2020/09/24

Jardim pediu a Santos Silva uma proposta urgente para a fusão dos dois

O BPI avançou ontem com uma proposta para iniciar negociações com o Conselho de Administração Executivo do BCP, no sentido de uma eventual fusão entre os dois bancos. Artur Santos Silva e Fernando Ulrich reagiam assim ao pedido formulado por Jardim Gonçalves, que, deste modo, contorna o conflito institucional instalado. Porém, meios financeiros admitiram ao SEMANÁRIO que o BPI já antecipa o fracasso e, por isso mesmo, apresentou um preço médio de 3,25 euros por acção, 2% acima da cotação de ontem, muito abaixo do valor real do banco. O BPI avançaria agora amigavelmente para depois poder lançar uma OPA hostil, contando mesmo com a hipótese de aparecerem outros corredores nesta corrida, numa estratégia que só se explica pela grande estima que Santos Silva e Ulrich têm por Jardim Gonçalves. Mas, a existência de uma solução nacional, com a manutenção do actual BCP, ainda está em cima da mesa e Jardim Gonçalves pode já no próximo Conselho Geral, no início da próxima semana, colocar o seu lugar à disposição e sair do BCP, caso os accionistas e a administração do BCP chumbem a operação, o que parece óbvio, pelo menos por este preço.

Jardim Gonçalves deverá, no próximo Conselho Geral, no início da próxima semana, anunciar o seu apoio à proposta do BPI para a fusão dos dois bancos. O BPI não descartava a prazo a hipótese, mas Jardim Gonçalves pediu a Artur Santos Silva que avançasse já, para evitar as movimentações de Joe Berardo e Pedro Teixeira Duarte. Ontem, o Conselho de Administração do BPI enviou uma carta ao Conselho de Administração do BCP, propondo o início de negociações para a eventual fusão, trocando duas acções do BCP por uma acção do BPI.
Na carta, o BPI refere que “entende o Conselho de Administração do Banco BPI, SA, ser importante para ambas as instituições que fique rapidamente definido se é possível formar um acordo entre os respectivos órgãos de administração quanto à fusão acima referida e ao respectivo projecto. Nesse quadro, gostaríamos de transmitir a V. Exa. que a presente proposta se manterá eficaz até ao termo do próximo dia 15 de Novembro de 2007, prazo findo o qual, se entretanto não tiver sido acordado algo em contrário pelos órgãos de administração dos dois bancos, caducará”.
Para o BPI, a “presente proposta tem como pressuposto que a informação publicamente disponível reflecte fielmente a situação patrimonial, económica e financeira individual e consolidada do Banco Comercial Português, SA, que a fusão se poderá concretizar sem que dessa concretização decorra qualquer efeito que represente um impacto negativo para a referida situação e que entre a presente data e aquela em que venha a ser concluído um acordo entre os órgãos de administração dos dois bancos, quanto ao projecto de fusão a apresentar às respectivas assembleias de accionistas, não ocorrerá qualquer circunstância que altere ou possa alterar, de modo relevante, essa situação”.
O Conselho de Administração do Banco BPI, SA, diz ter “presente a existência de parcerias de ambos os bancos com instituições seguradoras e que é seu propósito que a operação proposta e a instituição que dela resulte venham a assegurar, relativamente a essas instituições seguradoras e às parcerias com elas estabelecidas, um tratamento equitativo.
O Conselho de Administração do Banco BPI, SA, realça ainda que a presente proposta tem por destinatário exclusivo o Conselho de Administração Executivo do Banco Comercial Português, SA, não constituindo uma oferta de aquisição de acções deste Banco, nem um convite à apresentação de propostas de venda dessas mesmas acções. Nos termos da lei, a operação a que se refere a presente proposta (a fusão do Banco Comercial Português, SA, com o Banco BPI, SA) pressupõe, para poder ser concretizada, entre outros aspectos, que seja formado um acordo entre os órgãos de administração dos dois Bancos quanto ao projecto de fusão e, posteriormente, que esse projecto seja aprovado pelas assembleias gerais de accionistas dos mesmos Bancos.”
Fernando Ulrich, presidente do BPI, afirmou ainda ontem que, se o BCP considerar a Oferta Pública de Troca de acções hostil, a “operação morre”.

