2019/11/18

António Costa corre o risco de ficar “entalado” entre uma coligação ..

As eleições intercalares em Lisboa foram há um ano atrás e já falta pouco para a capital entrar outra vez em pré-campanha, com as autárquicas em todo o país a deverem realizar-se em Outubro de 2009, quase de certeza em simultâneo com as legislativas. As peças já começaram a movimentar-se. António Costa vai assinalar o 15 de Julho na próxima semana, data em que foi eleito, com um jantar onde reúne as suas tropas, visando a sua recandidatura. Helena Roseta há muito que fez saber a sua vontade de se recandidatar e, para além de dever manter a sua base de apoio no Movimento de Intervenção e Cidadania, poderá ter o apoio surpreendente do Bloco de Esquerda.
Francisco Louçã colocou essa hipótese há dois meses. José Sá Fernandes, de candeias às avessas com o BE, poderá, por sua vez, integrar as listas de António Costa. À direita, a salvação poderá estar numa lista única, tirando partido dos problemas de Costa com o Bloco e da quase impossibilidade de uma aliança com o PCP. Pode não fazer sentido os comunistas estarem coligados com o antigo braço-direito de Sócrates na capital e, ao mesmo tempo, fazerem um ataque cerrado ao primeiro-ministro.

As eleições intercalares em Lisboa foram há um ano atrás e já falta pouco para a capital entrar outra vez em pré-campanha, com as autárquicas em todo o país a deverem realizar-se em Outubro de 2009, quase de certeza em simultâneo com as legislativas. As peças já começaram a movimentar-se. António Costa vai assinalar o 15 de Julho na próxima semana, data em que foi eleito, com um jantar onde reúne as suas tropas, visando a sua recandidatura. Helena Roseta há muito que fez saber a sua vontade de se recandidatar e, para além de dever manter a sua base de apoio no Movimento de Intervenção e Cidadania, poderá ter o apoio surpreendente do Bloco de Esquerda. Francisco Louçã colocou essa hipótese há dois meses. José Sá Fernandes, de candeias às avessas com o BE, poderá integrar as listas de António Costa. O mais provável é que o PCP repetia a recandidatura de Ruben de Carvalho, mas alguns cenários não são de excluir, como o lançamento de uma figura mais mediática, de forma a não ver Helena Roseta beneficiar do voto útil da esquerda, ou mesmo aconselhar o voto na arquitecta, dando um duro golpe em Costa. À direita, as movimentações estão mais atrasadas, consequência das mudanças na liderança social-democrata. Depois de se ter criado um balão de ensaio para Santana Lopes ser recandidato e este rejeitar a hipótese, atirando as responsabilidades do combate difícil para os apoiantes de Ferreira Leite, Pedro Passos Coelho viu na semana passada o seu nome lançado por António Capucho, numa entrevista que o presidente da Cãmara de Cascais deu ao SEMANÁRIO. Mas é pouco provável que Passos Coelho aceite o que pode ser mais uma armadilha do que um convite. Fernando Seara é falado para candidato a Lisboa há alguns meses, desde o tempo da liderança de Luís Filipe Menezes, à semelhança de Paula Teixeira da Cruz, a hoje presidente da Assembleia Municipal de Lisboa. No PP, depois da zanga de Paulo Portas com Maria José Nogueira Pinto, o partido não tem um candidato natural e a aliança com o PSD de Ferreira Leite parece ser contra-natura. Para complicar a situação da direita, é quase certo que Carmona Rodrigues deverá repetir a recandidatura de há um ano, quando obteve o segundo lugar na corrida.
Nos últimos meses, chegou a ser muito comentada nalguns sectores políticos a possibilidade de António Costa não se recandidatar à capital, podendo sair em meados do próximo ano para ser cabeça-de-lista pelo PS às eleições europeias de Junho próximo. Esta hipótese alimentava-se dos problemas financeiros em Lisboa e da dificuldade em Costa mostrar obra, saindo para enfrentar o risco de não perder. Há perspectivas, porém, em que a emenda parece pior que o soneto. Neste cenário, Costa teria de arranjar um excelente motivo, ou pretexto, para sair, o que não é fácil. De outro modo, o eleitorado não perceberia que ele se tivesse candidatado nas intercalares, para abandonar o barco um ano depois. É esta, aliás, uma obrigação quase natural que afecta os outros candidatos, como se o projecto apresentado nas intercalares tivesse que ter sequência nas locais de Outubro de 2009. Seria, por isso, pouco coerente e pouco consistente, imagem que não se coaduna com aquilo que se conhece de Costa . Neste quadro, o risco poderia ser alto para o autarca de Lisboa, no sentido de abdicar de Lisboa e receber um mau resultado nas europeias, ainda por cima um sufrágio onde pode vir a verificar-se, com forte probabilidade, um voto protesto no PS por causa da acção do governo. O facto de, com a saída de Costa, outros socialistas de nomeada se lançarem à corrida pela capital e, quem sabe, poderem ser bem sucedidos, poderia baralhar as contas do autarca de Lisboa em relação à sucessão de Sócrates.

