao governo socialista, não fala noutra coisa que não seja o Bloco Central, dando de barato que o PS ganhará as próximas eleições. A semana passada o PSD chegou mesmo ao ponto – ao convidá-lo para a Universidade de Verão em Castelo de Vide – de insinuar António Vitorino como o nome para suceder a José Sócrates, como primeiro-ministro de um putativo governo de Bloco Central. As manobras de Belém fizeram o resto esta semana.
É evidente que José Sócrates percebeu o recado e não se ficou. No dia seguinte elogiou Leonor Beleza.
De algum modo, José Sócrates percebe que, com Cavaco Silva em Belém e Ferreira Leite no PSD a tentarem convencer as elites e os interesses da necessidade do Bloco Central – o que necessariamente dará mais relevo à posição do Presidente da República, convertido em verdadeiro árbitro entre os dois grandes partidos – o seu espaço pode diminuir e a hipótese de repetir a maioria absoluta nesta conjuntura económica e de contestação social consequente pode ficar comprometida.
Ainda por cima, se António Costa se assumiu sempre como putativo sucessor de José Sócrates, apresentando a solução de uma coligação à esquerda, o arranque de António Vitorino agora, é mesmo, uma aposta séria no Bloco Central e ameaça directamente a autoridade do primeiro-ministro.
O número dois de António Guterres e ex-comissário europeu, António Vitorino, hábil e inteligente como é, obviamente, que aceitou o repto.
Um repto que, no fundo, consubstancia a natureza intrinsecamente eanista do cavaquismo: um projecto político que visa manter a influência pessoal e o poder de intervenção do Presidente Cavaco Silva, para além dos poderes que a Constituição lhe reconhece.
Um repto, em suma, que visa assegurar que o PSD nunca será poder sozinho e que o PS não repete a sua maioria absoluta.
De certo modo, é também o corolário do discurso ideológico catastrofista e ético alimentado por Belém – e pela sua criatura, a silenciosa Manuela Ferreira Leite – que, de algum modo, recicla o eanismo inicial, aprendendo com os seus erros.
Repare-se que o cavaquismo nunca faria um partido de inspiração presidencial como o PRD e, ao contrário de Eanes, usa o próprio Bloco Central para consolidar o seu poder.
Nisto, Aníbal Cavaco Silva sempre foi um pragmático e jesuítico, apesar de se manter sempre acima de qualquer suspeita. Por exemplo, sempre terá sabido das negociatas, da corrupção, nos seus governos, sempre poderá ter sabido das figuras de reputação dúbia e, em boa verdade, nunca combateu isso para além do discurso. Exactamente, como Manuela Ferreira Leite e ao contrário do Presidente Ramalho Eanes, este muito mais reactivo e ingénuo nessa matéria.

A estratégia de Bloco Central
Antes da eleição de Manuel Ferreira Leite como líder do PSD escrevemos duas coisas: que a senhora não tinha uma única ideia sobre Portugal e que, portanto, não tinha políticas alternativas ao PS e que, se porventura aparecesse alguma ideia, ela seria a voz do dono – Aníbal Cavaco Silva. Foi, aliás, o que aconteceu com a questão do financiamento das obras públicas, como todo o País percebeu.
A segunda ideia era que Manuela Ferreira Leite tinha, contudo, uma missão fundamental: a de manter a estabilidade, ou seja, a de assegurar a continuidade do PS à frente do próximo Governo, depois das legislativas de 2009, e, de preferência, em coligação, com o Bloco Central.
O Presidente da República dá mostras, há mais de 29 anos – o seu tempo de política activa -, que é o melhor político realista que o País jamais conheceu desde o professor Oliveira Salazar. Esta semana só o confirmou com a encenação da intervenção televisiva de ontem, onde ficou clara a vontade de intervir.
Para ele, para Cavaco Silva, acima do interesse do País, acima do que é melhor para os portugueses, está a sua primeira missão de um político: a missão de conservar o seu próprio poder e a vontade de intervir mais na área executiva para a qual se julga providencialmente dotado. Tudo o resto vem depois e é instrumental. (De notar que Cavaco pertence àquela geração ridiculamente presumida que, aos 40/50 anos, achava que os de 60/70 eram velhos e incompetentes e que, agora, com 60/70 anos, acha que os que têm 40/50 anos são novos e igualmente incompetentes.)
Esta é, aliás, a extraordinária história política de Aníbal Cavaco Silva que, dissimuladamente e aprendendo com os erros do eanismo, nunca se assumiu como salvador do regime, mas, apenas, como um institucionalista e um defensor da ordem e da Constituição que jurou respeitar e fazer respeitar.
Ora, aos setenta anos, Manuela Ferreira Leite, com o apoio da nomenclatura estatal, que inclui naturalmente a concordância dos mais relevantes poderes fácticos da nossa sociedade, foi mandada para a frente, rodeada dos “órfãos habituais do PSD”, juntando mesmo o pior do Aparelho laranja com um grupo de funcionários do Estado que nunca criou riqueza e que viveu toda a vida à pala da política ou da sua influência nos negócios, e que, verdadeiramente, não representa nada nem ninguém.
Os interesses, esses, obviamente, estão com o poder, no caso com o PS e com o governo socialista, como é natural – e assim deve continuar a ser – e, por isso, nada têm a opor à estratégia cavaquista de manutenção de uma maioria com a mesma agenda.