O novo Millennium bpi

Na conferência de imprensa, Fernando Ulrich adiantou que o banco criado após a fusão com o Banco Comercial Português (BCP), o novo “Millennium bpi”, vai ter uma estrutura accionista sólida e com uma forte componente nacional. O centro de decisão do Banco Millennium BPI ficará em Portugal. Esta proposta, segundo Ulrich, pretende “a criação de um banco português multidoméstico e com centro de decisão em Portugal” e “trará benefícios para os ‘stakeholders’ e a ambas as entidades”. “A estrutura accionista será sólida e diversificada com instituições financeiras, sólidas e fortes”, afirmou. A proposta que visa a fusão com o BCP “tem intenção de criar um banco que cresça e que ganhe quota de mercado”. Na apresentação dos resultados e da proposta de fusão com o BCP, Ulrich assegurou que esta “é uma proposta construtiva que deve ser apreciada pelos órgãos do BCP”. Ulrich adiantou que o projecto “pretende alavancar um maior número de clientes” e que “os bancos vão reforçar a presença nos negócios onde hoje nenhum deles é muito forte e alargar a presença nos países onde já estão”. Ulrich garantiu ainda que o Banco Millennium bpi “não vai vender nenhum activo a não ser aqueles que forem impostos pela Autoridade da Concorrência”.
Recorde-se que a Autoridade da Concorrência tinha imposto ao BCP na OPA falhada ao BPI cinco remédios que incluíam a alienação de 60 sucursais, a diminuição do peso nas PME, medidas para facilitar a mobilidade dos clientes, venda das participações na Unicer e o desenvolvimento de uma operação ligada a cartões de débito e crédito. Dentro do novo cenário de fusão BPI/BCP, não deverá haver grandes mudanças na análise do organismo liderado por Abel Mateus. No caso das PME, e após a investigação aprofundada, a AdC concluiu que o novo banco teria de realizar a “venda de uma carteira de clientes empresa (PME) no montante de 450 milhões de euros”. Isto para evitar “entraves significativos à concorrência efectiva”.

Accionistas de referência contra fusão

Recorde-se que o BPI, com 8,5 por cento do BCP, é quem se encontra melhor posicionado para uma solução amigável, concretizando, aliás, o velho sonho de Jardim Gonçalves. Os sinais de que as movimentações para “tomar conta” da instituição, ou de parte desta, não envolvem, contudo, o Banco Espírito Santo (BES), nem a Caixa Geral de Depósitos (CGD), que naturalmente serão sempre favoráveis à manutenção do BCP como uma instituição autónoma e de raiz nacional.
Ontem, Ricardo Salgado disse que o BES “estará sempre disponível para encontrar uma solução, mas do BES não sairá nenhuma iniciativa para comprar o BCP”. O banqueiro frisou que a disposição existirá, desde que “a solução seja positiva para o nosso país e para o próprio BES”.
O presidente do BES sublinhou que não está a participar, neste momento, em conversas com outras entidades para procurar uma alternativa sobre o futuro do BCP. Na sua opinião, a melhor solução para o BCP seria “continuar a ser independente e nacional. Vamos ver o que acontece”.
Este responsável admite que “a Europa não está parada e que é muito provável que aconteça qualquer coisa ao BCP, tendo em conta a situação em que este se encontra”.
O banqueiro reafirma que o pior para o País era “o BCP ser adquirido por uma entidade estrangeira”, mas sublinha “que o BES não tomará nenhuma iniciativa para comprar o BCP”.
Ricardo Salgado sublinhou mais uma vez que não encontra nenhuma vantagem numa eventual fusão BES/BCP, porque tal implicaria “um programa de racionalização fortíssimo”.
Em relação ao cenário de uma fusão entre o BCP e o BPI, o presidente do BES diz que, se tal ocorresse, Portugal perderia, porque “passaria a ter o maior banco privado português detido por estrangeiros”. Ricardo Salgado frisou que o BES “cá estará para ver os resultados”.
Nestes termos, esta proposta de fusão deverá estar votada ao fracasso e nunca iria resolver a situação do BCP, porque, em primeiro lugar, Jardim Gonçalves e o BPI não dispõem de 66% dos votos de uma assembleia geral, valor necessário para avançar a fusão amigável e, em segundo lugar, porque também o BBVA, o Banco Popular e o Banco Sabadell estão a estudar a possibilidade de lançarem uma contra-OPA ao Millennium bcp.
Do seu lado, o presidente do Banco Privado, João Rendeiro, contrariamente à posição de Ricardo Salgado, veio ontem à SIC dizer que o Conselho de Administração deveria dar luz verde à fusão.
Finalmente, a posição de Artur Santos Silva parece óbvia: responde ao pedido institucional do presidente do Conselho Superior do BCP e, por outro lado, mesmo consciente do fracasso da fusão amigável, posiciona o BPI para uma eventual OPA hostil futura, sobretudo se conseguir interessar mais alguém.

