2019/09/21

A vitória da táctica políticapor Rui Teixeira Santos

A derrota de Marques Mendes é um aviso para José Sócrates. É um novo modo de fazer política, sobretudo, táctico, mas que ganha eleições. Sócrates deve saber que aquilo a que António Vitorino chama “populismo” é mais que uma táctica para cativar o eleitorado. É, mesmo, um método para conquistar o poder.

A derrota de Marques Mendes é um aviso para José Sócrates. É um novo modo de fazer política, sobretudo, táctico, mas que ganha eleições. Sócrates deve saber que aquilo a que António Vitorino chama “populismo” é mais que uma táctica para cativar o eleitorado. É, mesmo, um método para conquistar o poder.

Os momentos psicológicos da mudança no PSD

Do ponto de vista da análise política, o mais interessante, na vitória de Luís Filipe Menezes, nas directas de sexta-feira no PSD, não foi tanto o seu discurso, nem a surpresa das ditas elites da direita e da esquerda, nem mesmo o ter mandado para a reforma o cavaquismo e o barrosismo, que oportunistamente continuavam a viver das rendas da política.
O mais interessante foram mesmo dois ou três números de verdadeira táctica política que poderão ter virado o resultado e que mostram que a oposição mudou.
Em primeiro lugar, a neutralização de Ferreira Leite ficará nos livros de registo de tácticas políticas, com uma estratégia de envolvimento por parte da candidatura de Luís Filipe Menezes, que impediu a presidente da Mesa do Congresso de, publicamente, vir apoiar Marques Mendes, criando um limbo à volta do seu voto que, objectivamente, não beneficiou o antigo líder.
Há dois momentos significativos para tudo mudar: primeiro, a golpada dos Açores e os votos da Amazónia, que travam Ferreira Leite e desacreditam Marques Mendes. Percebendo a questão da aparente “chapelada” nos Açores, Manuela Ferreira Leite propõe que todos possam votar com as quotas pagas até ao acto, o que é inviabilizado pelo Aparelho de Marques Mendes. Guilherme Silva percebe o embaraço, talvez ciente dos números.
Como retaliação, os mendistas avançam com a alegada compra de votos ou pagamentos colectivos de quotas no último dia. A candidatura de Luís Filipe Menezes treme, até mesmo com as declarações de Pacheco Pereira em desespero.
Finalmente, o golpe de misericórdia em Mendes: os votos da Amazónia. Já ninguém discutia se havia ou não fraude do lado de Mendes. Apenas se era na Amazónia e se eram mais ou menos votos. Mendes estava “frito”.
Em segundo lugar, a maneira como os menezistas fazem prolongar até às quatro da manhã a reunião da Conselho de Fiscalização Nacional, neutralizando assim o contra-ataque preparado por Guilherme Silva, empurrando a decisão para longe da hora dos telejornais e reduzindo o seu impacto mediático.
Mas, sobretudo, as jogadas de Luís Filipe Menezes, dando a entender a Ferreira Leite que podia desistir. A presidente da mesa do Congresso pedia então a Menezes – foi aqui que cometeu o erro fatal, pois ficava sem espaço para apoiar Mendes – que não tomasse nenhuma posição sem lhe falar. Menezes arrasta para as três da tarde a sua conferência de imprensa, quando já não havia espaço para mais ninguém falar. Nem mesmo para Ferreira Leite. O efeito mediático da avalancha dos barões a apoiarem Mendes estava destruído e o líder já não podia ser apontado como “campeão da ética”.
Menezes ia a votos e a máquina não conseguia garantir a reeleição de Mendes, surpreendida com a confusão. Menezes ganhou.
De certo modo, há aqui um regresso ao PSD de Sá Carneiro, dos métodos e tácticas nos grandes congressos fundadores da democracia. Calculista, inteligente, político.
E, nesse sentido, também vindo do Norte, como o fundador do PSD que Balsemão substituiu, Luís Filipe Menezes faz voltar a política à agenda do País, de um país cinzento, cansado das missas de Marcelo e alienado no futebol e nos casos de polícia. Torna isto tudo pelo menos muito mais divertido.
Mas sobretudo, Luís Filipe Menezes evita a solução Balsemão, que o “Expresso” trazia no passado fim-de-semana: o fim das directas e a devolução do poder aos barões barrosistas, em aliança com o que restava do cavaquismo. Falhou tudo diante do resultado devastador de Menezes.

Sócrates que se acautele

A partir de agora há mudança. Pelo menos da forma. E, em política, quantas vezes a forma não é tudo. Menezes não se deslumbrou em entrevistas às revistas cor-de-rosa ou a falar a todo o momento. Marca o seu tempo. Gere a imagem.
Em política, a conquista do poder justifica estes jogos tácticos inteligentes. A encenação, que é também parte do poder. Os meios justificam os fins, sem ingenuidade.
É, basicamente, o regresso da política tacticista, em vez da “conversa” dos grandes princípios – sempre tão relativos e tão ao sabor de modas – que marcaram a direita nos últimos dez anos e que, de certo modo, contribuíram para o descrédito da própria direita.
É o regresso da táctica, do jogo de espelhos, da inteligência florentina à política. Aliás, Luís Filipe Menezes não deixa equívocos na sua moção ao Congresso: quer mudanças, a começar pela lista para o Parlamento Europeu, indo todos para a rua. Saudável e clarificador… (Seguramente o inacreditável Pacheco Pereira sairá também do PSD, perdendo, naturalmente, o palco na SIC…)
Mas, este novo ciclo da oposição reserva, também, surpresas ao primeiro-ministro e ao PS. A começar pelos impostos, que Sócrates não quis descer. Menezes não quer tapar a boca a Marcelo e evitar que Ferreira Leite se ponha em bicos de pés ou, mesmo, que Cavaco Silva volte a falar do monstro.
O “monstro” é o Estado, gastador e gigante, que o “novo” PSD quer diminuir, para depois diminuir o défice e, finalmente, poder, consistentemente, baixar os impostos. Dito assim não é nenhum apoio a Sócrates. É mesmo uma dificuldade, pois Menezes já está a tirar espaço ao primeiro-ministro.
Ao dizer que só com o défice abaixo dos 2% é que se pode descer impostos, Menezes não está a fazer economia (não há razão nenhuma económica para ser 2 ou 3 ou 4 por cento o défice do OE, sobretudo, quando estamos no euro e os outros pagam os nossos excessos), mas a fazer política e bem feita.
Menezes está a tirar espaço ao PS para poder descer impostos e fazer uma utilização eleitoralista do Orçamento do Estado antes das legislativas de 2009.
Basicamente, o que Luís Filipe Menezes está a dizer é que sem continuar com as reformas até níveis de segurança claros, o dinheiro que se diminuir na receita pública vai fazer falta depois e pesar no relançamento da economia.
Nesse sentido, o PSD, dirá Menezes, fará tudo para poder baixar os impostos. Mas, consistentemente. Credivelmente… depois do défice ficar abaixo dos 2%. Tudo o resto é pura demagogia e irresponsabilidade…
No próximo Congresso do PSD, Menezes já está a pensar em 2009. Não tem nada a perder, nem assumiu nenhum compromisso. Foi, exactamente, assim que conquistou o PSD.
A bola ficará, portanto, do lado de Sócrates. Se baixar os impostos, com o défice acima dos dois por cento, pode contar com o “selo” de gastador, populista e eleitoralista.
Sócrates que se acautele. Para que não lhe aconteça o mesmo que a Marques Mendes…

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