O cavaquismo existe
Pensar que o cavaquismo não existe é uma tolice. É certo que ele não tem ideologia nem programa político. Tem, apenas, como objectivo preservar o poder do Presidente da República e ampliar a sua influência no executivo, o que, instrumentalmente, serve a estratégia barrosista de desertificação do campo político da direita – para que Durão Barroso, eventualmente, ainda possa suceder a Cavaco Silva em Belém, depois de mais um mandato na CE – e a vaidade de fraca gente – promovida por alguma comunicação social sem assunto, cujos nomes nem vou nomear.
Para além disto, o cavaquismo não é nada. Nem o seu programa reformista ousa ir além das propostas do governo Sócrates, nem sequer tem, hoje, a visão liberalizadora ou correctora das falhas do mercado que Aníbal Cavaco Silva foi obrigado por Bruxelas a implementar no nosso país depois da Adesão à CEE.
Bem pelo contrário, no discurso do cavaquismo há toda uma moral culpada e provinciana, relativamente à riqueza e à iniciativa privada (que não sejam os interesses dos três ou quatro grandes grupos económicos que os governos de Cavaco criaram, discricionariamente, com o dinheiro e as encomendas do Estado – indiscutivelmente o maior cancro da economia portuguesa e razão do estrangulamento das PME), chegando mesmo à demagogia de dar a ilusão que ultrapassa, pela esquerda, o próprio governo socialista. (Muito curiosa, aliás, no mesmo sentido, a proposta de criar mais um escalão no IRS, avançada por Fernando Ulrich, a dar mostras de que quer largar um BPI, sem viabilidade nesta conjuntura, e que poderia equacionar uma carreira política…)
O cavaquismo existe e tem uma agenda clara: impedir que o PSD controle o Governo. Pelo simples facto que, nesse momento, o cavaquismo morre, mesmo que fosse a sempre leal e prestável Manuel Ferreira Leite a ficar como primeira-ministra. Porque, nesse momento, Cavaco Silva perde o estatuto de moderador, para passar a ser solidário com todas as decisões, verdadeiramente, para passar a ser prisioneiro do seu próprio partido ou da maioria que o apoiou.
Esta é a verdadeira natureza do cavaquismo – ou do eanismo reciclado – e, de certo modo, a razão por que Cavaco Silva é actualmente o maior inimigo do PSD e pode, facilmente, comprometer a manutenção do actual sistema de partidos políticos. E tudo isto com a imagem dissimulada do defensor da Constituição.