Espanhóis estudam BCP

Ontem, o jornal “Público” entrava na especulação que os principais grupos espanhóis – BBVA, Banco Popular e Banco Sabadell – estavam a estudar uma possível entrada no capital do Banco Comercial Português (BCP), tendo constituído equipas específicas para avaliar de que modo a mesma se poderá concretizar. O cenário de uma OPA hostil ganha terreno, embora uma solução nacional possa ter maiores condições para andar.
A hipótese BBVA seria, no entanto, a mais ameaçadora, dada a sua dimensão, com a instituição espanhola a estudar a operação como um todo.
Mas, o BCP tem virtudes que outros bancos não tinham antes e por isso é tão atraente para a banca europeia. É o maior banco privado em Portugal e tem operações na Polónia, Grécia, Roménia, Angola e Moçambique, tem posições accionistas em várias empresas nacionais e não está destruído do ponto de vista orgânico, estando totalmente limpo, sem problemas de crédito malparado ou situações complicadas. A sua contabilidade reflecte exactamente a situação do banco. Por outro lado, a estratégia de vários aumentos de capital feita por Jardim Gonçalves impediu que se afirmasse um grupo de accionistas liderante na instituição, e a degradação da situação que hoje se vive leva os rivais a acreditar que o banco não dispõe de uma solução construída pelos accionistas e pelos órgãos de governação.
Por outro lado, permitir o surgimento de uma solução intermédia agora só iria beneficiar os accionistas e tornar o banco mais caro, pelo que o momento é oportuno para avançar.
É, neste cenário, que as instituições portuguesas e espanholas criaram grupos com a única finalidade de estudar um “ataque” ou uma “defesa” do BCP, bem como o modo ideal para alcançarem os seus objectivos, o que passa por contornar eventuais tensões políticas e por desenhar um desfecho amigável. Mas, na sua estratégia, encontraram um obstáculo: a ausência de interlocutor para dialogar, por falta de uma liderança accionista clara no BCP.

Solução nacional de resistência

Por outro lado, depois das movimentações dos últimos dias e de ter ficado claro que não é possível uma solução externa, pois não estão reunidas as condições de capital para poder avançar, por exemplo, António Mexia ou António Horta Osório, os dois nomes ponderados por Joe Berardo e Pedro Teixeira Duarte, e sendo certo que a fusão amigável é impossível na actual conjuntura e poderia prejudicar os interesses nacionais, pelo poder que daria aos espanhóis da La Caixa – curiosamente calados até ao momento – a necessidade de criar, à semelhança do que aconteceu na Portugal Telecom, um Conselho de Administração que resistisse e pudesse colocar o BCP de novo a funcionar, volta a estar em cima da mesa.
Uma solução destas poderia partir ainda do próprio Jardim Gonçalves, sobretudo se, rapidamente, e como o BPI, perceber que com a fusão amigável se está apenas a perder tempo e que uma OPA hostil não tem qualquer hipótese de sucesso a não ser por valores inaceitáveis na banca europeia. Jardim Gonçalves poderia dar o seu apoio a um novo CEO numa solução institucional e abandonar o banco depois, antes mesmo da mexida no modelo de governação.
Mesmo com a proposta da fusão amigável, a substituição do Conselho de Administração, ou de pelo menos parte dele, pode verificar-se, aliás à semelhança do que aconteceu com a Portugal Telecom, que mudou de presidente em plena OPA da Sonae e em três meses virou o resultado aparentemente inevitável.

