2019/12/05

António Guterres não legitima José Sócrates

António Guterres foi uma ausência muito notada no Congresso do PS do passado fim-de-semana, o que pode ter sido um sinal de que a amizade com Sócrates já não é a de antigamente. Este distanciamento de Guterres tem paralelo com o que Cavaco teve em relação às lideranças que lhe sucederam no PSD, designadamente a de Fernando Nogueira e Durão Barroso, tendo conduzido Cavaco a Belém. O SEMANÁRIO sabe que Guterres não quer nem ouvir falar em presidenciais, mas o facto é que o ex-PM saiu mal da política em 2001 e pode ser tentado a reescrever a história. Como aconteceu com Cavaco, que saiu mal em 1994 e voltou em 2006.

António Guterres foi uma ausência muito notada no Congresso do PS do passado fim-de-semana, o que pode ter sido um sinal de que a amizade com Sócrates já não é a de antigamente. Este distanciamento de Guterres tem paralelo com o que Cavaco teve em relação às lideranças que lhe sucederam no PSD, designadamente a de Fernando Nogueira e Durão Barroso, tendo conduzido Cavaco a Belém. O SEMANÁRIO sabe que Guterres não quer nem ouvir falar em presidenciais mas o facto é que o ex-PM saiu mal da política em 2001 e pode ser tentado a reescrever a história. Como aconteceu com Cavaco, que saiu mal em 1994 e voltou em 2006.
Guterres foi desafiado por apoiantes a apresentar-se como candidato do PS às presidenciais de 2006 mas nunca deu sinais de desejar fazê-lo. Apesar de até contar com o apoio declarado de Sócrates, ao invés do que tinha acontecido com Ferro Rodrigues que, em matéria de presidenciais, Esta falta de vontade, aliada a algumas resistências de sectores socialistas à candidatura de Guterres, contribuiram para fechar o pano sobre o assunto. Um dos socialistas mais críticos com a hipótese da candidatura de Guterres foi João Cravinho, declarando que Guterres precisava de explicar primeiro porque se tinha ido embora em Dezembro de 2001. Quando surgiu a possibilidade de ir para Alto Comissário para as Nações Unidas, Guterres não pensou duas vezes.
Num Congresso que formalizou a neutralização das tendências do partido por parte de José Sócrates, Guterres foi, de facto, o grande ausente. O ex-primeiro-ministro socialista continua empenhado nas suas funcões de ACNUR e, dizem os seus mais próximos, está por vezes a anos-luz do que se passa na política portuguesa. Se Guterres primou pela ausência, em três dias de Congresso também não se ouviu uma palavra sequer sobre Guterres e os seus anos de governo. Ouviu-se apenas Sócrates lembrar, na sua intervenção da passada terça-feira que “os governos anteriores” tinham deixado uma herança pesada. Como Sócrates não clarificou se eram só os governos de direita, abre-se a dúvida se os dois executivos presididos por Guterres não estariam também incluídos nas críticas de Sócrates.

A agenda de esquerda de Sócrates

O antigo guterrismo tem sido gradualmente enfraquecido nos últimos anos, primeiro com Ferro e depois com Sócrates que, apesar de ser um apoiante do ex-PM, cortou radicalmente com muita coisa do passado guterrista. O PS de Sócrates tem quase horror à negociação, preferindo a accão constante. Sócrates foi mesmo chamado de “anti-Guterres” por parte de Sócrates. Outra grande diferença em relação a Guterres é o facto de Sócrates estar empenhado na campanha pelo “sim” ao aborto, tendo o antigo PM, que era adepto do “não”, mantido o silêncio no referendo ao aborto de há oito anos. No Congresso do PS e na sua antecâmara voltou a ser patente o processo de declínio dos antigos guterristas que nunca se adaptaram bem a Sócrates ou não tiveram hipóteses para o fazer. Enquanto António José Seguro aceitou um lugar oferecido por Sócrates, como responsável pela reforma do Parlamento, o destino de outros guterristas de gema foi diferente. Narciso Miranda e Miguel Coelho não fazem parte da Comissão Nacional do partido e Francisco Assis foi colocado na humilhante posição 64, o que motivou um pedido de desculpas do próprio Sócrates, aparentemente alheio à formacão das listas pela sua “entourage” no partido, onde pontifica José Lello. Narciso Miranda e Francisco Assis fazem parte do PS-Porto, uma estrutura que foi essencial no apoio a Sócrates aquando da corrida para secretário-geral em 2004. Aliás, a situação na Invicta só não explodiu pelos paninhos quentes de Sócrates e pelo facto de o poderoso Orlando Gaspar ter entrado para a Comissão Nacional na vigésima posição. Também Miguel Coelho apoiou Sócrates na corrida à liderança, ainda que no caso do responsável pela concelhia de Lisboa possa estar em causa uma saída estratégica, com vista a ganhar distanciamento para as próximas autárquicas em Lisboa, que poderão realizar-se muito mais cedo do que o calendário previsto face à ruptura na coligação entre o PSD e o PP
Ao mesmo tempo que sacrificou os seus apoiantes oriundos do antigo guterrismo, Sócrates compensou o soarismo e o ferrismo, pacificando o partido em vésperas de um ano de 2007 muito absorvente para Sócrates, com a presidência portuguesa da União Europeia a começar em Junho.
Convidado para pertencer à Comissão Política Nacional, João Soares aceitou o lugar, no que foi visto por alguns sectores do partido como um beijo da morte dado por Sócrates. Ainda há quinze dias Soares tinha criticado o caminho neoliberal dos governos. No Congresso calou qualquer crítica à política de Sócrates. Também Ana Gomes que, nos últimos meses foi muito crítica para o governo, aceitou o convite para a Comissão Nacional e surpreendeu pelas suas declarações alinhadas com as reformas de Sócrates. Curiosamente, também Paulo Pedroso, outro ferrista, deu no fim-de-semana uma entrevista à RTP-N, onde se mostrou confiante de que o executivo vai garantir os direitos sociais nos próximos anos. Curiosamente, no seu discurso de encerramento no Congresso, Sócrates definiu uma agenda de esquerda para os próximos anos, que passa pela luta contra a pobreza e a desigualdade, o aumento do salário minímo nacional, o fortalecimento dos direitos dos imigrantes. Esta agenda de Sócrates pode querer dizer que o líder do PS decidiu estabelecer algumas convergências com o ferrismo, com vista ao equilíbrio de forças no partido, à necessidade pacificação interna e à estratégia de começar a fixar votos à esquerda, com vista às legislativas de 2009.

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