Caminhos pessoais
Só que os propósitos cavaquistas, mesmo com Cavaco a aparecer na véspera das férias, parecem estar a desmoronar-se. Manuela Ferreira Leite foi longe de mais. E não é apenas Alberto João Jardim a notar, nem tão-pouco apenas Luís Filipe Menezes.
É verdade que o santanismo não existe no PSD, depois da derrota das últimas directas e do abandono em pleno Congresso, e que Santana Lopes faz o seu percurso pessoal, eventualmente, a pensar nas presidenciais. (Em boa verdade a experiência do menezismo – no Grupo Parlamentar – e as próprias directas, se não o beneficiaram, acabaram também por não prejudicar o ex-primeiro-ministro.)
Durão Barroso marca o terreno com Nuno Morais Sarmento, José Luís Arnaut e Matos Correia, a pensar também na Presidência. De algum modo, o seu caminho é, também, pessoal.
E, finalmente, Marcelo Rebelo de Sousa está sempre presente, por aquilo que poderá vir a ser, mesmo que nunca o tenha sido – é esse o seu charme e poder. Faz, assim também, o seu caminho solitário para poder ser presidenciável.
Portanto, os grandes protagonistas da nova esperança estão todos fora da corrida ao PSD e, como Cavaco Silva, apenas olham para o PSD como instrumental de uma estratégia pessoal, tendo em vista o Palácio de Belém e não como alternativa política ao governo socialista.
Tal como Cavaco Silva, também lhes agrada este clima mediático pré-insurreccional de enfraquecimento do poder do Estado e, sobretudo, de desgaste do PS e do primeiro-ministro José Sócrates, que tão bem tem adivinhado Aguiar ou descrito Pacheco Pereira.

Substituição de Ferreira Leite já começou no PSD
Embora na área da actual liderança seja claro o “desembainhar de espadas” para a discussão da sucessão – havendo ambições conhecidas de Morais Sarmento, António Borges, Alexandre Relvas e Rui Rio – verdadeiramente em jogo só estão Nuno Morais Sarmento, por causa de Durão Barroso, e Rui Rio, o presidente da Câmara Municipal do Porto. (Veremos, proximamente, o efeito das intervenções de Belém e as manobras do presidente da Comissão Europeia, ambos de férias em Agosto, nestes equilíbrios dentro do grupo que acompanha a silenciada Manuela Ferreira Leite.)
Curiosamente, nenhum destes nomes é simpático ao eleitorado e, sobretudo, nenhum deles tem sequer o carisma de Ferreira Leite, algo que pudesse ser mais que o partido.
Como escrevemos, logo depois das Directas, a história das sucessões, no PSD, mudou nesta década. O próximo poder nunca sai da liderança anterior e quando isso acontece – como foi o caso com Santana Lopes que se aproximou de Barroso para lhe suceder -, as coisas correm mal.
Portanto, ao designar o vencedor de hoje, o Congresso designa também – no vencido – o vencedor de amanhã. E, no caso, trata-se de Pedro Passos Coelho. (Santana Lopes percebeu isso intuitivamente e foi por isso mesmo que avançou.) E, Pedro Passos Coelho – como ele disse e nós concordamos oportunamente – tinha pela frente um caminho de duas legislaturas.
Criado no “laboratório Ângelo Correia”, que assim segue as passadas de Adriano Moreira – com Manuel Monteiro – ou Cruz Martins – com Durão Barroso – Passos Coelho visivelmente não estava preparado para assumir o lugar de primeiro-ministro.
O objectivo de Ângelo Correia, aliás, também não era – não podia ser – o de tirar o lugar a José Sócrates. Bem pelo contrário. O objectivo era assegurar uma estabilidade alternativa à de Belém, à estabilidade tutelada por Cavaco Silva – de que Ângelo Correia sempre desconfiou. Ficou isso, aliás, claro nos debates entre os candidatos nas directas do PSD.
O que se pretendia mesmo era facultar condições políticas para que José Sócrates, o actual primeiro-ministro socialista, repetisse a maioria absoluta do PS, contudo, em condições honrosas para o PSD, que, naturalmente, chegaria ao poder, com um Passos Coelho rodado, dentro de cinco anos – até porque, em Portugal, no actual sistema político, nenhum partido aguenta mais que duas legislaturas – e, à excepção de Cavaco Silva, por causa do impacto da adesão à CEE, nenhum chega, mesmo, ao fim da segunda legislatura.
Neste tempo, Pedro Passos Coelho poderia sempre preparar-se. E daqui a cinco anos seria um credível primeiro-ministro para Portugal. É, aliás, este, o percurso dos líderes partidários por exemplo no Reino Unido. Alem disso, avançar já, com uma provável vitória do PS à vista, seria colar, desnecessariamente, uma derrota ao currículo do candidato.