João Salgueiro diz que pode estar em causa
credibilidade de responsáveis mas não do BCP

Entretanto, esta semana, também, o presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB) disse que as operações bancárias feitas pelo BCP, que estão sob investigação, poderiam pôr em causa alguns responsáveis do banco, mas não a credibilidade da instituição bancária.
“A questão interna” do BCP “não põe em causa a instituição, mas pode pôr uma pessoa ou outra”, afirmou João Salgueiro, em declarações aos jornalistas à margem de uma conferência sobre o Orçamento do Estado para 2008, organizada pelo Fórum para a Competitividade.
Recorde-se que o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) estão a investigar operações bancárias realizadas pelo BCP, nomeadamente a concessão de crédito a empresas a que está ligado um filho de Jardim Gonçalves, actual presidente do Conselho Geral e de Supervisão e na altura presidente da Administração.
O último desenvolvimento deste caso foi o assumir desses créditos, declarados incobráveis pelo banco, por Jardim Gonçalves.
Depois deste episódio, cabe ao Conselho de Administração e ao próprio Jardim Gonçalves decidir o seu futuro dentro da instituição, considera o presidente da APB.
Questionado sobre se Jardim Gonçalves terá agido correctamente ao assumir a dívida, João Salgueiro disse não saber exactamente como se processou, mas admitiu que se havia dívida e se Jardim Gonçalves estava ligado a ela, então “fez bem” em pagá-la.
Para o responsável da APB, a questão em causa é saber se a concessão do empréstimo estava dentro da lei, mas reconheceu também a existência de um “problema ético”.
“Excesso de confusão não ajuda a esclarecer nada”, sublinha João Salgueiro, advogando por isso que a APD não deve imiscuir-se nestes assuntos, que os reguladores (Banco de Portugal e CMVM) já estão a acompanhar, recordou.
A pressão por parte dos accionistas e do Estado começou a cair sobre o BCP, precipitando um desfecho necessário.
A indefinição começou a destruir valor. O Deutsche Bank, inclusivamente, passou a recomendar a venda das acções do BCP, baixando o “target” em 21% e descendo as previsões de resultados até 2009. O banco alemão diz que o BCP vai ter um desempenho abaixo do sector e, após uma conversa com o banco, aumentou as estimativas para o nível de provisões para o crédito malparado.
Numa nota de “research” publicada esta semana, o Deutsche Bank diz que baixou a recomendação para as acções do Banco Comercial Português (BCP) de “manter” para “vender”.
A avaliação para as acções também foi revista em baixa, dos anteriores 3,70 euros para os 2,90 euros, já que, segundo o banco de investimento alemão, o BCP vai ter um desempenho abaixo do sector.
Depois de uma conversa do BCP com analistas, o Deutsche Bank também cortou as previsões para os lucros da instituição liderada por Filipe Pinhal.
Para o terceiro trimestre, as previsões de resultados foram revistas em baixa em 39% para os 112 milhões de euros. Numa sondagem publicada ontem pelo “Jornal de Negócios”, o consenso dos analistas sugere lucros médios de 147,1 milhões de euros.

