2019/12/05

A galera de Scolari por Paulo Gaião

Se Portugal tivesse sido campeão ficava por explicar como é que éramos os primeiros no futebol mas os últimos nos indicadores económicos, “sul-americanizando” ainda mais o País

Ganhar o Mundial era uma oportunidade única. Atiravam-se os Magriços para o baú da história e mostravam-se patamares de excelência no futebol, como já se mostraram na literatura com José Saramago e na neurologia com António Damásio, que eram capazes de deixar muita gente com dor de cotovelo. Talvez a mais atingida fosse a classe política portuguesa. Se Portugal tivesse sido campeão mundial, juntando-se a potências europeias como a Itália, a Alemanha, a França e a Inglaterra, talvez ficasse por explicar como é que éramos tão bons no futebol e tão pobrezinhos no campo económico, o que seria uma interrogacão certamente incómoda para os políticos que nos gerem há mais de trinta anos. Já se percebeu que tanto Sócrates como Cavaco não são fanáticos do futebol mas alguma falta de emotividade de ambos face à presença de Portugal na fase final do Mundial, pode ter a ver, aliás, com um sentimento que o Presidente da República traduziu bem há quinze dias: há mais vida para além do futebol… o povo tem de acreditar nos seus políticos e relevar o futebol.
Como perdemos com a França, tudo acabou por ficar no seu lugar. Com uns a estarem bem para os outros. A questão passa agora por saber se a equipa iguala os Magriços ou fica abaixo deles. O que não é muito animador. Aliás, em caso de empate no terceiro lugar com os Magriços, ganha a equipa de 1966. Não é uma questão de goal-average mas de quem ganha hoje milhões, comparativamente a quem recebia uns tostões para ajudar a pagar as prestações do apartamento.
O que correu mal no Mundial de 2006? Desde logo o que correu mal é o país ter embarcado antes de tempo na vertigem da renovação do contrato de Scolari, o que acentua o lado mais pindérico do país. O que correu mal foram as saudacões a uma equipa que em vez de ir à final vai disputar no sábado um jogo para cumprir calendário (e que bem podia transformar-se antes numa terapia de grupo luso-alemã subordinada ao tema “Por que falhámos?”). Eduardo Lourenço, que disse na quarta-feira que mesmo se perdéssemos já tínhamos ganho tudo, não é obrigado a perceber de futebol. Já o mesmo não se pode dizer de gente com responsabilidade, habituada a tratar o futebol por tu. Prestar homenagem aos heróis de Nuremberga ou Munique é confundir os jogadores, contribuindo para alimentar a saga da maldicão dos penalties (que foram mesmo penalties), o choradinho de que não fomos ao prolongamento, quando tivemos 50 minutos para marcar um golo à França e o habitual coro contra a arbitragem, que muitos jogadores fizeram no final da partida com a França. Um choradinho que até contagiou Scolari, parecendo acusar a América do Sul de não ter consciência de classe e abrir os olhos (numa alusão à prestacão do árbitro uruguaio). É uma forma sem dúvida imaginativa de Scolari, quase lembrando a teologia da libertacão aplicada ao futebol, para tentar branquear um jogo tarde cheio de falhas técnicas da responsabilidade de Filipão. Porque substituiu Costinha tão tarde? E por Nuno Valente e não por um cabeceador nato, já que a equipa continuou a bombear bolas para a pequena área francesa? Porque insistiu em Pauleta, se já tinha percebido nos últimos jogos que o jogador não estava bem? Porque substituiu Pauleta por Hélder Postiga, em vez de colocar em campo Nuno Gomes, um homem que joga mal no Benfica mas que tem dado grandes alegrias à massa associativa da seleccão? Porque deslocalizou Ronaldo para o eixo central se o jogador estava bem a lateralizar jogo pelo seu “corredor”? Portugal não tem pontas de lança mas Scolari deu-se ao luxo de prescindir dos poucos que há, insistindo sempre em Pauleta. Em alguns momentos da partida com a França, perante bolas sucessivamente bombeadas pelos flancos, ficou a sensação que a meia-lua francesa era uma área fantasma, tal a ausência de cabeceadores ou de cabeçadas certeiras. O que parece provar que as opções de Scolari se revelaram erradas. Espantam os erros de Scolari? Talvez não. Afinal o que ganhou Scolari até hoje? No Mundial de 2002, é unânime que o torneio foi incaracterístico. Talvez o Brasil que ganhou na Coreia, não fosse muito diferente do Brasil que foi eliminado na Alemanha. No Euro 2004, Scolari não conseguiu vencer uma equipa grega acessível. Neste Mundial não conseguiu superar uma França também ao seu alcance. Que os mais entendidos possam ter a vontade e a coragem de fazer um visionamento integral do jogo com a Grécia de há dois anos e a partida com a França de quarta-feira para esmiuçar publicamente os erros técnicos cometidos por Scolari. De forma a questionar se outro treinador, com uma equipa portuguesa de ouro que vai demorar a repetir, não podia, de facto, já ser campeão europeu e correr hoje para a final do Mundial? O perigo a evitar agora é a lógica das galeras funcionar outra vez para o Europeu de 2008. Madaíl escolher a galera de Scolari e Scolari escolher a sua galera de jogadores.
Uma coisa é ser teimoso uma vez, duas vezes, três vezes e, no fim, passar por homem tenaz. Outra coisa é teimar sempre…. na sua turminha, na sua galera. Costinha, Maniche (o único do lote que provou o seu valor), Pauleta, Hélder Postiga e Paulo Ferreira, que fazem logo quase metade da equipa e tiram o lugar a outros jogadores que podem não ser da “turminha” mas que podiam ter jogado bem melhor do que os “fixos” de Scolari. Pauleta e Costinha foram os casos mais flagrantes. Já na fase final do Euro 2004 se tinha percebido que Pauleta estava em baixo de forma. Nos últimos dois anos, a sua carreira no Paris Saint-Germain também não foi feliz. Por sua vez, a envergadura do “investimento” que foi feito em Costinha, com treinos a sós dados pelo próprio Scolari no Restelo, tinha de ter, obrigatoriamente, um “retorno” milionário. Que não aconteceu.
Inebriado com as vitórias sucessivas, Scolari quis tudo: jogar com a sua “galera”, não jogar “bonito”, fazer os “intelectuais” engolirem o que disseram e, no fim, erguer a Taça. Era demais.

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