A mudança de planos de Passos Coelho
Só que o agravamento da crise social e económica e a estratégia inteligente de Belém – com o sistemático desgaste do governo socialista provando todos os dias que é incompetente e que só produz leis inconstitucionais (Sócrates é recordista de leis mal feitas e inconstitucionais, com efeito) para lá da própria intervenção televisiva do Presidente – pode colocar em perigo a própria maioria socialista.
E a possibilidade do poder de Belém – do eanismo cavaquista ou esse gosto dos presidentes se envolverem nas funções executivas – se estender a um Bloco Central executivo começa a ser claro, sobretudo, quando o Presidente parece querer encenar a marcação da agenda, e quando nem Pacheco Pereira, nem mesmo Ferreira Leite, já o escondem.
Só que Ferreira Leite não tem agenda directa e sobretudo pode – com o Bloco Central – servir as ambições e os interesses pessoais do Presidente Cavaco Silva, o que pode efectivamente comprometer em definitivo o sistema actual de partidos e pode mesmo levar à liquidação do PSD e, portanto, de uma alternativa aos socialistas, que, a prazo, necessariamente, se converteriam no partido hegemónico do sistema político.
É um plano político que – com Sócrates ou sem ele, e já vimos que o Presidente da República prefere que seja sem ele -, obviamente, não interessa ao sistema da alternância democrática e que, portanto, não serve ao PSD.
Ora, neste contexto, faz sentido que a crise no PSD rebente antes mesmo das próximas legislativas e depois da intervenção de Cavaco Silva, mesmo que rebente quanto antes. É certo que há demasiada gente interessada em afastar a influência de Cavaco Silva do poder executivo e de o manter como moderador, nos termos constitucionais.
Há, portanto, uma forte convergência em afastar o cavaquismo e o barrosismo oportunista, que se lhe colou na solução Ferreira Leite, no PSD. Uma linha que era maioritária nas últimas directas.
E, assim sendo, os tiros começaram a ser dados.
O País vai de férias. E, logo na rentrée o próximo Orçamento do Estado será o teste e pode revelar-se como o início de um novo ciclo político.
Sem alternativa e sem discurso, as fragilidades da actual líder do PSD vão ser patentes e tornar-se-á insuportável a sua continuidade. Pacheco Pereira, do púlpito da SIC, não terá qualquer influência e o próprio barrosismo – para defender a estratégia pessoal de Barroso – fará o mesmo que, antes, fez a Pedro Santana Lopes, sendo o próprio executor da sentença de morte de Manuela Ferreira Leite e do sonho eanista de Aníbal Cavaco Silva.

Jardim diz que haverá directas no início do ano
Começou com Alberto João Jardim, que sempre disse que haveria directas no PSD em Janeiro ou Fevereiro, e que pode ser ameaçar com a autonomização do seu grupo parlamentar, fazendo ele o apoio à estabilidade do governo socialista, contra 200 milhões de quatro em quatro anos – uma espécie de queijo limiano madeirense. Continuou com Luís Filipe Menezes e Pedro Santana Lopes nos jornais e, agora, é, inevitavelmente, a vez de Passos Coelho se pronunciar este fim-de-semana.
E, todos irão para férias com a certeza que Cavaco quer mesmo aumentar a sua influência executiva, mas que Manuela Ferreira Leite provavelmente não será a candidata do PSD nas próximas legislativas e que o cavaquismo pode ser, finalmente, enterrado.
A ver vamos!|

O ultimato de Belém: Sócrates ou é humilhado ou é demitido

O Presidente da República avançou ontem com um ultimato à maioria socialista. Em causa o regular funcionamento das instituições democráticas e os equilíbrios constitucionais. Cavaco cria condições para dissolver o Parlamento caso Sócrates não recue.
Os sinais do fim da coabitação são mais que evidentes desde que Manuela Ferreira Leite chegou ao PSD. Foi aliás a líder do PSD quem disse que Sócrates estava a procurar um conflito com Belém a propósito do estatuto da região autónoma, numa matéria que o próprio Constitucional não achou ser inconstitucional, apesar de ter detectado outras nove normas inconstitucionais.
Basicamente, a intervenção de ontem do Presidente da República, não sendo para apresentar a sua renúncia nem a imediata demissão do Governo, não teria nenhuma relevância se não fosse o facto de Belém lhe ter querido dar relevância, deixando em vésperas de férias um ultimato à maioria socialista.