As contas do BCP divulgadas a 30 de Outubro

O analista Carlos Berastain também desceu as previsões para os lucros por acção ajustados para o período de 2007 a 2009. Para este ano, a revisão em baixa foi de 20%, para o próximo ano foi de 15% e para 2008 a descida foi de 12%.
O banco alemão também afirma que a mudança de legislação (entre Abril e Junho) vai ter efeitos adversos na margem financeira e nas comissões cobradas.
“Finalmente, em termos de provisões, o menor nível de recuperação dos créditos e a provável deterioração na qualidade de crédito no terceiro trimestre” levaram Berastain a aumentar as estimativas para as provisões para o crédito malparado. Isto apesar do optimismo do banco.
Segundo a casa alemã, o BCP está a negociar com um rácio do PER ajustado (cotação sobre os lucros unitários estimados para 2008) de 14,2 vezes, 37% acima da média da banca na Europa.

Fisco penhora conta bancária ao BCP por dívidas de IRC

Mas as más notícias não vêm só. O Banco Comercial Português (BCP) tem uma conta penhorada pelo Fisco desde finais de Setembro deste ano, por dívidas acumuladas em IRC, o imposto sobre lucros, no valor de 14,5 milhões de euros.
Segundo o “Diário de Notícias”, a dívida tem origem no agora “incorporado” Banco de Investimento Imobiliário (BII) e remonta a um processo de execução fiscal com data de 2001. Em paralelo, correm ainda outras dívidas fiscais no montante global de 1,5 milhões de euros.
O BCP reconhece a apreensão da conta pelo Fisco, mas afirma que o “acto de penhora” está “ferido de vício de violação da lei” e, por isso, apresentou “uma reclamação judicial a solicitar a sua anulação”, já que apresentou “um pedido de revisão do acto tributário”.
O BCP afirma mesmo que teria pago a dívida se “não existisse a firme convicção da razão que lhe assiste”, mas nada adianta sobre as razões por que mantém em contencioso uma dívida gerada no princípio da década.
Invocando a Constituição, o banco, agora liderado por Filipe Pinhal, queixa-se que não foi “notificado” com “os meios de defesa para reagir”, mas a falta de pagamento do IRC está certificada pelo terceiro bairro de Finanças de Lisboa. Apesar de se tratar de uma dívida antiga – detectada em 2001 e referente aos exercícios anteriores – o banco, integrado no BCP, escapou sempre à famosa “lista de devedores” ao Fisco. Ainda ontem, a administração fiscal, em comunicado, publicitou a entrada de mais 845 devedores mas o nome do BII – um banco participado pelo BCP – não aparece na categoria dos grandes devedores ao Estado.
A 18 de Setembro último, funcionários do serviço de Finanças de Lisboa 3 deslocaram-se à Rua do Ouro, Lisboa – sede do BCP – e com um mandado de penhora nas mãos procederam à “efectiva apreensão” (ver fac-símile) de um saldo de uma conta em que o BII é co-titular, nomeando como fiel depositário um chefe de serviços da instituição bancária.
“A penhora abrange, para além do saldo da referida conta (…), as importâncias depositadas em quaisquer contas, com ela relacionadas, nomeadamente contas a prazo, contas depósito, depósito com aviso prévio e outras”, adianta o auto.

Cerco montado à espera da resposta de Jardim

Neste contexto, a saída de Jardim Gonçalves parecia inevitável. Mas o banqueiro ainda tinha esta carta para jogar e prepara-se para, na próxima reunião do Conselho Geral, confirmar o seu apoio à fusão, mesmo que não tenha poder para a negociar estatutariamente.
Por outro lado, em face da divisão dos accionistas, ainda não está excluída a possibilidade de Jardim Gonçalves anunciar o seu afastamento, permitindo ao banco recuperar a credibilidade e colocar-se em melhor posição para negociar eventuais fusões, ou, sobretudo, permitindo a eleição de um conselho de administração representativo dos actuais accionistas e com legitimidade para fazer ou não a prazo a consolidação do mercado financeiro nacional, sem destruir valor para os accionistas do BCP.

