Chirac compromete Villepin e abre caminho a Sarkozy

“Todos perdem”, escrevia o “New York Times”
em editorial, referindo-se à decisão do Presidente francês, Jacques Chirac, em retirar o apoio ao seu chefe de Governo no que concerne ao Contrato
de Primeiro Emprego (CPE). Após dois meses e meio de manifestações, Chirac não resistiu ao poder das sondagens e rendeu-se às exigências das “ruas”, obrigando Dominique de Villepin a anunciar no início da semana a retirada da polémica lei. Além da humilhação política a que foi exposto, Villepin viu o seu sonho presidencial ser desfeito.

“Todos perdem”, é desta forma que do outro lado do Atlântico se vê a decisão do Presidente francês, Jacques Chirac, de deixar cair a lei do Contrato de Primeiro Emprego (CPE), promovida pelo primeiro-ministro, Dominique de Villepin com o objectivo de flexibilizar o mercado de trabalho, ao permitir que os empregadores despedissem sem justa causa jovens até aos 26 anos nos primeiros 24 meses de trabalho. Esta medida era vista pelo chefe do Governo francês como um importante meio para fomentar de forma equilibrada e justa o emprego entre as camadas mais jovens, num país que nas zonas mais pobres regista taxas de desemprego na ordem dos 50 por cento nas faixas etárias mais jovens, enquanto a média nacional está acima dos 20 por cento.
Convicto de que estava perante uma boa lei, Villepin defendeu-a até onde pôde, assumindo que estava perante uma missão de modo a vergar as forças conservadoras da sociedade francesa, materializadas nos sindicados e associações estudantis. Mas, depois do CPE ter sido aprovado pelo parlamento, promulgado por Chirac, e validado pelo Conselho Constitucional, as “ruas” falaram mais alto e acabaram por impor a sua vontade. Com um ultimato em cima da mesa (que terminaria no próximo dia 17), de um lado, e a convicção de Villepin, do outro, Chirac foi obrigado a tomar o partido das “ruas”, tirando o apoio ao seu chefe de Governo, que foi obrigado a anunciar na segunda-feira a abrogação da lei do CPE. “Não estão reunidas, nem da parte dos jovens nem da parte das empresas, as condições de confiança e de serenidade necessárias para a entrada em vigor do Contrato de Primeiro Emprego”, disse Villepin. “(O CPE) Não foi entendido por todos, lamento isso”, acrescentou.
Chirac não resistiu assim ao poder das sondagens, acabando por se “render”, como referiu o “New York Times” em editorial, e abdicar de uma lei, que além de necessária, poderia ser muito importante para impulsionar um processo de reforma mais amplo no mercado de trabalho francês. Perdeu-se assim uma oportunidade para impor mudanças prementes na sociedade francesa, e mais uma vez o Presidente gaulês preferiu recuar e manter-se à tona das sondagens de popularidade do que seguir em frente com a legislação e sofrer as consequências que daí adviriam. “Como tem sido ao longo destes dez anos, o senhor Chirac parece estar mais preocupado com a sua popularidade – e não abalar o consenso precioso em torno da fobia reformista -, do que dizer algumas verdades aos seus concidadãos”, escrevia Jon Henley, em comentário num blogue associado ao “The Guardian”
A queda do CPE não só é um revés para a França como para a Europa, que se vê a braços com sinais negativos vindos de Paris. Numa altura em que os governantes europeus tentam encetar reformas nos mercados de trabalho (não sendo Portugal uma excepção) poderão emergir forças de bloqueio a esse processo, através dos sindicatos e organizações estudantis nacionais, agora moralizadas com a “vitória” que os seus correligionários franceses obtiveram nas ruas de Paris.
Além da humilhação política a que foi sujeito Dominique de Villepin, sendo obrigado a recuar na sua posição depois de ter dito que ia lutar até ao fim pelo CPE – por isso, por uma questão de coerência, deveria ter apresentado a sua demissão, segundo alguns analistas -, dificilmente conseguirá manter intacto o sonho presidencial para as eleições do próximo ano.
Villepin é o protegido de Chirac, no entanto, ao longo deste processo quem mais beneficiou com as atitudes do Presidente francês foi Nicolas Sarkozy, rival do chefe de Governo na corrida presidencial pelo campo da direita. O líder da União para um Movimento Popular (UMP) e ministro do Interior manteve-se relativamente afastado de toda esta polémica, optando por aparecer nos últimos dias como uma espécie de mediador entre o Governo e frente comum anti-CPE.
A sua estratégia parece ter dado resultado, visto que por agora a crise parece ter sido atenuada, tendo já ontem a câmara baixa da Assembleia Nacional aprovado uma nova lei laboral, na qual o Estado se compromete a ajudar financeiramente jovens que estejam desempregados e em situação precária, e por isso com maiores dificuldades em acederem ao mercado de trabalho. Esta lei será agora votada no Senado.

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