A Harmonia das Nações

O mote deste ano para a Festa da Música, a decorrer no Centro Cultural de Belém, de 22 a 24 de Abril, é “A Harmonia das Nações”. Unidas sobre um mesmo tom musical, as principais nações da Europa do século XVII – Portugal, Espanha, França, Itália, Inglaterra e Alemanha – são representadas por dois dos seus mais proeminentes compositores: Carlos Seixas e Francisco António de Almeida, António Soler e Blasco de Nebra, François Couperin e Jean-Philippe Rameau, António Vivaldi e Domenico Scarlatti, Henry Purcell e Georg Friedrich Händel, Georg-Philipp Telemann e J.S. Bach, respectivamente.

O destaque vai obrigatoriamente para os dois portugueses, Seixas e Almeida, onde as obras aqui presentes, de altíssima qualidade, destacarão a divulgação que urge fazer à volta destes dois autores, principalmente Almeida, o mais italiano dos portugueses e sobre o qual pende ainda um véu de desconhecimento grande.
A programação não irá resumir-se apenas à música, muitas outras actividades desenrolar-se-ão um pouco por todo o espaço do CCB. Realce para o ciclo de conferências sobre motivos caros ao movimento Barroco, como o ar, a luz ou o tempo, e para a agenda a cargo do Serviço de Pedagogia e Educação do CCB.
Esta iniciativa, única no espírito da Festa da Música, é sem dúvida um dos seus grandes atractivos. Destinada a um público entre os 6 e os 12 anos, num percurso cuidadosamente pensado, introduz as crianças no universo do Barroco. Este ano, as quatro salas no Jardim das Oliveiras desvendarão o que é esta “Pérola Imperfeita” através da música e jogos. Acompanhados por monitores oriundos das artes do espectáculo, música, teatro e dança, ao mesmo tempo que desempenham as várias actividades propostas, ouvirão histórias e explicações várias. Numa das salas, a sala das coisas barrocas lança-se as mãos à obra – livros de várias formas, jóias, leques, caleidoscópios – estarão entre os objectos a construir sob cuidada orientação, pretende–se criar uma aproximação à corrente artística que marcou a época, o desvio formal que o Barroco trouxe relativamente ao Classicismo, desde logo patente também nos materiais a utilizar, a folha dobrada ou plissada por oposição ao papel liso, por exemplo. Numa outra sala, dos sonhos barrocos está montada uma floresta, representação do sonho barroco e palco para a realização de um baile. A intenção de retomar um espírito festivo através dos adereços usados, como os leques e onde estão preparados jogos de descoberta – quem está atrás da máscara? – e mais uma vez a música como pano de fundo. Na sala sons e duelos musicais, a oportunidade para descobrir sons que fizeram a música como os sinos na arte sacra. No átrio, a ponte para uma outra exposição patente no CCB, o Fridobar, onde uma rainha barroca jaz numa cama e onde estará montado um piano vertical. Instrumentistas no intervalo dos concertos farão breves aparições para tocar peças e conversar com as crianças sobre a música e a vontade de ser músico, um pequeno grande privilégio oferecido aos mais novos. Pretende-se na globalidade criar um interesse na criança, entusiasmá-la para a descoberta da música erudita.
Este programa extra foi realçado por René Martin como extremamente rico, estando em preparação uma viagem pelas mentoras do projecto, Madalena Victorino e Ana Alvelos, ao Japão, o próximo destino da Festa da Música, a fim de lhes prestar formação e passar toda a experiência obtida.
Quanto ao futuro da festa, “está assegurado para os próximos três anos”, diz Mega Ferreira, ao anunciar a entrada de um novo “amigo” para o círculo de mecenas que anualmente ajudam à sua realização. Para o ano espera-se surpresas, pela primeira vez o lugar à música não erudita com a inclusão do fado ou do flamenco como complementos musicais, sob o signo da busca pelas raízes da música encetada por alguns compositores em finais do séc. XIX e início do XX.
Miguel Louro

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