Sá Fernandes integra as listas do PS?

Hoje, com o jantar de Costa de terça-feira, a hipótese de abandono da capital parece definitivamente afastada. O autarca de Lisboa deve ter equacionado que não tinha saída possível, pelos motivos políticos já expostos. Por sua vez, em termos de riscos, parece melhor para Costa a hipótese de se recandidatar do que a contrária. O autarca de Lisboa tem a justificação dos problemas financeiros da capital e do pouco tempo de mandato exercido para se salvaguardar, funcionando, ao mesmo tempo, como argumento para se recandidatar e executar plenamente, com um mandato pleno, o projecto que já vem das intercalares. Por outro lado, alguns riscos eleitorais de uma recandidatura parecem calculados. Costa deve sabe que a direita vai ter grandes dificuldades para se unificar. O mais provável é, de facto, apresentar-se dividida, o que beneficia, mais uma vez, o autarca de Lisboa. Recorde-se que no ano passado, Costa teve 30 por cento de votos, muto áquem da fasquia da maioria absoluta que chegou a pedir. Esta divisão da direita tem, ainda, como reverso, favorável a Costa, o facto de o PS não necessitar de entrar em negociações difíceis para fazer uma coligação de esquerda. Mas Costa enfrenta riscos maiores. A perspectiva de Helena Roseta poder ser apoiada pelo Bloco de Esquerda é preocupante para o autarca de Lisboa. Helena Roseta teve 10 por cento de votos há um ano, sem ser apoiada por nenhum partido. Com o apoio do BE, que conseguiu quase dez por cento com Sá Fernandes nas intercalares, Helena Roseta fica nos 20 por cento. Ora, num quadro em que tem possibilidades de vencer, a arquitecta pode entrar numa dinâmica muito complicada para Costa, podendo captar votos junto de mais eleitorado socialista descontente e junto do eleitorado comunista. No caso de o PC, precisamente com receio de perder votos para Roseta, a apoiar também, a vitória da arquitecta poderia estar quase garantida. Refira-se que há um mês, questionado sobre a possibilidade de o BE manter o apoio a Sá Fernandes ou apoiar outro candidato, designadamente Helena Roseta, referiu que tal cenário era uma hipótese, o que deixou surpreendidos muitos bloquistas e até o próprio Sá Fernandes, que manifestou estupefacção, já que Louçã lhe tinha reiterado o apoio há pouco tempo. Esta ruptura do BE com António Costa não é alheia à aproximação gradual que Sá Fernandes tem feito ao PS e surgiu poucos dias depois de ter sido noticiado que o vereador do BE tinha chegado, inclusivamente, a participar numa reunião concelhia do PS. Logo depois das intercalares, quando Sá Fernandes entendeu com António Costa para governar a Câmara, essa decisão do vereador, independente apesar de eleito nas listas do Bloco, causou grande polémica no seio do BE, com vários militantes e dirigentes a criticarem a decisão de Sá Fernandes, por poder esvaziar o projecto do BE e desagradar à sua base de apoio em Lisboa. As relações entre o BE e Sá Fernandes atingiram um tal ponto de ruptura que até iniciativas concretas do vereador são criticadas publicamente por dirigentes do Bloco, designadamente a cedência do espaço do Jardim da Rua das Flores para uma acção comercial. Neste quadro, é quase certo que Sá Fernandes não terá, de facto, apoio do BE para se recandidatar, sendo provável que o vereador bloquista acabe por se integrar nas listas do PS. Nos últimos meses, ao mesmo tempo que se degradam as relações com o BE, melhoram as relações com António Costa. Duvida-se, porém, que Costa colha grandes benefícios eleitorais por ver Sá Fernandes nas listas, ainda que tudo dependa de quem o Bloco lance ou apoie como candidato. Repare-se que o apoio do BE a Helena Roseta também pode não ser pacífico, sendo mais uma solução em que o partido apoia um independente, com o risco acrescido de Helena Roseta estar muito ligada ao MIC de Manuel Alegre.
A circunstância de as autárquicas deverem realizar-se em simultâneo com as legislativas também não parece favorecer Costa. A vitória de Sócrates vai ser o grande objectivo do PS, afectando Costa. O voto na capital é um voto muito politizado, o que faz com que quem vote Sócrates para as legislativas, possa não votar Costa, seguindo uma lógica eleitoral que, em Portugal, tem distribuído os ovos por vários cestos. Uma derrota de Costa em Lisboa poderá hipotecar seriamente o seu futuro político, o que faz com que o desafio seja maior. Costa tem sido considerado no PS o sucessor natural de Sócrates. Quando o hoje primeiro-ministro se lançou na corrida interna do PS, em 2004, houve um pacto de cooperação entre ambos, com vista a evitar lutas fraticidas que só beneficiam os adversários. No governo, Costa foi o braço político de Sócrates e mesmo a sua saída para ser candidato a Lisboa, pode ter sido administrada pelos dois, visando cortar as vazas a António José Seguro, que chegou a mostrar disponibilidade para ser candidato.