Sonangol quer mais poder no BCP

De Angola e de Stanley Ho ainda podem aparecer novas movimentações a impedirem também a fusão, embora tenha que ser a Sonangol a dizer que quer participar numa solução de estabilidade e independência do banco.
Jardim Gonçalves e o BPI não têm a maioria da Assembleia Geral e alguns accionistas podem considerar que o próprio Conselho de Administração eticamente já não tem legitimidade para dar continuidade à proposta do BPI.
Como é sabido, do lado dos angolanos, a Sonangol quer cumprir o acordo feito com Teixeira Pinto, mas há quem defenda uma posição mais musculada. A Sonangol continua interessada em ter um papel mais activo no futuro do BCP e em aumentar a sua participação accionista. A petrolífera angolana continua a apostar no acordo, cujos princípios gerais foram acertados ainda com Paulo Teixeira Pinto. Nos encontros que manteve em Julho com o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, e Manuel Vicente, presidente da Sonangol, ficou acordado que a empresa de petróleos era bem-vinda e que a sua entrada no capital do BCP seria gradual e concertada com a gestão, ao contrário do que pretendiam algumas tendências, que defendiam uma entrada de forma mais musculada.
Com a saída de Paulo Teixeira Pinto – que conseguiu ganhar um nível de confiança com os presidentes de Angola e da Sonangol que a actual administração do BCP ainda não conseguiu recuperar – e com o arrastar da crise no BCP, que fragilizou o banco e o tornou mais vulnerável a ataques externos, a tendência musculada voltou a ganhar terreno. Tanto mais que a economia angolana em geral e a Sonangol em particular estão mais sólidas do que nunca, apoiadas no clima de paz e no petróleo a 90 dólares.
Esta solução pode ainda ter desenvolvimentos nas próximas semanas, porque a Sonangol quer chegar aos 10% e nomear um administrador para o BCP.

Recomposição accionista intensifica-se

Uma consequência visível da crise vivida no BCP, que atravessa um dos piores momentos da sua vida, é a recomposição da estrutura accionista, um fenómeno que promete intensificar-se com o anúncio da fusão com o BPI, ou até que fique clara a questão da liderança. Accionistas estratégicos que saem, como é o caso do Fortis, rivais que reforçam ou se estreiam, como o BPI e o La Caixa, e a aposta de grandes investidores como Stanley Ho e Joe Berardo mostram a dinâmica do processo de construção de um novo BCP. São cada vez mais os que querem participar, já que, no limite, as mudanças podem vir a ter reflexos no próprio sector bancário em Portugal.
Recorde-se que Portugal é uma das grandes apostas de internacionalização da Sonangol. Uma escolha natural para Manuel Vicente, presidente da petrolífera angolana, no sentido de “consolidar uma relação que é de há séculos”, sob a forma de cooperação e sem “sentidos de conquista”. E a participação na Galp, através da Amorim Energia, será a pegada mais óbvia em território nacional. Mas nem por isso é a mais visível. Pelo menos desde que a Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola decidiu investir no maior banco privado nacional. Aproveitando “uma boa era em termos de preços de petróleo” – e a excelente saúde financeira decorrente -, a Sonangol tem apostado na diversificação dos seus negócios. E a participação no BCP – que chega aos 4,9% e terá fortes probabilidades de crescer – ter-se-á revelado a resposta mais promissora à intenção de apostar em “investimentos seguros e com um nível de rentabilidade razoável”. Com o plano de internacionalização em curso, o futuro da Sonangol passa por um reforço do investimento em Portugal. Mas pode não se restringir às simples petrolíferas.

