2019/10/22

Derek Jarman, Sergei Paradjanov e Martin Scorcese editados em DVD

Foram recentemente lançados pela editora Midas quatro filmes consagrados do cinema independente. Quatro longas metragens de Derek Jarman e Sergei Paradjanov e dois documentários de Martins Scorcese sobre o cinema italiano e norte-americano, entre outros lançamentos também disponíveis no mercado nacional. A Midas apostou de forma ousada e apoteótica iniciar-se no mercado nacional apostando na qualidade de três grandes referências do cinema do século XX.

Derek Jarman

Derek Jarman, um dos realizadores mais influentes do cinema britânico, conseguiu deixar a sua marca pela opulência visual e a oposição desafiante aos cânones tradicionais do teatro e da literatura. Jarman foi influenciado por nomes como Michael Powell e Emeric Pressburger patente no estilo de cinema mais pessoal com reflexão na imagem em detrimento da narrativa e da caracterização.
Nos dois filmes lançados pela Midas, “Caravaggio” e “Wiittgenstein”, os elementos que mais servem para caracterizar Jarman estão bem presentes, com o seu fascínio pela violência, o homoerotismo e a imagética poética, nunca escondendo a sua doença terrivel, o HIV. Em “Caravaggio” sobressai um anacronismo lento e em “Wittgenstein” um estilo severo e teatral. Ambos os filmes incorporam elementos do seu passado artístico quando desenhou cenários e guarda-roupa para o Ballet e ópera. Fez os seus primeiros filmes enquanto trabalhava com designer de cenários em 1971 em “The Devils” e “Savage Messiah” de Ken Russel.
“Caravaggio” foi sem dúvida um dos seus trabalhos mais populares. Com esta longa metragem, Jarman fez uma reflexão acerca dos conflictos que o pintor manteve com a necessidade pela patronagem, condição sine qua non para sobreviver como pintor, e as suas crenças religiosas e sexualidade. Jarman utiliza elementos anacronistas como máquinas de escrever, motas e carros, que acabam por enfatizar a vertente mais hedonista do filme projectando a vida numa tela.
A dramatização teatral moderna que fez com “Wittgenstein” da vida do Filósofo vienense de Cambridge, Ludwig Wittgenstein que morreu em 1951, enfatiza o interesse pela sua linguagem. O filme aborda a homosexualidade de Wittgenstein desde a sua infância e a ligação que teve em Cambridge com Bertrand Russell e John Maynard Keynes onde o seu orgulho e perfecionismo académico que lhe valeu a genialidade com que ficou conhecido.
Em paralelo com a sua carreira de realizador, continuou a pintar e a exibir os seus trabalhos nas galerias londrinas cuja matriz de inspiração sempre se manteve relacionada com a cultura inglesa tanto ao nível histórico quanto contemporâneo. Acabou por morrer aos 52 anos devido a um estado terminal como consequência de ser seropositivo.

Sergei Paradjanov

Sergei Parajanov foi um dos mais importantes realizadores do século XX cuja admiração contrastou com uma perseguição feita pela Estado soviético da altura cujo enfâse nas heranças culturais das regiões satélites de Moscovo não era bem vista por parte de um regime que queria a todo o custo manter uma unicidade cultural em torno do comunismo, cujo realismo social, que era uma constante no cinema da altura, não se conjugava da melhor forma com os temas de foklore e religiosidade presentes nos seus filmes.
Paradjanov foi preso pela primeira vez em 1947 acabando por passar vários meses numa prisão da Georgia sob acusações de homosexualidade. Acabaria por sofrer outro desaire poucos anos mais tarde quando a sua jovem mulher ucrâniana foi assassinada pelos seus parentes, por ter casado com um estrangeiro. As dificuldades que passou na sua vida não o impediram de manter uma veia criativa notável recebendo inúmeros prémios, onde se contam o Grande prémio de Mar Del Plata; Festival de Roma e da Academia Britânica, todos em 1965, com o filme “Tini Zabutikh Predkiv”. No ano seguinte foi posto nas lista negras do regime soviético, cuja perseguição durou até ao colapso da máquina comunista.
Após ter estado 15 anos desempregado, em 1984, Parajanov recebeu ajuda por parte da elite da Georgia e realizou a “Lenda Da Fortaleza Surami”, um marco da sua expressão cinematográfica.
Baseado numa antiga lenda georgiana, é uma homenagem aos guerreiros daquela região que morreram pelo seu país. Um filme que recorda a importância do sacrifício para enaltecer a defesa da pátria.
“Ashik Kerib” foi realizado em 1988 em homenagem a Tarkovsky, uma obra prima do Azerbeijão baseado no poeta russo Mikhail Lermontov com uma fábula de um pastor que tenta ganhar dinheiro para casar com a rapariga que ama. Neste filme Parajanov dispensa dos mecanismos tradicionais para contar estórias, apresentando uma estória coreografada com uma mistura de elementos tradicionais e contemporâneos. Ganhou com este filme o Prémio Felix da Academia Europeia de Filmes.
Ambos os filmes contém diversos extras que servem como plataforma de compreensão mais aprofundada da obra deste cinesta.

Martin Scorcese

Já se sabia que o Martin Scorcese era um dos maiores cineastas da sua geração, uma referência ímpar para estudantes, curiosos e apaixonados pelo cinema. Esta constatação pode partir da sua obra, que surge numa altura de grande agitação quando o sistema de estudios ruira de forma estrondosa, potenciando um tipo de cinema de autor mais independente. Mas independentemente de se gostar ou não dos filmes de Scorcese, o seu conhecimento e paixão pela sétima arte acaba por ser inquestionável. Partilhando o seu conhecimento e estudo pelo cinema realizou dois documentários para o British Fim Institute que abrem portas para duas eras do cinema que inspiraram gerações vindouras. O primeiro, “Uma Viagem Pelo Cinema Americano”, debruça-se pelos grandes nomes da sétima arte ao longo do nascimento do cinema até ao final dos anos sessenta. Nomes como Arthur Penn, Samuel Fuller em imagens de arquivo Frank Capra, John Cassavetes, John Ford, Howard Hawks, Elia Kazan, Fritz Lang, Nicholas Ray, Douglas Sirk, King Vidor, Orson Welles, entre outros, povoaram o imaginário de Scorcese e serviram de inspiração à medida que ia crescendo. O documentário “A Minha Viagem a Itália” acaba por servir como um regresso às origens familiares de Scorcese com a obra dos mais famosos nomes do cinema italiano do neo-realismo nos anos 60, com uma divisão em duas partes com Roberto Rossellini, Vittorio De Sica (1ª parte), Luchino Visconti, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni (2ª parte).
Dois documentários que não podem estar fora da prateleira de qualquer DVDteca.

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