A direita coligada

À direita o panorama é ainda mais imprevisível. É quase certo que, no PSD, Passos Coelho não será candidato a Lisboa. O homem que ficou em segundo lugar nas directas de há um mês, teria mais a perder do que a ganhar caso fosse candidato. Se ganhasse, acrescentada pouco valor acrescentado ao seu capital. Passos Coelho já tem o estatuto de estrela ascendente no PSD, na calha para liderar o partido após 2009. Mas se perdesse Lisboa, Passos Coelho poderia ver a sua carreira política ameaçada, invertendo o seu caminho de sucesso. Daí que a ideia da sua candidatura por parte do ferreirismo possa ser um presente envenenado.
Quanto a Fernando Seara, é sabido que o autarca de Sintra não se quer recandidatar pela segunda vez no município e que, no tempo de Menezes, terá mostrado disponibilidade para ser candidato a Lisboa e mesmo recebido a luz verde de Luís Filipe Menezes. Com Ferreira Leite tudo se alterou e, em condições normais, pode não haver lugar para Seara. O ferreirismo vê com maus olhos a ligação de Seara a Menezes, tendo ocupado uma das vice-presidências do partido, e pode mesmo não perdoar o reforço da confiança ao então líder, numa entrevista precipitada ao “Público”, pouco tempo antes de Menezes se ter demitido. Só no caso de a actual direcção não conseguir encontrar um candidato forte das suas hostes, Seara poderá ter algumas hipóteses. Mesmo assim, deverá haver sempre quem torça o nariz a Seara, certamente também com receio de o hoje autarca de Sintra poder ter um desfecho feliz na capital e baralhar ainda mais as contas na corrida à sucessão de Ferreira Leite. Seara, conhecido benfiquista, é um homem muito popular e respeitado que podia, com uma vitória na capital, ganhar capital político para se candidatar a líder do PSD.
Paula Teixeira da Cruz é outra possibilidade. A antiga vice-presidente de Marques Mendes apoiou Ferreira Leite nas Directas e cumpre alguns requisitos que Seara não preenche. As boas relações pessoais e políticas com António Costa, que atingiram o clímax por ocasião do pedido do super-empréstimo de há quase um ano, parecem, porém, diminuir a sua capacidade política de enfrentar o actual presidente da Câmara, protagonizando um projecto verdadeiramente alternativo. Por sua vez, ainda que as perspectivas eleitorais não sejam animadoras, até porque Paula Teixeira a Cruz não é uma figura que crie empatias e não tem grandes dotes de comunicação, o facto é que um desfecho feliz da hoje presidente da Assembleia Municipal em Lisboa podia, à semelhança do que acontece com Seara, baralhar ainda mais as contas na sucessão de Ferreira Leite, com Paula Teixeira da Cruz a posicionar-se, também, como candidata.
Caso se confirme que Seara ou Paula Teixeira da Cruz não têm condições políticas para serem candidatos, Ferreira Leite terá de escolher alguém das suas hostes. Nuno Morais Sarmento, José Luis Arnaut, José Pacheco Pereira, são algumas possibilidades. O risco da corrida faz, no entanto, que qualquer deste candidatos tenha de ponderar bem as consequências políticas de uma derrota na capital, sobretudo Morais Sarmento, que tem ambições de suceder a Ferreira Leite. Uma coligação de toda a direita era a condição que poderia quase garantir uma vitória do PSD em Lisboa, juntando o PP e Carmona Rodrigues numa candidatura única. Tirando partido, aliás, da quase impossibilidade de António Costa em reunir a esquerda à sua volta, em face dos problemas surgidos com o Bloco de Esquerda , e com o facto de o PCP ter uma estratégia nacional de duro ataque ao governo de Sócrates que chocaria com o apoio ao antigo ministro da Administração Interna. António Costa corre, assim, o risco de enfrentar duas frentes que o podem comprimir , de um lado Helena Roseta, do outro uma coligação de direita. Pode ser fatal? Há quem diga que sim. No staff de Costa, nem por isso, porque há quem defenda que a bipolarização favorece o PS, impedindo que o voto útil à esquerda se faça no BE, no PC, ou em Helena Roseta.|

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