A encenação de Belém
Começou logo pelo anúncio, aliás, falso, ontem às quatro da manhã, no Público, que Cavaco Silva interrompia as suas férias para falar ao País às 20 horas. Era uma mistificação, pois, horas antes, o Presidente da República tinha estado a condecorar, exactamente em Belém, de onde falou, o último secretário-geral da CPLP. Cavaco ainda não tinha ido de férias.
O que significa a segunda intervenção televisiva do Presidente da República neste seu mandato é apenas que Cavaco Silva quer ter mais intervenção e quer começar a preparar o caminho para acabar com a cooperação estratégica e dissolver o parlamento antes que as medidas eleitorais de Sócrates façam qualquer efeito. Ainda por cima na actual conjuntura económica e social, o Presidente sabe que o governo socialista está fragilizado. O método é, aliás, em tudo semelhante ao desgaste que Jorge Sampaio usou para demitir Santana Lopes.
Cavaco Silva pressente que o seu projecto pessoal de dominar o executivo através de Belém e, de facto, presidencializar o regime, através de um equilíbrio entre os dois grandes partidos do centro moderado por ele próprio, só poderia avançar com Ferreira Leite no PSD, mas, por outro lado, pressente que Ferreira Leite não tem condições para se aguentar até ao fim da legislatura e que, portanto, a antecipação pode ser uma oportunidade.

O Bloco Central
E, ao ver os indicadores de confiança ao nível do tempo do Bloco Central, antes da adesão de Portugal à União Europeia, e com o pretexto, aliás, percebido pelos portugueses que o governo Sócrates é pouco competente na elaboração das leis e no respeito da Constituição (é mesmo o recordista das inconstitucionalidades), o Presidente Cavaco Silva sentiu que era o momento adequado e tinha o pretexto certo para tomar a dianteira, aparecer a desgastar a maioria socialista, para, eventualmente, mais tarde, até ter razões adicionais para forçar a demissão do governo de José Sócrates. Ainda por cima do seu lado, Cavaco teria o argumento de evitar que se desbaratem nesta conjuntura os ganhos financeiros e as reformas feitas nos últimos três anos, com o governo em campanha eleitoral.

A lembrar que existe
O Presidente Cavaco Silva aparece no último dia antes de férias para lembrar, basicamente, que está presente e que os portugueses podem contar com ele, sempre vigilante e defensor do regular funcionamento das instituições.
Manuela Ferreira Leite estaria calada exactamente para o eleitorado poder perceber, neste momento, em que o professor Cavaco Silva joga todo o seu prestígio, nestes prolegómenos de um aparente “golpe constitucional”, empurrando o primeiro-ministro para tábuas e impondo-lhe publicamente uma humilhação. Caso o primeiro-ministro não recue, é certo que o Presidente Cavaco Silva dissolverá mesmo a Assembleia da República.
Percebendo a “conspiração de Belém”, José Sócrates multiplicou-se, na última semana, em anúncios de investimentos e obras, computadores, reformas, dinheiro para escolas e tribunais e outra propaganda pré-eleitoral, mostrando um Governo coeso e a trabalhar para resolver a crise ou, pelo menos, atenuar os efeitos da mesma.
Mais ainda, José Sócrates mandou travar os excessos da Administração Pública no ataque às PME e às famílias e avançou com um pacote de financiamento às empresas (mais de 500 milhões), o carro eléctrico e o computador para os jovens, ao mesmo tempo que facilitou 105 milhões de euros ao Governo Regional da Madeira, para pagamento de dividas, tentando comprar a paz com o Governo da Madeira – que pode ser o seu maior aliado contra o cavaquismo.
Só que a situação financeira degrada-se e é necessário impor aos portugueses uma rápida queda do nível de vida para que possam viver com o que ganham sem desperdício – a receita dos saldos de Ferreira Leite.
António Vitorino poderia estar disponível para substituir José Sócrates como primeiro-ministro de um governo de “Salvação Nacional”, bem ao gosto do eanismo cavaquista.
O que fica para ver é se, nestas condições, Aníbal Cavaco Silva tem o mesmo sucesso que teve Jorge Sampaio, quando este conspirou contra Pedro Santana Lopes, abrindo caminho ao governo socialista, curiosamente chefiado por José Sócrates, que, agora, o novo Presidente também quer afastar.
Mas, do que não tenho dúvida alguma é que José Manuel Durão Barroso está ao corrente desta operação cavaquista. A prazo, o deserto, à direita, de novo criado por Cavaco, garante a sua eleição presidencial.
Veremos como reage Sócrates depois disto.|

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