Fusão BCP/BPI deixaria La Caixa aos comandos

Entretanto, as análises da eventual fusão já começaram a sair. No caso de uma fusão entre BCP e BPI, o principal accionista do novo banco, o terceiro da Península Ibérica, seria o La Caixa, com uma fatia de 8% do capital. A maior “caja de ahorro”, que detém 25% do BPI, ficaria, segundo o “research” do Banif Investment Banking, datado de 17 de Outubro, à frente da Eureko e da Teixeira Duarte, os dois maiores accionistas do BCP. Se admitirmos que poderia haver algum acordo entre os espanhóis e os seus aliados no BPI, então a posição do banco catalão seria ainda maior, embora naturalmente tivesse sempre menos peso do que aquele que tem hoje. Só com por um valor muito atractivo é que a La Caixa muda a sua estratégia para Portugal e a ideia de levar o BPI para Espanha, como segunda marca da La Caixa.
Os cálculos do banco de investimento suportados no rácio de troca proposto de duas acções BCP por cada acção BPI concluem que “ainda que isto implique que o maior banco do País tenha como principais accionistas duas entidades estrangeiras, a verdade é que isso seria apenas a tradução do que já acontece ‘de facto’, actualmente, no BCP e no BPI”, refere a analista do Banif. O banco liderado por Horácio Roque desvaloriza, aliás, a posição que a ‘caja de ahorro’ espanhola assumiria na instituição que resultasse de uma eventual fusão: “Não pensamos que a participação do La Caixa fosse suficiente para causar qualquer ruído em termos políticos”, adianta o “research”.
A “ameaça” espanhola foi, recorde-se, um dos pontos mais polémicos durante a oferta pública de aquisição (OPA) fracassada que o BCP lançou sobre o BPI há ano e meio. Em plena oferta, o La Caixa reforçou a sua posição no capital do BPI, o que motivou nova e acesa discussão à volta dos centros de decisão nacionais. No final de Janeiro deste ano, o Banco de Portugal quebrou a sua habitual discrição e convocou uma conferência de imprensa para justificar porque autorizou a “caja” espanhola a ultrapassar a fasquia dos 20% no capital do BPI. A oposição ao projecto de aquisição de participação qualificada numa instituição de crédito só pode ocorrer “se [o regulador] não considerar demonstrado que a pessoa em causa ou as características do seu projecto reúnem condições que garantam uma gestão sã e prudente da instituição de crédito”. Não tendo sido este o caso, o La Caixa, que tanto quanto é público, mantém a sua posição de 25% no BPI, pode continuar a reforçar até aos 33,3%, limite a partir do qual é obrigado a lançar uma OPA.
A proposta de fusão entre o BCP e o BPI não é de agora. Mas a sua oportunidade cresceu com o agravamento da crise que se vive no maior banco privado português, cujos desenvolvimentos mais recentes foram os casos dos créditos ao filho de Jardim Gonçalves e ao accionista Goes Ferreira. Na análise, o Banif Investment Banking considera que, à primeira vista, e tendo em conta a actual relação de forças entre os dois bancos, o BPI surgiria como uma espécie de “cavaleiro branco” para o BCP. Isto porque, o banco liderado por Fernando Ulrich encontra-se em condições de resolver a instabilidade accionista e ao nível do “management” existente no BCP. No entanto, o BPI também tem, frisa a analista Carla Rebelo, muito a ganhar com uma eventual fusão: a liderança do sector em Portugal, operações interessantes na Polónia, que provavelmente serão vendidas – o La Caixa é dado como potencial interessado -, Grécia e Angola, o controlo de gestão, e, sobretudo, a tomada de posições relevantes por parte dos seus principais accionistas. “A decisão final sobre o rácio de troca vai muito mais além da discussão sobre a partilha de sinergias de custos da fusão”, conclui a análise do Banif. Na sua opinião, existem outros dados em cima da mesa e que influenciarão o desenho final de uma eventual fusão, tais como o facto de o BPI conquistar, não só, a posição de liderança do mercado, mas também os benefícios de longo prazo da consolidação, através de uma redução da concorrência; e o papel do La Caixa na nova instituição.
À semelhança de outras casas de investimento, também o Banif dá como praticamente adquirido que a fusão, a ocorrer, seja amigável. Os dois bancos têm participações cruzadas de cerca de 10%.
As cartas estão dadas. Com o anúncio formal da proposta de fusão com o BPI ou sem ele, Jardim Gonçalves vai jogar a última cartada à entrada do Conselho Geral da próxima semana. Tudo ficará diferente.

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